Ponto de Vista: Em situação de guerra, cobrir o fato ou salvar uma vida?

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Carolina Dantas
Acadêmica de Jornalismo na UFSC e bolsista no objETHOS

Grandes fotógrafos sonham em gravar conflitos. No filme “Cidade de Deus”, o diretor Fernando Meirelles tem cuidado em retratar o personagem “Buscapé” (Alexandre Rodrigues). O jovem almeja trabalhar no jornal como fotógrafo, e no fim da trama encontra sua oportunidade, a imagem de sua carreira. Vê-se entre a guerra do traficante e da polícia do Rio de Janeiro. A cobertura é certeira e ele edita a fotografia que prova a morte de “Zé Pequeno”, temido matador da comunidade: um retrato do personagem ao chão, coberto de sangue.

Robert Capa, famoso entre outros fotojornalistas, como Robert Doisneau, Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado e Evandro Teixeira, tinha uma preferência: captar a guerra. Sua imagem mais célebre é a da morte de um soldado republicano. Mais recentemente, em 2006, um curta-metragem ganhou espaço entre as redes sociais. “One hundredth of a second” (Um centésimo de segundo) mostra o dilema da personagem Kate (Emma Cleasby) em uma cobertura de conflito, como uma das preferidas de Capa.

A fotojornalista avista a foto que retrataria o conflito em meio ao fogo armado da Guerra dos Balcãs. Uma criança está prestes a receber um tiro de um homem armado. A reação de Kate não é instantânea e quem assiste não sabe qual é sua decisão: a fotógrafa deve fazer a foto ou interferir e talvez salvar a vida da garotinha? Kate escolhe fotografar.

Há cinco anos, quando o vídeo foi lançado, as opiniões divergiram. Críticas severas à paixão exagerada dos jornalistas pela informação, pela falta de interesse na discussão entre a imprensa e na falsa prioridade em pensar no que é ético para a profissão. Além disso, foram abertos os pontos que poderiam salvar a vida da criança e, inclusive a morte, já que a identidade dela seria exposta posteriormente sem autorização. O argumento confere com o Art 7º do código de ética aprovado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj):

Art. 7º O jornalista não pode:

IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;

V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;

O princípio básico de retratar a verdade foi garantido por Kate, mesmo expondo a criança. Robert Capa preferia fotografar a violência e sobrepor à regra de proteger a imagem do personagem em destaque. Capa nunca escreveu uma teoria para justificar sua atitude. Porém, é pensável que não existe como um jornalista lutar contra uma situação como a Guerra dos Balcãs. Existe uma vertente desse embate que defende a omissão do jornalista em um caso como o de Kate, em uma grande batalha, já que muitas outras pessoas estão em risco. De maneira mais simples: o repórter não tem como salvar toda uma guerra. A obrigação do jornalista é divulgar a informação, ele não é juiz, nem policial. O papel de defensor público pertence à outra parte da sociedade.

Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.

De qualquer forma, compete à sociedade em geral defender a vida. Em casos particulares, como em um especial em que realmente é possível salvar uma vida, é necessária a intervenção. Por exemplo: se a criança estiver sozinha, longe de uma situação de guerra, prestes a se matar.

O começo do curta-metragem é o final da história da fotógrafa. Kate está em frente ao espelho, com a consciência pesada por não ter salvado a garota. Ao receber o prêmio pela fotografia, sai da cerimônia e não vai ao palco. Dilemas éticos e jornalísticos a parte, o curta expressa como dever pessoal de Kate proteger a criança.

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One thought on “Ponto de Vista: Em situação de guerra, cobrir o fato ou salvar uma vida?

    Michel Téo Sin said:
    1 de setembro de 2011 às 13:53

    Lembrei do caso do fotógrafo Kevin Carter. A menina que ele fotografou sobreviveu e ele se matou pois não aguentou o peso na conciência.

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