Arquivos da Categoria: Dilemas e deslizes
Comentário objETHOS: Aos acusados, o ônus da prova…
Samuel Lima
Docente da UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador objETHOS
Motivado pela publicação de duas reportagens na Folha de S. Paulo, contestadas pelas fontes e igualmente por Susana Singer (ombudsman, na coluna: http://migre.me/c5Xo2), pensava em discutir sobre a distância que pode separar o trabalho da reportagem e a edição, em sua forma final (títulos, olhos, legendas, linhas finas e outros elementos gráficos e visuais), na mídia impressa.
Contudo, confesso que fui atropelado por outra matéria publicada no diário paulista e mudei o rumo da prosa. A reportagem, intitulada “Relação com Lula explica influência de ex-assessora” é um primor do que se poderia chamar de irresponsabilidade social da mídia. Num texto de exatos 4.169 caracteres (com espaços), o autoconsiderado “maior jornal impresso do país” ignora o princípio democrático da presunção da inocência e publica uma página (com chamada de capa – “Poder de assessora vem de relação íntima com Lula”, edição de 1º/12/12) digna das melhores revistas de fofocas. Faltam rigor, fundamento, provas da tal “relação”, enfim um exemplo de mau jornalismo.
O texto (Editoria Poder, p. A5) evidencia ter passado por rigorosa revisão. Juridicamente prevenido, em nenhum momento qualifica de “amorosa” a suposta relação íntima do ex-presidente Lula com Rosemary Noronha (ex-funcionária do escritório da Presidência da República, em São Paulo e pivô da “Operação Porto Seguro”). Contudo, insinua do lide à última linha que essa pode ter sido a fonte do suposto poder da assessora:
A influência exercida pela ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, no governo federal, revelada em e-mails interceptados pela operação Porto Seguro, decorre da longa relação de intimidade que ela manteve com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Rose e Lula conheceram-se em 1993. Egressa do sindicato dos bancários, ela se aproximou do petista como uma simples fã. O relacionamento dos dois começou ali, a um ano da corrida presidencial de 1994. (http://migre.me/cdls3). [Grifos meus]
A reportagem não explica, tampouco informa que tipo de relacionamento Lula e sua ex-assessora mantinham, desde 1993. Deixa sempre nas entrelinhas a suspeita, no jogo sórdido de um texto editado com lupa. Nem sua atual companheira é poupada: “Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido” (cit.). A exposição política da vida íntima se justificaria, como previsto nos bons manuais de Jornalismo, se fosse elo efetivo de um assunto relevante, de inconteste interesse público. Não parece ser o caso. Apenas as revistas Veja e Época, que misturam jornalismo com publicismo com viés nitidamente reacionário, compraram a ideia.
Aguardei a coluna de Susana Singer, na edição do dia seguinte (domingo, 02/12). Sob o título “Íntimo e pessoal”, a jornalista procura justificar, de todas as formas possíveis, a escolha editorial da Folha. Singer faz uma interpretação inusitada da “reportagem” e revela aquilo que não está escrito, por zelo jurídico ou alguma nesga de pudor jornalístico. Observem a sua leitura da matéria:
Sem usar a palavra “amante”, o jornal conta que, nas 23 viagens internacionais em que Rosemary acompanhou Lula, a então primeira-dama Marisa Letícia nunca estava. Segundo a reportagem, havia um esquema especial que permitia o acesso à suíte presidencial nessas escapadas. [Grifos meus]
No entanto, a ombudsman que deveria ser a defensora dos direitos dos leitores, vai além. Depois de tentar confundir, com a tese de que “o jornalismo brasileiro costuma preservar a intimidade de seus políticos” (ela esqueceu o “Caso Miriam Cordeiro”, ex-mulher de Lula, nas eleições de 1989 – que o acusou de tê-la pressionado a fazer aborto), Singer enfim apresenta uma saída ao mau jornalismo praticado pela Folha. E escreve, na boa:
Se o ex-presidente tiver incensado Rosemary por causa de um romance, isso teve consequências políticas. (…) Só que o trabalho não terminou. Foi relevante mostrar ao leitor de onde emanava o poder de Rosemary, mas, a partir de agora, detalhes de alcova, por mais tentadores, não interessam. O importante é investigar se o ex-presidente esteve envolvido no suposto esquema criado pela sua então assessora. (http://migre.me/cdmiK). [Grifos meus]
Investigar se o ex-presidente Lula está envolvido num suposto esquema de tráfico de influência e corrupção é de altíssimo interesse público e inconteste relevância. Mas, percebam que há um “SE” na abertura dessa passagem final da coluna de Singer que delata o espírito do jogo antidemocrático do tipo “se colar, colou”. Uma reportagem que acusa um ex-presidente da República de ser partícipe num esquema de corrupção, de quebra atribuindo-lhe um relacionamento amoroso, deveria se cercar de informações, cuidados, provas irrefutáveis – e não se amparar em fontes como “integrantes do corpo diplomático” e “oficiais da Aeronáutica, ouvidos no anonimato” – que não sustentam a história do suposto romance.
Leão Serva (in “Jornalismo e desinformação”) entende edição como “a organização das informações conforme as regras do meio e do veículo específico e conforme a lógica do grupo incumbido do trabalho de editar, a compreensão que ele tem dos fatos e o que supõe ser o interesse e a capacidade de entendimento de seu receptor”. No caso em tela, parece claríssima a intenção do Grupo Folha de impor um desgaste político adicional a um dos mais populares presidentes da curtíssima história democrática do país.
Por outro lado, o pesquisador Fernando Paulino (UnB), propõe, resgatando um conceito de Claude-Jean Bertrand (Media Accountability Systems ou MARS) “que a atuação do ombudsman possa se constituir como um MARS, estimulando as instituições de comunicação a serem mais rigorosas com a produção e a divulgação da informação” (in “Vitrine vidraça”, organizado por Rogério Christofoletti). Susana Singer, neste caso, atuou como “advogada” do seu jornal, distanciando-se do leitor e do interesse público.
Enfim, voltando à reportagem do suposto romance entre Lula e sua ex-assessora, nenhuma fonte fundamental confirma a história; nenhum dos envolvidos diretamente foi ouvido (Lula, Maria Letícia, sua esposa, e a própria Rosemary Noronha). Mesmo assim, o jornal publica a matéria, com chamada de capa. O que explica essa decisão? Mau jornalismo pura e simplesmente? Protagonismo político antidemocrático? Leia e tire suas conclusões… Mas adianto: o texto poderia ser publicado, sem cortes, numa edição especial das revistas que se prestam às fofocas sobre a vida de celebridades.
Comentário objETHOS: Quando é preciso ser parcial
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
A semana que passou trouxe alarme social e uma coleção de manchetes inédita e inesquecível para os catarinenses. Por conta da sucessão de ataques de criminosos, a população de dezesseis cidades se sentiu como se vivesse em grandes centros metropolitanos, muitas vezes mergulhados na insegurança pública. Entre a segunda-feira, 12 de novembro, e o domingo, 18, bases policiais foram alvejadas, ônibus e veículos particulares foram queimados, totalizando 58 ações. A concentração dos atentados em poucos dias e sua visibilidade foram tantas que as ocorrências no interior de São Paulo e na própria capital paulista chegaram a ser ofuscadas no noticiário nacional. O episódio mostrou a fragilidade da população em ações coordenadas do crime, mas revelou também um lado do Estado que não se quer acreditar e outro da imprensa que os jornalistas teimam em esquecer.
Os dias dos atentados em Santa Catarina tornaram mais nítido para todos que governo, população e imprensa não estão exatamente do mesmo lado. Nos primeiros dois dias de ataques, o Estado insistiu em minimizar as ocorrências, um comportamento-padrão repetido em outras geografias. A estratégia está apoiada na ideia não totalmente comprovada de que não se deve dar créditos ao inimigo, sob pena de fortalecer seus atos. O chefe da polícia desdenha das ações, o governador não aparece para dar satisfações, e assim, o Estado espera mandar um recado para a população de que tudo está sob controle. Nos corredores palacianos, de forma subterrânea, o que se vê é a correria, a tomada de decisões intempestivas, a busca de compreensão do que está acontecendo e a tentativa de antecipação dos movimentos do oponente. Seja por questões estratégicas – para não revelar o que está fazendo -, seja por despreparo – para não revelar o que não fez -, o Estado deixa o cidadão comum sem a devida informação. A ironia é que o Estado existe para servir o cidadão, atendê-lo em suas necessidades, protegê-lo.
Tom conciliador
Entre o governo e a população, quem poderia construir pontes de compreensão é o jornalismo. Os meios de comunicação atuariam para desvelar o lado oculto dos ataques, para contrapor as diversas versões dos fatos e para, acima de tudo, tornar o cidadão mais bem informado sobre o que está ocorrendo. Enquanto o Estado se orienta pela busca da ordem – muitas vezes, revestindo seus atos com opacidade -, o jornalismo deveria se guiar pela clareza, pela nitidez dos acontecimentos.
Entretanto, parece vigorar nas redações um raciocínio de que, em tempos de crise, é preciso dar uma trégua ao Estado para que a ordem seja restabelecida. É assim em desastres naturais, em que a mídia tenta atuar como um braço da Defesa Civil, prestando serviços que seriam uma extensão do Estado. Pelo que se viu, isso também acontece diante de ataques coordenados do crime organizado, quando sobressaem os desserviços. Tão surpresas quanto o cidadão, as redações externam nas manchetes algum despreparo para cobrir o assunto e muito de senso comum. As primeiras páginas gritam com o público, chacoalhando o leitor. Histeria, alarme social e medo coletivo são os espíritos dessas páginas, enquanto a informação vital – aquela que ajuda o leitor a tomar decisão, aquela que o ajuda a compreender o cenário complexo, aquela que permite que ele se proteja -, essa informação vital fica subsumida. Os dilemas se instalam nas mesas de editores: Como dar a notícia na dimensão precisa sem apelar para o sensacionalismo? Se o conjunto de ações é inédito, se sua intensidade é única, como não ressaltar isso nas matérias? Como buscar equilíbrio na cobertura quando a ordem social e a segurança pública se traduzem apenas como expressões nas bocas dos políticos e não nas ruas ou bairros?
O noticiário dos jornais de Santa Catarina oscilou na semana em questão. O Diário Catarinense tentou se conter: Escolta e ataques (15/11); “Deixa eu sair” (16/11); Varredura nos presídios começa por Santa Catarina (17/11); Porque o terror atacou (18/11).
O Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, mostrou-se distante: Facção criminosa recruta devedores (16/11); O pior presídio (17/11); Presos deram ordem para reduzir ataques (18/11).
Notícias do Dia, oscilou quase de de forma errante: Prisões, mortes e novos atentados (16/11, edição de Florianópolis); Atentados em SC – Mais ataques (16/11, edição de Joinville); “O pior já passou”, diz o governo (Joinville, 17 e 18/11); Segurança em alerta (Florianópolis, 19/11); Cai ritmo dos ataques no Estado (Joinville, 19/11).
A Notícia, o segundo maior jornal catarinense, só despertou quando a onda chegou perto da sede, em Joinville: Estado em alerta: Ataques chegam ao norte (18/11).
Deliberadamente mais impactante, a Hora de Santa Catarina intensificou a sensação geral de insegurança com seis manchetes: Noite de ataques (12/11); A que ponto chegamos (13/11); Isso, sim, é o fim do mundo (14/11); Quatro noites de terrorismo (16/11); Medo coletivo (17/11); Escoltas até quarta-feira (19/11).
Curiosamente, o diário que mais traduziu o sentimento geral da população é o que adota estética mais chamativa, linguagem direta e cobertura superficial. Mas também o que não assumiu o discurso tranquilizador insistido pelas autoridades, destoando dos demais, mesmo que cometendo alguns exageros.
Parcialidade sim!
A onda de ataques do crime organizado trouxe (mais uma vez) à tona que as redações podem padecer de uma certa miopia sobre o seu papel na sociedade. Embora o Estado tenha, constitucionalmente, o dever de proteger o cidadão, não são raras as vezes em que deixa o contribuinte sem informação ou sem serviços básicos. Nessas ocasiões, prevalecem as razões de Estado que podem colidir com o interesse público: para manter uma ordem aparente, as autoridades negam a realidade e ocultam informações importantes, alimentando a sensação de incerteza geral. De forma inaceitável, o Estado “protege” o cidadão da informação que não lhe poderia ser sonegada.
O jornalismo não tem que estar ao lado do Estado, mas sim da população. Nem sempre são coincidentes as posições do governo e do cidadão, pelo que se pode ver. Na guerra das versões, o sujeito das ruas fica sem amparo, sem saber, seja porque o Estado lhe nega, seja porque os jornalistas não lhe fornecem.
Num cenário de crise de confiança e de solvência, o jornalismo – cada vez mais! – precisa ficar ao lado da população, quando ela assiste bestializada à sucessão de ataques, da qual é a vítima mais evidente. Embora os ataques tenham sido contra algumas bases policiais, é o cidadão que mais sofre nessas ocasiões, pois é ele quem sai às pressas do ônibus prestes a ser incendiado; é ele quem se sente acuado pelo crime, pois não tem armas ou instrumentos de inteligência para reagir eventualmente. O Estado deve ser indagado pelos jornais; os repórteres não podem fazer as vezes de meros porta-vozes do governador para acalmar o cidadão; as redações devem buscar formas próprias de extrair as informações que o público espera e necessita; a polícia e os demais aparatos estatais não podem ser os únicos lados da história, e os detentores das versões mais privilegiadas. Isto é, o jornalismo precisa deixar de lado o pudor de ser parcial nessas ocasiões, e tomar o partido da população, mesmo que isso implique em contrariar os interesses de um governo ou de outro.
O descalabro dos presídios, as condições precárias em que vivem os policiais, a incapacidade do Estado de garantir a segurança de todos, o torpor e a própria desinformação governamental sobre os movimentos do crime organizado, tudo isso deve estar na pauta jornalística. Mas tão importante quanto ela é a clareza com que repórteres e editores devem ter sobre o papel a ser assumido nessa história toda: o jornalismo tem lado, e esse lado é o do público, não o das autoridades, dos conglomerados econômicos ou dos núcleos de poder. Fortalecer os laços da confiança que a população deposita sobre a mídia é essencial para um novo cenário comunicacional. Não só para “salvar” os veículos de informação, mas para fazer valer sua finalidade pública e sua justificativa social.
Comentário objETHOS: É a ética, estúpido!
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
O Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP) promoveu em outubro um ciclo de seminários sobre as mudanças no mundo do trabalho dos jornalistas. Em três noites, o grupo liderado pela professora Roseli Fígaro reuniu convidados para discutir tendências e estudos que tentam perfilar uma categoria que, inacreditavelmente, pouco se conhece. Nem a indústria, a academia ou os sindicatos sabem ao certo quantos são, como são e o que pensam os jornalistas. Uma ampla pesquisa está em curso para determinar os contornos desse perfil, o que pode ajudar muito na compreensão dos rumos da categoria e de que forma está sentindo as transformações no campo. Um dos debatedores do evento na ECA foi justamente o professor Jacques Mick, coordenador do estudo que tem patrocínio da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e apoio da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor).
Enquanto os resultados não são totalizados, é preciso atentar para as referências disponíveis. Durante o ciclo, a professora Roseli Fígaro apresentou os resultados da pesquisa “O Perfil do jornalista e os discursos sobre o jornalismo: um estudo das mudanças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo”, realizada entre 2009 e 2012 e concentrada no maior mercado profissional do país. O estudo se valeu de questionários, entrevistas em profundidade e grupos focais, trabalhando com três grupos de participantes distintos, extraídos da base de dados do sindicato local, de uma representativa empresa de mídia nacional, de redes sociais e de free-lancers. Para além dos aspectos quantitativos e do esforço do grupo em sistematizar os dados dispersos, o que me chamou a atenção foram algumas das falas de jornalistas colhidas nos grupos focais. Esses depoimentos lançam luzes para algo que considero bastante preocupante entre os jornalistas: um afrouxamento do ethos profissional, uma flexibilidade nos valores que pode sim comprometer não só as condutas pessoais mas fragilizar o jornalismo como prática social. Reproduzo algumas dessas falas:
“Hoje a maioria dos repórteres faz… A maioria não, mas a grande parte faz algum trabalho de publicidade, tipo, de gerar conteúdo para publicidade, que é um saco, uma merda, mas estão pagando muito melhor que jornalismo, então essas coisas valem a pena fazer como frila.”
“Um menino, de 20 e poucos anos, é exatamente esse produto que colocam no mercado. Um menino que foge da discussão crítica da ética, do jornalismo, porque não tem… Ele saiu da escola, ele não teve essa formação, pode até ter tido uma noção, mas vai pro mercado e entra numa neurose de patrão que não tem…”
“…vai cair naquela velha discussão sobre se o jornalista precisa ou não do diploma. Eu acho, por exemplo, que um médico é muito mais hábil [para] escrever uma matéria sobre medicina do que eu. Eu acho, que às vezes um político é muito mais competente para escrever sobre política do que eu, porque se eu tiver que escrever uma matéria sobre política eu vou ter que varar uma semana para estudar política, e eu não sei nem o que é o PMDB o PSDB, para mim muda uma muda e olhe lá, e para por aí para mim sobre política… Então, se você falar pra mim “você quer fazer uma matéria sobre política ou eu posso dar para o Maluf escrever?”, meu, passa para o Maluf”.
O primeiro trecho aponta para a naturalização de uma prática que é, historicamente, avessa ao jornalismo. Os principais manuais, os cânones, os valores de base da profissão se apoiam no modelo Igreja-Estado, que insiste em separar com nitidez os departamentos editorial e comercial de uma empresa jornalística. Preventiva, essa distância auxiliaria os jornalistas a não ficarem atrelados aos compromissos comerciais da empresa para a qual trabalham, criando condições de uma independência maior no trato das notícias. Marcadamente generalizante, o depoimento espalha para um universo grande (e desconhecido) uma prática que contraria as funções do jornalismo. O perigo aponta para o tempo presente.
O segundo trecho citado manifesta uma crítica às novas gerações de jornalistas que chegam ao mercado despreparadas não tecnicamente, mas na dimensão deontológica. Para o participante da pesquisa, as escolas de jornalismo não têm conseguido formar profissionais críticos e éticos, mas sim despejado no mercado de trabalho pessoas adestradas, temerosas e complacentes com eventuais intromissões dos seus superiores hierárquicos. Intervenções, inclusive, que poderiam vir na contramão dos interesses que devem orientar o jornalismo e suas práticas. Agora, o perigo também aponta para o futuro.
A terceira fala evidencia um flagrante descolamento do personagem com aquilo que lhe caberia profissionalmente fazer. Pode-se perceber um grande estranhamento entre a conduta jornalística e a prática cotidiana, como se o repórter não mais sentisse “pertencimento” sobre parte do seu trabalho, como se aquilo lhe escapasse. Estaria por trás desse desligamento a sensação de que não se é capaz ou competente para executar a tarefa. Não estaríamos preparados para fazê-lo, e diante disso, melhor abrir mão também de um dever profissional…
Como antecipei, as falas são preocupantes pois externam sentimentos e entendimentos que fragilizam o ethos jornalístico. A sensação de incapacidade técnica, a formação precária ou insuficiente, a confusão valorativa e um certo afrouxamento ético contribuem para um terreno fértil para a negligência profissional e a debilidade deontológica. Um cenário que tende a neutralizar preocupações sobre a conduta de repórteres e e editores, permitindo um desvio perigoso das funções públicas a que o jornalismo se consagrou. Interesse público, diversidade de versões, não-parcialidade, fidelidade aos fatos e outros valores ficam em segundo plano, colocando em risco não só uma profissão e uma categoria, mas principalmente as relações que as atam às demandas da sociedade. Sem justificativa social, sem papel público, o que pode sustentar eticamente o jornalismo?
As preocupantes falas conduzem nossos olhares para as escolas de jornalismo e para como é urgente reforçarmos o ensino de ética profissional. Os cursos superiores podem “ensinar ética”? Os estudos da área não demonstram que isso seja possível ou que tal aprendizado seja restrito a esse habitat. Entretanto, as escolas são contextos privilegiados para o incentivo da reflexão ética, para a discussão sobre a deontologia dos profissionais da informação. O debate, a crítica e a autocrítica são passos fundamentais para a cristalização de alguns valores no “cinturão moral” desses jovens jornalistas, e para o acionamento de um ânimo permanente de revisão desses valores. Mas não só. É demasiado esperar que faculdades e universidades em um ou dois semestres consigam “formar” eticamente seus alunos. Tal processo é mais complexo, longo e – ainda bem! – permanente. Assim como os jornalistas não podem mais deixar de estudar, aprender e intensificar seus preparos técnicos ao longo de suas vidas, também não devem relegar apenas aos anos universitários a sua formação deontológica. O cotidiano ensina todos os dias; as redações são ambientes ricos e dinâmicos para se debater dilemas éticos; os colegas de profissão podem (e devem!) ser interlocutores diante de tomadas de decisão, e também podem atuar como modelos de conduta.
Se são alarmantes algumas das falas colhidas na pesquisa pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho, elas também são reveladoras de uma agenda de ações. Os dados que a pesquisa Fenaj-UFSC-SBPJor persegue podem dar um relevo nacional da categoria, mas trará certamente informações das suas insuficiências. As frequentes transformações tecnológicas que dinamizam o jornalismo não podem ser compreendidas sem os planos da cultura e da ética. A cada mudança de suporte ou equipamento, mudamos nossos hábitos culturais e nos imputamos novos desafios e questões de conduta e comportamento. Nossos valores são colocados à prova, e somos reconvidados a discuti-los. A ética não está confinada aos livros ou aos compêndios. Ela está nas pessoas, no que pensam e sentem, e como agem em relação à outras. Seja a ética num contexto mais geral, seja num mais restrito, como o profissional. O que me pareceu mais tocante no evento da ECA/USP é a urgência de reforçarmos ambientes e ocasiões para a formação ética dos jornalistas, jovens e mais experientes. Uma voz qualquer martelava a minha cabeça: É a ética, estúpido! É dela que precisamos falar mais!
Comentário objETHOS: Sobre cracolândia, cidadania e notícia
Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
Da TV Globo ao portal Terra, a expressão “a paz volta a reinar” depois de ocupações institucionais nas favelas do Jacarezinho e Manguinhos, esta semana, foi uma constante. Menos de 24 horas depois, fatos mostravam o retorno das cracolândias, por exemplo, em lugares distintos. E que a paz naquelas regiões, ainda que alardeada, não era tão pacífica assim. Afinal, as pessoas precisam ir para algum lugar, nem todas cabem na proteção do Estado e ficar à própria sorte é praxe no Brasil. E hoje, com a crise do estado do bem estar, mesmo em países europeus, onde centenas de famílias são despejadas a cada dia de suas casas.
Menos que o fato da ocupação policial, interessa aqui a abordagem jornalística, que celebra um acontecimento como se dele não se desdobrassem outros, e que estes merecem uma cobertura mais intensa, mais longeva e mais contextualizada tanto pela complexidade do problema como pelas pessoas envolvidas.
A cidadania foi, em tese, restaurada no Jacarezinho e em Manguinhos, entre outros lugares. Mas o problema do crack não foi resolvido. Ou seja, a cidadania existe, mas não para habitantes da cracolândia, sejam ou não vítimas da exclusão social, do nascimento e da infância nas ruas, da educação por imitação junto ao narcotráfico, da falta de moradia, da falta de escola e da falta de sobrevivência constitucional. O direito à vida, constitucional, está atrelado diretamente ao direito de cidadania. O espaço público da corte imperial foi pulverizado, na Modernidade, pelo espaço público da cidadania, onde todos os indivíduos têm direitos e deveres. Mas … quem nasce sem direitos, poderá ser exigido em deveres em uma terra de todos contra todos, na qual a sobrevivência a qualquer custo passa a ser a única moeda reconhecida socialmente por parcela social em relação a qual paira apenas adjetivações como “bandidos”, “delinquentes”, “ vagabundos”, “preguiçosos”? E vale para quem?
O Estado não deve adjetivar, mas resolver…e com a preservação da cidadania e não pelo extermínio, proposta que parece crescer clara ou implicitamente. E o Estado não é refém da mídia, ainda que às portas da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Com tais perspectivas, o Estado deve proteger a cidadania de todos, do nascimento à morte. E se não o fizer, não há porque os “súditos” renderem homenagens permanentes, em termos de aceitação de deveres constitucionais, sem que os direitos pétreos existenciais sejam respeitados. Um cidadão sem cidadania garantida atua contra o Estado “protetor”. Um Estado que age em função de apenas parte da cidadania, não pode exigir que os excluídos respeitem a cidadania parcial… e contra si próprios.
Uma mídia que invoca permanentemente a liberdade de expressão e grita em defesa de correntes de opiniões deferentes na sociedade, não deveria se abster , em nome da audiência de parte da sociedade, de tratar, em complexidade e intensidade, problemas que afetam a toda a cidadania e a todos os indivíduos que constitucionalmente a integram, como a dos habitantes e freqüentadores das múltiplas cracolândias que se espalham país afora.
A parcialidade jornalística, que inclui a adjetivação, chamadas que não correspondem a fatos e a fontes comprometidas, contribui para o aumento do descrédito seja na representação política seja na crença de que um dia o jornalismo veio ao mundo para, na expressão clássica, “afligir os satisfeitos” e “satisfazer os aflitos”. O caso de relatos como os da ocupação de favelas, entre as quais a do Jacarezinho e de Manguinhos são úteis e importantes. Mas a forma como foram tratados os integrantes da cracolândia, no início da cobertura e diante dos primeiros fatos, pode ajudar a reproduzir preconceitos, a estimular o ódio, a justiça com as próprias mãos e a ocultar interesses escusos. “João da Silva”, cidadão brasileiro, que vive na cracolândia – em qualquer cracolândia – não é um cidadão para parte da mídia. Cidadão é o presidente da Fifa e o presidente do COI.
Ainda bem que as redes sociais – e o conjunto de críticas à cobertura inicial – têm também agendado o próprio jornalismo, cujos repórteres – alguns, ao menos -, em várias ocasiões, parecem ter certa vergonha de relatos que mais parecem peças de relações públicas encomendadas para salvar a imagem dos megaeventos que vêm pela frente.
Comentário objETHOS: Kate Middleton, a privacidade e a Justiça moderna
Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
O episódio da revelação de fotografias da princesa Kate Middleton de topless, semana passada, revigora uma discussão acerca da separação entre jornalismo e informação curiosa; privacidade e vida pública; e entre Justiça democrática e Justiça particular.
No caso exposto, não há interesse público coletivo, não se trata de revelação importante para a sociedade. Trata-se de informação curiosa, que interessa a determinadas ou a muitas pessoas que se voltam para a vida da família real e, em geral, para celebridades. Tais figuras estariam, conforme a expressão de Edgar Morin, no âmbito do Olimpo, os deuses olimpianos sobre os quais se quer saber mais e nos quais até se projetam alguns sonhos – e se quer algo sobre a vida deles, por curiosidade, no ápice e na queda. Não é novidade.
Na Antiga Roma, por meio das Actas Diurnas, expunham-se temas e atos relevantes da pólis. Ao lado, estavam informes sobre divórcios no Império e de fatos considerados mais tarde como fait-divers. A curiosidade sempre ocupou a sociedade. Na Modernidade, em que as Constituições republicanas esclareceram as fronteiras entre o público e o privado, e em que os poderes republicanos como Legislativo, Executivo e Judiciário representam os “súditos” dentro de um estado Moderno, escapa-se das punições da Idade Média, em que a aristocracia e os poderes dela recorrentes e correlatos, como o da Igreja, tomavam decisões sem consulta ao “Judiciário” ou o faziam a um “Judiciário”, entre aspas mesmo, que não separava Igreja e Estado, e, portanto, estava muito mais sujeito à imposição de decisões de príncipes, de princesas e do clero. E ao despotismo.
Mais tarde, na Modernidade e nas Repúblicas, a informação teria mais discussão pública e ambiente democrático, mas as penalidades de seus excessos passariam ao crivo de um Judiciário que escuta os lados e sentencia de acordo com conceitos como “liberdade de expressão” e, depois, de “liberdade de imprensa”, com os direitos e os deveres. A Informação já seria um bem público mas a ela se vincularia o conceito de responsabilidade.
Não é que não houvesse nada disso na Antiguidade greco-romana. Mas agora, de forma regular, sistemática e controversa, escutam-se mais os envolvidos e, portanto, os argumentos deveriam prosperar no “livre mercado de ideias”. E isso nos leva à cidadania. Todos têm direitos e deveres. E se ao direito de revelação de imagens obtidas em âmbito privado pode-se argumentar que é do “interesse do público”, embora não de “interesse público”, trabalha-se na perspectiva da audiência e do lucro e, portanto, todo negócio que gere lucro pode ser argumentado como válido, ainda que imoral, ilegal ou ilícito. Certamente os assassinos do jornalista Tim Lopes, há 10 anos, poderiam argumentar que a investigação jornalística estaria atrapalhando os negócios de Elias Maluco e de seus comparsas e prejudicando o “interesse do público”, de um determinado público, em viver de acordo com os princípios do narcotráfico e preservando seus interesses particulares. Certamente é um discurso cínico, tão cínico como o de dizer que a informação que vende é válida sempre. E argumentar que a liberdade de expressão garante a divulgação de fotos, de qualquer foto. Isso nos remete a um aspecto da Modernidade e que, representado pelo Estado, justifica debate, limites e preservação de interesses privados que não afetam a vida pública, tal como o do topless de Kate Middleton. E, por isso, o Judiciário está no âmbito da democracia que julga.
Assim, nada deveria se opor à divulgação de fotos e de seu lucro – qualquer lucro e em qualquer circunstância – se nada se opusesse, também, ao processos judiciais, baseados na preservação da vida privada.
Certamente há informação produzida por jornalistas e por não jornalistas. Certamente a informação jornalística tem diferenças com relação a informações expostas em quaisquer redes sociais, mesmo que a relevância seja similar. Os critérios de reconhecimento, apuração e narração são diferentes. Para a manutenção da legitimidade e da credibilidade do jornalismo como negócio e necessidade social, é importante a manutenção de critérios que defendam a Instituição jornalística de quaisquer ataques à própria democracia, como o da investigação precisa, desvendadora e que saiba estabelecer onde está o interesse público e onde está o interesse privado, ávido por dinheiro, com o nome de “interesse do público”.
Este jornalismo, se é que se pode chamar assim, se situa no âmbito da curiosidade e, mesmo ela, precisa saber distinguir o que é uma conversa entre duas pessoas, como “fofoca”, do que é a repercussão em escala pública, massiva e planetária de informações pessoais e de atos que – não causando prejuízo público – se referem apenas ao âmbito da privacidade. Este jornalismo concorrerá, cada vez mais, com quaisquer informes e imagens que qualquer pessoa poderá colocar na rede, seja jornalista ou não jornalista, tenha ou não relevância. Mas as responsabilidades do jornalismo parecem ser maiores.
A cidadania agradeceria se as conquistas da Modernidade – as melhores conquistas, claro – pudessem ser mantidas na sua base em nome da convivência social e de parâmetros capazes de não tornar todos inimigos de todos. Na Modernidade, os príncipes não mandam os opositores ao degredo; recorrem à Justiça, tornando-se também “súditos” do Estado que deveria representar a todos. Kate Middleton escolheu, portanto, a Justiça para recorrer, já que o poder monárquico pré-Repúblicas se esvaiu. A aristocracia moderna adere, via Monarquia no caso, ao âmbito do espaço público da cidadania. Nada de errado em ela ter processado quem a fotografou em âmbito privado, de topless, junto com o marido. Nada mais democrático do que recorrer à Justiça e não ao enforcamento, comum nos antigos impérios monárquicos quando algo desagradava princesas e príncipes.
O Jornalismo pode ser julgado, sim, quando desmancha as bases de legitimidade e de credibilidade sociais por meio das quais se afirmou socialmente na Modernidade. Ele é uma Instituição do Estado moderno, tanto quanto os governos representativos, quanto o Supremo Tribunal Federal e o Legislativo contemporâneos. Todos têm direitos e deveres, são honestos ou corruptos; atuam em função de bem comum ou de interesses particulares. O Jornalismo, portanto, ainda que voltado à vida de celebridades, deve prestar contas de suas finalidades e atos à sociedade, à democracia e às Constituições, tanto como qualquer Instituição moderna, pública ou privada.
Comentário objETHOS: Duas faces de Bashar al-Asad
Samuel Lima
Docente da UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS
Há pouco mais de um ano, os ventos da chamada “Primavera Árabe” sopram sobre a Síria. As forças de oposição ao regime da família al-Assad, que governa o país há 40 anos, apoiadas por forte mobilização popular, tentam colocar um ponto final em mais uma ditadura naquela região do planeta. As duas principais redes de televisão aberta do Brasil (Globo e Band) têm discursos e categorizações bem distintas sobre o regime e a personagem central, Bashar al-Assad. A Globo o trata cerimoniosamente de “presidente”, enquanto a Band já adotou, há bastante tempo, a alcunha de “ditador”.
Para fins desta breve reflexão, vamos observar como o fato foi noticiado no emblemático dia 15 de março, um ano após o começo das manifestações populares contra o regime al-Asad. Por ora, há divergências quanto ao número de vítimas: ONGs e entidades de oposição trabalham com o número de 8,5 mil sírios mortos pelas tropas leais ao ditador, desde março de 2011, enquanto a Cruz Vermelha Internacional e as Organizações das Nações Unidas (ONU) trabalham com dados de 7,5 mil mortos nas províncias de Homs, Hama, Idlib, Aleppo, Deraa e na capital Damasco. A população e as forças de oposição ao regime reivindicam reformas políticas e a renúncia do ditador Bashar al-Assad.
Os discursos dos telejornais
“A revolta popular por liberdade política na Síria completa um ano com um saldo trágico. A repressão aos opositores do ditador Bashar al-Assad [grifo nosso] deixou até agora – segundo a ONU – mais de oito mil mortos”, enunciou o apresentador Ricardo Boechat na edição de 15/03. O telejornal da Rede Bandeirantes assume um número que é da oposição ao regime de al-Asad. A narrativa da correspondente da emissora na Europa, Sônia Blota, não deixa dúvidas quanto ao posicionamento da emissora (na mesma edição):
Repressão violenta. Essa é a tática usada pelo regime da Síria para enfrentar sua Primavera Árabe. A onda de revoltas populares no Oriente Médio e no Norte da África derrubou longas ditaduras no Egito, na Líbia, no Iêmen e na Tunísia. Depois que os protestos tomaram as ruas sírias e viraram alvo principal das tropas do ditador Bashar al-Asad, soldados do exército começaram a desertar e se uniram num contingente paralelo que tenta enfrentar os militares leais ao governo. (…) Bashar al-Asad lidera o regime sírio há 11 anos. Ele substituiu o pai Hafez que tomou o poder em 1963.
Enquanto isso, no Jornal Nacional (TV Globo, ed. 15/03/12), na mesma noite, o fato era contado com outro viés político. A reportagem foi assim enunciada pelos jornalistas Patrícia Poeta e Márcio Gomes: “O movimento popular que exige a renúncia do presidente da Síria, Bashar al-Asad, completou hoje um ano. Segundo a ONU, mais de 8 mil pessoas foram mortas na repressão [grifos nossos] aos opositores.”. O texto de Carlos de Lannoy, que cobre o conflito a partir de Jerusalém (Israel), reforça esse enfoque:
Um dos redutos da oposição, a cidade de Hama, não celebrou o aniversário do movimento anti-Bashar al-Asad. Ela foi bombardeada pelas tropas do regime. Em Holms, muitos tiros foram ouvidos. Já a TV estatal mostrou milhares de pessoas em Damasco, numa grande manifestação de apoio ao presidente [grifo nosso]. Opositores disseram que estudantes e servidores foram coagidos a participar da manifestação, que ocorreu um dia depois da revelação de e-mails supostamente enviados pela família Assad.
Note-se que al-Asad continua tendo o tratamento de “presidente”, tanto no enunciado quanto na reportagem. Os oito mil mortos denunciados pela ONU, para os jornalistas da TV Globo foram vítimas da “repressão aos opositores” – por um sujeito indefinido, resultado de exercício retórico que tem uma clara intenção: sublimar a responsabilidade política da ditadura. Neste caso, temos um mesmo fato político sendo reportado a partir de dois olhares sobre o núcleo central da notícia: a repressão do regime de Bashar al-Asad aos seus opositores. No âmbito da ONU, a ditadura se ampara nos vetos da Rússia e China às sanções do Conselho de Segurança.
Nas telas dos dois principais telejornais do país, um exemplo claro de representação sóciopolítica da notícia, essa matéria-prima tão essencial ao jornalismo como forma social de conhecimento que pode revelar pistas da dimensão histórica dos fatos, a partir do singular da vida, ou fazer um discurso totalmente estranho à verdade factual. Na metáfora sobre a “verdade”, o poeta Carlos Drummond de Andrade a percebe como algo formado por duas metades que não se encaixam e vaticina: “Chegou-se a discutir qual a metade mais bela/ Nenhuma das duas era totalmente bela./ E carecia optar. Cada um optou conforme/ seu capricho, sua ilusão, sua miopia”. Os dois telejornais fizeram suas escolhas…
Comentário da semana: Você torce pra quem?
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
“Começou o maior campeonato de futebol do mundo!”. “A bola está rolando na competição mais disputada nos gramados do planeta!”. Certamente, você deve ter ouvido isso nesse final de semana, já que teve início o Brasileirão 2011. Em campo, são cem times, divididos nas séries A, B, C e D, enfrentando-se em 38 rodadas e mobilizando torcidas de todo o país, literalmente. É sim a maior vitrine do futebol no país, onde craques são revelados, técnicos são alçados à condição de “gênios”, e outros tantos, lançados ao subsolo do esporte, o oposto da glória. Com essas características e dada a importância do futebol para o imaginário nacional, o Brasileirão pode mesmo ser o maior do mundo. Mas de que forma isso afeta o jornalismo que se ocupa dele? Ou, refazendo a pergunta: O maior campeonato do mundo tem a maior e a melhor cobertura jornalística?
É difícil definir se a cobertura que os veículos nacionais dão à competição seja a mais bem feita do planeta. As últimas duas décadas mostraram grandes avanços técnicos na transmissão dos jogos pelos meios eletrônicos: pela televisão, o público tem acesso a um festival de imagens, bem captadas e caprichosamente editadas; pelo rádio, a emoção do campo chega em áudio mais nítido e mais longe ainda; a internet vale-se de vídeos, da narração em tempo real, da interatividade que aproxima o torcedor da cobertura, de fotos e especiais multimídia. Curiosamente, os avanços na cobertura contrastam com a resistência do próprio futebol em alterar suas regras, e com a dos clubes e das federações em profissionalizar suas gestões.
No jornalismo, não se nota apenas avanços, e algumas preocupações de fundo permanecem. Nem para o público, nem para jogadores e dirigentes, parece nítida a função e a posição dos jornalistas. Só para lembrar a todos: o jornalista não é o fiel da balança num conflito, nem a sua parte mais evidente e importante. É apenas o profissional que se ocupa de fazer “marcação cerrada” nos centros de treinamento e estádios, em busca de informação. É apenas o profissional que corre atrás de notícia como o atacante corre atrás da bola. É tão somente um elemento na cadeia que tenta aproximar o público – independente da camisa que veste – do fato – no campo ou fora dele.
Jornalista pode ter time de preferência? Claro que sim. Na maioria das vezes, repórter esportivo gosta muito de futebol e por que não teria lá seus favoritos? Jornalista pode “confessar” sua equipe do coração? Pode. E ao contrário do que possa parecer, isso pode ser um reforço para a sua credibilidade como profissional, pois não estará “escondendo o jogo”. O dilema do jornalista que torce não é torcer ou expor seu time, mas fazê-lo mantendo uma distância crítica que permita que suas paixões não contaminem a cobertura dos fatos, e desviem-no do seu trabalho. Isto é, a paixão não é vetada, mas ela não pode promover uma amnésia no profissional, fazendo-o esquecer sua efetiva função naquele contexto. Mas como fazer isso? Em casos extremos, jornalistas-torcedores se tornam também cães de guarda de fora dos muros do seu clube: zelam tanto para que as coisas estejam bem que chegam a perseguir cartolas e atletas. Para que tudo esteja bem, seus times precisam estar acima da linha da perfeição. E, é claro, que aqui também temos exageros que desviam os jornalistas de suas funções, pois se “vigiam” mais uma equipe em detrimento de outras.
Como fazer, então? Buscar construir uma relação de equilíbrio, de distância segura que permita o tom crítico mas que também aceite enaltecer aspectos positivos. Não é fácil, mas jornalismo nunca é fácil. O jornalista não pode abandonar sua função de reportar para encarnar o líder de torcida, inflamado que contagia as massas. Nem pode deixar o lado racional (e razoável) para se mover pelo passional. Em outro quadrante, o profissional também deve evitar relações de subserviência, aquelas em que dirigentes, atletas e outros estão acima dos interesses públicos da boa informação. Árbitro de futebol manda no campo e apenas nos 90 minutos da partida. Não é ele quem decide o que o jornalista deve perguntar. Cartola manda no próprio clube e não pode hostilizar jornalistas, ameaçando de fechar os portões aos setoristas. Dirigentes das federações causam grande constrangimento a repórteres exigindo que esses vistam coletes de identificação para cobertura em campo, ostentando logomarcas dos grandes patrocinadores.
É no campo dos grandes interesses, geralmente conflitantes, que o jornalista joga. O futebol, como outros esportes, é polarizador por natureza: opõe equipes e objetivos contrários. Repórteres metem-se no meio desses desejos e precisam dali extrair informação qualificada. Fatores exteriores ao gramado são cada vez mais influentes: os anunciantes governam a grade de programação das emissoras televisivas, que por sua vez ditam os horários das partidas, a despeito dos interesses e conveniência de quem vai aos estádios e paga para assistir; redes de televisão disputam os direitos de transmissão dos jogos, negociando de forma agressiva e desleal, priorizando aspectos que nem sempre são esportivos ou merecedores da atenção do público. O futebol fica em terceiro plano, o esporte e a paixão ficam relegados à matéria combustível dos negócios, a informação se mescla aos espetáculo e perde parte substancial de sua natureza.
É, o Brasileirão 2011 já começou. Com ele, vêm a campo não apenas os milhares de atletas e seus sonhos de vitória, mas também jogos mais subterrâneos, dos quais o jornalista não pode também descuidar. Se isso acontecer, periga ter o gosto amargo de um gol contra.
Comentário da Semana: A importância das novas redes midiáticas para a democracia
Francisco José Castilhos Karam
Professor na UFSC e Pesquisador do ObjETHOS
O que leva a coberturas tão díspares o jornalismo da TV Globo, canal aberto, e o da Globo News, canal pago? Aparentemente, a rentabilidade econômica, a amplitude do público e a necessidade de atender o maior número possível de registro de fatos com versões simplificadas da realidade. Isto traz conseqüências na forma de abordagem de um mesmo fenômeno, acontecimento ou fato. Enquanto o canal aberto está destinado ao grande e heterogêneo público, com publicidade em valores muito altos, e, portanto, sujeito a um jornalismo fast food, o segundo é bancado pelo rendimento do primeiro, propiciando um jornalismo de mais e melhor análise, de mais entrevistas e entrevistados com mais qualidade e mais tempo de análise. E permite programas que, além do texto, trabalham detalhadamente o contexto.
Seria injusto atribuir a todo o jornalismo a designação de superficial – e também ao da própria Rede Globo -, já que lida com o tempo presente e suas diferentes formas de manifestação. Se a sociedade tem um ritmo acelerado, tal ritmo se reflete nas atividades contidas nela. O jornalismo imediato é dirigido a pessoas que, além de diferentes entre si, estão em um ritmo veloz de vida, que pode levar a uma vida também fast food. A informação com tais características é causa ou conseqüência?
O jornalismo fast food que cobriu o assassinato de Osama Bin Laden pouco tem a ver com o jornalismo de contexto e de lenta duração que tratou do mesmo assassinato, embora um possa complementar o outro. Assim, programas como Milênio e outros de entrevistas e de debates, da Globo News, trataram e atualizaram o tema à luz de fatos e de versões controversas e profundas, esclarecendo o contexto da ação e dos precedentes históricos. Isto veio em versões também de ex-agentes da CIA e de ex-integrantes do governo anterior, de George Bush, em parte descontentes com as ações unilaterais e autoritárias de seus comandantes. Veio também, em parte, pelo depoimento de ex-membros da Central da Inteligência dos Estados Unidos da América, nos quais as convicções traídas e mesmo a própria idade contribuem para certo arrependimento de crimes, torturas e assassinatos.
Parece importante o contexto. E, para isso, a diversidade temática necessita diversidade midiática, tanto em propriedade quanto em fontes e formatos. Apesar de importante, o jornalismo segmentado e contextualizado, em grandes mídias e canais pagos, não atende ainda a múltiplos e diferenciados públicos. Tal perspectiva requer mídias massivas e em rede para, coletivamente, potencializar a controvérsia pública, essencial à democracia.
Certamente, as expressões terrorismo e terrorista não são exclusividade nem de fundamentalistas islâmicos nem de Bin Laden…e tampouco de governos momentâneos que agem à revelia da legislação e acordos internacionais. Trata-se de saber quem começou primeiro e se um dia isso vai parar e como realizar as condições sociais para tal. Pela lógica histórica e militar norte-americana, todos devem seguir a democracia, que é a sua, e a liberdade – que também é a sua – o que pode significar que a liberdade e a democracia dos outros não vale nada.
Por exemplo, a liberdade e a democracia de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai não valeram nada – ainda que emanadas do Estado e das urnas nos anos 1960 e 70 – porque, para liquidá-las, bastou o patrocínio do governo “democrático” dos Estados Unidos, apoiando e dando sustentação política, militar, instrucional e propagandística para os golpes militares de que todos estes países foram vítimas. E enviando especialistas em tortura, como Dan Mitrione, para ensiná-la na região. Isto vale para centenas de ações, patrocinadas pelos Estados Unidos em todo o planeta – sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial – de invasão, ocupação, torturas, assassinatos e extermínios não só de terroristas, mas de velhos, crianças, bebês, mulheres inocentes e daqueles que utilizam as palavras liberdade e democracia em desacordo com o sentido para elas entendido pelo governo norte-americano.
Assim, há necessidade de conviverem tanto informações factuais, com registros simples, e aquelas que exigem contextualização e aprofundamento, para permitir o esclarecimento adequado ao entorno social de forma mais rápida e consistente. E, para isso, a luta já histórica pela democracia das comunicações no Brasil – envolvendo novos protagonistas, novas mídias, novas narrativas, novas fontes e a capacidade de acesso massivo a elas – está na base da luta por um jornalismo que se estruturou como negócio mas se legitimou como serviço público.
A democratização da comunicação para ampliar o jornalismo como esclarecimento público é relevante. O cenário público de relatos, versões e controvérsias tem necessidade de ampliação; o surgimento e a consolidação de novas mídias também é importante para que não validemos mecanicamente a ação dos outros, de quaisquer outros. Por isso, um dos temas mais importantes para a sociedade brasileira, nesta semana, será o Seminário “Marco regulatório – Propostas para uma comunicação democrática”, promovido, nos próximos dias 20 e 21 de maio, no Rio de Janeiro, pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Ele quer nada mais nada menos do que propiciar as condições para que a democracia possa ser discutida e implementada por mais gente. E que o Estado, por dever de ofício, cumpra o papel de favorecer a democracia.
É prejudicial à democracia que significativa parte da grande mídia até o momento tenha manifestado tanto desprezo pelo tema sem contexto algum das propostas e dos debates propostos nos sucessivos eventos promovidos pelo FNDC e por entidades congêneres. E que esteja pautando o governo federal sobre o que devem ser ou não as políticas de comunicação para o país e como tratá-las, com quem tratá-las e quais interesses particulares não devem ser enfrentados.
Da mesma forma, é grave que o governo federal atual aceite que empresas privadas de comunicação condicionem as ações de Estado, responsáveis por dirimir dúvidas, suscitar debates e contemplar propostas que favoreçam a democracia midiática e os processos plurais e controversos do universo jornalístico. Ainda que programas jornalísticos como Milênio e outros aqui e ali favoreçam tal cenário – o que é muito bom -, cabe ao Estado intensificar tal perspectiva em nome da própria democracia real e não de uma qualquer “democracia vigiada”, subproduto do interesse particular que rebaixou, hegemonicamente, o assassinato de Bin Laden e todo o contexto do Oriente Médio à condição de informação fast food.
Pensata #71
A ética deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.
Gabriel García Márquez, escritorEm quarenta anos de jornalismo nunca vi liberdade de imprensa. Ela só é possível para os donos do jornal.
Cláudio Abramo, jornalista
Plágio! Jornal suspende repórter premiada
O Washington Post suspendeu por três meses a repórter Sari Horwitz por suspeita de plágio de matérias. A jornalista já ganhou três prêmios Pulitzers, e a sanção volta a trazer o fantasma de trapaças para o jornalismo norte-americano.
Federica Cherubini, do EditorsWeblog, comenta aqui o assunto.







