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Comentário da semana: Desculpas esfarrapadas para desvios éticos

Daniel P. Giovanaz

Acadêmico de jornalismo e pesquisador do objETHOS  

O Artigo 13 do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2007, prevê o direito à cláusula de consciência. Em outras palavras, ninguém é obrigado a executar tarefas que estejam em desacordo com suas próprias convicções ou com os demais princípios do Código. Portanto, as zonas de tensão, os jogos de interesse e os variados dilemas que cingem a atividade jornalística não devem servir como escusa para que repórteres e editores cometam descumpram nossa função social ou cometam desvios éticos.

A necessidade de adequação dos conteúdos ao “gosto popular” é uma desculpa engolida há mais de duas décadas no telejornalismo brasileiro: a naturalização dos fins de tarde como horários oficiais para a veiculação de material sensacionalista em canais abertos é um exemplo tácito. O fenômeno começou em 1991, quando o SBT lançou o programa policial Aqui Agora, que se autodenominava “uma arma do povo” – além de reportagens sobre crimes, continha um quadro sobre os direitos dos consumidores. Devido ao enorme sucesso de audiência, o formato é até hoje imitado, mas poucas vezes questionado.

O intuito desta problematização inicial não é desconsiderar os aspectos mercadológicos do ofício, mas discorrer sobre seus limites – até que ponto o dinheiro faturado junto aos anunciantes justifica invadir o direito à intimidade, à honra e à imagem dos cidadãos? É preocupante, nos observatórios e cursos de comunicação, a escassez de críticas a este modelo de produção televisiva em que o sensacionalismo e a busca pelo escândalo são parte do modus operandi. Nesse sentido, proponho uma reflexão acerca de duas hipóteses: a primeira é a de que os professores e críticos de mídia se deram por vencidos e passaram a fazer vista grossa aos delitos éticos transmitidos diariamente, devido à impotência de suas análises frente ao poder imperativo dos negócios; a segunda sugere uma defasagem abismal entre o Código da Fenaj e o atual cenário competitivo do jornalismo brasileiro, que faz com que os questionamentos éticos sejam imediatamente associados à hipocrisia ou à ingenuidade. Nenhuma das hipóteses é anulativa, e ambas fornecem bases para se repensar o papel do documento que rege a atuação dos jornalistas no país.

A defesa do interesse das empresas de comunicação também é usada como desculpa para que a publicação de informações incorretas e imprecisas. Nesses casos, o interesse público, que deveria ser a finalidade de qualquer atividade jornalística, sucumbe ao conjunto de normas e princípios internos a que estão sujeitos os funcionários de cada corporação. Enquanto leitor, tenho a sensação de que isso ocorre em certa medida na cobertura de acontecimentos relacionados ao governo da presidenta Cristina Kirchner, da Argentina. Em especial, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, ambos jornais de circulação nacional, parecem ressaltar com frequência os aspectos negativos do governo argentino, principalmente após a aprovação da Lei de Meios, em 2009 – essa mudança de tom, ratifico, é apenas uma impressão; não foi produzida uma pesquisa acadêmica criteriosa comparando os dois momentos. De qualquer maneira, decidi incluí-la porque, ainda no campo da suposição, poderia estar relacionada a um interesse empresarial escuso: um receio de que uma sanção semelhante à argentina ocorresse no Brasil, prejudicando os líderes do mercado da comunicação. Ademais, porque a tolerância da crítica com o tratamento inadequado das informações nesse caso poderia abrir precedentes para a publicação de materiais tendenciosos sobre qualquer país que inicie um processo de regulação da mídia, com a desculpa fajuta dos “interesses da organização”.

Esses exemplos singelos servem para reforçar que inevitavelmente, como jornalistas, pisamos em um terreno perigoso, escorregadios, em que a inércia e a falta de críticas podem nos levar à reprodução de incorreções. Além de produtores, somos também consumidores de informação, e temos o direito de questionar as políticas editoriais dos veículos – não como uma forma de censura ou pressão, mas de manutenção e valorização do interesse público como princípio soberano da atuação jornalística.

Os interesses mercadológicos das empresas, bem como o interesse do público, devem continuar sendo levados em conta, mas não podem ser aceitos como álibis para o descumprimento de nossa função social.

Comentário da semana: A torcida pela ordem na cobertura de greves

Elaine Manini
Mestranda em Jornalismo e pesquisadora do objETHOS

É praticamente consenso entre jornalistas e pesquisadores da área que a objetividade  seja compreendida como algo inalcançável, ou uma falácia de algum veículo ou alguém que ainda ouse caracterizar desta forma o seu jornalismo. Tal entendimento, no entanto, não ignora o valor que essa qualidade tem para a área. Em uma situação ideal admite-se as limitações, com a consideração de que essa busca deva ser realizada e a objetividade seja uma meta. Agindo desta forma, o jornalista pode se considerar eticamente comprometido com sua função social de promoção de uma democracia igualitária.

Assegurar aos leitores as diferentes versões dos fatos é um dos pontos em comum entre vários códigos de ética jornalísticos, dos sindicatos às empresas de mídia e órgãos representativos da sociedade. O quinto ponto do código da Associação Nacional dos Jornais, representante das empresas jornalísticas do país, chama atenção para a questão da divulgação das diversas tendências de opinião da sociedade. Problematiza-se aqui a questão da reprodução da mídia dessas tendências de opinião e faz-se uma análise específica no caso da cobertura de greves.

Imagem da desordem

Na semana do dia do trabalhador, de 28 de abril a 4 de maio (domingo à sábado) no Diário Catarinense o tema greve apareceu em seis matérias jornalísticas, uma com o tema apenas citado e as demais sobre greves em andamento. O quadro a seguir descreve o espaço e as fontes utilizadas e possibilita uma noção sobre a angulação das pautas.

 Data Cartola Manchete Tamanho Fontes *
29/04 Dilema no ônibus Cesar tenta separar reajuste tarifário da questão salarial**

 

1 página Prefeito, sindicatos das Empresas e dos Trabalhadores
29/04 Desafios da ponte estaiada Mudanças após greve de 10 dias

 

Nota Ministério do trabalho de Criciúma
30/04 Em negociação Assembleia de servidores vota por greve na capital 1/2 página Sindicato dos trabalhadores e Governo
01/05 Serviços comprometidos Greve continua na capital

 

1/2 página Sindicato e opinião Prefeito
03/05 Negociações difíceis Lei e orçamento limitam reajustes para servidores 1 página Opinião Prefeitos
04/05 Greve na capital Servidores voltam ao trabalho Nota Servidores
*Fontes identificadas pela citação nos textos
**matéria sobre reajuste tarifário do transporte público, cita a greve como um dos problemas da prefeitura

 

Com relação às fontes utilizadas, em números, percebe-se um desequilíbrio pequeno. Os sindicatos dos trabalhadores envolvidos foram ouvidos em quatro das seis matérias e os empregadores – governo e sindicato das empresas, no caso do transporte coletivo – em cinco de seis. Os assuntos predominantes são: as despesas dos cofres públicos com as reivindicações, o Limite prudencial e a Lei fiscal, as reivindicações (em termos gerais) e os transtornos causados.

No tratamento do assunto, nota-se, no entanto, uma diferença maior no conteúdo e nas declarações publicadas. As informações de despesas dos cofres públicos com as reivindicações, Lei fiscal, limite prudencial e total da folha de pagamento são detalhadas e ocupam a maior parte dos textos. Normalmente aparecem acompanhadas por declarações do governo como: “uma incompreensão do funcionalismo”, “o aceite das reivindicações levariam ao caos administrativo”, “a implementação do plano reivindicado seria um crime ou uma irresponsabilidade”.

Do outro lado, as precariedades das condições de trabalho apontadas pelos grevistas foram citadas apenas na matéria sobre a construção da ponte de Laguna, ainda assim sem especificações dos problemas: “Os operários cruzaram os braços insatisfeitos com os salários, alimentação e situação do alojamento”. As situações individuais dos trabalhadores não são relatadas. A matéria não explica por exemplo porque, mesmo com a conquista de 30% de abono salarial, cerca de 100 trabalhadores não quiseram continuar no trabalho. Adiante, divulga os salários com o abono e conclui que o ministério do trabalho junto com o sindicato levantará as condições de trabalho e que não se interferiu no cronograma da obra. Em outras palavras, fica dito que a ordem foi reestabelecida.

Reproduzindo a tendência

Toda greve quebra alguma rotina social. Normalmente é entendida pela sociedade como um transtorno à ordem e uma perturbação à vida em comunidade. Vistos desta forma, os grevistas são geralmente tratados como um problema por aqueles que não estão diretamente envolvidos com a classe reivindicadora. Identifica-se aí uma tendência de pensamento social. A reprodução da imagem da greve como transtorno e dos grevistas como autores do problema, esconde causas maiores da situação. As coberturas desses assuntos costumam deixar de lado as ações que o empregador deixou de tomar para evitar que se chegasse ao ponto de deflagrar  uma greve. Por que o governo não cumpriu com o seu papel de planejamento e com o seu dever de garantir boas condições e direitos trabalhistas a seus funcionários? São questões anteriores que costumam não ser feitas na cobertura factual da greve.

Não se pretende avaliar neste artigo quem está ou não errado, mas se chama atenção para que o jornalismo esforce-se em abordar de forma completa as questões de ambos os lados. Em seu artigo O jornalismo cego às custas das armadilhas do discurso oficial, publicado no Observatório da Imprensa a pesquisadora Sylvia Moretzsohn chama jornalismo “de mãos limpas” aquele se contenta em ouvir os dois lados e deixar a conclusão para o público. Ao abordar a cobertura da greve nas universidades federais ocorrida na metade de 2012, falando sobre o problema da falta de checagem e investigação de dados na apuração ela diz que “Não é difícil imaginar a que tipo de conclusão esse público poderá chegar, privado que está das informações elementares a partir das quais poderia elaborar algum raciocínio minimamente fundamentado.”. A falta de informações foi também perceptiva nas matérias aqui observadas. A anormalidade da greve fica apenas nas manifestações, nas perturbações, no fato ocorrido, e não em suas causas. E o jornalismo, reproduzindo tal noção de irregularidade, deixa de contribuir para que a sociedade repense algumas noções pré-concebidas.

 

Referência

MORETZSOHN, Sylvia. O jornalismo cego às custas das armadilhas do discurso oficial. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed703_o_jornalismo_cego_as_armadilhas_do_discurso_oficial

Comentário da semana: Quando o “se” vira notícia e manchete

Samuel Lima
Docente da FAC/UnB, professor-visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

A revista Época reinventou o conceito de notícia em sua edição de 22 de abril de 2013: “E se fosse na Copa?”, indaga a manchete da publicação, sob a cartola em vermelho “Terror na maratona de Boston”.

Mais que um exercício de futurologia ou mera abstração de pitonisa aposentada, a revista da Editora Globo parece adotar o conceito de notícia adaptado de outro saber clássico da profissão pela jornalista Júnia Nogueira de Sá (ex-ombudsman da Folha de S. Paulo) que escreveu:

Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia. Se o homem morde o cachorro, também não é notícia. Se o homem estivesse pagando ao cachorro por seus favores sexuais, aí sim seria notícia. Mas não seria uma notícia de primeira página. Para ser manchete, o cachorro teria de ser menor de idade e o homem deveria ter um cargo importante no governo.

No “Abre” da matéria que supostamente sustentaria a indagação de capa, um longo e doloroso “nariz de cera”, como é chamado o lide desprovido de informação, baseado no palavrório desconexo, o popular “enrolation”, a começar pela genial definição: “O que diferencia o terrorismo do simples homicídio está no nome. Seu objetivo é aterrorizar. Nos os mortos (sic), cujas vidas são interrompidas sem que eles saibam o motivo”. A reportagem no miolo aparece sob o título “Pode acontecer aqui?”, aprofundando a especulação sobre o território da não-notícia, ou seja, um mix de relato inexistente, acrescido de análise e interpretação sobre o futuro – que pode abrigar um sem número de eventos, inclusive o fim do mundo.

Como o foco é bater na tecla de que o governo Dilma Rousseff estaria despreparado para um ato terrorista nas Copas das Confederações e no Mundial de futebol passa a valer literalmente tudo. O texto pergunta e responde, ato contínuo: “O Brasil pode ser escolhido por algum grupo armado como palco de um ataque? Sim”. E ato contínuo emplaca outra pergunta aos próprios repórteres que assinam a anti-reportagem: “O país pode garantir que um atentado, caso planejado, não aconteça?”. A pergunta, mera retórica, a rigor, tem óbvia resposta mesmo no país mais desenvolvido, tecnológica e militarmente do planeta, os Estados Unidos, que foram vítimas de um novo atentado, o primeiro depois dos trágicos (e nunca explicados) acontecimentos de 11 de setembro de 2001, em Nova York.

A colunista Maureen Dowd, do jornal The New York Times, analisa o trabalho da mídia nos trágicos acontecimentos recentes e afirma categórica: “A cobertura em Boston foi um tsunami de informação inútil e desconexa” (O Estado de S. Paulo, 26/04/13, p. A10). Para Dowd, “aqueles momentos de terror encontraram o ecossistema da informação num estado estranho e instável”. Para o jornalista James Gleick, ouvido por Dowd, a cobertura ao vivo das emissoras de rádio e TV se mostrou inócua e, no limite, falida:

Na perseguição em Boston, jamais me ocorreu ligar a TV. A tela que eu precisava era do meu iPhone A internet é desordenada, pontilhista, ruidosa e erra com frequência. Mas se você tem uma necessidade visceral da notícia instantânea, a TV não consegue competir com ela. Os repórteres informando em tempo real na TV são um contrassenso: você não consegue coletar a notícia e apresentá-la ao mesmo tempo.

Ao contrário desses veículos eletrônicos que são tensionados pelo “tsunami de informação inútil e desconexa”, uma revista semanal como Época deveria primar pela qualidade, consistência e equilíbrio de suas reportagens. Especular e fazer ilações sobre o futuro é irrelevante e inútil, do ponto de vista do interesse público. Há clara distância entre esse tipo de “jornalismo” e a boa onda de conhecimento e esclarecimento que a instituição imprensa deve à sociedade, como sua missão-mor.

O jornalista e pesquisador Victor Gentilli observa que há “uma relação irrevogável entre jornalismo e esclarecimento”. E faz um apontamento fundamental:

O homem emancipado só pode tomar suas decisões e participar das escolhas política se devidamente esclarecido. E, se, nas sociedades contemporâneas, quem produz esse esclarecimento é o jornalismo, esse modelo será a referência fundamental sobre a qual se assentarão as atividades de crítica de mídia.

A despeito de ausência absoluta de atentados terroristas por organizações tipificadas como tal pelas forças de segurança aqui e alhures, a reportagem de Época (ed. 22/04/13) segue ponteando velha “canção”, como arauto das oposições ao atual governo federal: “Muitas coisas (quais?) nos preparativos da Copa como da Olimpíada, já não deram certo – de obras atrasadas (outra vez sem citar quais?) e projetos cancelados (o leitor não fica sabendo quais?). A diferença, quando o tema é segurança, é que essa possibilidade não existe. Se algo der errado, o custo pode ser a perda de vidas – e a propagação do medo”, vaticina grave.

Como uma recomendação de relatório de consultoria especializada, e supostamente amparado em fatos concretos, a reportagem termina patética, clamando: “O Brasil precisa fazer de tudo para garantir a vitória do esporte e da celebração sobre o terrorismo”

A prática do “jornalismo de ilações e invenções”, não fundamentado em fatos, mas em especulações, tem sido objeto de crítica qualificada nos observatórios de mídia brasileiros. Ou como analisa Renato Rovai: “Essa modalidade de jornalismo vem sendo realizada por setores da mídia tradicional comercial brasileira. É um tipo de jornalismo que não exige jornalismo. Bastam suspeitas e alguns fatos que se encadeiem. E, claro, uma tese a ser defendida, por mais absurda que seja”. Os repórteres de Época podem entrar para a história do jornalismo mundial ao inventar a notícia na qual o “se” acabou virando manchete – e reportagem de capa.

Comentário da semana: Erros ainda assombram as redações

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

 O erro é um fantasma que ronda qualquer atividade. A frase é bonita, mas não resolve nada. O fato é que um erro nunca vem sozinho e não só afeta o seu autor. O pior é justamente isso: a cadeia em que ele está inserido e o estrago que provoca no seu entorno. Em alguns planos da vida social, há uma verdadeira histeria sobre o tema: os erros são monitorados, obcecadamente estudados e quando acontecem (de forma quase inevitável), seus efeitos formam ondas avassaladoras de responsabilidade. A medicina e as engenharias se destacam nessa diração, mas também cometem lá seus deslizes. O jornalismo – uma atividade quase tão influente na vida contemporânea – ainda deixa muito a desejar.

O exemplo mais recente foi a avalanche de erros cometidos na cobertura das explosões na Maratona de Boston. O blog ChatGirl fez um resumo das derrapadas da mídia norte-americana, chamando a atenção de alguns meios, que se apressaram nas desculpas. O colunista Jack Shafer, que cobre mídia e política para o site da Reuters, dedicou um de seus textos na semana passada sobre as consequências dos erros nas redações e de como a audiência (antes considerada apática e passiva) está contribuindo para reescrever esse rascunho da história que é o jornalismo.

Na semana passada também, o News: Rewired, evento britânico que reuniu profissionais e especialistas, listou cinco padrões que devem elevar o nível ético do jornalismo online. Participaram do painel os representantes do Channel 4, do jornal The Guardian, da revista The Economist e do site The Next Web, e o consenso aponta para mudanças não tão radicais para os jornalistas, mas fundamentais para a manutenção de um nível de qualidade indispensável para os meios.

Primeiro, a precisão deve estar acima da velocidade. Embora estejamos vivendo numa época vertiginosamente acelerada, o jornalismo não pode renunciar a um valor de base como a precisão para atender mal e apressadamente o seu público.

Segundo, é cada vez mais importante que os meios sejam transparentes. Em termos práticos, isso significa que os meios precisam atribuir de forma clara as informações que foram primeiramente veiculadas por algum eventual concorrente. Ou ainda dar as referências e fontes consultadas. Tudo de uma maneira que sinalize ao público de onde vêm os dados, como eles foram tratados e como aquilo foi embalado e entregue. É uma questão de honestidade, de franqueza, de abertura.

O terceiro aspecto levantado pelos britânicos diz respeito a agregar valor ao conteúdo noticiado. Na web, não basta apenas reproduzir as informações colhidas aqui e ali, sendo necessário dar seus contextos e oferecer camadas adicionais de aprofundamento. O noticiário não pode ficar num nível superficial de bloguismo ou se limitar a um conjunto de tweets.

O quatro padrão do News: Rewired enaltece uma preocupação de dez em dez editores online: como lidar com os abusos nos fóruns ou tópicos de comentários nos sites? Lidar com os trolls é uma tarefa que consome, cada vez mais, tempo e energia dos meios online. Uma medida imediata tem sido abolir a possibilidade de o usuário postar suas opiniões, o que não é a melhor medida, já que impede a interação com o público e soa como censura no diálogo. De fácil operacionalidade, a medida é muito impopular, pois é amplamente punitiva e desperdiça os bons conteúdos deixados na área interativa. Entre os especialistas britânicos, as opiniões se dividem. Sean Ingle, da Channel 4, adverte para “não alimentar os trolls”, isto é, diante do abuso de um comentador, não se deve cair na tentação de responder de forma ríspida ou ofensiva, desarmando assim os espíritos provocadores. Martin Bryant, do The Next Web, opina que é preciso estimular os comentadores a usarem seus nomes reais, de forma a reduzir o espaço do anonimato e constranger algum conteúdo mais explosivo. O editor digital da The Economist, Tom Standage, lembra ainda que é preciso intervir nos fóruns, demonstrando aos usuários que os diálogos estão sendo acompanhados e que é preciso manter alguma compostura por parte dos usuários.

O quinto padrão apontado pelos britânicos trata diretamente do tema que nos afeta: os erros jornalísticos. A concordância geral é de que é preciso sim fazer correções quando alguma informação saiu incorreta ou imprecisa, e que em casos mais graves, é necessário ir além: reconhecer o erro e pedir desculpas de forma clara. Nos meios online, uma prática corrente é o apagamento dos tweets que veiculam a informação equivocada, como se fosse possível apagar o rastro do deslize. Os editores britânicos reconhecem que isso acontece, mas que não é a melhor prática. Publicar um novo tweet com uma atualização ou correção não só contribui para corrigir o rumo do noticiário, mas também sinaliza para o público uma dimensão humana que alguns meios de comunicação simplesmente esqueceram.

O erro no jornalismo, relegado a segundo plano, é um assunto de natureza técnica e ética. Não nos esqueçamos também disso.

Comentário da semana: Coreia o que Custar

Guilherme Longo Triches
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

A Coreia do Norte tem causado polvorosa no mundo inteiro por conta das declarações de seu líder, Kim Jong-um. Divulgando treinamentos militares e realização de testes com armamento nuclear, o líder norte-coreano voltou às atenções para o Oriente. Ao tratar da possibilidade de uma guerra, as notícias oriundas da Coreia do Norte trouxeram à tona questões de interesse das pessoas.

Tal interesse baliza a ação do jornalista. Quando o assunto requer uma reportagem investigativa, o interesse público chega a sobrepujar questões éticas e normativas. Segundo Silvio Waisbord (2000, p. 233), “o jornalismo investigativo é menos sobre métodos e mais sobre as conseqüências.” Nesta visão, falsidades ideológicas e escutas não-autorizadas, por exemplo, são considerados legítimos ao jornalista, haja vista o bem maior que as matérias investigativas visam atender.

A justificativa do interesse público foi utilizada na última semana pela BBC (British Broadcasting Corporation) ao ter infiltrado jornalistas num grupo de universitários britânicos que visitavam a Coreia do Norte a estudos. Segundo o Jornal Nacional, da TV Globo, a universidade London School of Economics acusa a BBC de “colocar em risco a segurança do grupo de alunos, que teve permissão especial para visitar o território norte-coreano”. Por seu turno, a BBC “alega que os jovens sabiam dos planos e que a reportagem é de grande interesse público”.

O interesse público tornou-se uma grande “muleta” utilizada pelos jornalistas. Sempre que há questionamento para ver se uma matéria é necessária, o jornalista se apoia no interesse público. No entanto, há distinções a serem feitas. Interesse Público aproxima-se do que é importante às pessoas. Interesse do Público, por sua vez, vai ao encontro daquilo que chama a atenção e que, consequentemente, rende mais audiência. Ambos podem confluir. No entanto, em termos de legitimação da realização de uma matéria, aquilo que é só rentável passa a ser importante na hora da justificação.

No caso da possibilidade de uma guerra mundial, até parece plausível a noção de interesse público, mas Luciano Ornelas (1987, p. 8) faz uma ponderação: “quando uma vida está em perigo (…) a imprensa deve ser responsável para ajudar a preservar essa vida”. No caso da Coreia, os universitários corriam riscos. No caso do CQC, da TV Bandeirantes, tratado pelo ObjETHOS em 1º de abril, uma criança chegou a ser utilizada no lugar do repórter em situação que o conselheiro nacional do Ministério Público, Luiz Moreira Gomes Junior, julgou degradante a participação do menor. Uma primeira questão que se impõe é a seguinte: É de interesse público que vidas sejam perdidas ou abaladas para sempre? Em resposta ao conselheiro, o âncora do CQC, Marcelo Tas, disse que o Ministério Público deveria ter mais o que fazer do que processar humoristas.

O CQC (Custe o que custar) é um conhecido programa que mistura jornalismo e humor. A veia humorística do CQC angariou o público jovem para temas antes cobertos somente pela imprensa tradicional, como política, por exemplo. Além disso, quadros como o “Proteste Já”, convidam a população à participação na produção das matérias. No programa do dia 18 de março, Marcelo Tas chamou uma matéria do quadro “Proteste Já” da seguinte forma:

“Preparem-se: Vocês vão ver agora uma matéria que está à disposição da justiça porque este material trata-se de matéria jornalística de interesse público.” Ao final da reportagem, Marcelo reiterou este mesmo posicionamento.

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Marcelo Tas chamando a matéria e alertando quanto ao conteúdo de interesse público.

Ao ver a matéria, possivelmente ninguém questionou o fato da impunidade no trânsito ser realmente um assunto de interesse público. O programa, ao invés do tradicional tom acusatório, ofereceu o material para que o sistema de justiça brasileiro tomasse a devida medida. Além disso, reforçou uma noção do jornalismo investigativo: “o jornalismo investigativo implica um trabalho ativo de apuração do repórter” (NASCIMENTO, 2010, p. 21).

Neste caso, apesar do humor sempre latente, o CQC deu uma aula de jornalismo. Visou ao interesse público, mostrou um jornalismo ativo e, além de tudo, limitou-se a disponibilizar fatos (que falavam por si). Segundo Silvio Waisbord (2000, p. 241), “a imprensa nem persegue nem julga, mas, na melhor das hipóteses, envia informações justas e precisas para a consideração pública que podem (ou não) desencadear uma investigação mais aprofundada e ações legais.” Luciano Ornelas (1987, p. 9) reforça: “A imprensa não é a Justiça. O nosso dever, isso sim, é informar com responsabilidade. Ou deixar de informar também com responsabilidade”.

Deixar de informar com responsabilidade: Esta sim parece mais uma atitude de Interesse Público, que a cobertura de uma eventual tragédia oriunda do jornalismo sedento pela audiência.

Referências

NASCIMENTO, Solano. Os Novos Escribas: O fenômeno do jornalismo sobre investigações no Brasil. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010.

ORNELLAS, Luciano. A notícia ou a vida. In Revista de Comunicação. Rio de Janeiro, ano 3, nº 9, 1982, p. 8 – 9

WAISBORD, Silvio. Watchdog Journalism in South America: News, Accountability, and Democracy. Columbia University Press, New York, 2000

Comentário da semana: O Primeiro Grupo Catarinense, a investigação policial e a apuração jornalística

Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O jornalista profissional, especialista na busca, apuração e narração de fatos e temas relevantes do presente imediato, obteve um reconhecimento social nos últimos 200 anos dado o seu vínculo com a manutenção da vitalidade democrática. Ainda que sempre historicamente sujeito a pressões de ordem política, econômica e ideológica, nunca enfrentou um cenário tão complexo como o atual. Neste, os conglomerados empresariais, as verbas oficiais, as fontes que se valem de assessorias profissionalizadas são alguns dos elementos mais novos e complexos que sugerem novos obstáculos para a autonomia profissional e o cumprimento de seu “mandato social” de levar informações relevantes e úteis para o dia-a-dia das pessoas.

Assim, sempre que há reportagens produzidas por jornalistas – e não exclusivamente por terceiros – surge também esperanças da afirmação da legitimidade profissional que foi esclarecedora em vários momentos da história. A parceria jornalistas-fontes surgiu, de um lado, por comodismo e economia de custos; de outro, por segurança física e jurídica na investigação de atos que levam a processos e perseguições, inclusive físicas.

Em chamada do Diário Catarinense on line, edição de 12 de abril de 2013, relativo à Segurança, lê-se “Máfia das cadeias: Investigação termina com 97 indiciados pela onda de atentados em SC”.

O início de uma das matérias que integra o conjunto das reportagens revela: “A atuação e subsistência do Primeiro Grupo Catarinense (PGC) estão no tráfico de drogas e de armas, em assaltos, furtos, resgate de presos, prostituição, execução de policiais, de agentes e de quem se opor aos interesses do grupo. A mais nova prática ilegal pode ser definida como agiotagem, ou seja, juros sobre a mensalidade travestida de dízimo — a contribuição financeira de R$ 100 mensais por integrante.”

De acordo com uma das matérias do conjunto de notas, notícias e reportagens sobre o fenômeno de incêndio de ônibus, carros e outros veículos nos últimos meses, em Santa Catarina, “O relatório final da investigação dos ataques a Santa Catarina terminou com 97 suspeitos indiciados. A Polícia Civil pediu ainda que 21 pessoas que cumpriam prisão temporária sejam liberadas. A palavra final ficará com a 3ª Vara Criminal de Blumenau”

Continua a matéria: “Agora todas as 4 mil páginas distribuídas em 17 volumes serão analisadas por um grupo de promotores. A análise preliminar do Ministério Público aponta que a tendência é que cada caso seja enviado para a cidade onde houve o atentado. O delegado responsável pela apuração, Procópio Silveira Neto, disse que o combate ao Primeiro Grupo Catarinense se tornou algo permanente. O promotor Flávio Duarte vai na mesma linha.

— A atual situação é irreversível. Onde o Estado falta, o crime age— declarou o promotor Flávio Duarte.”

 

As matérias atendem os requisitos de apuração factual, acompanhamento de investigação policial e relevância social. Contribuem, portanto, para o entendimento, ainda que parcial, do que ocorre. E parece relevante.

No entanto, poderia ser este o início de um processo que revele o complexo sistema nacional e internacional de produção, circulação, consumo e reinvestimento no negócio das drogas, sobretudo as pesadas, que se tornou um dos mais rentáveis do planeta? Como fazer isso, se “quando o Estado falta, o crime age”?

Relevante é saber quem são, a mando de quem e quais as ramificações e a quem sustenta o tráfico não apenas na micro geografia ou no micro consumo. Interessa também conhecer ramificações que se expandem para outros setores de negócios; que se relacionam a pistas clandestinas de pouso, ao contrabando, ao consumo de drogas em bares e boates na alta elite financeira e baixa condição moral e não frequentados pelos 97 indiciados. Perguntas: há consumo nas esferas do Poder Público e em sua representação como Executivo, Legislativo e Judiciário? Quem combate também consome? Há visibilidade para isso? A cadeia produtiva do tráfico de drogas e pessoas , seja em Santa Catarina, Brasil ou planeta, se restringe ao “baixo clero” e nos atentados que produz na ponta de baixo? Pode chegar mesmo ao consumo e tráfico de drogas até mesmo no interior do jornalismo e das redações?

Certamente que um negócio complexo e rentável como esse exige um grau de organização não apenas situado na informalidade do “ baixo clero”, mas sobretudo um grau de organização externo que conta com um aparato relativamente sofisticado e que pode estar entranhado, nos últimos anos, nas instituições representativas do Estado e do poder político e econômico privados.

A precariedade das cadeias, o não cumprimento da Lei de Execuções Penais, a necessidade de sobrevivência pessoal interna e familiar externa ajudam a compor um cenário…mas todo ele micro. No plano dos negócios, a investigação jornalística teria como desafio investigar – e com alguma garantia de segurança física e de liberdade de trabalho – o “conjunto da obra” . Caso contrário, a tendência é apenas a repetição de fatos e de coberturas que elucidam o entorno micro, mas não esclarecem a dimensão do tráfico de drogas e a situação prisional de milhares de pessoas. E que sempre tem foco no local, ou seja, em algum lugar – e Santa Catarina faz parte de algum lugar.

Há um processo produtivo relacionado a outros que envolvem o campo do delito, da banalização da dor, da violência, da criminalidade… e da insensibilização e indiferença, cristalizados pela prostituição infantil, pelo tráfico de mulheres, pelo tráfico de órgãos, pelo desaparecimento de crianças, pelo consumo de drogas que se misturam aos grandes negócios do planeta. Tal processo inclui gordas contas bancárias e lavagem de dinheiro produzida por diferentes setores, sejam construção civil, empreiteiras, restaurantes e bares, eventos esportivos,  obras públicas e/ou privadas, entre muitíssimos outros. Ao jornalismo e aos órgãos públicos, como os da esfera policial e jurídica, cabe investigar incessantemente.

De um lado, os poderes do Estado têm a responsabilidade de apurar, apontar culpados e solucionar problemas sociais. Ao apontar culpados, não  apenas os da ponta de baixo, embora se saiba que ao atingi-los, parcialmente prejudica-se os da ponta de cima. Diante da oferta “mercadológica” de crianças nascidas nas ruas, de jovens sem perspectiva profissional, de trabalhadores expulsos de seus lugares e de seus empregos, é muito provável que os 97 indiciados sejam rapidamente substituídos por outras dezenas de pessoas, na fila para aderir a um dos lados da contradição social, seja por necessidade imediata ou pelo não reconhecimento moral do entorno validado pelos outros que não prestam atenção a eles. É coisa muito mais ampla.

De outro lado, como fundamento da vitalidade democrática, o jornalismo implica em colocar mais atores, mais fontes, mais interpretações e mais contexto. E não deve deixar morrer assunto tão relevante apenas em aspectos micro nos quais a investigação policial pode se circunscrever. É uma tarefa e tanto para jornalistas que ainda mantêm a esperança profissional de produzir matérias relevantes socialmente, ainda que a custo de intimidações e pressões de toda ordem.

Comentário da semana: Erros revelam falta de habilidade com leitor

Lívia de Souza Vieira
Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Não é fácil para um veículo jornalístico admitir seus erros. Se nas páginas dos jornais impressos eles historicamente ocupam um espaço restrito – isso quando ocupam – na internet a situação tem se mostrado ainda mais preocupante do ponto de vista da ética jornalística.

Antes de analisar alguns exemplos que justificam a afirmação acima, vale a pena recorrer ao que disse Ricardo Noblat em sua conhecida obra “A arte de fazer um jornal diário”: o erro é matéria de interesse público. Ele ainda destaca que “por orgulho, soberba, vaidade ou ignorância, jornais e jornalistas procuram fazer de conta que só acertam. E, quando são pilhados em erro, custa-lhes admitir que erraram. Os jornalistas temem ser punidos por seus chefes. Os jornais temem perder leitores” (NOBLAT, 2002: 40).

Informar o leitor sobre o erro cometido pode ser simples, principalmente nos ambientes digitais. A internet é dinâmica por natureza e não há necessidade de esperar até a edição do dia seguinte para publicar uma errata ou para um pedido de desculpas.

Quando falamos especificamente de redes sociais parece ser ainda mais dinâmico, já que há informalidade e o tom típico do meio é o de conversa com o leitor. Apesar disso, o que vemos é uma impressionante falta de habilidade dos webjornais na admissão de erros em seus perfis no Facebook e Twitter. Fiquemos com três exemplos.

No dia 31 de agosto de 2012, o Estadão publicou em seu perfil no Twitter: “Corinthians completa 102 anos hoje. Parabéns!”. Um tweet claro, direto e informal, não fosse um detalhe: o aniversário do time de futebol seria no dia seguinte (sábado). Um pequeno erro – que para um corinthiano não foi tão pequeno assim, gerou muita repercussão e nenhuma retificação por parte do veículo. Diversos leitores avisaram claramente ao Estadão que tratava-se de um erro. Além disso, entre os 60 RTs (retweets) estava o do perfil do Jornal Hoje, que contribuiu ainda mais para a multiplicação do erro. Nesse caso, bastaria a publicação de um tweet com pedido de desculpas e link para a matéria com a data correta.

Estadao

Outro erro, agora cometido pelo jornal O Globo em sua fanpage no Facebook, ratifica o descaso com os leitores. No dia 30 de dezembro de 2012, o veículo chama o Estado do Maranhão de cidade (“Maranhão, cidade excluída das turnês internacionais…”) e rapidamente mais de 100 leitores se pronunciam advertindo sobre o erro. Três dias após a publicação, uma leitora ainda tenta chamar a atenção de O Globo com o comentário: “Até agora desculpa nada!”. E nada de resposta.

Uma das regras de ouro das redes sociais é nunca apagar uma postagem, justamente em respeito aos que já tiveram acesso ao conteúdo. Nesse caso, O Globo poderia ter incluído um comentário ou até mesmo ter publicado uma nova postagem com a errata.

OGlobo

O terceiro exemplo é mais recente, de 17 de fevereiro de 2013. O jornal Folha de S. Paulo publica em seu perfil no Twitter que a África é um país, e não um continente (“A África é o país que registra o maior crescimento de pessoas católicas”). Novamente houve manifestação dos leitores e nenhuma retificação do veículo. E, assim como no caso do Estadão, bastaria a publicação de um novo tweet com a informação correta. Agradecer aos leitores por terem avisado sobre o erro também seria de bom tom.

Folha

A breve análise desses três exemplos pode suscitar inúmeras discussões, desde o tipo de erro cometido pelos jornais (confusão de estado com cidade; de continente com país; e a troca da data de aniversário de um dos principais times de futebol do país) até a falta de atenção com o leitor e a negligência com a disseminação de uma informação errada.

Nesse sentido, os veículos jornalísticos têm muito a aprender com as marcas, que mostram crescente preocupação em responder a seus clientes nas redes sociais. Algumas empresas criaram até o chamado SAC 2.0, com perfis dedicados exclusivamente a ouvir e responder críticas, dúvidas e reclamações.

Diante do triste contexto apresentado, temos que concordar com o professor Eugênio Bucci, que enfatiza, em “Sobre ética e imprensa”: “É como se a imprensa proclamasse: minha função é informar o público, mas os meus métodos não são da conta de mais ninguém – eles são bons, corretos e justos por definição” (BUCCI, 2000: 39).

Bibliografia
BUCCI, Eugenio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Cia das Letras, 2000
NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. São Paulo: Contexto, 2002

Comentário da semana: o menino, o deputado e o jornalismo genuíno

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

A veiculação da “entrevista” do deputado José Genoino (PT-SP) pelo CQC na semana passada – 25 de março – é mais um capítulo lamentável da história recente da televisão brasileira. A forma como foi obtida a declaração do parlamentar e o alarde sobre o conteúdo dela permitem refletir sobre a qualidade da programação da TV aberta, sobre a ética da comunicação e sobre o papel da mídia na sociedade. Não é à toa que a tal “entrevista” tenha se tornado um tema polêmico nas redes sociais na semana que passou, mobilizando opiniões de todas as cores.

Exibido pela TV Bandeirantes desde 2008, o CQC é um dos programas de maior sucesso da emissora, reproduzindo o formato original argentino em que seus apresentadores perseguem celebridades e políticos “custe o que custar”. Trajados com ternos pretos e óculos escuros, os CQCs parecem ter uma única missão: constranger seus entrevistados, fazendo perguntas capciosas ou flagrando-os em situações de embaraço. O desconforto dos abordados fica visível quando percebem a abordagem, e isso gera a “graça” do programa. O efeito desejado é que o CQC cumpre uma certa vingança do espectador ao mostrar o quão ridículo é aquele ator famoso ou quão patético é o poderoso político. Mas será mesmo?

Simulação

Com humor ácido, aparentemente sem piedade e determinado a expor seus entrevistados ao vexame, o programa recorre a técnicas jornalísticas, mas o CQC não faz jornalismo! Seu elenco persegue fontes, confronta versões, cerca os poderosos e provoca os entrevistados com suas indagações de duplo sentido. O bom jornalismo também pode se valer disso, mas o fato de o CQC lançar mão de técnicas jornalísticas não é suficiente para enquadrá-lo como um programa jornalístico. Afinal, o que caracteriza uma profissão ou atividade não é exclusivamente o uso de técnicas, mas também uma ética específica, a adoção de uma cultura profissional, um conjunto de conhecimentos próprios, um foco e uma vocação. O CQC recorre ao estilo jornalístico por conveniência e não por vocação, já que sua busca é o riso, o humor, a diversão do espectador. O CQC se vale do verniz jornalístico para ter acesso a certos ambientes, pessoas e circunstâncias. Portanto, mimetiza, imita, simula o jornalismo.

Alguém pode argumentar que o CQC seja um gênero híbrido, o que me parece uma segunda falácia, uma saída honrosa para não ser nem uma coisa nem outra e ampliar assim suas possibilidades de produção, criar novos quadros e veicular outros conteúdos.

Outros três fatores mostram como o CQC não é um programa jornalístico: todos os prêmios que recebeu até então – entre os quais o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) – são na condição de programa humorístico; a produção não está sob responsabilidade da direção de jornalismo da emissora; e a própria Bandeirantes afirmou que o CQC faz humor, em resposta ao questionamento de Maurício Stycer, colunista do UOL, sobre o caso de José Genoino. Dessa forma, quando o CQC diz que está prestando um serviço jornalístico, não é propriamente verdadeiro, mas apenas uma declaração genérica que pode confundir o público.

A “entrevista” de José Genoino veiculada em 25 de março é um exemplo dessa confusão. Há meses, o programa aborda o deputado com perguntas embaraçosas, buscando uma declaração sobre o caso do mensalão. Claramente contrariado, o político se nega a falar, tranca o rosto e tenta escapar do cerco. Foi assim diversas vezes, e o silêncio de Genoino se tornou parte de uma anedota no programa. Obter uma resposta se tornou uma questão de honra do programa que incomoda os poderosos, custe o que custar. Daí que a produção recorreu a uma estratégia inusitada para extrair declarações do político, escalando uma criança para fazer isso. O menino João Pedro Carvalho tem dez anos e é ator. Ele se passou por uma criança que queria um autógrafo de Genoino em um livro, acompanhado por seu suposto pai. Ambos foram recebidos no gabinete do parlamentar em Brasília, e no encontro, o garoto fez perguntas ambíguas sobre corrupção e o caso do mensalão. Num misto de malícia e ingenuidade, o menino faz o trabalho dos homens de terno do CQC e constrange Genoino, que deixa escapar a frase “O PSDB não foi condenado no Mensalão porque tem lábia”. A declaração se torna o “gancho” da “entrevista”, e é alardeado pelos apresentadores como se fosse uma vitória conseguir que o político falasse ao programa e apresentasse algo realmente novo no caso. Nem uma coisa nem outra.

Condenação

Antes que me acusem de estar protegendo José Genoino, reforço: ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão, deve responder por isso, e é lamentável que ainda esteja ocupando uma cadeira no parlamento brasileiro. Seu julgamento e condenação são fatos e foram exaustivamente acompanhados pela sociedade brasileira. A assunção de uma vaga na Câmara de Deputados é absurda, nesse contexto, já que suscita a impressão de que Genoino foi premiado e não condenado… Desta forma, não estou a ignorar o ocorrido com o político, apenas questiono a forma como o CQC retornou ao caso, passando ao seu público a impressão de que havia obtido alguma novidade.

Em termos de informação, a “declaração” de Genoino não traz nenhum dado novo ao caso, pois se trata de uma opinião pessoal, um juízo particular. Nos termos da ética jornalística, a forma como foi obtida a “entrevista” é altamente questionável. Criar uma cilada para conseguir a fala do deputado é legítimo? Usar uma criança para abordá-lo e “extrair” informação é apropriado? Convencer um ator mirim a se passar por uma criança que faz perguntas inocentes é correto? Quando é admissível captar imagens em ambiente privado, sem conhecimento da fonte? A obtenção da fala do político justifica qualquer tipo de abordagem, como mentir e usar falsa identidade? Em nome do que se pode fazer isso?

Alguém pode contra-argumentar: Genoino foi condenado pelo STF, é um corrupto atestado pela maior corte do país, e merece isso! Eu pergunto: essa condenação nos permite fazer qualquer tipo de ataque? Ao ser condenada por corrupção, uma pessoa perde todos os seus demais direitos, como a privacidade, intimidade e respeito mínimo? Sob o selo da condenação, tudo pode ser feito contra uma pessoa? Não estaríamos ampliando sua pena? Agindo assim, não estaríamos todos praticando um linchamento social superior à sentença determinada pela justiça?

A “entrevista” de Genoino ao CQC nos incita a pensar sobre limites para o humor, o jornalismo e a comunicação de massa. Evidentemente, não se trata de censura de Estado ou coisa semelhante. Não é o Estado quem tem que arbitrar sobre isso, mas a sociedade, a comunidade para a qual a programação é dirigida. Independente de ser jornalístico ou humorístico, o CQC é um programa transmitido massivamente por sinal público de radiodifusão, que depende de concessão pública. Essa licença é dada pelo Congresso Nacional, tem duração prevista e contrapartidas sociais e culturais previstas em lei. Isto é, existem limites legais para os conteúdos veiculados, que devem atender às expectativas da sociedade e não contrariar os seus interesses. Mas além dos limites da lei, há algo que os precede: a noção da conveniência e oportunidade. A própria classe artística – os humoristas do CQC – deve ter alguma noção de limite, de algum momento ou circunstância de total inconveniência de uma piada ou abordagem. É apropriado, por exemplo, fazer piadas desrespeitosas sobre uma pessoa no seu funeral? É admissível gozar com alguém que esteja em situação vexatória, humilhante ou vulnerável? Isso é autocensura? Não é, eu chamo isso de compostura, de limite último, aquele que garante um mínimo de respeito pelo outro.

Notem que respeitar não é reverenciar. Tratar outra pessoa com respeito não é se curvar a ela, submeter-se ou enaltecê-la. É apenas tratá-la como uma igual. Equipará-la a si mesmo. Ter consideração é, então, admitir que à sua frente haja alguém que mereça algum respeito ou atenção. É a drástica diferença entre tratar alguém como sujeito ou como objeto. No caso do humorismo, é a distinção entre rir com alguém ou rir de alguém. Parece pouco, mas não é.

Reflexão

Perde o humorismo com essas diferenças? Talvez. Mas perdemos todos muito mais se mantivermos as coisas como estão. No caso em que discutimos aqui, o CQC não apenas desrespeitou a pessoa José Genoino, mas também seu público na medida em que subestimou sua inteligência dizendo que o político havia falado ao programa. Não falou. Ele estava conversando com um menino em seu gabinete e o que disse foi simplesmente irrelevante, típico do pior jornalismo declaratório.

A estratégia do CQC para fazer o político falar “custe o que custar” equivale, guardadas as devidas proporções, a quando o repórter levanta o queixo do algemado na delegacia, para que a câmera possa captar a imagem de seu rosto, tão característica de programas policialescos. Forçar a falar é forçar a se mostrar, tipicamente justiceiro. As situações do algemado na delegacia e do político enganado são bem distintas, mas ambas nos levam a pensar: mesmo tendo feito atrocidades, podemos extrair e anular todos os outros direitos dessas pessoas? É o jornalismo quem julga o caráter das pessoas? Humoristas são vingadores da sociedade? Os meios de comunicação podem “compensar” as injustiças sociais que colecionamos diariamente? A mídia é o novo judiciário?

Os questionamentos acima me causam calafrios porque apontam para uma situação bastante perigosa em termos de controle social e ausência total de limites para alguns atores ou organizações. Não acho que o Estado possa arbitrar sobre tudo na vida humana, nem que a mídia possa prescindir de limites. A sociedade é muito complexa e todo poder precisa – por definição – ter limites, sob risco de ficarmos reféns dele. É lamentável o caso Genoino-CQC, mas por outro lado esta é uma grande oportunidade para discutirmos que TV nós queremos, que TV esperamos, qual TV podemos ter.

Comentário objETHOS: Aos acusados, o ônus da prova…

Samuel Lima
Docente da UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador objETHOS

Motivado pela publicação de duas reportagens na Folha de S. Paulo, contestadas pelas fontes e igualmente por Susana Singer (ombudsman, na coluna: http://migre.me/c5Xo2), pensava em discutir sobre a distância que pode separar o trabalho da reportagem e a edição, em sua forma final (títulos, olhos, legendas, linhas finas e outros elementos gráficos e visuais), na mídia impressa.

Contudo, confesso que fui atropelado por outra matéria publicada no diário paulista e mudei o rumo da prosa. A reportagem, intitulada “Relação com Lula explica influência de ex-assessora” é um primor do que se poderia chamar de irresponsabilidade social da mídia. Num texto de exatos 4.169 caracteres (com espaços), o autoconsiderado “maior jornal impresso do país” ignora o princípio democrático da presunção da inocência e publica uma página (com chamada de capa – “Poder de assessora vem de relação íntima com Lula”, edição de 1º/12/12) digna das melhores revistas de fofocas. Faltam rigor, fundamento, provas da tal “relação”, enfim um exemplo de mau jornalismo.

O texto (Editoria Poder, p. A5) evidencia ter passado por rigorosa revisão. Juridicamente prevenido, em nenhum momento qualifica de “amorosa” a suposta relação íntima do ex-presidente Lula com Rosemary Noronha (ex-funcionária do escritório da Presidência da República, em São Paulo e pivô da “Operação Porto Seguro”). Contudo, insinua do lide à última linha que essa pode ter sido a fonte do suposto poder da assessora:

A influência exercida pela ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, no governo federal, revelada em e-mails interceptados pela operação Porto Seguro, decorre da longa relação de intimidade que ela manteve com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Rose e Lula conheceram-se em 1993. Egressa do sindicato dos bancários, ela se aproximou do petista como uma simples fã. O relacionamento dos dois começou ali, a um ano da corrida presidencial de 1994. (http://migre.me/cdls3). [Grifos meus]

A reportagem não explica, tampouco informa que tipo de relacionamento Lula e sua ex-assessora mantinham, desde 1993. Deixa sempre nas entrelinhas a suspeita, no jogo sórdido de um texto editado com lupa. Nem sua atual companheira é poupada: “Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido” (cit.). A exposição política da vida íntima se justificaria, como previsto nos bons manuais de Jornalismo, se fosse elo efetivo de um assunto relevante, de inconteste interesse público. Não parece ser o caso. Apenas as revistas Veja e Época, que misturam jornalismo com publicismo com viés nitidamente reacionário, compraram a ideia.

Aguardei a coluna de Susana Singer, na edição do dia seguinte (domingo, 02/12). Sob o título “Íntimo e pessoal”, a jornalista procura justificar, de todas as formas possíveis, a escolha editorial da Folha. Singer faz uma interpretação inusitada da “reportagem” e revela aquilo que não está escrito, por zelo jurídico ou alguma nesga de pudor jornalístico. Observem a sua leitura da matéria:

Sem usar a palavra “amante”, o jornal conta que, nas 23 viagens internacionais em que Rosemary acompanhou Lula, a então primeira-dama Marisa Letícia nunca estava. Segundo a reportagem, havia um esquema especial que permitia o acesso à suíte presidencial nessas escapadas. [Grifos meus]

No entanto, a ombudsman que deveria ser a defensora dos direitos dos leitores, vai além. Depois de tentar confundir, com a tese de que “o jornalismo brasileiro costuma preservar a intimidade de seus políticos” (ela esqueceu o “Caso Miriam Cordeiro”, ex-mulher de Lula, nas eleições de 1989 – que o acusou de tê-la pressionado a fazer aborto), Singer enfim apresenta uma saída ao mau jornalismo praticado pela Folha. E escreve, na boa:

Se o ex-presidente tiver incensado Rosemary por causa de um romance, isso teve consequências políticas. (…) Só que o trabalho não terminou. Foi relevante mostrar ao leitor de onde emanava o poder de Rosemary, mas, a partir de agora, detalhes de alcova, por mais tentadores, não interessam. O importante é investigar se o ex-presidente esteve envolvido no suposto esquema criado pela sua então assessora. (http://migre.me/cdmiK). [Grifos meus]

Investigar se o ex-presidente Lula está envolvido num suposto esquema de tráfico de influência e corrupção é de altíssimo interesse público e inconteste relevância. Mas, percebam que há um “SE” na abertura dessa passagem final da coluna de Singer que delata o espírito do jogo antidemocrático do tipo “se colar, colou”. Uma reportagem que acusa um ex-presidente da República de ser partícipe num esquema de corrupção, de quebra atribuindo-lhe um relacionamento amoroso, deveria se cercar de informações, cuidados, provas irrefutáveis – e não se amparar em fontes como “integrantes do corpo diplomático” e “oficiais da Aeronáutica, ouvidos no anonimato” – que não sustentam a história do suposto romance.

Leão Serva (in “Jornalismo e desinformação”) entende edição como “a organização das informações conforme as regras do meio e do veículo específico e conforme a lógica do grupo incumbido do trabalho de editar, a compreensão que ele tem dos fatos e o que supõe ser o interesse e a capacidade de entendimento de seu receptor”. No caso em tela, parece claríssima a intenção do Grupo Folha de impor um desgaste político adicional a um dos mais populares presidentes da curtíssima história democrática do país.

Por outro lado, o pesquisador Fernando Paulino (UnB), propõe, resgatando um conceito de Claude-Jean Bertrand (Media Accountability Systems ou MARS) “que a atuação do ombudsman possa se constituir como um MARS, estimulando as instituições de comunicação a serem mais rigorosas com a produção e a divulgação da informação” (in “Vitrine vidraça”, organizado por Rogério Christofoletti). Susana Singer, neste caso, atuou como “advogada” do seu jornal, distanciando-se do leitor e do interesse público.

Enfim, voltando à reportagem do suposto romance entre Lula e sua ex-assessora, nenhuma fonte fundamental confirma a história; nenhum dos envolvidos diretamente foi ouvido (Lula, Maria Letícia, sua esposa, e a própria Rosemary Noronha). Mesmo assim, o jornal publica a matéria, com chamada de capa. O que explica essa decisão? Mau jornalismo pura e simplesmente? Protagonismo político antidemocrático? Leia e tire suas conclusões… Mas adianto: o texto poderia ser publicado, sem cortes, numa edição especial das revistas que se prestam às fofocas sobre a vida de celebridades.

Comentário objETHOS: O grupo Clarín e a liberdade de expressão

Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

A denúncia judicial feita na quinta-feira passada, 22 de novembro, pelo grupo Clarín, da Argentina, contra vários jornalistas daquele país, entre eles alguns de Página/12 , de Tiempo Argentino e do programa 6,7,8 mereceu o repúdio de grande parte dos profissionais, entre eles os afiliados ao Foro de Periodismo Argentino, muitos dos quais pertencentes ao próprio grupo denunciante.

A atitude do grupo Clarín, que reclama com insistência de perseguição do governo argentino em relação à “liberdade de expressão”, demonstra que ele mesmo parece não conseguir conviver com a controvérsia e a democracia. Na ditadura militar argentina (1976-1983) apoiou a lógica de militares, torturadores e assassinos, silenciando ou mesmo colaborando com o regime. Agora, investe contra jornalistas, acusando-os de incitar a violência – ainda que por meio de investigações, coberturas e opiniões- e de serem oficialistas. Talvez porque sejam, em parte, os mesmos que expõem interesses escusos do grupo e que, como jornalistas do programa 6,7,8, por exemplo, até mesmo investiguem as corrupções do grupo e as relacione a favores do poder econômico para atacar o governo.

O que chama a atenção é o dúbio discurso. De um lado, a plena liberdade de expressão para si; de outro, a liberdade de expressão controlada quando não agrada ao grupo. Não é novidade, e qualquer semelhança não é coincidência quando lembrarmos de parte da mídia brasileira e de seus negócios financeiros e de seus interesses políticos e ideológicos.

O presidente do Centro de Estudos Legais e Sociais da Argentina, jornalista Horácio Verbitsky, declarou que é igualmente grave a intimidação a jornalistas e à liberdade de expressão, seja partindo do Estado, seja partindo do grupo Clarín. Verbitsky, preso durante a ditadura militar e autor de “O voo” (sobre presos políticos jogados vivos ao mar) e de “Cristo vence” (que trata do apoio da Igreja Católica argentina aos torturadores durante o regime), sabe do que está falando. E sabe do que está falando porque conhece o apoio e sustentação informativa do grupo Clarín aos militares golpistas à época.

Para o colunista Mario Wainfield, de Página/12, do ponto de vista jurídico a representação do grupo Clarín busca criminalizar a opinião ou a informação. O grupo Clarín tentou reagir, argumentando que os jornalistas estão apenas demandados como testemunhas, mas os inclui na mesma lista de acusados de incitação à violência, integrada, entre outros, por funcionários públicos críticos do Clarín, ainda que exercendo atividades jornalísticas.

Parece ficar clara a intenção de Clarín de reagir ao contraditório. Daí tamanha reação entre grupos não vinculados ao Clarín e de tantas organizações sociais e de vários jornalistas argentinos.

Para Wainfield, “é um precedente infausto e inédito. Jamais um meio de difusão , em um período democrático, procurou condenação de jornalistas por delito de opinião. Um recorde para as piores páginas do Guiness”. E acrescenta que a “representação é insustentável juridicamente. Politicamente, é uma provocação e uma tentativa de amedrontar”.

Diferentes organizações criticaram a ação do Clarín. O Conselho de Adeministração de Diários e Jornais Regionais Argentinos considerou que perseguir jornalistas pelas opiniões é uma “ inaceitável pressão ao livre exercício da profissão” . E a entidade considera que esta “é uma antiga prática autoritária e antidemocrática por parte daqueles que sentem que detêm o poder real em nossa Argentina” . O Foro de Periodismo Argentino (Fopea), que congrega profissionais da área, solicitou ao grupo que retire a denúncia feita contra os jornalistas.

A dificuldade do grupo Clarín em lidar com as críticas, segundo alguns analistas, é tentativa de se manter hegemônico no mercado diante de nova legislação que se impõe para garantir diversidade de mídias e de novas mídias, que possibilitaria maior democracia informativa e contraditório sociais. Trata-se de questão, além de política, também econômica.

De acordo com Mario Oporto, deputado argentino da Frente pela Vitória (FpV), desde o final da ditadura não havia tamanho ataque ao livre exercício do jornalismo e da opinião: “desde 1983 não havia, por parte do Estado nem das empresas jornalísticas da Argentina, nenhum plano tão extremo para silenciar trabalhadores de imprensa. Até agora, tínhamos debates ideológicos públicos, mas, ainda que em desacordo, ninguém havia considerado passar da discussão ao terreno da censura, da mordaça judicial ou da prisão. A denúncia penal do Grupo Clarín contra os jornalistas é um ataque inédito à liberdade de expressão”.

Portanto, parece que o grupo Clarín, tal como a Sociedade Interamericada de Imprensa, da qual é associado e um de seus baluartes, tem uma visão muito particular da liberdade de expressão. Ela atende por vários nomes.

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