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Comentário da Semana: O “V” e a 4K
Guilherme Longo Triches
Mestrando em Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS
Os eventos ocorridos em São Paulo na última semana têm gerado discussões por todo o Brasil. Novas manifestações têm sido ventiladas, bem como outros temas, que não só os 20 centavos, estão vindo à tona. Nas redes sociais pululam comentários sobre a intervenção da polícia, a legitimidade dos manifestantes e o olhar da imprensa sobre o ocorrido. Também são propostos nomes às manifestações. A maioria relacionada ao vinagre ou à letra “V”.
É certo que as autoridades utilizaram-se do poder de polícia de forma desproporcional. Também me parece claro que a manifestação, que é um direito, dirime o fato de que seus participantes também possuem deveres frente ao tecido social. No entanto, ao objETHOS cumpre comentar a atuação da imprensa.
Um dos comentários comuns nas redes é de que muitos veículos tradicionais de comunicação só mostraram um lado. Só os dados oficiais quanto a feridos – nenhum civil, segundo as estatísticas – foram veiculados. A imparcialidade, enquanto princípio do jornalismo, impõe que todos os lados sejam ouvidos. A polícia é só um dos lados. Caso não conseguisse a palavra de manifestantes frente toda àquela situação, a reportagem devia, não só mostrar as cenas, mas também questionar os dados policiais, diretamente ou pela fala de quem narrava as cenas.
Outro comentário corrente na internet diz respeito à omissão dos jornalistas quanto à realidade. Só as redes sociais estariam mostrando a verdade. O fato de muitos jornalistas saírem feridos ou presos aponta noutra direção. A reclamação de que o jornalista “fica em cima do muro” é o trunfo do profissional naquelas ocasiões. Em cima do muro, acompanharia o ocorrido com certo distanciamento. Misturado ao movimento, correu riscos desnecessários. A função do repórter é reportar. Ao entrar na multidão, faz parte dela. Quem faz parte, é parcial.
Muitos jornalistas não estiveram presentes nas manifestações. No entanto, valeram-se de vídeos e fotografias feitos por manifestantes para repercurtir o evento. Este não parece ser um posicionamento correto dos jornalistas. Se uns estiveram muito próximos, outros estiveram distantes e acompanharam por alguns recortes o que aconteceu. Seria necessária a câmera 4K, que a rede Globo apresentou nesta Copa das Confederações, para ver vídeos com completude de informação. Segundo a Globo, a câmera possui resolução altíssima, fato que possibilita gravar o todo, como uma grande angular, mas caso haja necessidade de aproximação, ela não perde qualidade de imagem.
Por fim, parafraseando Mauro Wolf, o jornalista, por estar imerso no mundo das notícias é que está mais preparado para dizer o que é ou não é notícia. Muitos manifestantes querem lutar por direitos. A visibilidade é decorrência do somatório de critérios de noticiabilidade contidos no ato. O jornalista é quem os relacionará. Quem quiser aparecer, que vá para a arquibancada, onde fatalmente a 4K o encontrará.
Comentário da semana: Jornalismo, ética e redes sociais – a reportagem e a verificação
Francisco José Castilhos Karam
Professor da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador do objETHOS
As recentes ondas de demissões de jornalistas em mídias brasileiras, popularmente e historicamente conhecidas como “passaralho”– sobretudo ocorridas em São Paulo, embora não se restrinjam aos profissionais da informação -, talvez seja a constatação mais cabal de que a informação jornalística não é mais – se é que um dia foi – o principal produto oferecido pelos veículos jornalísticos. No amplo espectro de interesses do campo da comunicação, o jornalismo é “mais um”, embora ele sirva, como discurso, para falar em “credibilidade” como fator central de tais mídias e para defender a plena “liberdade de imprensa”, tomando-se esta como liberdade de informação ou de negócios em quaisquer suportes tecnológicos.
As mudanças estruturais no jornalismo seguem determinados padrões, que acompanham épocas, circunstâncias, conjunturas e comportamentos. Num momento de implantação e consolidação das redes sociais, alguns autores falam no fim do jornalismo, enquanto outros no seu renascimento ciberespacial vinculado ao interesse público. Ele estaria na base da modernidade e do esclarecimento proposto pelo direito social à informação desde que foi inserido nas novas constituições nacionais a partir do advento das repúblicas e do novo espaço de cidadania que incluía os Poderes constitucionais e as ruas.
Tal perspectiva reacende, entre muitos outros aspectos, uma discussão sobre os novos rumos do jornalismo, incluído aí o já não tão emergente ciberjornalismo, com seus processos de reconhecimento de temas relevantes, de métodos de apuração compatíveis com a verificação e com a linguagem mais adequada a cada público, de acordo com sua heterogeneidade, com suas experiências, com suas demandas.
Por isso, num ambiente simultaneamente móvel e fugaz, pode-se “prever” que os usuários independem do jornalismo para se informar; independem do “mediador” para verificar; independem da linguagem para “esclarecimento”.
No entanto, se de um lado o jornalismo é relevante como espaço de controvérsia qualificada; se é importante para articular o presente com informações confiáveis, verificadas, originais, claras e esclarecedoras, talvez o campo do jornalismo esteja migrando estritamente das redações e indo também para as assessorias especializadas em jornalismo, que trabalham públicos amplos ou específicos com a própria linguagem clássica do jornalismo, com os métodos de apuração compatíveis com a verificação e com assuntos relevantes para a sociedade. O jornalismo de assessoria pode também estar se qualificando e substituindo a própria produção e conteúdo tradicionalmente reservados às redações. E indo falar diretamente com seus públicos.
Da mesma forma, se antes o release era uma arma simples, relativamente inócua, submetido à desconfiança, hoje ele não é exclusivo na assessoria. Esta cresce em complexidade e tem critérios profissionais muito próximos da confecção de um produto jornalístico, incluindo a reportagem, central no jornalismo, herdeira do método sociológico e histórico de investigação e testemunho, que ao lado da controvérsia e da narração – herdeiras da filosofia e da literatura – povoaram as ideias e argumentos de que o jornalismo tem um caráter emancipador e esclarecedor. A complexidade de determinados setores encontra, nas assessorias qualificadas, ambiente de cobertura e de debates antes exclusivos das redações, seja em uma tevê pública onde se debatem assuntos relevantes, polêmicos e com aprofundamento , seja em um site que inclui reportagens ambientais, econômicas e políticas que envolvem controvérsia e interpretação.
O repórter investigador e independente, figura central que nasce modernamente com a República e com os Poderes desta, desapareceria no novo cenário com suas tradicionais características de questionador? Teria desaparecido faz muito tempo? Teria ainda a aura de autonomia diante dos poderes, sejam políticos ou econômicos, públicos ou empresariais privados? Teria ainda o papel histórico de desconfiar, de fazer perguntas incômodas, de destrinchar a realidade e dispô-la , mediada , a um público que de outra forma a ela não teria acesso? Talvez hoje o que ainda sobreviva como chama do jornalismo seja exatamente a figura do repórter. O jornalismo não estaria em extinção, mas o repórter teria muito menos espaços para agir.
O renascimento do jornalismo nas redes sociais – embora enxuto nas redações tradicionais – poderia reacender o velho jornalismo dos sonhos, o de ser efetivamente um contrapoder vinculado ao interesse público e a seu papel crítico e emancipador? Para isso, mais do que uma possível legislação – que tende a se perder na multiplicidade de mídias, de atores, de fontes, de narradores contemporâneos nas redes sociais – quem sabe o campo da ética que reconhece a relevância, a apura e a narra, ajude a situar o jornalismo ainda com um papel distintivo em relação a outras informações que circulam. Nem todo chamado jornalismo cívico está vinculado a isso; nem toda interatividade e/ou participação cidadã estão vinculados a isso.
As mídias públicas, as assessorias públicas e privadas, a verificação nas mídias tradicionais que foram para a rede mundial de computadores, incluindo as redes sociais, estão na base da credibilidade contemporânea como referência pública comum. A reportagem qualificada, nas redes sociais, merece um selo de qualidade diferente, um ISO 3000 por assim dizer. A diferença ética talvez seja uma diferença que se sobreponha às leis no ciberespaço. E pode receber merecimento público por causa disso. Mas é necessário um público que ainda tenha interesse nas mensagens jornalísticas e que as julgue relevantes para o seu dia a dia. Está aí, a meu ver, um dos desafios do jornalismo nas redes sociais e no novo jornalismo da multidão ciberespacial, com seu auditório ora específico ora amplo, ora particular ora universal, ora atento ora disperso, ora fixo ora móvel. E num mundo sempre em fuga e que, no entanto, necessita minimamente saber o que se passa.
Comentário da Semana: As regras não bastam
Rogério Christofoletti
Professor na UFSC e pesquisador do objETHOS
Dois casos de violações éticas despertaram recentemente a atenção das redações e do grande público. Nos Estados Unidos, uma das maiores agências de informação econômica foi acusada de espionar clientes do serviço de dados que ela mesma fornece. A Bloomberg oferece informações de mercado em terminais exclusivos, e repórteres da agência teriam usado o sistema para rastrear consultas feitas pelos assinantes, violando suas privacidades e tendo acesso a informações privilegiadas. O editor-chefe da Bloomberg News, Matthew Winkler, reconheceu o problema, qualificando-o como um “erro indesculpável”. Entre os espionados estavam poderosos financistas, grandes corporações e autoridades econômicas.
Em Londres, um soldado foi decapitado na rua, possivelmente motivado por ódio religioso, e sua imagem e a de um suspeito com as mãos sujas de sangue foram amplamente mostradas por sites. O discurso ameaçador do suspeito, flagrado em vídeo, e a cena da vítima inerte no chão dividiram opiniões nas redes sociais. Houve quem criticasse a crueza e brutalidade do conteúdo, e quem defendesse o seu uso e o direito de ter acesso àquelas imagens.
Embora bem distintos, os dois episódios não têm só no aspecto ético o seu ponto de contato. Ambos surgiram no contexto atual de novas tecnologias, de mídia global e de jornalismo online. Um contexto que tem enaltecido o alargamento das possibilidades informativas, uma pretensa universalização dos acessos e a maior participação do público na equação comunicativa. Para Ann Friedman, apontada pela prestigiada Columbia Journalism Review como uma das vinte jornalistas para se ficar de olho, este é o melhor momento para atuar no jornalismo. Afinal, hoje, o profissional da área tem acesso a um mundo de fontes, o público tem acesso a um mundo de mídias, jornalistas têm acesso direto aos consumidores de notícias, e o caos reinante instiga a criatividade. Para Ann Friedman, “aprender a se adaptar e evoluir é tão importante quanto preservar tarefas sagradas como edição e redação. E se o jornalismo vai sobreviver, a tensão entre preservação e evolução tem de se tornar uma fonte de diversão e inspiração, não melancolia e desgraça”.
Sim, todo o entusiasmo de Ann pode estar encobrindo parte da razão, mas o jornalismo não se desenvolve apenas a partir de uma nova plataforma de publicação de notícias ou de um revolucionário software de edição e postagem de vídeos na web. Ann Friedman sabe disso, e mais gente também. Alguns dos principais conglomerados de mídia já editaram códigos de conduta interna que absorveram certos desafios éticos que as novas tecnologias têm reforçado. BBC, Reuters, The New York Times, entre outros, têm lá suas regras para orientar seus repórteres e editores. Recentemente, a Associated Press atualizou suas normas de mídias sociais, o que também aconteceu com a Associação de Jornalistas de Gastronomia (AFJ), que ampliou seus padrões éticos. Para além das paredes corporativas, surgem na internet documentos mais amplos que servem de bússola para comunicadores nas redes sociais, como é o caso deste Melhores Práticas para Jornalistas no Facebook.
Essas iniciativas reforçam o entendimento de Rosental Calmon Alves, o brasileiro que dirige o projeto Jornalismo para as Américas do Knight Center. Conforme disse numa entrevista ao Ética Segura, da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI), são os princípios éticos e a deontologia acumulados há mais de um século que definirão os estândares da profissão. “A revolução digital traz novos desafios, e a ética não é estática, mas dinâmica”. O que vai distinguir atos jornalísticos genuínos de gestos comunicativos praticados por usuários comuns – sem a formação, envolvimento e compromisso profissionais -, serão os princípios de uma ética jornalística, apoiada em acurácia, verdade e transparência, por exemplo.
Estabelecer parâmetros e ditar regras é importante para ajustar comportamentos e apontar padrões ideais de conduta. As empresas jornalísticas devem se preocupar com isso, sim. Os profissionais devem participar dos debates que cercam esse assunto, pois são diretamente afetados pelas normativas que dali resultam. O público, por sua vez, deve exigir qualidade, equilíbrio e ética. Normatizar é importante, mas insuficiente. É preciso que as regras reflitam as convicções e consensos gerados no interior da categoria profissional e na sua relação com os públicos e demais setores interessados. Sem esses esforços, as regras serão apenas um punhado de palavras bem arranjadas. O mundo e a vida, que cercam e preenchem o jornalismo, são bem mais que isso.
Comentário da Semana – TV Folha: quando a retificação não é efetiva
Lívia de Souza Vieira
Mestranda em jornalismo na UFSC e pesquisadora do ObjETHOS
Não há nada que incomode mais o jornalista do que o erro, seja a grafia incorreta no nome de uma fonte ou um grave equívoco de apuração. Poderíamos listar aqui diversos erros que ocorrem na imprensa brasileira, com destaque para os webjornais, nos quais a velocidade de publicação muitas vezes atropela a precisão. Uma breve observação na seção Erramos, do Jornal Folha de S. Paulo na internet, mostra que os erros são diários e recorrentes. No entanto, esta reflexão parte do momento seguinte: após o erro, de que forma age o veículo jornalístico em relação a seu leitor?
Voltar a lente para o leitor é entender o que ele espera. Christofoletti e Prado afirmam que o jornalismo é uma atividade social que se apoia no compromisso de informar as pessoas dos principais acontecimentos da sociedade. “Mas, como se espera, as informações devem ser precisas, exatas, fiéis aos fatos. Logo, o público espera informação de qualidade, sem erros, sem distorções, sem incorreções”. Fiquemos com um exemplo.
Suzana Singer, ombudsman da Folha, traz em sua coluna do dia 12 de maio de 2013 um erro cometido em uma das matérias do TV Folha do dia 5 do mesmo mês. Trata-se de um vídeo obtido com exclusividade, que mostra um latrocínio em Moema (SP). “No início, os PMs deixam a vítima no chão, como prevê a norma que proíbe mexer em feridos, mas, ao descobrirem que se tratava de um policial reformado, mudam de atitude e levam o homem para o hospital”, afirma Suzana. No vídeo, dá para ouvir nitidamente o som dos tiros que acertam a vítima.
Uma matéria exclusiva, que questiona o não cumprimento de uma norma em detrimento do corporativismo e cobra explicações das autoridades. Digna de elogios, não fosse um detalhe ético: o vídeo original não tinha som.
Em sua coluna, a ombudsman afirma que é um grave erro de procedimento e acrescenta a justificativa do diretor João Wainer: “o programa não altera vídeos e errou ao incluir os ruídos de tiros. Uma correção irá ao ar hoje”. Apesar da promessa da retificação, ela não se cumpriu de forma adequada.
A errata foi exibida no TV Folha uma semana após a matéria ter sido veiculada, no fim do último bloco. Abaixo reproduzimos os frames, que foram ao ar sem narração:
No entanto, percebemos uma importante falta de conexão entre a notícia retificada e as originais. Uma visita à página da primeira notícia publicada mostra que o vídeo continua lá, com o som dos tiros. Ainda há um texto que detalha a matéria, igualmente sem menção ao erro. A Folha ainda publicou uma nova notícia no dia seguinte (6/5), cujo primeiro parágrafo diz: “Registro em vídeo (sem som) feito por uma câmera de segurança em Moema, bairro nobre na zona sul de São Paulo, mostra policiais militares descumprindo resolução do governo ao socorrerem um homem baleado por ladrões, em vez de chamar o resgate”.
Mais uma vez, apesar de o texto incluir que o vídeo estava sem som – o que não chega a ser uma retificação, mas pelo menos avisaria o leitor de alguma forma – o vídeo publicado na página permanece com o som dos tiros.
Como o programa dominical é exibido simultaneamente na internet e na TV Cultura, consultamos a página da emissora e constatamos a mesma situação: vídeo publicado com o som dos tiros, sem qualquer retificação. Além disso, não encontramos errata na seção específica do site da Folha ou na versão impressa. Para completar, ainda enviamos uma comunicação de erro por meio do formulário que consta no site, mas não obtivemos resposta.
Uma breve reflexão deste episódio revela que, apesar de admitir o erro na coluna da ombudsman, o diretor do programa não tomou a atitude seguinte, igualmente indispensável: a de retificar a informação de forma adequada. Entendemos, portanto, que a errata é o instrumento que dá visibilidade ao erro jornalístico e deve ser utilizada todas as vezes em que a notícia necessitar de correção. Seu caráter é de prestação de contas com o público leitor, pois, agindo com transparência na admissão de erros, o veículo mantém sua credibilidade.
Imagine a seguinte situação: o leitor assistiu à matéria no site da Folha ou na TV Cultura e foi impactado pela cena, já que no próprio vídeo há uma mensagem de “cenas fortes”. Sabemos agora que essa “força” muito se deu pelo som dos tiros inserido artificialmente, já que a imagem não é muito nítida e mostra o fato de longe. A menos que o leitor tenha tido acesso à coluna da ombudsman ou tenha visto o TV FOLHA uma semana depois, ele jamais terá ciência do erro, já que não houve erratas nos canais onde a notícia foi propagada.
Soma-se a isso o fato de que, na internet, é quase impossível controlar a circulação de uma informação. Como mensurar quantas pessoas compartilharam o vídeo pelas redes sociais ou o republicaram em blogs, por exemplo? É a multiplicação do erro e um contrasenso, já que a internet possibilita, como nenhum outro meio, a retificação imediata e o registro na própria página onde foi divulgada a notícia. Para se ter uma ideia do alcance, segundo dados da Folha, o site possui 22 milhões de visitas únicas por mês, uma média de 730 mil visitantes por dia.
O erro incomoda o jornalista e admiti-lo, como fez a Folha, é o primeiro passo. No entanto, de nada adianta se não houver a atitude seguinte de efetiva correção em todos os canais onde ela foi disseminada. Trata-se de ultrapassar o desconforto e importar-se com quem realmente importa: o leitor.
Referência:
CHRISTOFOLETTI, Rogério; PRADO, Raffael Oliveira Do. Erros nos jornais: aspecto ético e fator de comprometimento de qualidade técnica. In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2005, Rio de Janeiro (RJ).
Comentário da semana: O jornalismo nunca mais será o mesmo
Melissa Bergonsi
Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS
Ao debruçar atenta leitura sobre os dados da pesquisa “Perfil do Jornalista Brasileiro – Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012″, lançada no início deste mês, resultado de um trabalho de fôlego dos pesquisadores e jornalistas Jacques Mick e Samuel Lima, foi como se materializasse em mãos um grande álbum com fotografias inquisidoras e provocativas a respeito da profunda transformação que afeta a profissão e que, talvez, seja a maior já vista desde Gutenberg.
Os dados da minuciosa e maior pesquisa já realizada no Brasil reúne respostas de 2.731 profissionais que trabalham na mídia, fora dela – em atividades como assessoria de imprensa – e na docência, em todas as regiões do país e que embasarão, sem sombra de dúvidas, um sem número de outras pesquisas sobre a identidade profissional do jornalista brasileiro.
A fotografia que abre este álbum mostra que o jornalismo brasileiro é feito majoritariamente por mulheres, jovens, brancas, solteiras e que recebem salários mais baixos que os homens e também ocupam posições hierárquicas ainda no início da cadeia. Em suma, a invasão das mulheres na profissão aconteceu, mas elas ainda não galgaram os postos de comando, o que suscita um estudo de gênero e seu impacto no modo de se fazer jornalismo quando o fenômeno começar a se concretizar pelas próximas duas décadas, pelo menos
A discussão que se pode construir a partir deste prisma é palpitante. Entretanto, uma outra fotografia parece saltar à primeira página revelando numericamente a precarização e exploração do trabalho do jornalista brasileiro.
De acordo com os dados, quase metade dos profissionais que responderam a pesquisa trabalha mais de oito horas por dia e somente 11,6% possuem jornada de até 5 horas. Pouco mais de 60% dos profissionais no Brasil ganham até cinco salários mínimos e 56,9% tem um emprego ou fonte de renda, enquanto, 29,3% disseram ter mais de um emprego.
Dos profissionais respondentes que trabalham só em mídia, apenas 59% tem carteira assinada, o restante trabalha como freelancer e PJ. Aliás, na mídia, o número de freelancers é duas vezes maior que fora dela. Além disso, 76% dos profissionais afirmam que tem toda ou a maior parte de sua produção divulgada também pela internet e 8,4% disseram ter metade também publicada na web. Não só: quase 10% afirmaram acumular funções como as de captação de imagem – foto ou vídeo. O retrato ainda mostra que 12,4% dos profissionais trabalham em redações com apenas um contratado e 22,6% em locais com um a três colegas. Entre cinco a vinte jornalistas nas redações estão 28,5% dos respondentes. Não é difícil imaginar, então, o consequente acúmulo de funções.
Em uma leitura resumida, esses jovens profissionais trabalham mais de oito horas por dia, ganham até cinco salários mínimos, pouco mais da metade possui carteira assinada e ainda acumulam funções por conta das novas mídias e enxugamento das redações, além de “doarem” grande parte do seu trabalho para que seja publicado na internet.
Este é o retrato da precarização e exploração da profissão no Brasil. O tsunami “Internet” veio não apenas afetar o modelo de negócio dos veículos de mídia, mas também e por conta disso, provocar uma profunda transformação nas funções jornalísticas e na identidade dos seus profissionais deixando expostas feridas éticas e fazendo virar pó valores base como a boa apuração, a reportagem in loco, a pesquisa, variedade e confiabilidade de fontes e, portanto, a precisão.
A instantaneidade que hoje se vivencia, com deadlines contínuos – “dar primeiro, checar depois” -, com as multitarefas que chegam até ao monitoramento da interatividade dos seus leitores, faz com que esses profissionais não tenham mais tempo de sair da redação, de manter o rigor na apuração, de checar suas fontes. Se tornaram “empacotadores de notícia” (Bastos, 2012).
É de se entender com este cenário o que aconteceu nos bastidores do erro de grande parte da imprensa nacional e regionalizada que publicou e, portanto, legitimou uma nota veiculada em um falso perfil da Boate Kiss no Facebook, durante cobertura da tragédia de Santa Maria que vitimou centenas de jovens. A nota que alegava que “todos os funcionários eram devidamente treinados para situações de contingência” foi reproduzida pela grande imprensa sem checagem. Momentos depois, os advogados da casa noturna vieram a público desmentir a autoria do texto e retiraram do ar o perfil verdadeiro da boate. Da mesma tragédia, outro erro. Um falso perfil do ator Bruno Gissoni afirmava estar de luto por ter perdido um amigo na tragédia. O post também foi usado por veículos de imprensa sem a devida apuração. Bruno precisou desmentir a informação alegando que a notícia usada pela imprensa não era verdadeira e fora divulgada por um falso perfil.
O jornalismo e o jornalista estão com uma equação matemática complexa para resolver em busca de sua nova identidade. As empresas cada vez mais enxutas valorizam competências técnicas da operação multimídia em detrimento do conhecimento clássico da profissão (texto, apuração, feeling para notícia). Os salários achatados ainda cabem no bolso dos jovens recém-chegados ao mercado sem ainda formação sólida de uma consciência ética do jornalismo, o que expulsa boa parcela dos jornalistas experientes das redações e até mesmo da profissão. Somado a esse cenário, a internet, as novas mídias e suas especificidades de produção colocam em xeque os valores base citados acima e provocam uma queda generalizada de qualidade do produto jornalístico.
Já temos o retrato do profissional brasileiro com a pesquisa de Mick e Lima. Resta agora preencher a sua carteira de identidade profissional que está se formando em um cenário complexo e de profundas mutações. O jornalismo nunca mais será o mesmo.
Referências
BASTOS, Helder. A diluição do jornalismo no ciberjornalismo. Estudos em Jornalismo e Mídia. Florianópolis, vol. 9, n.1, 2012, p. 284-298
MICK, J.; LIMA, S. Perfil do Jornalista Brasileiro – Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico. Florianópolis: Insular, 2013
SODRÉ, M.; PAIVA, R. . Informação e Boato na rede. In Jornalismo Contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. Salvador, Brasília, 2011, p. 21-49
Comentário da semana: Desculpas esfarrapadas para desvios éticos
Daniel P. Giovanaz
Acadêmico de jornalismo e pesquisador do objETHOS
O Artigo 13 do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em 2007, prevê o direito à cláusula de consciência. Em outras palavras, ninguém é obrigado a executar tarefas que estejam em desacordo com suas próprias convicções ou com os demais princípios do Código. Portanto, as zonas de tensão, os jogos de interesse e os variados dilemas que cingem a atividade jornalística não devem servir como escusa para que repórteres e editores cometam descumpram nossa função social ou cometam desvios éticos.
A necessidade de adequação dos conteúdos ao “gosto popular” é uma desculpa engolida há mais de duas décadas no telejornalismo brasileiro: a naturalização dos fins de tarde como horários oficiais para a veiculação de material sensacionalista em canais abertos é um exemplo tácito. O fenômeno começou em 1991, quando o SBT lançou o programa policial Aqui Agora, que se autodenominava “uma arma do povo” – além de reportagens sobre crimes, continha um quadro sobre os direitos dos consumidores. Devido ao enorme sucesso de audiência, o formato é até hoje imitado, mas poucas vezes questionado.
O intuito desta problematização inicial não é desconsiderar os aspectos mercadológicos do ofício, mas discorrer sobre seus limites – até que ponto o dinheiro faturado junto aos anunciantes justifica invadir o direito à intimidade, à honra e à imagem dos cidadãos? É preocupante, nos observatórios e cursos de comunicação, a escassez de críticas a este modelo de produção televisiva em que o sensacionalismo e a busca pelo escândalo são parte do modus operandi. Nesse sentido, proponho uma reflexão acerca de duas hipóteses: a primeira é a de que os professores e críticos de mídia se deram por vencidos e passaram a fazer vista grossa aos delitos éticos transmitidos diariamente, devido à impotência de suas análises frente ao poder imperativo dos negócios; a segunda sugere uma defasagem abismal entre o Código da Fenaj e o atual cenário competitivo do jornalismo brasileiro, que faz com que os questionamentos éticos sejam imediatamente associados à hipocrisia ou à ingenuidade. Nenhuma das hipóteses é anulativa, e ambas fornecem bases para se repensar o papel do documento que rege a atuação dos jornalistas no país.
A defesa do interesse das empresas de comunicação também é usada como desculpa para que a publicação de informações incorretas e imprecisas. Nesses casos, o interesse público, que deveria ser a finalidade de qualquer atividade jornalística, sucumbe ao conjunto de normas e princípios internos a que estão sujeitos os funcionários de cada corporação. Enquanto leitor, tenho a sensação de que isso ocorre em certa medida na cobertura de acontecimentos relacionados ao governo da presidenta Cristina Kirchner, da Argentina. Em especial, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo, ambos jornais de circulação nacional, parecem ressaltar com frequência os aspectos negativos do governo argentino, principalmente após a aprovação da Lei de Meios, em 2009 – essa mudança de tom, ratifico, é apenas uma impressão; não foi produzida uma pesquisa acadêmica criteriosa comparando os dois momentos. De qualquer maneira, decidi incluí-la porque, ainda no campo da suposição, poderia estar relacionada a um interesse empresarial escuso: um receio de que uma sanção semelhante à argentina ocorresse no Brasil, prejudicando os líderes do mercado da comunicação. Ademais, porque a tolerância da crítica com o tratamento inadequado das informações nesse caso poderia abrir precedentes para a publicação de materiais tendenciosos sobre qualquer país que inicie um processo de regulação da mídia, com a desculpa fajuta dos “interesses da organização”.
Esses exemplos singelos servem para reforçar que inevitavelmente, como jornalistas, pisamos em um terreno perigoso, escorregadios, em que a inércia e a falta de críticas podem nos levar à reprodução de incorreções. Além de produtores, somos também consumidores de informação, e temos o direito de questionar as políticas editoriais dos veículos – não como uma forma de censura ou pressão, mas de manutenção e valorização do interesse público como princípio soberano da atuação jornalística.
Os interesses mercadológicos das empresas, bem como o interesse do público, devem continuar sendo levados em conta, mas não podem ser aceitos como álibis para o descumprimento de nossa função social.
Comentário da semana: A torcida pela ordem na cobertura de greves
Elaine Manini
Mestranda em Jornalismo e pesquisadora do objETHOS
É praticamente consenso entre jornalistas e pesquisadores da área que a objetividade seja compreendida como algo inalcançável, ou uma falácia de algum veículo ou alguém que ainda ouse caracterizar desta forma o seu jornalismo. Tal entendimento, no entanto, não ignora o valor que essa qualidade tem para a área. Em uma situação ideal admite-se as limitações, com a consideração de que essa busca deva ser realizada e a objetividade seja uma meta. Agindo desta forma, o jornalista pode se considerar eticamente comprometido com sua função social de promoção de uma democracia igualitária.
Assegurar aos leitores as diferentes versões dos fatos é um dos pontos em comum entre vários códigos de ética jornalísticos, dos sindicatos às empresas de mídia e órgãos representativos da sociedade. O quinto ponto do código da Associação Nacional dos Jornais, representante das empresas jornalísticas do país, chama atenção para a questão da divulgação das diversas tendências de opinião da sociedade. Problematiza-se aqui a questão da reprodução da mídia dessas tendências de opinião e faz-se uma análise específica no caso da cobertura de greves.
Imagem da desordem
Na semana do dia do trabalhador, de 28 de abril a 4 de maio (domingo à sábado) no Diário Catarinense o tema greve apareceu em seis matérias jornalísticas, uma com o tema apenas citado e as demais sobre greves em andamento. O quadro a seguir descreve o espaço e as fontes utilizadas e possibilita uma noção sobre a angulação das pautas.
| Data | Cartola | Manchete | Tamanho | Fontes * |
| 29/04 | Dilema no ônibus | Cesar tenta separar reajuste tarifário da questão salarial**
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1 página | Prefeito, sindicatos das Empresas e dos Trabalhadores |
| 29/04 | Desafios da ponte estaiada | Mudanças após greve de 10 dias
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Nota | Ministério do trabalho de Criciúma |
| 30/04 | Em negociação | Assembleia de servidores vota por greve na capital | 1/2 página | Sindicato dos trabalhadores e Governo |
| 01/05 | Serviços comprometidos | Greve continua na capital
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1/2 página | Sindicato e opinião Prefeito |
| 03/05 | Negociações difíceis | Lei e orçamento limitam reajustes para servidores | 1 página | Opinião Prefeitos |
| 04/05 | Greve na capital | Servidores voltam ao trabalho | Nota | Servidores |
| *Fontes identificadas pela citação nos textos | ||||
| **matéria sobre reajuste tarifário do transporte público, cita a greve como um dos problemas da prefeitura | ||||
Com relação às fontes utilizadas, em números, percebe-se um desequilíbrio pequeno. Os sindicatos dos trabalhadores envolvidos foram ouvidos em quatro das seis matérias e os empregadores – governo e sindicato das empresas, no caso do transporte coletivo – em cinco de seis. Os assuntos predominantes são: as despesas dos cofres públicos com as reivindicações, o Limite prudencial e a Lei fiscal, as reivindicações (em termos gerais) e os transtornos causados.
No tratamento do assunto, nota-se, no entanto, uma diferença maior no conteúdo e nas declarações publicadas. As informações de despesas dos cofres públicos com as reivindicações, Lei fiscal, limite prudencial e total da folha de pagamento são detalhadas e ocupam a maior parte dos textos. Normalmente aparecem acompanhadas por declarações do governo como: “uma incompreensão do funcionalismo”, “o aceite das reivindicações levariam ao caos administrativo”, “a implementação do plano reivindicado seria um crime ou uma irresponsabilidade”.
Do outro lado, as precariedades das condições de trabalho apontadas pelos grevistas foram citadas apenas na matéria sobre a construção da ponte de Laguna, ainda assim sem especificações dos problemas: “Os operários cruzaram os braços insatisfeitos com os salários, alimentação e situação do alojamento”. As situações individuais dos trabalhadores não são relatadas. A matéria não explica por exemplo porque, mesmo com a conquista de 30% de abono salarial, cerca de 100 trabalhadores não quiseram continuar no trabalho. Adiante, divulga os salários com o abono e conclui que o ministério do trabalho junto com o sindicato levantará as condições de trabalho e que não se interferiu no cronograma da obra. Em outras palavras, fica dito que a ordem foi reestabelecida.
Reproduzindo a tendência
Toda greve quebra alguma rotina social. Normalmente é entendida pela sociedade como um transtorno à ordem e uma perturbação à vida em comunidade. Vistos desta forma, os grevistas são geralmente tratados como um problema por aqueles que não estão diretamente envolvidos com a classe reivindicadora. Identifica-se aí uma tendência de pensamento social. A reprodução da imagem da greve como transtorno e dos grevistas como autores do problema, esconde causas maiores da situação. As coberturas desses assuntos costumam deixar de lado as ações que o empregador deixou de tomar para evitar que se chegasse ao ponto de deflagrar uma greve. Por que o governo não cumpriu com o seu papel de planejamento e com o seu dever de garantir boas condições e direitos trabalhistas a seus funcionários? São questões anteriores que costumam não ser feitas na cobertura factual da greve.
Não se pretende avaliar neste artigo quem está ou não errado, mas se chama atenção para que o jornalismo esforce-se em abordar de forma completa as questões de ambos os lados. Em seu artigo O jornalismo cego às custas das armadilhas do discurso oficial, publicado no Observatório da Imprensa a pesquisadora Sylvia Moretzsohn chama jornalismo “de mãos limpas” aquele se contenta em ouvir os dois lados e deixar a conclusão para o público. Ao abordar a cobertura da greve nas universidades federais ocorrida na metade de 2012, falando sobre o problema da falta de checagem e investigação de dados na apuração ela diz que “Não é difícil imaginar a que tipo de conclusão esse público poderá chegar, privado que está das informações elementares a partir das quais poderia elaborar algum raciocínio minimamente fundamentado.”. A falta de informações foi também perceptiva nas matérias aqui observadas. A anormalidade da greve fica apenas nas manifestações, nas perturbações, no fato ocorrido, e não em suas causas. E o jornalismo, reproduzindo tal noção de irregularidade, deixa de contribuir para que a sociedade repense algumas noções pré-concebidas.
Referência
MORETZSOHN, Sylvia. O jornalismo cego às custas das armadilhas do discurso oficial. Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed703_o_jornalismo_cego_as_armadilhas_do_discurso_oficial
Comentário da semana: Quando o “se” vira notícia e manchete
Samuel Lima
Docente da FAC/UnB, professor-visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS
A revista Época reinventou o conceito de notícia em sua edição de 22 de abril de 2013: “E se fosse na Copa?”, indaga a manchete da publicação, sob a cartola em vermelho “Terror na maratona de Boston”.
Mais que um exercício de futurologia ou mera abstração de pitonisa aposentada, a revista da Editora Globo parece adotar o conceito de notícia adaptado de outro saber clássico da profissão pela jornalista Júnia Nogueira de Sá (ex-ombudsman da Folha de S. Paulo) que escreveu:
Se um cachorro morde um homem, isso não é notícia. Se o homem morde o cachorro, também não é notícia. Se o homem estivesse pagando ao cachorro por seus favores sexuais, aí sim seria notícia. Mas não seria uma notícia de primeira página. Para ser manchete, o cachorro teria de ser menor de idade e o homem deveria ter um cargo importante no governo.
No “Abre” da matéria que supostamente sustentaria a indagação de capa, um longo e doloroso “nariz de cera”, como é chamado o lide desprovido de informação, baseado no palavrório desconexo, o popular “enrolation”, a começar pela genial definição: “O que diferencia o terrorismo do simples homicídio está no nome. Seu objetivo é aterrorizar. Nos os mortos (sic), cujas vidas são interrompidas sem que eles saibam o motivo”. A reportagem no miolo aparece sob o título “Pode acontecer aqui?”, aprofundando a especulação sobre o território da não-notícia, ou seja, um mix de relato inexistente, acrescido de análise e interpretação sobre o futuro – que pode abrigar um sem número de eventos, inclusive o fim do mundo.
Como o foco é bater na tecla de que o governo Dilma Rousseff estaria despreparado para um ato terrorista nas Copas das Confederações e no Mundial de futebol passa a valer literalmente tudo. O texto pergunta e responde, ato contínuo: “O Brasil pode ser escolhido por algum grupo armado como palco de um ataque? Sim”. E ato contínuo emplaca outra pergunta aos próprios repórteres que assinam a anti-reportagem: “O país pode garantir que um atentado, caso planejado, não aconteça?”. A pergunta, mera retórica, a rigor, tem óbvia resposta mesmo no país mais desenvolvido, tecnológica e militarmente do planeta, os Estados Unidos, que foram vítimas de um novo atentado, o primeiro depois dos trágicos (e nunca explicados) acontecimentos de 11 de setembro de 2001, em Nova York.
A colunista Maureen Dowd, do jornal The New York Times, analisa o trabalho da mídia nos trágicos acontecimentos recentes e afirma categórica: “A cobertura em Boston foi um tsunami de informação inútil e desconexa” (O Estado de S. Paulo, 26/04/13, p. A10). Para Dowd, “aqueles momentos de terror encontraram o ecossistema da informação num estado estranho e instável”. Para o jornalista James Gleick, ouvido por Dowd, a cobertura ao vivo das emissoras de rádio e TV se mostrou inócua e, no limite, falida:
Na perseguição em Boston, jamais me ocorreu ligar a TV. A tela que eu precisava era do meu iPhone A internet é desordenada, pontilhista, ruidosa e erra com frequência. Mas se você tem uma necessidade visceral da notícia instantânea, a TV não consegue competir com ela. Os repórteres informando em tempo real na TV são um contrassenso: você não consegue coletar a notícia e apresentá-la ao mesmo tempo.
Ao contrário desses veículos eletrônicos que são tensionados pelo “tsunami de informação inútil e desconexa”, uma revista semanal como Época deveria primar pela qualidade, consistência e equilíbrio de suas reportagens. Especular e fazer ilações sobre o futuro é irrelevante e inútil, do ponto de vista do interesse público. Há clara distância entre esse tipo de “jornalismo” e a boa onda de conhecimento e esclarecimento que a instituição imprensa deve à sociedade, como sua missão-mor.
O jornalista e pesquisador Victor Gentilli observa que há “uma relação irrevogável entre jornalismo e esclarecimento”. E faz um apontamento fundamental:
O homem emancipado só pode tomar suas decisões e participar das escolhas política se devidamente esclarecido. E, se, nas sociedades contemporâneas, quem produz esse esclarecimento é o jornalismo, esse modelo será a referência fundamental sobre a qual se assentarão as atividades de crítica de mídia.
A despeito de ausência absoluta de atentados terroristas por organizações tipificadas como tal pelas forças de segurança aqui e alhures, a reportagem de Época (ed. 22/04/13) segue ponteando velha “canção”, como arauto das oposições ao atual governo federal: “Muitas coisas (quais?) nos preparativos da Copa como da Olimpíada, já não deram certo – de obras atrasadas (outra vez sem citar quais?) e projetos cancelados (o leitor não fica sabendo quais?). A diferença, quando o tema é segurança, é que essa possibilidade não existe. Se algo der errado, o custo pode ser a perda de vidas – e a propagação do medo”, vaticina grave.
Como uma recomendação de relatório de consultoria especializada, e supostamente amparado em fatos concretos, a reportagem termina patética, clamando: “O Brasil precisa fazer de tudo para garantir a vitória do esporte e da celebração sobre o terrorismo”
A prática do “jornalismo de ilações e invenções”, não fundamentado em fatos, mas em especulações, tem sido objeto de crítica qualificada nos observatórios de mídia brasileiros. Ou como analisa Renato Rovai: “Essa modalidade de jornalismo vem sendo realizada por setores da mídia tradicional comercial brasileira. É um tipo de jornalismo que não exige jornalismo. Bastam suspeitas e alguns fatos que se encadeiem. E, claro, uma tese a ser defendida, por mais absurda que seja”. Os repórteres de Época podem entrar para a história do jornalismo mundial ao inventar a notícia na qual o “se” acabou virando manchete – e reportagem de capa.
Comentário da semana: Erros ainda assombram as redações
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
O erro é um fantasma que ronda qualquer atividade. A frase é bonita, mas não resolve nada. O fato é que um erro nunca vem sozinho e não só afeta o seu autor. O pior é justamente isso: a cadeia em que ele está inserido e o estrago que provoca no seu entorno. Em alguns planos da vida social, há uma verdadeira histeria sobre o tema: os erros são monitorados, obcecadamente estudados e quando acontecem (de forma quase inevitável), seus efeitos formam ondas avassaladoras de responsabilidade. A medicina e as engenharias se destacam nessa diração, mas também cometem lá seus deslizes. O jornalismo – uma atividade quase tão influente na vida contemporânea – ainda deixa muito a desejar.
O exemplo mais recente foi a avalanche de erros cometidos na cobertura das explosões na Maratona de Boston. O blog ChatGirl fez um resumo das derrapadas da mídia norte-americana, chamando a atenção de alguns meios, que se apressaram nas desculpas. O colunista Jack Shafer, que cobre mídia e política para o site da Reuters, dedicou um de seus textos na semana passada sobre as consequências dos erros nas redações e de como a audiência (antes considerada apática e passiva) está contribuindo para reescrever esse rascunho da história que é o jornalismo.
Na semana passada também, o News: Rewired, evento britânico que reuniu profissionais e especialistas, listou cinco padrões que devem elevar o nível ético do jornalismo online. Participaram do painel os representantes do Channel 4, do jornal The Guardian, da revista The Economist e do site The Next Web, e o consenso aponta para mudanças não tão radicais para os jornalistas, mas fundamentais para a manutenção de um nível de qualidade indispensável para os meios.
Primeiro, a precisão deve estar acima da velocidade. Embora estejamos vivendo numa época vertiginosamente acelerada, o jornalismo não pode renunciar a um valor de base como a precisão para atender mal e apressadamente o seu público.
Segundo, é cada vez mais importante que os meios sejam transparentes. Em termos práticos, isso significa que os meios precisam atribuir de forma clara as informações que foram primeiramente veiculadas por algum eventual concorrente. Ou ainda dar as referências e fontes consultadas. Tudo de uma maneira que sinalize ao público de onde vêm os dados, como eles foram tratados e como aquilo foi embalado e entregue. É uma questão de honestidade, de franqueza, de abertura.
O terceiro aspecto levantado pelos britânicos diz respeito a agregar valor ao conteúdo noticiado. Na web, não basta apenas reproduzir as informações colhidas aqui e ali, sendo necessário dar seus contextos e oferecer camadas adicionais de aprofundamento. O noticiário não pode ficar num nível superficial de bloguismo ou se limitar a um conjunto de tweets.
O quatro padrão do News: Rewired enaltece uma preocupação de dez em dez editores online: como lidar com os abusos nos fóruns ou tópicos de comentários nos sites? Lidar com os trolls é uma tarefa que consome, cada vez mais, tempo e energia dos meios online. Uma medida imediata tem sido abolir a possibilidade de o usuário postar suas opiniões, o que não é a melhor medida, já que impede a interação com o público e soa como censura no diálogo. De fácil operacionalidade, a medida é muito impopular, pois é amplamente punitiva e desperdiça os bons conteúdos deixados na área interativa. Entre os especialistas britânicos, as opiniões se dividem. Sean Ingle, da Channel 4, adverte para “não alimentar os trolls”, isto é, diante do abuso de um comentador, não se deve cair na tentação de responder de forma ríspida ou ofensiva, desarmando assim os espíritos provocadores. Martin Bryant, do The Next Web, opina que é preciso estimular os comentadores a usarem seus nomes reais, de forma a reduzir o espaço do anonimato e constranger algum conteúdo mais explosivo. O editor digital da The Economist, Tom Standage, lembra ainda que é preciso intervir nos fóruns, demonstrando aos usuários que os diálogos estão sendo acompanhados e que é preciso manter alguma compostura por parte dos usuários.
O quinto padrão apontado pelos britânicos trata diretamente do tema que nos afeta: os erros jornalísticos. A concordância geral é de que é preciso sim fazer correções quando alguma informação saiu incorreta ou imprecisa, e que em casos mais graves, é necessário ir além: reconhecer o erro e pedir desculpas de forma clara. Nos meios online, uma prática corrente é o apagamento dos tweets que veiculam a informação equivocada, como se fosse possível apagar o rastro do deslize. Os editores britânicos reconhecem que isso acontece, mas que não é a melhor prática. Publicar um novo tweet com uma atualização ou correção não só contribui para corrigir o rumo do noticiário, mas também sinaliza para o público uma dimensão humana que alguns meios de comunicação simplesmente esqueceram.
O erro no jornalismo, relegado a segundo plano, é um assunto de natureza técnica e ética. Não nos esqueçamos também disso.
Comentário da semana: Coreia o que Custar
Guilherme Longo Triches
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS
A Coreia do Norte tem causado polvorosa no mundo inteiro por conta das declarações de seu líder, Kim Jong-um. Divulgando treinamentos militares e realização de testes com armamento nuclear, o líder norte-coreano voltou às atenções para o Oriente. Ao tratar da possibilidade de uma guerra, as notícias oriundas da Coreia do Norte trouxeram à tona questões de interesse das pessoas.
Tal interesse baliza a ação do jornalista. Quando o assunto requer uma reportagem investigativa, o interesse público chega a sobrepujar questões éticas e normativas. Segundo Silvio Waisbord (2000, p. 233), “o jornalismo investigativo é menos sobre métodos e mais sobre as conseqüências.” Nesta visão, falsidades ideológicas e escutas não-autorizadas, por exemplo, são considerados legítimos ao jornalista, haja vista o bem maior que as matérias investigativas visam atender.
A justificativa do interesse público foi utilizada na última semana pela BBC (British Broadcasting Corporation) ao ter infiltrado jornalistas num grupo de universitários britânicos que visitavam a Coreia do Norte a estudos. Segundo o Jornal Nacional, da TV Globo, a universidade London School of Economics acusa a BBC de “colocar em risco a segurança do grupo de alunos, que teve permissão especial para visitar o território norte-coreano”. Por seu turno, a BBC “alega que os jovens sabiam dos planos e que a reportagem é de grande interesse público”.
O interesse público tornou-se uma grande “muleta” utilizada pelos jornalistas. Sempre que há questionamento para ver se uma matéria é necessária, o jornalista se apoia no interesse público. No entanto, há distinções a serem feitas. Interesse Público aproxima-se do que é importante às pessoas. Interesse do Público, por sua vez, vai ao encontro daquilo que chama a atenção e que, consequentemente, rende mais audiência. Ambos podem confluir. No entanto, em termos de legitimação da realização de uma matéria, aquilo que é só rentável passa a ser importante na hora da justificação.
No caso da possibilidade de uma guerra mundial, até parece plausível a noção de interesse público, mas Luciano Ornelas (1987, p. 8) faz uma ponderação: “quando uma vida está em perigo (…) a imprensa deve ser responsável para ajudar a preservar essa vida”. No caso da Coreia, os universitários corriam riscos. No caso do CQC, da TV Bandeirantes, tratado pelo ObjETHOS em 1º de abril, uma criança chegou a ser utilizada no lugar do repórter em situação que o conselheiro nacional do Ministério Público, Luiz Moreira Gomes Junior, julgou degradante a participação do menor. Uma primeira questão que se impõe é a seguinte: É de interesse público que vidas sejam perdidas ou abaladas para sempre? Em resposta ao conselheiro, o âncora do CQC, Marcelo Tas, disse que o Ministério Público deveria ter mais o que fazer do que processar humoristas.
O CQC (Custe o que custar) é um conhecido programa que mistura jornalismo e humor. A veia humorística do CQC angariou o público jovem para temas antes cobertos somente pela imprensa tradicional, como política, por exemplo. Além disso, quadros como o “Proteste Já”, convidam a população à participação na produção das matérias. No programa do dia 18 de março, Marcelo Tas chamou uma matéria do quadro “Proteste Já” da seguinte forma:
“Preparem-se: Vocês vão ver agora uma matéria que está à disposição da justiça porque este material trata-se de matéria jornalística de interesse público.” Ao final da reportagem, Marcelo reiterou este mesmo posicionamento.
Ao ver a matéria, possivelmente ninguém questionou o fato da impunidade no trânsito ser realmente um assunto de interesse público. O programa, ao invés do tradicional tom acusatório, ofereceu o material para que o sistema de justiça brasileiro tomasse a devida medida. Além disso, reforçou uma noção do jornalismo investigativo: “o jornalismo investigativo implica um trabalho ativo de apuração do repórter” (NASCIMENTO, 2010, p. 21).
Neste caso, apesar do humor sempre latente, o CQC deu uma aula de jornalismo. Visou ao interesse público, mostrou um jornalismo ativo e, além de tudo, limitou-se a disponibilizar fatos (que falavam por si). Segundo Silvio Waisbord (2000, p. 241), “a imprensa nem persegue nem julga, mas, na melhor das hipóteses, envia informações justas e precisas para a consideração pública que podem (ou não) desencadear uma investigação mais aprofundada e ações legais.” Luciano Ornelas (1987, p. 9) reforça: “A imprensa não é a Justiça. O nosso dever, isso sim, é informar com responsabilidade. Ou deixar de informar também com responsabilidade”.
Deixar de informar com responsabilidade: Esta sim parece mais uma atitude de Interesse Público, que a cobertura de uma eventual tragédia oriunda do jornalismo sedento pela audiência.
Referências
NASCIMENTO, Solano. Os Novos Escribas: O fenômeno do jornalismo sobre investigações no Brasil. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010.
ORNELLAS, Luciano. A notícia ou a vida. In Revista de Comunicação. Rio de Janeiro, ano 3, nº 9, 1982, p. 8 – 9
WAISBORD, Silvio. Watchdog Journalism in South America: News, Accountability, and Democracy. Columbia University Press, New York, 2000







