objETHOS retorna em fevereiro
O site do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) retorna com sua atualização semanal em fevereiro, logo após o recesso de final de ano e as férias escolares.
A equipe agradece as mais de 87 mil visitas neste ano, quando o site bateu todos os recordes de acesso e alcançou 77% de crescimento de suas estatísticas. Renovamos o convite: navegue por nossos conteúdos.
Comentário objETHOS: Aos acusados, o ônus da prova…
Samuel Lima
Docente da UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador objETHOS
Motivado pela publicação de duas reportagens na Folha de S. Paulo, contestadas pelas fontes e igualmente por Susana Singer (ombudsman, na coluna: http://migre.me/c5Xo2), pensava em discutir sobre a distância que pode separar o trabalho da reportagem e a edição, em sua forma final (títulos, olhos, legendas, linhas finas e outros elementos gráficos e visuais), na mídia impressa.
Contudo, confesso que fui atropelado por outra matéria publicada no diário paulista e mudei o rumo da prosa. A reportagem, intitulada “Relação com Lula explica influência de ex-assessora” é um primor do que se poderia chamar de irresponsabilidade social da mídia. Num texto de exatos 4.169 caracteres (com espaços), o autoconsiderado “maior jornal impresso do país” ignora o princípio democrático da presunção da inocência e publica uma página (com chamada de capa – “Poder de assessora vem de relação íntima com Lula”, edição de 1º/12/12) digna das melhores revistas de fofocas. Faltam rigor, fundamento, provas da tal “relação”, enfim um exemplo de mau jornalismo.
O texto (Editoria Poder, p. A5) evidencia ter passado por rigorosa revisão. Juridicamente prevenido, em nenhum momento qualifica de “amorosa” a suposta relação íntima do ex-presidente Lula com Rosemary Noronha (ex-funcionária do escritório da Presidência da República, em São Paulo e pivô da “Operação Porto Seguro”). Contudo, insinua do lide à última linha que essa pode ter sido a fonte do suposto poder da assessora:
A influência exercida pela ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, no governo federal, revelada em e-mails interceptados pela operação Porto Seguro, decorre da longa relação de intimidade que ela manteve com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Rose e Lula conheceram-se em 1993. Egressa do sindicato dos bancários, ela se aproximou do petista como uma simples fã. O relacionamento dos dois começou ali, a um ano da corrida presidencial de 1994. (http://migre.me/cdls3). [Grifos meus]
A reportagem não explica, tampouco informa que tipo de relacionamento Lula e sua ex-assessora mantinham, desde 1993. Deixa sempre nas entrelinhas a suspeita, no jogo sórdido de um texto editado com lupa. Nem sua atual companheira é poupada: “Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido” (cit.). A exposição política da vida íntima se justificaria, como previsto nos bons manuais de Jornalismo, se fosse elo efetivo de um assunto relevante, de inconteste interesse público. Não parece ser o caso. Apenas as revistas Veja e Época, que misturam jornalismo com publicismo com viés nitidamente reacionário, compraram a ideia.
Aguardei a coluna de Susana Singer, na edição do dia seguinte (domingo, 02/12). Sob o título “Íntimo e pessoal”, a jornalista procura justificar, de todas as formas possíveis, a escolha editorial da Folha. Singer faz uma interpretação inusitada da “reportagem” e revela aquilo que não está escrito, por zelo jurídico ou alguma nesga de pudor jornalístico. Observem a sua leitura da matéria:
Sem usar a palavra “amante”, o jornal conta que, nas 23 viagens internacionais em que Rosemary acompanhou Lula, a então primeira-dama Marisa Letícia nunca estava. Segundo a reportagem, havia um esquema especial que permitia o acesso à suíte presidencial nessas escapadas. [Grifos meus]
No entanto, a ombudsman que deveria ser a defensora dos direitos dos leitores, vai além. Depois de tentar confundir, com a tese de que “o jornalismo brasileiro costuma preservar a intimidade de seus políticos” (ela esqueceu o “Caso Miriam Cordeiro”, ex-mulher de Lula, nas eleições de 1989 – que o acusou de tê-la pressionado a fazer aborto), Singer enfim apresenta uma saída ao mau jornalismo praticado pela Folha. E escreve, na boa:
Se o ex-presidente tiver incensado Rosemary por causa de um romance, isso teve consequências políticas. (…) Só que o trabalho não terminou. Foi relevante mostrar ao leitor de onde emanava o poder de Rosemary, mas, a partir de agora, detalhes de alcova, por mais tentadores, não interessam. O importante é investigar se o ex-presidente esteve envolvido no suposto esquema criado pela sua então assessora. (http://migre.me/cdmiK). [Grifos meus]
Investigar se o ex-presidente Lula está envolvido num suposto esquema de tráfico de influência e corrupção é de altíssimo interesse público e inconteste relevância. Mas, percebam que há um “SE” na abertura dessa passagem final da coluna de Singer que delata o espírito do jogo antidemocrático do tipo “se colar, colou”. Uma reportagem que acusa um ex-presidente da República de ser partícipe num esquema de corrupção, de quebra atribuindo-lhe um relacionamento amoroso, deveria se cercar de informações, cuidados, provas irrefutáveis – e não se amparar em fontes como “integrantes do corpo diplomático” e “oficiais da Aeronáutica, ouvidos no anonimato” – que não sustentam a história do suposto romance.
Leão Serva (in “Jornalismo e desinformação”) entende edição como “a organização das informações conforme as regras do meio e do veículo específico e conforme a lógica do grupo incumbido do trabalho de editar, a compreensão que ele tem dos fatos e o que supõe ser o interesse e a capacidade de entendimento de seu receptor”. No caso em tela, parece claríssima a intenção do Grupo Folha de impor um desgaste político adicional a um dos mais populares presidentes da curtíssima história democrática do país.
Por outro lado, o pesquisador Fernando Paulino (UnB), propõe, resgatando um conceito de Claude-Jean Bertrand (Media Accountability Systems ou MARS) “que a atuação do ombudsman possa se constituir como um MARS, estimulando as instituições de comunicação a serem mais rigorosas com a produção e a divulgação da informação” (in “Vitrine vidraça”, organizado por Rogério Christofoletti). Susana Singer, neste caso, atuou como “advogada” do seu jornal, distanciando-se do leitor e do interesse público.
Enfim, voltando à reportagem do suposto romance entre Lula e sua ex-assessora, nenhuma fonte fundamental confirma a história; nenhum dos envolvidos diretamente foi ouvido (Lula, Maria Letícia, sua esposa, e a própria Rosemary Noronha). Mesmo assim, o jornal publica a matéria, com chamada de capa. O que explica essa decisão? Mau jornalismo pura e simplesmente? Protagonismo político antidemocrático? Leia e tire suas conclusões… Mas adianto: o texto poderia ser publicado, sem cortes, numa edição especial das revistas que se prestam às fofocas sobre a vida de celebridades.
Comentário objETHOS: O grupo Clarín e a liberdade de expressão
Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
A denúncia judicial feita na quinta-feira passada, 22 de novembro, pelo grupo Clarín, da Argentina, contra vários jornalistas daquele país, entre eles alguns de Página/12 , de Tiempo Argentino e do programa 6,7,8 mereceu o repúdio de grande parte dos profissionais, entre eles os afiliados ao Foro de Periodismo Argentino, muitos dos quais pertencentes ao próprio grupo denunciante.
A atitude do grupo Clarín, que reclama com insistência de perseguição do governo argentino em relação à “liberdade de expressão”, demonstra que ele mesmo parece não conseguir conviver com a controvérsia e a democracia. Na ditadura militar argentina (1976-1983) apoiou a lógica de militares, torturadores e assassinos, silenciando ou mesmo colaborando com o regime. Agora, investe contra jornalistas, acusando-os de incitar a violência – ainda que por meio de investigações, coberturas e opiniões- e de serem oficialistas. Talvez porque sejam, em parte, os mesmos que expõem interesses escusos do grupo e que, como jornalistas do programa 6,7,8, por exemplo, até mesmo investiguem as corrupções do grupo e as relacione a favores do poder econômico para atacar o governo.
O que chama a atenção é o dúbio discurso. De um lado, a plena liberdade de expressão para si; de outro, a liberdade de expressão controlada quando não agrada ao grupo. Não é novidade, e qualquer semelhança não é coincidência quando lembrarmos de parte da mídia brasileira e de seus negócios financeiros e de seus interesses políticos e ideológicos.
O presidente do Centro de Estudos Legais e Sociais da Argentina, jornalista Horácio Verbitsky, declarou que é igualmente grave a intimidação a jornalistas e à liberdade de expressão, seja partindo do Estado, seja partindo do grupo Clarín. Verbitsky, preso durante a ditadura militar e autor de “O voo” (sobre presos políticos jogados vivos ao mar) e de “Cristo vence” (que trata do apoio da Igreja Católica argentina aos torturadores durante o regime), sabe do que está falando. E sabe do que está falando porque conhece o apoio e sustentação informativa do grupo Clarín aos militares golpistas à época.
Para o colunista Mario Wainfield, de Página/12, do ponto de vista jurídico a representação do grupo Clarín busca criminalizar a opinião ou a informação. O grupo Clarín tentou reagir, argumentando que os jornalistas estão apenas demandados como testemunhas, mas os inclui na mesma lista de acusados de incitação à violência, integrada, entre outros, por funcionários públicos críticos do Clarín, ainda que exercendo atividades jornalísticas.
Parece ficar clara a intenção de Clarín de reagir ao contraditório. Daí tamanha reação entre grupos não vinculados ao Clarín e de tantas organizações sociais e de vários jornalistas argentinos.
Para Wainfield, “é um precedente infausto e inédito. Jamais um meio de difusão , em um período democrático, procurou condenação de jornalistas por delito de opinião. Um recorde para as piores páginas do Guiness”. E acrescenta que a “representação é insustentável juridicamente. Politicamente, é uma provocação e uma tentativa de amedrontar”.
Diferentes organizações criticaram a ação do Clarín. O Conselho de Adeministração de Diários e Jornais Regionais Argentinos considerou que perseguir jornalistas pelas opiniões é uma “ inaceitável pressão ao livre exercício da profissão” . E a entidade considera que esta “é uma antiga prática autoritária e antidemocrática por parte daqueles que sentem que detêm o poder real em nossa Argentina” . O Foro de Periodismo Argentino (Fopea), que congrega profissionais da área, solicitou ao grupo que retire a denúncia feita contra os jornalistas.
A dificuldade do grupo Clarín em lidar com as críticas, segundo alguns analistas, é tentativa de se manter hegemônico no mercado diante de nova legislação que se impõe para garantir diversidade de mídias e de novas mídias, que possibilitaria maior democracia informativa e contraditório sociais. Trata-se de questão, além de política, também econômica.
De acordo com Mario Oporto, deputado argentino da Frente pela Vitória (FpV), desde o final da ditadura não havia tamanho ataque ao livre exercício do jornalismo e da opinião: “desde 1983 não havia, por parte do Estado nem das empresas jornalísticas da Argentina, nenhum plano tão extremo para silenciar trabalhadores de imprensa. Até agora, tínhamos debates ideológicos públicos, mas, ainda que em desacordo, ninguém havia considerado passar da discussão ao terreno da censura, da mordaça judicial ou da prisão. A denúncia penal do Grupo Clarín contra os jornalistas é um ataque inédito à liberdade de expressão”.
Portanto, parece que o grupo Clarín, tal como a Sociedade Interamericada de Imprensa, da qual é associado e um de seus baluartes, tem uma visão muito particular da liberdade de expressão. Ela atende por vários nomes.
Segunda conferência internacional sobre ética
A Faculdade de Comunicação da Universidade de Sevilha, na Espanha, está divulgando a chamada de textos para a segunda edição da Conferência Internacional sobre Ética Jornalística. O evento acontece em abril de 2013, e contribuições são aceitas até 15 de março.
Mais informações em: http://congreso.us.es/mediaethics/index.html
Comentário objETHOS: Quando é preciso ser parcial
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
A semana que passou trouxe alarme social e uma coleção de manchetes inédita e inesquecível para os catarinenses. Por conta da sucessão de ataques de criminosos, a população de dezesseis cidades se sentiu como se vivesse em grandes centros metropolitanos, muitas vezes mergulhados na insegurança pública. Entre a segunda-feira, 12 de novembro, e o domingo, 18, bases policiais foram alvejadas, ônibus e veículos particulares foram queimados, totalizando 58 ações. A concentração dos atentados em poucos dias e sua visibilidade foram tantas que as ocorrências no interior de São Paulo e na própria capital paulista chegaram a ser ofuscadas no noticiário nacional. O episódio mostrou a fragilidade da população em ações coordenadas do crime, mas revelou também um lado do Estado que não se quer acreditar e outro da imprensa que os jornalistas teimam em esquecer.
Os dias dos atentados em Santa Catarina tornaram mais nítido para todos que governo, população e imprensa não estão exatamente do mesmo lado. Nos primeiros dois dias de ataques, o Estado insistiu em minimizar as ocorrências, um comportamento-padrão repetido em outras geografias. A estratégia está apoiada na ideia não totalmente comprovada de que não se deve dar créditos ao inimigo, sob pena de fortalecer seus atos. O chefe da polícia desdenha das ações, o governador não aparece para dar satisfações, e assim, o Estado espera mandar um recado para a população de que tudo está sob controle. Nos corredores palacianos, de forma subterrânea, o que se vê é a correria, a tomada de decisões intempestivas, a busca de compreensão do que está acontecendo e a tentativa de antecipação dos movimentos do oponente. Seja por questões estratégicas – para não revelar o que está fazendo -, seja por despreparo – para não revelar o que não fez -, o Estado deixa o cidadão comum sem a devida informação. A ironia é que o Estado existe para servir o cidadão, atendê-lo em suas necessidades, protegê-lo.
Tom conciliador
Entre o governo e a população, quem poderia construir pontes de compreensão é o jornalismo. Os meios de comunicação atuariam para desvelar o lado oculto dos ataques, para contrapor as diversas versões dos fatos e para, acima de tudo, tornar o cidadão mais bem informado sobre o que está ocorrendo. Enquanto o Estado se orienta pela busca da ordem – muitas vezes, revestindo seus atos com opacidade -, o jornalismo deveria se guiar pela clareza, pela nitidez dos acontecimentos.
Entretanto, parece vigorar nas redações um raciocínio de que, em tempos de crise, é preciso dar uma trégua ao Estado para que a ordem seja restabelecida. É assim em desastres naturais, em que a mídia tenta atuar como um braço da Defesa Civil, prestando serviços que seriam uma extensão do Estado. Pelo que se viu, isso também acontece diante de ataques coordenados do crime organizado, quando sobressaem os desserviços. Tão surpresas quanto o cidadão, as redações externam nas manchetes algum despreparo para cobrir o assunto e muito de senso comum. As primeiras páginas gritam com o público, chacoalhando o leitor. Histeria, alarme social e medo coletivo são os espíritos dessas páginas, enquanto a informação vital – aquela que ajuda o leitor a tomar decisão, aquela que o ajuda a compreender o cenário complexo, aquela que permite que ele se proteja -, essa informação vital fica subsumida. Os dilemas se instalam nas mesas de editores: Como dar a notícia na dimensão precisa sem apelar para o sensacionalismo? Se o conjunto de ações é inédito, se sua intensidade é única, como não ressaltar isso nas matérias? Como buscar equilíbrio na cobertura quando a ordem social e a segurança pública se traduzem apenas como expressões nas bocas dos políticos e não nas ruas ou bairros?
O noticiário dos jornais de Santa Catarina oscilou na semana em questão. O Diário Catarinense tentou se conter: Escolta e ataques (15/11); “Deixa eu sair” (16/11); Varredura nos presídios começa por Santa Catarina (17/11); Porque o terror atacou (18/11).
O Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, mostrou-se distante: Facção criminosa recruta devedores (16/11); O pior presídio (17/11); Presos deram ordem para reduzir ataques (18/11).
Notícias do Dia, oscilou quase de de forma errante: Prisões, mortes e novos atentados (16/11, edição de Florianópolis); Atentados em SC – Mais ataques (16/11, edição de Joinville); “O pior já passou”, diz o governo (Joinville, 17 e 18/11); Segurança em alerta (Florianópolis, 19/11); Cai ritmo dos ataques no Estado (Joinville, 19/11).
A Notícia, o segundo maior jornal catarinense, só despertou quando a onda chegou perto da sede, em Joinville: Estado em alerta: Ataques chegam ao norte (18/11).
Deliberadamente mais impactante, a Hora de Santa Catarina intensificou a sensação geral de insegurança com seis manchetes: Noite de ataques (12/11); A que ponto chegamos (13/11); Isso, sim, é o fim do mundo (14/11); Quatro noites de terrorismo (16/11); Medo coletivo (17/11); Escoltas até quarta-feira (19/11).
Curiosamente, o diário que mais traduziu o sentimento geral da população é o que adota estética mais chamativa, linguagem direta e cobertura superficial. Mas também o que não assumiu o discurso tranquilizador insistido pelas autoridades, destoando dos demais, mesmo que cometendo alguns exageros.
Parcialidade sim!
A onda de ataques do crime organizado trouxe (mais uma vez) à tona que as redações podem padecer de uma certa miopia sobre o seu papel na sociedade. Embora o Estado tenha, constitucionalmente, o dever de proteger o cidadão, não são raras as vezes em que deixa o contribuinte sem informação ou sem serviços básicos. Nessas ocasiões, prevalecem as razões de Estado que podem colidir com o interesse público: para manter uma ordem aparente, as autoridades negam a realidade e ocultam informações importantes, alimentando a sensação de incerteza geral. De forma inaceitável, o Estado “protege” o cidadão da informação que não lhe poderia ser sonegada.
O jornalismo não tem que estar ao lado do Estado, mas sim da população. Nem sempre são coincidentes as posições do governo e do cidadão, pelo que se pode ver. Na guerra das versões, o sujeito das ruas fica sem amparo, sem saber, seja porque o Estado lhe nega, seja porque os jornalistas não lhe fornecem.
Num cenário de crise de confiança e de solvência, o jornalismo – cada vez mais! – precisa ficar ao lado da população, quando ela assiste bestializada à sucessão de ataques, da qual é a vítima mais evidente. Embora os ataques tenham sido contra algumas bases policiais, é o cidadão que mais sofre nessas ocasiões, pois é ele quem sai às pressas do ônibus prestes a ser incendiado; é ele quem se sente acuado pelo crime, pois não tem armas ou instrumentos de inteligência para reagir eventualmente. O Estado deve ser indagado pelos jornais; os repórteres não podem fazer as vezes de meros porta-vozes do governador para acalmar o cidadão; as redações devem buscar formas próprias de extrair as informações que o público espera e necessita; a polícia e os demais aparatos estatais não podem ser os únicos lados da história, e os detentores das versões mais privilegiadas. Isto é, o jornalismo precisa deixar de lado o pudor de ser parcial nessas ocasiões, e tomar o partido da população, mesmo que isso implique em contrariar os interesses de um governo ou de outro.
O descalabro dos presídios, as condições precárias em que vivem os policiais, a incapacidade do Estado de garantir a segurança de todos, o torpor e a própria desinformação governamental sobre os movimentos do crime organizado, tudo isso deve estar na pauta jornalística. Mas tão importante quanto ela é a clareza com que repórteres e editores devem ter sobre o papel a ser assumido nessa história toda: o jornalismo tem lado, e esse lado é o do público, não o das autoridades, dos conglomerados econômicos ou dos núcleos de poder. Fortalecer os laços da confiança que a população deposita sobre a mídia é essencial para um novo cenário comunicacional. Não só para “salvar” os veículos de informação, mas para fazer valer sua finalidade pública e sua justificativa social.
Comentário objETHOS: duas versões e uma imagem editorializada
Samuel Lima
Docente da UnB, professor-visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS
Dois grandes nomes do jornalismo mundial percebem, pelo mesmo ângulo, uma questão de fundo que atravessa a alma secular do Jornalismo. Cláudio Abramo e Carl Bernstein (da célebre cobertura do “Caso Watergate”) entendem que a missão maior do repórter é apurar a melhor versão da verdade – e publicá-la. Uso essa referência para discutir três versões da “verdade” professadas pelo jornal Folha de S. Paulo e dois telejornais da TV Globo (Bom Dia Brasil e o Jornal das Dez – da Globo News). O fato: um mega protesto que reuniu dezenas de milhares de argentinos, contra o governo de Cristina Kirchner, no último dia 8 de novembro (batizado nas redes sociais de “8N”).
No maior jornal diário brasileiro, esse acontecimento que mobilizou multidões na Argentina, ganhou o destaque na capa da edição de 09/11 (http://migre.me/bOlGS), com uma imagem central sobre a seguinte legenda:
MEGAPANELAÇO: Em Buenos Aires, milhares fizeram o maior protesto contra Cristina Kirchner, pedindo mais liberdade de expressão e repudiando um terceiro mandato (Mundo, A26, grifos meus).
Na hierarquia da Folha de S Paulo, os milhares de argentinos que protestaram contra o governo de Cristina Kirchner o fizeram: em primeiro lugar em defesa da suposta “liberdade de expressão” e, em segundo, contra um possível “terceiro mandato”. Temos aí, no limite, uma meia verdade. Moldando os fatos à visão editorial do diário paulista, o capeiro editorializou a imagem, como se poderá observar comparando o relato de outro repórter (Ariel Palácios, da Globo News) e a própria cobertura da imprensa portenha (Clarín).
A reportagem de Sylvia Colombo (direto de Buenos Aires), na editoria Mundo (09/11, p. A26) resume a motivação do protesto em três questões, acrescentando à legenda a preocupação com a “segurança”. Contudo, a jornalista da Folha escreve que: (a) o protesto foi organizado por opositores da presidente Cristina Kirchner; (b) os organizadores estimaram em 500 mil o total de participantes – a polícia não divulgou dados; (c) Os participantes do ato eram principalmente de classe média e alta.
A versão da verdade para o Clarín (ed. 09/11), o principal porta-voz da oposição ao governo de Kirchner, traduz-se em outro discurso, com sensíveis diferenças a suposta agenda da mobilização publicada na Folha. Confira:
La principal destinataria de las protestas fue la presidenta Cristina Kirchner. Las consignas fueron variadas: se vieron carteles rechazando su posible “re-reelección”; pidiendo por el fin de la inseguridad y mejor Justicia; se repetían quejas escritas y verbales contra la corrupción y la inflación, entre otros reclamos (http://migre.me/bOnAz). [Grifos meus]
Nos grifos acima, destacamos as questões: contra a re-reeleição de Cristina, o fim da insegurança (pública), melhor Justiça, contra a corrupção e a inflação. Um rol de motivos de envergadura pública muito mais consistente, inequivocamente, que os dois (no limite três, no texto da reportagem) resumidos pela Folha de S. Paulo.
As duas versões da Globo
Esse lapidar exercício de “publicar a melhor versão da verdade” encontra, em dois telejornais dessa emissora, um exemplo ainda mais visível e contraditório. O primeiro discurso jornalístico é da repórter Delis Ortiz, correspondente da TV Globo para a região do Mercosul. No Bom Dia Brasil (ed. 09/11), Ortiz começa jurando que o mega protesto não tinha “organizadores”, era fruto da magia das redes sociais, guiadas talvez pelo deus-mercado, divindade ancestral do deus Tupã:
A razão do protesto era leque de insatisfações: falta de segurança, inflação, corrupção, controles na economia e ameaças à liberdade de expressão. (…) A principal avenida da Capital, a 9 de julho, ficou repleta de gente com panelas, apitos e bandeiras. Valia tudo para mostrar o desgosto com o governo de Cristina Kirchner. (…) Não havia um líder que encarnasse o comando do panelaço. A convocação foi pelas redes sociais. (…) Há um ano [a presidente] tinha mais de 60% e agora está com 28% (http://migre.me/bOoyH). [grifos meus]
Comparemos agora esse relato com o do jornalista argentino Ariel Palácios, que trabalha na mesma emissora, no canal a cabo (Globo News, Jornal das Dez, ed. 08/11):
O “panelaço” desta noite tem dimensões significativas. Centenas de milhares de pessoas estão protestando em todo o País. (…) O leque de protestos é muito amplo, já que os manifestantes reclamam contra a escalada inflacionária – que a presidente Cristina diz que não existe –, dos escândalos de corrupção dos ministros e do vice-presidente, Amado Boudou, também reclamam contra as restrições que o governo Kirchner aplicou sobre o dólar [é a moeda que há quatro décadas que é o principal refúgio financeiro dos argentinos], contra o crescimento da criminalidade e, de quebra, protestam contra os luxos da presidente que há poucos dias ordenou o gasto equivalente a um milhão de reais para reformar um banheiro da Casa Rosada [palácio presidencial]. Os diversos partidos da oposição, tanto da esquerda quanto da direita, preferiram não participar ativamente do “panelaço”. (…) O momento não é exatamente positivo para a presidente Cristina. Uma pesquisa indica que a aprovação popular é de apenas 31,6%; outros 59,3% desaprovam a forma como ela está governando a Argentina (http://migre.me/bOq96). [Grifos meus]
No relato de Palácios, não há menção alguma à questão da terceira reeleição (bandeira não assumida pelo governo Kirchner), tampouco às possíveis ameaças às liberdades democráticas. O mega protesto é um sinônimo inequívoco, por supuesto, de vitalidade democrática do povo argentino. Por último, há divergências inclusive na precisão dos número de pesquisa citadas. Palácios cita dois institutos diferentes de pesquisa sobre a popularidade. Ortiz não faz nenhuma referência à origem do dado com o qual finaliza seu texto.
Novo ator político
O jornal La Nación ouviu alguns intelectuais argentinos logo após o “panelaço” (“El mensaje de las cacerolas, según los intelectuales”). Das inúmeras posições (acesse todas aqui: http://migre.me/bOCy8), destaco a do cientista político Vicente Palermo:
No hubo sorpresas. Tanto la composición social, una presencia masiva de la clase media sin sectores populares, como las consignas, en general sin agravios ni llamados destituyentes, estuvieron dentro de lo previsto. El Gobierno va a tener serios problemas para contraargumentar. Hay un nuevo sujeto político, diferente, con un comportamiento todavía difícil de prever y con capacidad para incidir en el tablero político.
Palermo reforça o perfil dos participantes (classe média, sem setores populares), mas evidencia com igual peso o fato de que a mega manifestação faz surgir um novo sujeito político, com capacidade de ação sobre o tabuleiro político daquele país.
Volto ao ponto de partida, bebo outra vez na fonte de Cláudio Abramo, quando ele discute (in “A regra do jogo”) a diferença entre interpretação e opinião, travestida de notícia, no discurso jornalístico:
A interpretação não é opinião. Pode se interpretar o desencadeamento, a concatenação dos fatos e o significado de certas coisas. Pode-se dizer: tal fato ocorreu porque antes havia ocorrido isto e amanhã pode ocorrer aquilo. É uma interpretação. A opinião fica um passo além. É quando se diz: isso aconteceu e está errado.
Nos relatos editorializados (na Folha, numa simbiose de texto e imagem), no caso da repórter Delis Ortiz é mais grotesco posto que ela fez sua “passagem” de texto no meio da passeata, fica evidente a tentativa de a mídia ocupar o espaço dos partidos políticos, na tentativa de ditar o debate público. Ao secundarizar a notícia, a mídia (Folha e TV Globo, neste caso específico) pratica um tipo de jornalismo às avessas, que tenta adequar a realidade ao seu discurso (relato), à revelia dos fatos e do distinto público. Mas, afinal, pra que serve o Jornalismo? Valho-me de Jack Fuller (apud Kovach e Rosenstiel, in “Os elementos do jornalismo”): “A meta principal do jornalismo é contar a verdade de forma que as pessoas disponham de informação para sua própria independência”. Ao enveredar por um caminho oposto, Folha e Globo desservem à sociedade e à democracia, porque tentam impor, a qualquer custo, um ponto de vista particular, de forma ilegítima, sem conexão com os fatos, protagonistas e contextos.
Comentário objETHOS: A criminalidade, os negócios e o jornalismo
Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
Recentes ataques a policiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis, a mando de facções criminosas que ordenam assassinatos em represálias a ações do Estado, estão na pauta cotidiana da mídia em seus diversos suportes tecnológicos, do impresso ao digital, das emissoras de rádio às de televisão. Não é novidade nem a ação e nem a cobertura jornalística. A novidade é o volume e a intensidade das ações.
Com tais fatos ocorrendo de forma generalizada e às portas da casa de cada um, a cobertura poderia ter mais densidade, regularidade e longevidade. Para cada criminoso preso e/ou assassinado, corresponde hoje uma reação tão ou mais preparada pelas organizações vinculadas ao narcotráfico, ao contrabando de armas, ao tráfico de mulheres e de menores. O Poder de tais organizações chega a ser superior ao do Estado em muitas circunstâncias e regiões, seja em volume dos “soldados” , seja em volume de dinheiro que circula, chega pela estrutura armamentista.
Há algumas questões que podem ser propostas.
Uma delas é se as organizações do crime poderiam avançar sem o aval, ainda que parcial, das instituições do Estado. Outra é sobre a ineficácia do próprio Estado para resolver questões estruturais, o que levaria um contingente populacional significativo à adesão a um dos lados da contradição social, no caso, aos que oferecem as garantias de uma vida mais digna e satisfatória, seja em termos de apoio à escolaridade e educação e/ou à assistência médica; à moradia; ao “emprego” e à própria “ aposentadoria”. O crime se estrutura para tal e tem eficácia para formar e garantir um enorme número de aliados. E uma terceira abordagem permitiria tratar do cinismo, isto é, até que ponto os que combatem e denunciam também não são, em parte, os que consomem e traficam?
Se na ponta de baixo encontramos menores entregando drogas e matando sob ordens do crime organizado, protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, na ponta de cima, que estimula a de baixo, há uma volumosa circulação de dinheiro e que ajuda a matar menores ou maiores e que os utiliza a seu favor quando conveniente. Ela transforma o narcotráfico, por exemplo, num dos negócios mais rentáveis do planeta. Ao seu redor, orbita uma constelação de celebridades, que podem incluir desde um ator-ídolo até um juiz federal; desde um governante do executivo até um jornalista famoso.
O tráfico e consumo de drogas é recorrente, regular e reiterado a cada dia em diversos organismos do crime mas não deixa de existir, ainda que de forma parcial, em organizações do estado e em organizações midiáticas.
Na ponta de baixo, o assassinato à queima-roupa; na de cima, uma preocupação com os rumos da sociedade. As duas pontas não se encontram. E, na mídia, pouca cobertura há que sintonize as duas.
O resultado é que a preocupação com a solução dos problemas não vem acompanhada de uma efetiva cobertura jornalística que mostre as duas e/ou as muitas pontas do mesmo negócio e da lógica da sobrevivência dos diversos grupos envolvidos com os negócios escusos do dia-a-dia. Afinal, como no Direito, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Mas também o discurso jornalístico moralizador e punitivo tem uma ineficácia gigantesca, dada a superficialidade e a efemeridade com que o tema é tratado nos noticiários.
A tal ineficácia, aliam-se campanhas midiáticas pelo enxugamento do Estado, contra reajustes salariais para categorias do serviço público e , simultaneamente, pela resolução imediata dos graves problemas da criminalidade. Se “todos somos responsáveis”, falta muita cobertura jornalística que junte os diversos fios da mesma trama. Em uma estrutura global em que empresas jornalística são sócias das armamentistas, agropecuárias e banqueiras, por exemplo, a autonomia e a vontade do profissional para propor, investigar e relatar é limitada por constrangimentos de toda ordem: ameaças de morte; pressões econômicas e políticas; falta de estrutura; baixos salários (que obriga a buscar um segundo emprego); e desinteresse em algo duradouro. Como instituição vinculada à vitalidade democrática, o jornalismo tradicional e ainda hegemônico, a continuar assim, corre o risco de ver seu espaço de legitimidade e credibilidade sociais reduzido a poucos e eventuais momentos. Ou seja, sofre um ataque de si mesmo em nome de algo que já não é mais jornalismo e sobre o qual pouca gente tem preocupação.
objETHOS lança mais um livro
Rogério Christofoletti e Samuel Lima, pesquisadores do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) preparam o lançamento de mais um livro: Reportagem, Pesquisa e Investigação. A obra reúne textos de jornalistas e pesquisadores brasileiros e argentinos que abordam a questão do método no jornalismo investigativo. Questões éticas, cenários e contextos, riscos profissionais e experiências acumuladas são abordados por nomes como Guillermo Mastrini, Sandra Crucianelli, Leandro Fortes, Daniela Arbex, Francisco José Castilhos Karam (pesquisador do objETHOS), Luciana Kraemer, Eduardo Meditsch, Antonio Brasil, Valci Zuculoto, Lila Luchessi, James Alberti, Mylton Severiano e Samuel Lima. O livro é um produto do 2º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), ocorrido em abril de 2012 em Florianópolis.
Para os organizadores, o jornalismo investigativo ganha, cada vez mais, importância e papel estratégico nas sociedades contemporâneas, na medida em que se transforma num instrumento dos cidadãos para conhecer mais, para ter acesso a informações insistentemente relegadas à obscuridade. No entanto, o jornalismo investigativo precisa buscar e aprimorar métodos de obtenção de dados, sistematização de informações, embalagem e difusão.









