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Comentário objETHOS: Quando é preciso ser parcial

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Edição de 15/11/2012

A semana que passou trouxe alarme social e uma coleção de manchetes inédita e inesquecível para os catarinenses. Por conta da sucessão de ataques de criminosos, a população de dezesseis cidades se sentiu como se vivesse em grandes centros metropolitanos, muitas vezes mergulhados na insegurança pública. Entre a segunda-feira, 12 de novembro, e o domingo, 18, bases policiais foram alvejadas, ônibus e veículos particulares foram queimados, totalizando 58 ações. A concentração dos atentados em poucos dias e sua visibilidade foram tantas que as ocorrências no interior de São Paulo e na própria capital paulista chegaram a ser ofuscadas no noticiário nacional. O episódio mostrou a fragilidade da população em ações coordenadas do crime, mas revelou também um lado do Estado que não se quer acreditar e outro da imprensa que os jornalistas teimam em esquecer.

Os dias dos atentados em Santa Catarina tornaram mais nítido para todos que governo, população e imprensa não estão exatamente do mesmo lado. Nos primeiros dois dias de ataques, o Estado insistiu em minimizar as ocorrências, um comportamento-padrão repetido em outras geografias. A estratégia está apoiada na ideia não totalmente comprovada de que não se deve dar créditos ao inimigo, sob pena de fortalecer seus atos. O chefe da polícia desdenha das ações, o governador não aparece para dar satisfações, e assim, o Estado espera mandar um recado para a população de que tudo está sob controle. Nos corredores palacianos, de forma subterrânea, o que se vê é a correria, a tomada de decisões intempestivas, a busca de compreensão do que está acontecendo e a tentativa de antecipação dos movimentos do oponente. Seja por questões estratégicas – para não revelar o que está fazendo -, seja por despreparo – para não revelar o que não fez -, o Estado deixa o cidadão comum sem a devida informação. A ironia é que o Estado existe para servir o cidadão, atendê-lo em suas necessidades, protegê-lo.

Tom conciliador

Edição de 17 e 18/11

Entre o governo e a população, quem poderia construir pontes de compreensão é o jornalismo. Os meios de comunicação atuariam para desvelar o lado oculto dos ataques, para contrapor as diversas versões dos fatos e para, acima de tudo, tornar o cidadão mais bem informado sobre o que está ocorrendo. Enquanto o Estado se orienta pela busca da ordem – muitas vezes, revestindo seus atos com opacidade -, o jornalismo deveria se guiar pela clareza, pela nitidez dos acontecimentos.

Entretanto, parece vigorar nas redações um raciocínio de que, em tempos de crise, é preciso dar uma trégua ao Estado para que a ordem seja restabelecida. É assim em desastres naturais, em que a mídia tenta atuar como um braço da Defesa Civil, prestando serviços que seriam uma extensão do Estado. Pelo que se viu, isso também acontece diante de ataques coordenados do crime organizado, quando sobressaem os desserviços. Tão surpresas quanto o cidadão, as redações externam nas manchetes algum despreparo para cobrir o assunto e muito de senso comum. As primeiras páginas gritam com o público, chacoalhando o leitor. Histeria, alarme social e medo coletivo são os espíritos dessas páginas, enquanto a informação vital – aquela que ajuda o leitor a tomar decisão, aquela que o ajuda a compreender o cenário complexo, aquela que permite que ele se proteja -, essa informação vital fica subsumida. Os dilemas se instalam nas mesas de editores: Como dar a notícia na dimensão precisa sem apelar para o sensacionalismo? Se o conjunto de ações é inédito, se sua intensidade é única, como não ressaltar isso nas matérias? Como buscar equilíbrio na cobertura quando a ordem social e a segurança pública se traduzem apenas como expressões nas bocas dos políticos e não nas ruas ou bairros?

O noticiário dos jornais de Santa Catarina oscilou na semana em questão. O Diário Catarinense tentou se conter: Escolta e ataques (15/11); “Deixa eu sair” (16/11); Varredura nos presídios começa por Santa Catarina (17/11); Porque o terror atacou (18/11).

O Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, mostrou-se distante: Facção criminosa recruta devedores (16/11); O pior presídio (17/11); Presos deram ordem para reduzir ataques (18/11).

Notícias do Dia, oscilou quase de de forma errante: Prisões, mortes e novos atentados (16/11, edição de Florianópolis); Atentados em SC – Mais ataques (16/11, edição de Joinville); “O pior já passou”, diz o governo (Joinville, 17 e 18/11); Segurança em alerta (Florianópolis, 19/11); Cai ritmo dos ataques no Estado (Joinville, 19/11).

A Notícia, o segundo maior jornal catarinense, só despertou quando a onda chegou perto da sede, em Joinville: Estado em alerta: Ataques chegam ao norte (18/11).

Edição de 16/11

Deliberadamente mais impactante, a Hora de Santa Catarina intensificou a sensação geral de insegurança com seis manchetes: Noite de ataques (12/11); A que ponto chegamos (13/11); Isso, sim, é o fim do mundo (14/11); Quatro noites de terrorismo (16/11); Medo coletivo (17/11); Escoltas até quarta-feira (19/11).

Curiosamente, o diário que mais traduziu o sentimento geral da população é o que adota estética mais chamativa, linguagem direta e cobertura superficial. Mas também o que não assumiu o discurso tranquilizador insistido pelas autoridades, destoando dos demais, mesmo que cometendo alguns exageros.

Parcialidade sim!

A onda de ataques do crime organizado trouxe (mais uma vez) à tona que as redações podem padecer de uma certa miopia sobre o seu papel na sociedade. Embora o Estado tenha, constitucionalmente, o dever de proteger o cidadão, não são raras as vezes em que deixa o contribuinte sem informação ou sem serviços básicos. Nessas ocasiões, prevalecem as razões de Estado que podem colidir com o interesse público: para manter uma ordem aparente, as autoridades negam a realidade e ocultam informações importantes, alimentando a sensação de incerteza geral. De forma inaceitável, o Estado “protege” o cidadão da informação que não lhe poderia ser sonegada.

O jornalismo não tem que estar ao lado do Estado, mas sim da população. Nem sempre são coincidentes as posições do governo e do cidadão, pelo que se pode ver. Na guerra das versões, o sujeito das ruas fica sem amparo, sem saber, seja porque o Estado lhe nega, seja porque os jornalistas não lhe fornecem.

Num cenário de crise de confiança e de solvência, o jornalismo – cada vez mais! – precisa ficar ao lado da população, quando ela assiste bestializada à sucessão de ataques, da qual é a vítima mais evidente. Embora os ataques tenham sido contra algumas bases policiais, é o cidadão que mais sofre nessas ocasiões, pois é ele quem sai às pressas do ônibus prestes a ser incendiado; é ele quem se sente acuado pelo crime, pois não tem armas ou instrumentos de inteligência para reagir eventualmente. O Estado deve ser indagado pelos jornais; os repórteres não podem fazer as vezes de meros porta-vozes do governador para acalmar o cidadão; as redações devem buscar formas próprias de extrair as informações que o público espera e necessita; a polícia e os demais aparatos estatais não podem ser os únicos lados da história, e os detentores das versões mais privilegiadas. Isto é, o jornalismo precisa deixar de lado o pudor de ser parcial nessas ocasiões, e tomar o partido da população, mesmo que isso implique em contrariar os interesses de um governo ou de outro.

O descalabro dos presídios, as condições precárias em que vivem os policiais, a incapacidade do Estado de garantir a segurança de todos, o torpor e a própria desinformação governamental sobre os movimentos do crime organizado, tudo isso deve estar na pauta jornalística. Mas tão importante quanto ela é a clareza com que repórteres e editores devem ter sobre o papel a ser assumido nessa história toda: o jornalismo tem lado, e esse lado é o do público, não o das autoridades, dos conglomerados econômicos ou dos núcleos de poder. Fortalecer os laços da confiança que a população deposita sobre a mídia é essencial para um novo cenário comunicacional. Não só para “salvar” os veículos de informação, mas para fazer valer sua finalidade pública e sua justificativa social.

Comentário objETHOS: o que esperar do jornalismo, após a Lei de Acesso

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

A lei de acesso a informações públicas entrou em vigor no último dia 16 de maio, coroando de êxito mais de uma década de luta e empenho de entidades civis nacionais. Sancionada em novembro de 2011, a Lei nº 12527/11 tinha bases constitucionais desde o final dos anos 1980 e sua elaboração teve ampla participação da sociedade civil por meio do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. A vigência da lei ganhou espaço no noticiário nacional, tomando contornos de vitória da sociedade, de amadurecimento do país. Nas redações, pode-se supor que houve uma certa contagem regressiva para que a lei finalmente passasse a valer, o que veio acontecer na mesma época em que o governo federal implantava uma Comissão da Verdade, dedicada a revisar um passado que a nem todos interessa reavaliar.

Do ponto de vista institucional, a Lei de Acesso fortalece a cidadania e ajuda a elevar os padrões da nossa cidadania. A partir de um novo marco jurídico, novas relações podem ser estabelecidas entre o Estado e os cidadãos. O “segredo”, as “razões de Estado” e a “segurança nacional” encolhem na extensão de suas semânticas, antes infinitas. Órgãos públicos e governos deslocam-se de posições antes inatingíveis para patamares em que podem ser inquiridos, questionados, cobrados de seus atos anteriores. Temos, então, a solução para todos os males do Brasil, certo?

Claro que não. A Lei de Acesso é apenas mais um instrumento que contribui para uma conciliação social, para uma reorganização dos atores no tecido conjuntivo que chamamos de país. A lei permite que o cidadão comum possa ter uma relação menos subalterna e precária com o Estado que sustenta. Possibilita que se atenuem algumas zonas cinzentas que separam as decisões governamentais do cotidiano rasteiro dos brasileiros. É pouco, mas tem o seu valor. Com uma lei como essa, pedir informações sobre atos que deveriam ser públicos escapa da esfera do favor e da concessão; passa a fazer parte de um processo, naturaliza-se. A lei não mata a fome de ninguém, mas permite saber porque recursos destinados à merenda escolar não foram usados para esse fim, por exemplo.

Mas e o jornalismo?

Se uma lei como essa pode ajudar a transformar as relações entre Estado e cidadãos, imagine suas implicações junto a uma instituição que se orienta pelo trabalho de tornar visível o que é insistentemente ocultado… É mais ou menos assim que tento dimensionar o impacto da Lei de Acesso para o jornalismo.

Um questionamento esperado em território brasileiro é “será que a lei vai pegar?” Difícil responder agora, mas acredito que as condições políticas urdidas nas últimas décadas podem compor uma força que impeça a lei de naufragar. Este empuxo – alimentado por uma vontade coletiva de saber, por um desejo de mudanças nas relações sociais – faz com que a Lei de Acesso se torne um instrumento de empoderamento que tonifica a presença no cenário do cidadão comum (do eleitor, se quiserem). Assim, jornalistas podem esfregar as mãos porque a história pode estar apenas começando…

O que se pode esperar a partir de então?

Primeiro, penso que assistiremos a um período de acomodação para órgãos públicos e governos. Eles não estão preparados para atender e satisfazer os pedidos de informação de milhões de pessoas, quem estaria? Eles precisam se acostumar a isso. Neste período, portanto, é muito possível que haja atritos entre jornalistas, servidores e políticos, entre cidadãos e órgãos, enfim, entre quem se atreve a perguntar e quem tinha prerrogativas infinitas de negar informações.

À medida que a transparência enquanto valor social ganha músculos, uma quantidade razoável de poder que antes estava centralizada e encerrada nas mãos de alguns atores se fragmenta, e como sempre acontece quando algo se espatifa, há cacos que se perdem para sempre.

Assim que o sistema conquistar alguma estabilidade, novas relações devem emergir, muito possivelmente com cidadãos mais fortalecidos no palco político. Jornalistas e veículos de informação também podem se sobressair, caso reforcem suas vocações de cobradores de respostas. Caso insistam na encarnação de delegados do público para buscar dados e explicações. Mas para isso, não poderão abandonar o compromisso ético de checar informações, de contrapor versões, de ouvir os lados envolvidos, de investigar e conferir. Solicitar números e declarações por meio de formulários e publicar na sequência o que se obtiver não será nada demais! Isso está longe de ser jornalismo, pois se aproximar mais dos serviços de um cartorário…

Será necessário investir na produção de informação qualificada, inédita, exclusiva e socialmente útil; será preciso oferecer relatos contextualizados, claros, bem explicados; será imprescindível que os jornalistas aprimorem técnicas de reportagem, que tornem mais sofisticados seus métodos de investigação e que não se contentem com os primeiros resultados de suas investidas às fontes.

O leitor mais atento poderá se contrapor: mas isso é básico do jornalismo! Sim, é. Mas diante de uma possível explosão de dados, selecionar e processar informações serão ações cada vez mais centrais no processo de comunicação e tradução do mundo. Os jornalistas não poderão prescindir desses cuidados. Em nome de uma relação ética com seu público e fontes, e em nome da sobrevivência disso que convencionamos chamar de jornalismo.

 

Comentário objETHOS: Limites difusos para o telejornalismo

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O jornalismo parece ser daquelas práticas humanas que necessitam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições, admitir seus contornos. Com outras profissões, isso não é necessário. Os médicos sabem exatamente quando estão e quando não estão fazendo medicina. Os engenheiros também não padecem das dúvidas sobre a matéria e a natureza de suas atuações. Jornalistas não têm a mesma sorte e, volta e meia, discutem o que é fazer jornalismo e até onde isso vai. Talvez porque essa prática atravesse diversos outros campos, se mescle tanto socialmente que fique difícil discernir seus limites. Buscar se reconhecer é, então, um gesto permanente no jornalismo, o que, por um lado, auxilia o fortalecimento de uma convicção e, por outro, desestabiliza continuamente as certezas.

Críticos de mídia se ocupam de fazer esse debate, bem como pesquisadores da academia e observadores diversos. Mas quando os questionamentos partem das próprias redações, a dúvida emerge preenchida da legitimidade do empirismo, lembrando-nos a todo o momento do exercício prático da função. Foi assim esta semana quando se noticiou que alguns jornalistas da Rede Record estariam insatisfeitos com suas atuações na emissora. A informação foi dada por Mauricio Stycer em seu blog, inclusive com o anúncio de que o repórter Carlos Dorneles teria pedido demissão da Record por discordar de novas orientações do jornalismo. Dorneles negou sua saída em e-mail a Stycer, mas o foco do problema estaria numa suposta “crise” do jornalismo na Record por conta de interferências editoriais da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da rede. Outro jornalista, não identificado por Stycer, teria dito “Não estou fazendo jornalismo, estou fazendo entretenimento”, e é esta fala em particular que me chama a atenção.

No âmago do jornalismo, esta distinção é histórica e tenta demarcar limites de atuação, bem como contornos do que significa reportar fatos. Uma tradição cultural se construiu ao longo das décadas de que jornalistas se ocupam da narração dos acontecimentos que interessem diretamente ao seu público, muitas vezes desagradando partes envolvidas e citadas, noutras contrariando até mesmo camadas da sua audiência. Quando opera dessa forma, o jornalismo se distancia do entretenimento na medida em que não conforma, não acomoda, não distrai. Corre o risco, portanto, de desagregar, de fomentar o dissenso, a crítica. Agindo assim, jornalistas – de forma incontornável – colecionam desafetos já que produzem dissabores. Parece simples e fácil, mas, na prática, manter essa direção requer pleno entendimento do exercício jornalístico, coragem, disciplina, atenção permanente e compromisso ético com um conjunto de valores que transcende a esfera do individual.

Sim, o jornalismo é dessas práticas que precisam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições. Isso é saudável e necessário pois sua imagem é fugidia. Ainda mais num meio como a televisão, onde as fronteiras entre jornalismo e diversão ficam perigosamente embaçadas. A preocupação do jornalista anônimo chama a atenção, mais uma vez, da urgência de discutir, estabelecer e frisar os limites entre uma coisa e outra.

Esses limites não apenas determinam orientações para a conduta de profissionais e veículos, mas também auxiliam a enaltecer o que é prioritário, importante, essencial para a relação do jornalismo com a sociedade. Estou me referindo claramente a interesse público, aos critérios e processos de tomada de decisão que vão eleger o que deve ser narrado primeiro e melhor e o que deve ser simplesmente mencionado ou descartado. O anúncio das manchetes do Jornal Hoje, no último sábado (19), na Rede Globo, ajudam a ilustrar como é fácil perder o foco. A notícia que abriu a edição foi a execução do filho do coreógrafo Carlinhos de Jesus, Dudu, no Rio de Janeiro. O crime é bárbaro – oito tiros em alguém desarmado no meio da madrugada -, a perda de um filho é sempre um enredo dramático, mas o que parece ter influenciado definitivamente na decisão de escolher este acontecimento como o primeiro do telejornal foi a celebridade do pai-vítima. Tanto é que o nome de Carlinhos de Jesus é o anunciado na chamada e não de seu filho, menos conhecido.

Uma matéria como esta tem interesse público? Pode ter na medida em que se relaciona a um cenário mais amplo, de denúncia da violência urbana que ainda assusta aos moradores do Rio de Janeiro. Mas no frigir dos ovos, o fato é uma tragédia familiar, particular e não coletiva. Diferente de uma matéria que teve muito menos destaque na mesma edição do Jornal Hoje, de sábado: o desaparecimento de um cacique no Mato Grosso do Sul, que teria sido executado por fazendeiros da região. O filho adolescente da vítima exibe no próprio corpo marcas de balas de borracha e denuncia que o pai levou tiros na cabeça e pescoço, tendo sido levado por um bando de quarenta pistoleiros. Também neste caso, a ação é violenta e desproporcional, e o enredo é dramático. Três elementos diferenciam esta notícia da primeira: a inversão dos papeis das vítimas – agora, é o filho que sente a perda do pai -, a falta de notoriedade dos índios em comparação com o artista e a extensão do drama: a execução de um cacique atinge toda a sua comunidade e não apenas o seu núcleo familiar. Resumo da ópera: há mais interesse público e relevância jornalística no desaparecimento de um cacique numa área de litígio de terras do que a execução de um músico, filho de um conhecido coreógrafo.

A televisão dilui sutilmente os limites entre jornalismo e diversão, mesmo em casos graves como os citados. Foi mais determinante o star system que o caráter político de matérias sobre disputas agrárias. O jornalismo é feito de escolhas. Estas sinalizam limites. Em algumas situações, no espelho, o jornalismo entrevê sua imagem embaçada, tremida, desconfigurada. Precisamos de mais nitidez.

Comentário objETHOS: Uma “incelença” para acalmar a imprensa

Samuel Lima
Docente na UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

A cobertura dos desdobramentos da crise financeira de 2008, no decorrer da semana, pode ser traduzida num tipo de enunciado, que se reproduziu em veículos impressos e eletrônicos como se fora um mântra. Observe-se o lide do repórter José Roberto Burnier (Jornal Nacional, TV Globo, edição de 08/08/11), a respeito do movimento da Bolsa de Valores de S. Paulo:

Perto das 15h30, o índice chegou a cair 9,74%. Se alcançasse -10%, o mercado seria fechado por meia hora. Usado para esfriar a cabeça dos investidores e impedir uma queda ainda maior, o mecanismo de defesa não foi necessário, mas o mercado continuou em pânico (grifos nossos).

Não é exatamente novo esse esforço extra para mimetizar o deus Mercado, tratando-o como um ser provido de atributos humanos: medo, nervosismo, pânico, calma, preocupação, confiança ou desconfiança… Na escuridão de um jornalismo submisso, vassalo e absolutamente superficial, do ponto de vista informativo e analítico, todos os investidores são pardos. Inexiste especulação, jogatina, ambição desmedida que são a “alma dos negócios” nos mercados financeiros e bolsas de valores na Aldeia Global. No fim, perdem de fato os otários, investidores pessoas físicas que atuam com os nacos de informações captados aqui e acolá.

O fim está próximo

A baixa qualidade da cobertura, sobretudo nos telejornais das emissoras abertas, foi tão marcante que o economista Roberto Macedo (ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do IPEA), comentarista do Jornal da Record News (edição de 08/08/11) apontou: a imprensa não publicou, até aqui, informações substanciais sobre a oscilação dos preços das commodities, como soja, petróleo e café que impactam diretamente o resultado das exportações brasileiras.

Além desse viés ideológico, assumidamente a essência do jargão dos agentes de mercados financeiros, um leitor/telespectador/ouvinte interessado em obter algum tipo de interpretação e/ou análise crítica ficaria apenas no desejo. Na cobertura vassala e submissa, não cabem vozes discordantes, nenhuma dissonância é permitida. Senão vejamos no olhar sui generis de Míriam Leitão (Bom Dia Brasil, TV Globo, edição de 10/08/11), que vaticinava:

A comentarista Míriam Leitão falou sobre a decisão do Banco Central americano (FED), que, nesta terça (10), não fez exatamente o que o mercado queria, que era um relaxamento monetário, uma nova ingestão de moeda na economia. Segundo Míriam, o BC teve uma visão pessimista em relação à economia. Pessimismo que acalmou o mercado: o BC americano está sabendo que a situação é grave (grifos nossos).

Entre a perplexidade e o pânico, o apresentador Renato Machado conseguiu prever uma espécie de “armagedon” para o dia 9 de agosto, quando se esperava um mergulho mais radical nas supostas perdas dos valores das ações no mercado de capitais. Apregoava Machado (Bom Dia Brasil, TV Globo, edição de 09/08/11):

Está todo mundo preocupado. É crise nas maiores economias do mundo, nas bolsas de valores, nas empresas e na vida de muita gente. O que vai acontecer com o Brasil e o mundo?As bolsas de valores voltaram a derreter nesta terça-feira (9). O pânico tomou conta dos investidores na segunda-feira (8). Foi o pior dia para os mercados desde a crise de 2008 (grifos nossos).

A essa chamada cataclísmica, seguiu-se um diálogo entre a apresentadora Ana Luíza Guimarães e o repórter Marcos Uchôa (correspondente em Londres), que ilustra ainda mais a incorporação da linguagem dos financistas no texto jornalístico:

- Uchôa, como está o ânimo dos investidores? [Ana Luíza]
- Os mercados continuam mal na Europa. Abriram em forte queda, mas já deram uma melhorada. A Bolsa de Frankfurt estava em -5,7% e fechou em -3%. Paris opera com -1% e hoje pode ser o 12º dia de baixa. Itália fechou em -1,5%, também um recorde negativo se continuar assim (grifos nossos).

O mundo não acabou

Os indicadores das bolsas iriam desmentir, poucas horas depois, as previsões de Renato Machado. A Bolsa de Nova York fechou em 4% de alta e a Nasdaq (de tecnologia) com número positivo de 5%; a Bovespa BM&F 5,1% registrando a maior alta desde 2009, com um montante negociado na casa dos R$ 10,3 bilhões. Restou ao apresentador Guto Abranches (Conta Corrente, GloboNews, edição de 09/08/11, às 19h30) reconhecer: “Pois é, o mundo não acabou, que bom. Hoje as principais bolsas de valores do mundo fecharam em alta, algumas em alta bastante forte”. E um perplexo Abranches indagava: “O que é que mudou de ontem para hoje? Praticamente ou absolutamente nada”.

Outro exemplo desse mimetismo está no mesmo telejornal (Bom Dia Brasil, edição de 11/08/11), desta vez no texto do jornalista Jorge Pontual, cobrindo o movimento da Bolsa de Valores de Nova York, na véspera:

O que mais influiu para a queda de quarta-feira (10) na Bolsa de Nova York foi a situação da França. As ações do maior banco francês, Société Générale, chegaram a cair 20%, mas fecharam com perda de 15% depois que o banco desmentiu estar em dificuldades. Correram rumores na Europa e nos Estados Unidos de que a França estaria prestes a perder a nota máxima, AAA, para seus títulos. Mas as três agências de classificação de risco confirmaram a nota da França. Nem isso acalmou os investidores (grifos nossos).

Nem mesmo a decisão da Standard & Poor’s (S&P), agência de classificação de crédito, de rebaixar a nota dos títulos da dívida americana, foi capaz de trazer ao noticiário dos telejornais figuras como o economista Paul Krugman, prêmio Nobel e articulista entre outros dos jornais Folha de S. Paulo e Estadão. A respeito dessa decisão escreveu Krugman em sua coluna no portal de O Estado de S. Paulo:

A S&P, juntamente com as demais agências de classificação de crédito, desempenhou papel importantíssimo na precipitação dessa crise, concedendo notas AAA a ativos lastreados em hipotecas que desde então se transformaram em lixo tóxico. Mas as avaliações incompetentes não pararam por aí. Num episódio agora famoso, a S&P concedeu ao Lehman Brothers, cujo colapso deu início a um pânico global, uma nota A até o mês da sua quebra. E qual foi a reação da agência depois que esta empresa foi à falência? Ora, a S&P publicou um relatório negando ter feito qualquer coisa de errado. (…) Espere só, a coisa não para por aí. Antes de rebaixar a nota da dívida americana, a S&P enviou ao Tesouro dos EUA um rascunho do seu comunicado à imprensa. Os funcionários americanos logo repararam num erro de US$ 2 trilhões nos cálculos, algo que qualquer especialista em orçamento teria calculado corretamente. A S&P reconheceu o erro e rebaixou a nota mesmo assim.

É do jornalista Sidnei Basile, ex-Diretor de Redação da revista Exame, falecido recentemente, a indagação de fundo sobre a cobertura econômica: fazemos jornalismo para o mercado ou para a cidadania? E respondia: “Cidadãos não são clientes; são cidadãos. Notícias são notícias e não ‘serviços ao consumidor’” (in “Elementos de Jornalismo Econômico”, 2002: p. 36). O autor cita ainda os pesquisadores Downie e Kaiser (p. 41): “O mau jornalismo (e isto é radical na cobertura econômica – grifo meu) pode deixar as pessoas perigosamente mal informadas”.

Ao final de tanta predição em torno do juízo final, a partir do “tombo” ou “derretimento” das Bolsas, resta cantar uma novena acompanhando a voz grave de Dorival Caymmi em “Velório”: “Uma incelença entrou no paraíso/ A-deus, irmão, adeus/ Até o dia de juí-zo…”.

Faltam 10 dias para o Bapijor

A contagem regressiva já começou! Restam dez dias para o 1º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), que acontece em 9 e 10 de junho nas dependências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis.

As atividades do Bapijor terão lugar no Auditório Henrique da Silva Fontes, no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. A programação prevê mesas com renomados jornalistas e pesquisadores brasileiros e argentinos. Nomes como José Roberto de Toledo, Claudio Tognolli, Martín Becerra, Angelina Nunes e Adriana Amado já estão confirmados.

O anúncio da realização do evento provocou o esgotamento das inscrições em apenas 48 horas. As 150 vagas se somaram a uma lista de espera, também preenchida rapidamente. Para quem não conseguiu se inscrever, a saída agora é acompanhar as atividades pelo Twitter. Para isso, basta seguir a conta do Observatório da Ética Jornalística (@objETHOS) e a hashtag #bapijor.

O Seminário Brasil-Argentina é uma realização do objETHOS, promoção do Posjor/UFSC, com patrocínio da Fapesc e apoio da Abraji, PRAE/UFSC, Associação Catarinense de Imprensa (ACI) e Fapeu.

 

El País cria blog para discutir futuro do jornalismo

O principal jornal espanhol, El País, lançou esta semana um blog para debater as transformações pelas quais o jornalismo vem passando. Trata-se de Periodismo con Futuro, cujos propósitos seus editores explicam:

Com todas as incógnitas do momento, o título deste blog é uma afirmação naquilo que acreditamos sem duvidar. O Como, Quem, Onde e Quando já não estão tão claros. Queremos abrir um debate sobre o presente e o futuro do jornalismo e sua indústria, sobre novas tendências, conteúdos, tecnologia, suportes e modelos de negócio, com informação e análise. E viver em primeira mão um novo ecossistema informativo tão apaixonante quanto incerto.

Entre os destaques do que já foi postado, há vídeos de entrevistas curtas com publishers do The Guardian, do New York Times, do Le Monde, de El País e da Der Spiegel. Conheça o blog!

 

 

 

 

 

 

Comentário da semana: Os segredos, a nova transparência e a informação

Francisco José Castilhos Karam
Pesquisador do objETHOS

Neste início de ano, o advogado Joanisval Brito Gonçalves (consultor legislativo do Senado para a área de Relações Exteriores e Defesa Nacional e para a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, além de ex-analista de informações da Abin – Agência Brasileira de Inteligência), lançou, pela editora Impetus, o livro Políticos e espiões — o controle da atividade de inteligência. No livro, analisa os abusos de e possíveis controle sobre órgãos de inteligência. No caso, trata do serviço secreto brasileiro e dos governos em geral, ou melhor dizendo, dos Estados. Todo Estado democrático de Direito e todo Governo e Nação tem, em geral, suas formas de controle e fiscalização da vida pública e, em muitos casos, da vida particular. E mais: tem, institucionalmente, formas de espionagem consagradas. Isto é um atestado de que a transparência social, a liberdade individual e grande parte da vida pública vivem sob monitoramento das ações “em segredo”. Há até mesmo concurso para “espião”, que, claro, não leva oficialmente o nome.

Também neste início de ano, as revoltas populares na Tunísia e no Egito, por exemplo, foram intensificadas e estimuladas por novas mídias, por redes sociais que ultrapassaram o âmbito do segredo e deram dimensão pública planetária a fatos e versões que fugiram ao controle dos órgãos de inteligência e do “segredo” público a que muitas manifestações, inconformidades ou movimentos sociais rebeldes são submetidos.

Ainda neste início de 2011, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz o site WikiLeaks, de Julian Assange, que deixou muitos governos e órgãos de inteligência com a “alma” à mostra, desmentindo versões, revendo fatos e expondo, perante a vida pública, aspectos de “segredos” que gostariam de manter muitos Estados teocráticos, autoritários, ditatoriais ou democráticos de direito.  O autor da proposta aprovada, Snorre Valen, membro do parlamento norueguês, anunciou a indicação do WikiLeaks, considerando o site “um dos mais importantes colaboradores para a liberdade de expressão e transparência”.

Há pontos que unem os três contextos, o de um livro sobre órgãos de inteligência, o das revoltas populares e o do site WikiLeaks.

A tecnologia não é tudo mas é também uma forma de propor conteúdos, disseminá-los e integrá-los a um novo cenário público, que pode ser macro, médio ou micro. Reconhece-se, hoje, que estamos diante de um novo quadro que redefine os papeis sociais dos informantes, dos profissionais e da própria democracia, isto é, aquele que aponta para uma transparência sem “segredos”.

Há dois aspectos que mereceriam, ao menos, comentários.

O primeiro é sobre a separação entre vida pública e vida privada. Se um Estado, um governo e um órgão de inteligência investigam secretamente cidadãos e seus atos, a única justificativa seria o chamado “interesse público”. No entanto, se o interesse público serve apenas como camuflagem para o interesse privado, não há como defender a não transparência e a sonegação de informações sobre fatos, documentos e declarações. É aí que aparece uma das mais relevantes contribuições do Wikileaks. Neste caso, apenas a ética se sobrepõe ao direito, e sabemos que uma ética total e global só poderia existir se todos os interessados participassem e negociassem o presente e o futuro. E isto requer, por antecipação, transparência total, algo para o qual o site de Assange claramente contribui.

O segundo aspecto é quanto à possibilidade de controlar as novas mídias, as redes sociais e submetê-las à censura. Tecnologicamente, embora exista uma possibilidade cada vez mais remota, é também cada vez mais difícil fazer isso sem “engessar” o próprio sistema de governo, de empresas e da vida pública, com repercussões na vida particular, que é onde efetivamente aparecem os interesses. Seriam dois tiros no pé, um no próprio e outro no ideal democrático coletivo.

Neste novo cenário, que se redesenha e afirma a cada dia, “a democratização das comunicações”, a “transparência informativa”, a “liberdade de expressão”, a contragosto de muitos governos e de numerosas mídias hegemônicas, tem, na tecnologia, aliado irreversível no início de século 21.

Para o jornalismo, parece ser muito bom este cenário, porque os controles e constrangimentos operacionais, no dia-a-dia, terão de levar em conta tais aspectos e , se não for assim, podem levar à desmoralização a empresa, o veículo midiático e o profissional. Redobra-se a preocupação com a verificação, com as fontes, com a repercussão e com qualidade do texto e o acesso massivo a eles, como referência de credibilidade. Os poderes político e econômico (incluindo os relacionados à mídia) e militar , com “a alma à mostra”, estão gradativamente sendo também constrangidos por uma transparência em que a tecnologia tem ajudado significativamente.

O Jornalismo tem a ganhar muito com isso, mas não todo ele. Uma parte tenderá a ser pulverizada pelo “peso dos acontecimentos”, como se dizia em relação à queda do Muro de Berlim. Parece cair o muro que separa a informação exclusiva e seletiva daquela que permite uma maior visibilidade de todos os aspectos da vida pública e dos interesses que envolve.

E nenhuma empresa poderá argumentar que, em nome dos negócios, devem ser sacrificadas a liberdade de informação e a democracia. Afinal, como dizem os códigos de ética e os princípios empresariais, escritos e repetidos à exaustão país afora, “liberdade de expressão não é uma prerrogativa dos meios e dos profissionais de comunicação – é um direito sagrado e constitucional dos cidadãos”.

Portanto, transparência total aos temas, fatos, versões e decisões que, produzidos publica ou privadamente, repercutem na vida pública e privada dos cidadãos.

Comentário da semana: Wikileaks ensina

Rogério Christofoletti
Professor do Departamento de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Um site que publica documentos mantidos em segredo parece ser uma ideia explosiva, e é. Ainda mais quando esses documentos são autênticos, guardados por setores governamentais, em grande quantidade e com variados interesses em jogo. Pois é esta a receita do Wikileaks, o endereço que mais vem chamando a atenção na internet. Milhares de memorandos, relatórios, correspondências sobre ofensivas militares norte-americanas, sobre ações diplomáticas e intervencionistas, entre outros, estão ali, livres para serem acessados por qualquer um. Como eu disse, é uma dessas ideias explosivas, revolucionárias para alguns, subversivas para outros.

Nos Estados Unidos e na Europa, a repercussão é grande, conforme se pode acompanhar pela mídia convencional e pela galáxia dos meios alternativos. Os impactos são variados tanto na política quanto nos meios de comunicação. Entre os políticos, há queixas sobre o vazamento de documentos nem sempre confiáveis, temendo alarme social e o descrédito de certos governantes. Entre os jornalistas, as reclamações se dão na esfera corporativa, receando ver esvaziar seu poder de denúncia, sua capacidade de fiscalização dos poderes. Quer dizer, nos gabinetes e nas redações, o Wikileaks atua como um fantasma, pesadelo sem fim.

Evidentemente, não se pode generalizar, mas o fato é que a novidade que o Wikileaks traz colide sim contra alguns pilares de sustentação de certas relações de poder. Relações constituídas na exclusividade, no controle da informação, na definição do que pode vir a público e o que não pode. Durante séculos, os poderes centralizados usaram e abusaram dessa estratégia: dominar, usando seu poder de veto. E, convenhamos, durante décadas, o jornalismo convencional se apoiou na primazia de informar, na delegação pública de atualizar o noticiário.

O surgimento de um site, mantido por uma organização sem fins lucrativos, transnacional, e meio que clandestina, coloca a nu – mais uma vez – essas relações de poder que hoje se revelam bastante arcaicas e fissuradas. É o fim da política? A ruína do jornalismo? Nem uma coisa nem outra, claro. O episódio pode ser muito mais interessante e positivo. Na minha opinião, o Wikileaks traz lições que podem ser bem usadas por políticos, jornalistas e cidadãos em geral. A coragem, a ousadia, a sagacidade e o senso (quase anárquico) de transparência ensinam e nos trazem ao menos quatro bons lembretes:

a) políticos devem orientar suas ações pelo interesse da coletividade, e tudo aquilo que contraria isso, deveria ser descartado de seu cardápio de serviços;

b) empresas e governos não podem enganar ou esconder algo por muito tempo, ainda mais numa sociedade cada vez mais observada e ansiosa por ver tudo;

c) cidadãos comuns podem se organizar muito rapidamente no meio virtual de maneira a buscar informações e direitos. A internet não reinventa a política, mas a atualiza;

d) o jornalismo, com Wikileaks ou sem ele, deve continuar a perseguir informações que sejam de interesse público e que estejam mantidas em sigilo. O desvelamento de segredos e a fiscalização dos poderes continuam a ser importantes funções públicas dessa atividade.

Como se pode ver, o Wikileaks pode ser visto com terror ou com uma ponta de esperança. O site não vai trazer à tona todos os segredos do mundo, não está reinventando as relações de poder entre pessoas e organizações, talvez nem dure tanto tempo. Boa parte do valor dessa iniciativa está no seu surgimento, no fato de ter se mostrado viável e audível por todos. É uma ponta do iceberg, uma parcela diminuta do que se pode fazer quando há organização, propósito e coragem.

Prates, liberdade de imprensa e regulação

Samuel Lima
Professor da UnB, docente colaborador na UFSC e pesquisador do objETHOS

Na edição de 16/11 do Jornal do Almoço , da RBS TV (afiliada da Globo em Santa Catarina), um comentário do radialista Luiz Carlos Prates ganhou ampla repercussão nacional, sobretudo através das redes sociais, e acabou no plenário do Senado. Em síntese, Prates, à guisa de explicar o elevado número de acidentes de trânsito no feriadão, tascou:

Hoje qualquer miserável tem um carro (…). É a popularização do automóvel, resultado desse governo espúrio que popularizou pelo crédito fácil o carro para quem nunca tinha lido um livro.

Não obstante toda carga de preconceito contra as novas classes C, D e E, incluídas por conta do aumento médio da renda do trabalhador (salário mínimo, em especial) e das políticas públicas como o Bolsa Família, a fala de Prates não é um acidente de percurso, mas se revela o próprio percurso do acidente. Em várias oportunidades, já o vi fazendo apologia da violência e do crime, no estilo dos programas policiais da década de 1980.

No momento em que se discute a necessidade de regulação da mídia no país, o “palpite infeliz” do comentarista joga luz sobre o debate de fundo: afinal, a liberdade de imprensa reclamada pelos empresários da comunicação é uma espécie de “direito divino” acima do interesse público? Ou pode ser objeto de debate e marco regulatório, nos termos já adotados por sociedades democráticas, no mundo todo, afastados os perigos da censura (seja do Estado ou de agente privado, via poder econômico) e do controle de conteúdo?

Na visão de Silvio Waisbord, professor e pesquisador da George Washington University (EUA), estamos no limiar da chamada “sociedade desmidiatizada”, na qual a imprensa tradicional vem perdendo gradativamente seu peso político como espaço de formação da opinião pública. O fato é que do ponto de vista democrático, a web oferece novos espaços de mobilização, debate e construção da opinião pública, sem controle ou possibilidade de censura do Estado ou do poder econômico, como jamais se houvera experimentado. Daí, a desconstrução do discurso do Prates ter sido plena, com alcance nacional. Só no “Conversa Afiada”, blog do jornalista Paulo Henrique Amorim, o vídeo teve 1.389 comentários.

Não obstante a emergência ímpar dessa nova esfera pública, os barões da velha mídia tentam, desesperadamente, manter a pose e o monopólio das liberdades de expressão e de imprensa. Claro, misturam as duas coisas como se fora uma só e prendem o grito de “censura, censura” a toda e qualquer voz que defenda a necessidade de regulação do setor. A sinalização do governo Dilma, até este momento, é de que o Congresso Nacional deve debater o assunto e ouvir a voz da sociedade civil, que há 22 anos espera pela regulamentação dos artigos que tratam da comunicação na Constituição Federal.

A liberdade de imprensa (freedom of the press), remonta ao século XVII, começo do jornalismo como negócio e diz respeito à não intervenção do poder de Estado na produção de conteúdo da mídia. A liberdade de expressão (freedom of speech) é um direito humano fundamental, consagrado como patrimônio da humanidade desde a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo 19) e na Constituição brasileira (art. 5º, inciso IV). A rigor, não existe no texto constitucional brasileiro uma única vírgula, estritamente, sobre “liberdade de imprensa” (de imprimir, de fazer o negócio).

Em artigo publicado há seis anos, no Observatório da Imprensa, o pesquisador Venício de Lima (UnB) trata do tema propondo uma saída bastante atual, considerando o atual perfil dos negócios em comunicação no país. Indaga Lima: “Será que a concentração da propriedade privada dos meios de comunicação tem alguma interferência na liberdade de expressão, na pluralidade de fontes e na diversidade de conteúdos, pilares da democracia liberal?”.

A resposta, para Lima, é inequívoca: “sim”. Uma breve análise nas constituições de países como Alemanha, Espanha, Itália e Portugal, além de impedir censura estatal, a sociedade destes países também delegou aos agentes de Estado poderes para: (a) garantir a existência de uma imprensa livre e plural; (b) impedir a concentração e a propriedade cruzada dos meios; (c) garantir acesso a todos os grupos sociais e políticos, assegurando a democratização da comunicação.

Comentário da semana: Jornalistas e candidatos, quem faz as perguntas?

Samuel Lima
Docente da FAC/UnB, professor colaborador da UFSC e pesquisador do objETHOS.

Num raro momento da história política do Brasil, mais de 135 milhões de cidadãos e cidadãs estavam habilitados para eleger o/a sexto presidente da República, após o fim da ditadura imposta pelo golpe militar de 1964. As novas gerações de eleitores, que nasceram do final dos anos 1980 em diante, vivem essa exceção à regra que marcou os mais de 500 anos da “inauguração” do país: colônia, monarquia, regência, períodos republicanos (velha e nova) em que golpes, contragolpes e regimes de força foram características centrais.

Das muitas reflexões deixadas pela disputa eleitoral, há uma que nos toca diretamente: qual o papel da imprensa nesse contexto, do ponto de vista do nível da campanha? Afinal, é quase um consenso que durante todo o processo, em especial na disputa Serra x Dilma no 2º turno, questões fundamentais ao futuro da sociedade foram deixadas em plano muito secundário.

Em recente seminário realizado em parceria por este objETHOS, a Associação Nacional dos Jornais e o Diário Catarinense (DC), com apoio do Programa de Pós-Graduação e do curso de jornalismo da UFSC, o jornalista Nilson Vargas, editor-chefe do DC, o principal jornal impresso diário do estado, criticou o baixo nível do debate político da campanha, atribuindo responsabilidade aos candidatos, exclusivamente.

Na mesma direção, o jornalista Fernando Rodrigues, colunista da Folha de S. Paulo, avalia, em comentário à Rádio UOL (31/10/10, às 9h35), que houve “regressão para temas muito atrasados e de pouco interesse da população”. Mas isenta os jornalistas e veículos de comunicação de qualquer responsabilidade: “Os temas religiosos, a possível liberalização do aborto, dominaram o noticiário por força do desejo dos dois candidatos”. Rodrigues só esqueceu de olhar para a própria Folha, que estampou na capa de sua edição de 29/10/10: “Papa cobra ação de bispos do Brasil contra aborto”, colado à foto de José Serra, beijando uma imagem de N. S. da Abadia. O conjunto “manchete/foto” dispensa comentário… A questão é simples: quem faz as perguntas e trabalha na edição dos veículos de comunicação? São candidatos ou jornalistas?

Nesta perspectiva, quem fez as perguntas não foram os candidatos José Serra e Dilma Rousseff, tampouco seus assessores de imprensa. Na linha de frente, os/as jornalistas deram o tom, repercutiram pautas com clara intenção de protagonizar a cena política, mas parecem ter contribuído decisivamente para a desinformação sobre os candidatos e seus projetos de país. No caso mais caricato, transformando a narrativa factual da notícia, em seus fundamentos socialmente reconhecidos, como “narrativa de ficção”, o episódio da “bolinha de papel” atirada contra Serra (Jornal Nacional, edições de 20 e 21/10/10) ganhou repercussão na mídia mundial. A encenação do tucano, corroborada por perito de duvidosa reputação, teve duro combate nas redes sociais, especialmente no twitter.

Um exemplo mais contundente ainda, veio do telejornal de maior audiência pública no país, o Jornal Nacional (JN, da TV Globo). Nos dias 18 e 19/10/10, durante preciosos 20 minutos, para milhões de pessoas, os apresentadores William Bonner e Fátima Bernardes tiveram uma oportunidade que foi dada a poucos profissionais nesta campanha: entrevistar, ao vivo, os dois postulantes à presidência da República (Dilma e Serra, respectivamente).

No caso de Dilma, o tempo foi inteiramente dedicado a temas menores, irrelevantes: avaliação do 1º turno, pergunta inicial; seguindo de longas perguntas sobre o aborto, denúncias envolvendo a ex-ministra Erenice Guerra e repercussões de declarações de Ciro Gomes; Serra, não obstante o viés “diferente” na condução da entrevista, também foi perguntado sobre as eleições de 2006, política e religião, denúncias contra Paulo Preto (ex-diretor da Dersa/SP) e o espaço “amigo” para o candidato tucano reforçar suas principais “propostas” eleitorais: salário mínimo de R$ 600, 10% de reajuste aos aposentados e 13º ao Bolsa Família.

Temas fundamentais como as reformas tributária e política, geração de empregos, educação, crescimento econômico sustentável, guerra monetária mundial, reforma agrária, saúde e segurança pública – para citar apenas algumas questões de fundo – foram ignorados, tanto pelos candidatos quanto pelos jornalistas dos principais veículos, empenhados apenas em protagonizar, muitas vezes de forma antidemocrática, a cena política, mais que cumprir sua função essencial: informar à sociedade e questionar os candidatos.

Não é possível concluir que essa linha geral foi unânime, em todos os principais veículos da chamada “grande imprensa”. Há sutis e grandes diferenças entre as redes abertas de televisão (SBT, Bandeirantes e Record adotaram linhas editoriais distintas da Globo), as revistas semanais também seguiram distintos caminhos (IstoÉ e CartaCapital numa direção; Veja em seu voo solo parajornalístico e Época, sem se envolver mais a fundo). Mas, no conjunto, resta evidente um grau de responsabilidade inequívoco da imprensa, como instituição social, pela falta de profundidade do debate político destas eleições 2010.

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