Comentário da semana: mas, afinal, como se narra a dor?

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Rogério Christofoletti
Docente na UFSC e pesquisador do objETHOS

Os tiros da manhã de quinta-feira na zona oeste do Rio de Janeiro sacudiram as atenções da maioria dos brasileiros. Como se estivéssemos em um sono profundo, fomos atirados da cama para perceber uma realidade assustadora e terrível. O resultado aterrador do massacre na escola de Realengo era algo que sempre imputamos aos norte-americanos, um povo tão beligerante que se arma até em supermercados. O resultado do massacre é uma fila de corpos de quem cultivava seu futuro ainda de forma muito adolescente. O resultado é o aparecimento de personagens como o atirador, movido por razões ainda desconhecidas, moldado pela solidão, frustração e pensamentos doentios.

Infelizmente, o país já havia visto adolescentes vitimados pela violência urbana. Desconhecido ainda era o anônimo que encarna o mal e dispara o gatilho não mais a esmo, mas escolhendo suas vítimas, alvejando órgãos vitais, recarregando reiteradamente as armas, disposto a acabar com tudo.

Os tiros da manhã de quinta-feira em Realengo chacoalharam também as redações brasileiras. Todas as pautas despencaram; equipes se rearticularam para dar conta de uma cobertura difícil, delicada, indigesta. Difícil porque os canos das armas ainda estavam fumegando quando os primeiros repórteres se precipitaram até o local do crime, e porque nem mesmo as autoridades que cuidavam do caso estavam suficientemente informadas do que estaria acontecendo. Uma cobertura como essas é delicada porque envolve grandes cargas de emoção, porque é fácil deixar-se contagiar por essas emoções e relegar a informação a segundo plano. E tal cobertura é indigesta porque ninguém com alguma sensibilidade humana se satisfaz em cumprir um serviço como este.

É claro que não poderia ser de outra forma. O fato invadiu a rotina das pessoas pela tela da TV, pelos quilômetros de páginas de jornais e revistas, pelo rádio e internet. Tornou-se rapidamente o assunto mais comentado, o principal nas rodas de conversa, no ponto de ônibus, nas salas de aula.

A onipresença do fato nos meios de comunicação dá a ele uma dimensão maior ainda. Então, não é possível escapar de alguns questionamentos: Não está exagerada essa cobertura? É possível fazer algo menos dramático e emocional? Como se faz isso? Ao abordar parentes e vítimas, como repórteres devem se comportar em momentos tão delicados? Os rostos das crianças sobreviventes devem ser mostrados, contrariando os muitos cuidados que recomenda o Estatuto da Criança e do Adolescente? Voltar à cena do crime para apresentar o telejornal ao vivo não é fazer sensacionalismo? Produzir videoclipes com fotos das vítimas com um fundo musical melancólico não é demasiado? Chegar às bancas com uma capa de jornal que mostra asas de anjo em fundo negro não transcende as fronteiras do que é essencialmente informativo? É possível que os profissionais de imprensa se blindem emocionalmente para narrar esses fatos? E é esperado que isso aconteça? Em nome do que se faria isso? Afinal, como é que se reporta a dor dos outros na mídia?

As dúvidas são muitas, mas elas interessam inicialmente a quem está atrás dos microfones. Àqueles que tentam amenizar a ausência de um filho ou se perguntam o porque de tudo aquilo, a esses restam indagações sobre o sentido da própria continuidade da vida.

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Um comentário sobre “Comentário da semana: mas, afinal, como se narra a dor?

    afinal, como se narra a dor? « monitorando disse:
    11 de abril de 2011 às 9:35

    [...] (Trecho do Comentário da Semana, que assino hoje no objETHOS. Na íntegra, aqui) [...]

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