Resenha: O Show de Truman (1998)

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O Show de Truman, o Show da Vida

Por Jéssica Camargo Geraldo
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

O Show de Truman (The Truman Show – EUA – 1998) é um retrato do alto grau de espetacularização em que vive a sociedade contemporânea. Dirigido por Peter Weir e com roteiro de Andrew Niccol, o filme conta a história de Truman Burbank (Jim Carrey), um pacato corretor de seguros, que vive, sem saber, um reality show permanente. As câmeras, e os olhos de milhões de telespectadores em todo o mundo, acompanham 24h por dia a vida de Truman, desde seu nascimento, na fictícia Ilha de Seahaven, o maior estúdio já construído. Seus familiares, esposa, amigos, colegas de trabalho e demais habitantes da cidade fazem parte de um elenco, comandado pela equipe de Christof (Ed Harris), o criador do show. São pequenos indícios que levam Truman a questionar a realidade harmônica e, de certa forma, perfeita, em que vive. O desenrolar do filme é a busca do personagem pela verdade sobre sua existência.

Apesar de não tratar especificamente de questões do Jornalismo, é possível, a partir do filme, refletir sobre mídia e sensacionalismo, temáticas relacionadas a essa área de conhecimento. Na abertura do show, Hannah Gill (Laura Linney), atriz que interpreta a esposa de Truman, Meryl, diz não acreditar numa distinção entre vida pública e privada. Essa afirmação diz muito sobre o interesse da audiência, no filme e fora dele, pela vida do outro. Interesse esse, que leva o programa de televisão a adotar o enjeitado bebê Truman e privá-lo de uma vida real, com experiências autônomas e vivências próprias, criando-o como um rato de laboratório, observado diuturnamente, sem direito à privacidade. Se fora da ficção a sociedade ainda não chegou a cometer tal excesso, ações quase tão grotescas quanto já foram praticadas em busca de maior ibope. Um exemplo pungente é a cobertura do sequestro da jovem Eloá (2008), com destaque para a entrevista feita por Sônia Abrão, apresentadora da Rede TV!, pelo telefone com Lindemberg Alves, enquanto ele ainda mantinha as jovens no cativeiro, interferindo de forma irresponsável na ação policial e, quiçá, acarretando o fim trágico do episódio.

Outra problemática trazida pelo filme, e que merece análise, é o extrapolar dos limites pela Publicidade. Dentro do show de Truman, diversos comerciais são exibidos “integrados” ao cotidiano dos habitantes de Seahaven, como o achocolatado escolhido pela esposa ou a cerveja preferida de Marlon (Noah Emmerich), melhor amigo de Truman. Todos os produtos consumidos na cidade, como roupas, alimentos e objetos, também estão à venda no Catálogo Truman, fazendo do show um grande canal de venda e de Truman, um garoto-propaganda ignorante de sua condição. Mas merchandising integrado não é algo que se restringe aos programas de entretenimento da ficção. No lado de cá, a prática é recorrente. Só em sua última edição, o Big Brother Brasil, por exemplo, faturou cerca de R$ 250 milhões com as 60 ações de merchandising promovidas.

Se o terreno do entretenimento já está plenamente dominado, a Publicidade vem buscando cada vez mais estender seus domínios em outra seara, o Jornalismo. O interesse, sem dúvida, está relacionado aos conceitos de credibilidade e verdade do Jornalismo, que, se agregados à divulgação, otimizam, e muito, esse processo. Alguns programas jornalísticos, geralmente de emissoras menores, fazem publicidade dentro de seu espaço, como, por exemplo, o esportivo Bola na Rede, da Rede TV; ou um exemplo local, o catarinense SBT Meio-dia. Essa imiscuidade com a Publicidade, em tempos de grande competitividade, é um dos dilemas éticos impostos aos jornalistas da contemporaneidade. Mas essa é a forma mais rasa de atuação da Publicidade no Jornalismo. Originalmente antagônicas e sem pontos de convergências, hoje, na Era da Imagem, é possível afirmar, que o fazer informação sofre uma influência irreversível da Publicidade. A forma passou a ser tão ou mais importante que o conteúdo. O fade in, fade out e o close up viraram estratégias de um jornalismo teatralizado, onde vale tudo pela melhor cena, e a própria realidade é questionável. Entrevistas forjadas, fotos montadas, manipuladas digitalmente… vale tudo para atrair o leitor, cada vez mais tratado como consumidor. Vivemos, cada dia mais, o show de Truman.

FICHA TÉCNICA

O Show de Truman, O Show da Vida (The Truman Show / EUA, 1998 – 103 minutos)
Gênero:
Drama
Direção:
Peter Weir
Roteiro:
Andrew Niccol
Elenco:
Jim Carrey, Laura Linney, Ed Harris, Noah Emmerich, Natascha McElhone e Paul Giamatti

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8 thoughts on “Resenha: O Show de Truman (1998)

    ctripblog said:
    22 de março de 2011 às 19:35

    Excelente articulo, saludos! estamos a la orden para:

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    Marina Queiroz said:
    4 de dezembro de 2011 às 22:11

    Parabéns pela resenha! Análise crítica muito boa!

    Thamiris Lima said:
    16 de dezembro de 2011 às 14:53

    Ótima resenha!
    Fiz um post no meu blog sobre o filme e deixei um link de redirecionamento para sua resenha, espero que não importe.
    Caso queira conferir, segue o link: http://minhavida-academica.blogspot.com/p/filmoteca.html

    maykelly said:
    23 de abril de 2012 às 15:28

    assisti o filme e achei interessante……

    jhe said:
    30 de maio de 2012 às 17:20

    otimo

    mtcalvimaria Tereza said:
    16 de julho de 2012 às 16:55

    Nada sobrevive sem publicidade. A coca cola é centenária e faz propaganda até hoje. Bilheteria de filme é como loteria. E os incentivos que existem já tem cartas marcadas. Precisa de patrocínio sim e para quase tudo. Cultural ou social. Não vejo mal algum em fazer publicidade nos filme. O único problemas são merchandise de mal gosto, fora do contexto. Dividir a tela dos créditos com publicidade é uma boa pedida. E dizer que o filme é de quem patrocinou também. Este é um filme da ….. “Boa Ideia”.

    Camila said:
    10 de agosto de 2012 às 19:59

    Gostei me ajudou mt

    Ozéias Teixeira da Rosa said:
    9 de março de 2013 às 18:35

    Parabéns pela resenha, amei. Boas críticas com bons argumentos, uma boa análise. Algo não muito comum na internet.

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