Resenha: O Quarto Poder (1997)

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O Quarto Poder

Por Roberto Saraiva
Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Um ex-segurança de museu retorna ao seu antigo local de trabalho para uma conversinha séria com sua ex-chefe. Nada de mais, não fosse o fato de que o sujeito, Sam Baily, interpretado por um gordo John Travolta, carrega na sacola uma espingarda e quilos de dinamite. Adicione à estória história um punhado de crianças de uma escola primária e um jornalista decadente sedento por prestígio e fama e a combinação começa a ficar interessante.

Foi o que fez o veterano diretor grego Costa-Gravas no filme “Quarto Poder” (Mad City). O papel do jornalista Max Brackett ficou a cargo de Dustin Hoffman, que já tinha passado pela experiência de interpretar um profissional da notícia em “Todos os Homens do Presidente”, de 1976.

Max já foi a grande estrela da emissora de televisão para a qual trabalha, mas caiu no ostracismo de uma filial interiorana por se recusar a dar, ao vivo, detalhes escatológicos sobre um acidente que cobriu. Depois de ser dispensado de uma cobertura sobre corrupção, o repórter sai para uma rápida e inofensiva matéria sobre a falta de verbas do museu da cidade.

Mas eis que o desempregado e perigoso Sam Bailey aparece e Brackett vira seu refém, juntamente com diversas crianças, uma funcionária e Mrs. Banks (Blythe Danner), a manda-chuva do lugar. O jornalista consegue, do banheiro, ligar para sua jovem e volúvel operadora de câmera e entra ao vivo, só com o som do telefone, dando conta do que está acontecendo no museu.

O sequestrador não é nada inteligente e, por desatenção, acaba ferindo gravemente o seu ex-companheiro de vigilância, que por sinal é negro. Numa brilhante cena, o repórter repreende a assistente por socorrer o homem ferido, em vez de filmar sua agonia. O circo está armado, o povo se aglomera na fachada, pais revoltados, pessoas acusando o antigo segurança de racismo.

Max passa a relatar a história com exclusividade, chegando, em muitos momentos, a guiar o rumo dos acontecimentos. Com trânsito livre, já não é mais um refém convencional e faz matérias trabalhando a boa imagem do bandido. Nem que para isso tenham que ser feitos alguns ajustes em determinadas falas. A atenção do país se volta para a pequena cidade, o repórter é de novo a grande estrela da emissora.

A partir daí, algo começa a mudar na cabeça do jornalista. Sua obsessão pelo sensacionalismo, pela história exagerada, começa a dar lugar a uma visão mais humanista do quadro. Max se compadece de Sam Bailey, trabalhador confuso e marginalizado pelo sistema que divide o mundo entre vencedores e perdedores. Faz uma entrevista exclusiva com o sequestrador, em troca de duas crianças, e logo pesquisas-relâmpago revelam um público simpático ao criminoso. Numa emocionante cena, o ex-segurança faz um apelo para que o deixem ir e esqueçam o assunto.

Mas nem todos passam por esse processo de redenção. Os cabeças da emissora bem que gostariam de um bom conflito, de preferência em horário nobre. O inescrupuloso repórter Kevin Hollander (Alvin Alda), rival de Max, é mandado à cidade, para que as coisas esquentem. O conflito já dura dias e as tevês fazem miséria com a reputação de Sam Bailey, chegando até a forjar alguns depoimentos. A popularidade do bandido cai por terra, dinamitada pelo moralismo politicamente correto dos americanos.

Nessa trama, apenas um personagem ainda não tinha sucumbido à tentação da fama e do prestígio: o sequestrador exige uma nova entrevista, que mostre seu lado bom para as pessoas. Pede para ouvirem sua família. Nem precisa, a foca assistente de Max faz as imagens e Kevin Hollander trata de mudar a angulação. Sam tem uma desastrosa conversa ao vivo em rede nacional com Larry King, que o confirma como lunático para a opinião pública.

O FBI já está no prédio ao lado ao museu, esperando, com pouca paciência, um motivo para agir. Afobado, arrisca até um fracassado atentado contra Bailey. As coisas se complicam ainda mais: o segurança negro morre no hospital, gerando um frenesi anti-racismo sustentado pela mídia. O golpe de misericórdia vem na forma de uma reportagem do astro Hollander, acusando o colega Max Brackett de pactuar com o sequestrador.

É a gota d’água e um ótimo exemplo de como a mídia cria movimentos na sociedade. O FBI cerca o lugar e dá um ultimato a Sam, que, acuado, solta todos os reféns e permanece trancado no museu. A explosão suicida confirma os temores de Max, que sai ferido. Ainda tem forças para balbuciar “Nós o Matamos!”, no microfone oferecido por sua assistente, agora promovida a repórter por cooperar com Hollander. Tudo isso televisionado em horário nobre, imagine.

Especialista em filmar grandes conspirações, Costa-Gravas assina a direção do premiado e polêmico “Amen”, que versa sobre o papel da Igreja nos eventos da 2ª Guerra Mundial. Em “Quarto Poder”, explora com precisão o trabalho de um tipo de jornalismo que resolveu trocar a objetividade por índices de audiência.

FICHA TÉCNICA
O Quarto Poder (Mad City)

Diretor: Costa-Gravas
Argumento: Tom Matthews e Eric Williams
Adaptação: Tom Matthews
Duração: 114 min
País: Estados Unidos
Idioma: Inglês
Cor: Colorido
Principais atores: Dustin Hoffman, John Travolta, Mia Kirshner, Alan Alda, Robert Prosky, Blythe Danner, Ted Levine

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5 comentários sobre “Resenha: O Quarto Poder (1997)

    carlos dimitris disse:
    23 de julho de 2010 às 23:23

    execepcional a materia Oo muito boa mesmo… :)

    thuane alves disse:
    11 de novembro de 2010 às 11:29

    meu filho vc escreve viu

    ronaldo disse:
    20 de dezembro de 2010 às 21:42

    Só tem uma coisa:
    “Adicione à estória um punhado …”
    Seria história…

      Rogério Christofoletti respondido:
      20 de dezembro de 2010 às 23:17

      Obrigado, Ronaldo.
      Já corrigimos por lá.
      abs e volte sempre.

    Bia disse:
    30 de maio de 2012 às 16:36

    Muito Boom !!!

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