Comentário da semana: a boca torta do monopólio

Postado em Updated on

Samuel Lima
Docente na FAC/UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

Pouco antes do começo oficial dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, no México, alguns observadores de mídia já antecipavam uma tendência: a maior rede de televisão brasileira iria ignorar “olimpicamente” a 16ª edição desse evento, que começou em 1951, e cuja relevância jornalística é inconteste. O pesquisador Rogério Christofoletti escreveu: “No caso das Organizações Globo, ignorar a efeméride é simplesmente deixar de lado seus recém-anunciados Princípios Editoriais”.

Os direitos exclusivos de transmissão do Pan foram adquiridos pela Rede Record, que vitaminou seus índices de audiência, adequando sua grade fixa aos destaques esportivos do evento, como foi o caso da final do vôlei feminino, vencida pela seleção brasileira em jogo de altíssimo nível contra Cuba. O começo da cobertura reservou o único momento de pugilato entre as duas redes.

A Record acusou: “Rede Globo usa imagens dos Jogos Pan-Americanos sem autorização”. A concorrente se limitou a admitir em nota o problema (utilização das imagens nos programas dominicais) e creditou a responsabilidade à agência Associated Press (AP), que supostamente lhe cedera as imagens. Um mês antes da competição, a emissora colocara à disposição das demais redes brasileiras as imagens do Pan, desde que suas concorrentes exibissem sua logomarca e o texto “imagens cedidas pela Rede Record”.

Com efeito, analisando vis-à-vis a grade do Jornal Nacional (JN), na semana de 17 a 21 de outubro, o Pan virou uma “nota pelada” nas telas da Globo e teve como recurso máximo um infográfico, cujas informações foram creditadas ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Cada nota lida pelos apresentadores durou 34,8 segundo em média (menor tempo foi 30s, na segunda; o maior destaque durou 41s, na edição de sexta, 21).

A Record mobilizou uma equipe de talentosos jornalistas, mas à primeira análise, parece faltar uma certa dose de improvisação da cobertura, em detalhes que fazem a diferença. O padrão técnico não deixa a desejar, tampouco seu time de repórteres. Essa aparente falta de planejamento transparece nas passagens ao vivo, na dificuldade de equalizar o tempo de áudio dos diversos pontos (no México, transição para o Brasil etc.). Mas, há um mérito de fundo a ser melhor discutido e avaliado: a quebra do monopólio global.

O jornalista José Roberto Torero indagara, profético: “Será interessante ver como a Globo se portará em relação ao noticiário da competição. Terá total ética jornalística e dará destaque justo às vitórias brasileiras, correndo o risco de alavancar a audiência da concorrente? Ou mal tocará no assunto (como no tempo das Diretas Já), deixando que o fator comercial fale mais alto que o senso jornalístico? É uma decisão difícil”.

A julgar pela primeira semana do Pan, a Globo indicou com absoluta clareza o caminho adotado. A ver, os eventuais impactos sobre o futuro da indústria da mídia televisiva no caso de grandes eventos esportivos. A atitude da Globo, refletida de forma equânime em todos os seus canais, eletrônicos (sinal aberto e a cabo) e no portal G1 está descolada dos seus princípios editoriais e do direito de informação do distinto público, como observara Christofoletti. Neste caso, o hábito do monopólio parece ter gerado um estranho vício de cobertura.

Pan no JN na semana

17, segunda: duração de 30 segundos

18, terça: duração de 32 segundos

19, quarta: duração de 36 segundos

20, quinta: duração de 35 segundos

21, sexta: duração de 41 segundos

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