Comentário objETHOS: Os “rebeldes” e o futuro da Líbia

Postado em Updated on

Samuel Lima
Docente da UnB, professor-visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

Os recentes acontecimentos que parecem configurar o ocaso do regime de Muammar Kadafi, eterno presidente da Líbia, foram apresentados ao distinto público do Jornal Nacional (Globo) e Jornal da Band (Bandeirantes) sob diferentes perspectivas, não obstante um ponto em comum. Trata-se do ator esotérico chamado “rebeldes”, incensado pela mídia como novo protagonista da “Primavera Árabe”.

Para fins de breve comparação, vamos nos concentrar nas edições entre os dias 24 e 26 de agosto, que contemplam a cobertura da suposta tomada de Trípoli, capital daquele país. De saída, os enunciados difusos de ambas emissoras, na busca da simplificação da narrativa escorregaram no fosso da desinformação quase absoluta, produzindo uma cobertura sem contexto, sem história.

Afinal: quem são os “rebeldes”? Quantas tribos compõem essa categoria? O que pensam da democracia, dos direitos humanos, das convenções internacionais – com a de Genebra, por exemplo? As reportagens, das duas emissoras, deixaram essas questões sem respostas. No geral, os repórteres da Globo e Band escreveram, respectivamente:

Os combates continuam também no sul e no centro da capital. A rota que desemboca no aeroporto também está cheia de atiradores. Apesar dos bolsões de resistência, os rebeldes afirmaram que já dominam 95% de Trípoli. (JN, edição de 24/08/11)

Rebeldes vasculham cada canto de Trípoli na busca pelo ditador Muammar Kadafi. Seja lá onde estiver, o coronel divulgou mais uma gravação contra seus adversários (Jornal da Band, edição de 25/08)

Como um raio num céu azul, um Conselho Nacional de Transição (CNT) foi composto e imediatamente legitimado pelos dois países que comandam as forças da OTAN na Líbia: França e Inglaterra. Ambos têm negócios em petróleo e outras riquezas minerais, e devem tomar conta das obras de reconstrução do país, fonte de imensos lucros que podem amenizar a situação econômica dos ingleses e franceses.

Depois de muito procurar, finalmente o telespectador pode encontrar algumas informações dispersas sobre os futuros governantes daquela milenar sociedade. Vejamos o que dizem o JN e a Band:

As pessoas têm um otimismo muito grande para o futuro do país. Mas o problema, como sempre, são os detalhes: quem vai governar, quem vai mandar. Existem 140 tribos: 30 que são realmente influentes e 10 que decidem. E são três grupos militares: o de Benghazi, onde tudo começou, em fevereiro, o de Misrata, única cidade que lutou seis meses contra as tropas de Kadafi, e o grupo das Montanhas de Nefusa, que foi o primeiro em Trípoli. Todo mundo quer uma fatia do bolo e, nesta sexta, um dos comandantes rebeldes disse: “Vamos nos manter unidos para não brigar”. Mas é claro que, na hora de dividir o poder, a briga acontece. (JN, edição de 25/08).

A Líbia é historicamente marcada pela divisão entre grupos tribais. Embora eles tenham se unido contra o ditador, isso não significa que continuarão do mesmo lado daqui para a frente. Com as armas que já estavam nas mãos da população e outras saqueadas do quartel-general de Kadafi, o temor é de uma nova guerra civil. Outro cenário apontado por especialistas, em caso de indefinição política, é a divisão da Líbia nas três províncias que formam o país: Tripolitania, Cineraica e Fazzan. As regiões são separadas pelo deserto o que força o isolamento de suas populações. (JB, edição de 24/08).

O cenário de guerra civil, como a que sucedeu a invasão do Iraque, em 2003, sequer chegou a ser cogitado nos textos editorializados do Jornal Nacional. O principal telejornal do país preferiu apostar no espetáculo, colocando seu correspondente na região, o repórter Marcos Uchôa, como soldado no front, recebendo “bronca ao vivo” de seu editor-chefe, William Bonner, por não estar usando o “capacete”. O máximo que a cobertura do JN admitiu, na direção de uma possível divisão dos “rebeldes”, foi expresso por Uchôa como questão de fé:

Nas ruas em geral se vê muita alegria e orgulho. Os rebeldes desfilam com armas e bandeiras, e se nota que na prática a cidade está praticamente toda dominada por eles. Nos postos de controle, é uma garotada que, embora armada, tem maturidade. Um jovem falou que não quer andar com armas, que não quer viver em uma sociedade assim, e que, assim que a guerra acabar vai jogar todas elas fora.

Num dia incerto e não sabido, quando for decretado o final da “guerra”, todos os rebeldes entregarão candidamente suas armas às forças da ONU ou talvez nos escritórios do ente político criado pelos insurgentes: o Conselho Nacional de Transição. Você acredita nisso?

O movimento, conhecido como “Primavera Árabe”, já apeou do poder ditadores que há décadas subjugavam suas sociedades, em geral apoiados explícita ou implicitamente pelas principais potenciais militares ocidentais, liderados pelos EUA. Começou com a Tunísia, no final de 2010, passou pelas ruas do Cairo, no Egito, no começo de 2011 e agora chega aos domínios de Kadafi. O próximo alvo parece ser a Síria, governada há mais de 40 anos pela família do atual presidente Bashar al-Assad. Há intensas mobilizações nos demais países do Norte da África e Oriente Médio: Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Síria, Omã e Iêmen. E protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental. Todos esses movimentos usaram o suporte das mídias sociais como Facebook, Twitter e Youtube para mobilizar a população e falar com a comunidade internacional.

A superficialidade da cobertura desse fato histórico é algo espantoso, paradoxal à condição ímpar de transmissão de sons, imagens, textos. Restam as palavras de um arguto observador da cena árabe, o jornalista Robert Fisk (do The Independent, de Londres):

A natureza imprevisível da guerra na Líbia implica que as palavras raramente sobrevivam ao momento em que são escritas. Talvez Kadafi esteja escondido em um túnel debaixo do hotel Rixos ou esteja relaxando em uma das casas de campo de Robert Mugabe. Duvido. Enquanto isso, a ninguém ocorre travar a guerra anterior a esta.

Os fatos foram noticiados, pelos dois telejornais, mas revendo imagens e passagens, fica a nítida sensação de estarmos diante do fenômeno descrito pelo jornalista Leão Serva como “desinformação informada”: “Embora o leitor tenha tido acesso às informações, não consegue compreender claramente o fato”. A ver os desdobramentos na Líbia e demais países da região.

 

 

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