Interesse público

Comentário da semana: regras mais claras lá e aqui

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Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Uma poderosa conjunção astral atraiu dois eventos distintos de países vizinhos para convergir na mesma época. Embora sejam episódios particulares, dialogam entre si e vão impactar pessoas e organizações num plano comum. Por isso, é possível afirmar que haja uma ligação entre uma decisão da Suprema Corte argentina na semana passada e o resultado de uma votação no Congresso Nacional brasileiro nos próximos dias. Cada uma, a seu tempo e com seu escopo, pode redesenhar o mapa das comunicações em seu país e trazer à tona regras mais claras para o setor.

Na última terça-feira (29/10), a Corte Suprema de Justiça argentina declarou que a polêmica Lei de Meios é constitucional, colocando um ponto final a uma batalha nos tribunais que se arrastava há quatro anos. Proposta pela presidente Cristina Kirchner, a lei foi aprovada pelo parlamento, mas foi constestada pelo maior conglomerado de mídia do país, o Clarín. Também pudera, a lei limita número de concessões de radiodifusão e ataca frontalmente oligopólios.

O Clarín era um aliado de primeira hora dos Kirchner, mas a lua-de-mel terminou quando alguns de seus interesses na área agrícola foram contrariados por medidas do governo. A partir de então, as relações esfriaram e os veículos do conglomerado midiático ofereceram à presidente uma resistência que nem mesmo a oposição fora capaz. O movimento de Cristina com uma lei que afetava o tamanho e a composição dos grupos do setor foi recebida como uma ofensiva contra a liberdade de expressão, a possibilidade de crítica e a fiscalização dos poderes. Foi como jogar gasolina para apagar a fogueira.

Aprovada em 2009, a Lei de Meios foi rechaçada pelo Clarín, por alguns concorrentes e até mesmo por aliados de outros países, como as Organizações Globo que empenharam parte de sua cobertura noticiosa para apavorar o público com as medidas censoras da presidente argentina. O Clarín apelou na justiça contra quatro artigos da lei e a queda de braço se estendeu até a corte mais alta do país. A decisão da semana passada obriga os conglomerados a se adequarem aos limites das concessões, e o maior grupo de mídia vai precisar de desfazer de dezenas de licenças de TV a cabo, por exemplo, encolhendo de uma maneira nunca vista. A Lei de Meios, agora com possibilidade real de implantação, vai redesenhar o mapa argentino das comunicações, mas é preciso atentar para um aspecto muito importante: a criação de novas regras apenas não garante que haja uma reconfiguração efetiva no setor. A mesma lei prevê uma complementaridade no sistema de radiodifusão entre governos, empresas e sociedade civil, cada um deles com um terço das licenças. A “retirada” de concessões dos grandes grupos não assegura que outros titulares tenham qualidade técnica, sustentação financeira e condições operacionais de atuar com o mesmo nível de satisfação dos anteriores. É preciso ainda que o governo lance linhas de financiamento para pequenos grupos que queiram entrar no mercado, que pulverize as verbas publicitárias de forma a alcançar esses novos players e que crie regras complementares que mantenham um ambiente estável para que os novatos sobrevivam. Embora haja grandes chances de a Argentina promover uma democratização das comunicações – algo inédito na América do Sul e bastante raro em outras partes do mundo -, este processo está apenas nos seus primeiros passos, sendo necessário adotar tais movimentos como decisões de Estado e não apenas de governos, haja vista que Cristina Kirchner não deve permanecer na Casa Rosada por toda a eternidade.

No Brasil, estamos muito distantes de contar com um governo que insinue uma política efetivamente democratizante das comunicações. Por aqui, licenças e outorgas de radiodifusão são praticamente infinitas, já que se renovam quase que automaticamente, têm a cumplicidade do Estado e quase nenhuma fiscalização das agências reguladoras. No entanto, um importante movimento pode ser dar finalmente no país esta semana com a votação no Congresso Nacional do Marco Civil da Internet. Pelo menos desde 2011, setores organizados da sociedade discutem as bases para o que deve funcionar como uma Constituição para internautas, empresas, governos e todos aqueles que se conectam. Polêmica, a proposta reafirma princípios como o da neutralidade de rede, a privacidade e a guarda dos dados dos usuários, o que contraria interesses de companhias telefônicas, de provedores de acesso, de empresas de tecnologia, que fazem pressão sobre os parlamentares. Não é à toa que o projeto foi a plenário pelo menos meia dúzia de vezes no ano passado e em todas elas teve sua votação adiada por falta de consenso. Líderes do governo sentiram que recuar era avançar e por isso retiraram o projeto da pauta até onde foi possível.

Em julho passado, com as denúncias dos atos de espionagem de agências norte-americanas à presidência da República e a empresas nacionais como a Petrobras, o Marco Civil passou a ser uma prioridade para o governo Dilma Rousseff. Assim, uma legislação para a internet ganhou uma importância concreta para assegurar direitos de usuários e para restringir ações de bisbilhoteiros. O Palácio do Planalto colocou o projeto em regime de urgência na Câmara Federal, e a presidente usou a tribuna da Organização das Nações Unidas para defender o Marco Civil, uma governança mais democrática e responsável da internet em escala mundial e o fim da espionagem cibernética.

Na semana passada, o Marco Civil entrou novamente em pauta, e só não foi votado porque líderes da base aliada negociaram com outros líderes uma comissão geral, sessão parlamentar de debate público entre deputados e convidados, agendada para esta semana. O objetivo é reduzir as margens de dúvida sobre a proposta e aprová-la com a forma mais próxima do projeto original. Em setembro, o texto recebeu 34 emendas.

Em linhas gerais, o Marco Civil quer manter que a internet no país não priorize o tráfego de pacotes de informações conforme aspectos mercadológicos, que os dados pessoais dos usuários não sejam comercializados nem tornados públicos pelos provedores de serviço, que a rede promova a cultura, o desenvolvimento humano e social, e a inteligência coletiva. A exemplo da Lei de Meios argentina, o Marco Civil – caso venha a ser aprovado e mantenha o espírito original – traz luz a setores cada vez mais estratégicos na sociedade, como é o caso das comunicações e da tecnologia informacional. Não chega a redesenhar o setor, como o faz a lei dos vizinhos, mas finca bandeiras importantes e sinaliza para o mundo que o país defende uma internet plural e social (e não majoritariamente comercial). O Marco Civil não resolve o problema da espionagem contra governos e empresas, mas permite que surjam leis complementares que responsabilizem transgressores e que fermente um amplo debate sobre limites nacionais, soberania, respeito mútuo e privacidade pessoal em detrimento de ganhos financeiros. Pode ser um passo importante, tão relevante como discutir vencimento de concessões de radiodifusão e transferência de licenças de rádio.

Pesquisador do objETHOS lança ebook sobre jornalismo científico

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Screenshot 2013-08-22 09.01.47O professor Samuel Lima, pesquisador do objETHOS, está lançando o livro “Jornalismo Científico e Pesquisa na Amazônia”.

O e-book é resultado do curso de pós-graduação em jornalismo científico da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFopa), instituição do professor Manuel Dutra, que também assina a organização do volume.

Com 176 páginas, a obra reúne entrevistas com 17 pesquisadores e jornalistas da região amazônica, vem com selo da Editora Insular e pode ser acessado neste link.

Comentário objETHOS: Quando é preciso ser parcial

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Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Edição de 15/11/2012

A semana que passou trouxe alarme social e uma coleção de manchetes inédita e inesquecível para os catarinenses. Por conta da sucessão de ataques de criminosos, a população de dezesseis cidades se sentiu como se vivesse em grandes centros metropolitanos, muitas vezes mergulhados na insegurança pública. Entre a segunda-feira, 12 de novembro, e o domingo, 18, bases policiais foram alvejadas, ônibus e veículos particulares foram queimados, totalizando 58 ações. A concentração dos atentados em poucos dias e sua visibilidade foram tantas que as ocorrências no interior de São Paulo e na própria capital paulista chegaram a ser ofuscadas no noticiário nacional. O episódio mostrou a fragilidade da população em ações coordenadas do crime, mas revelou também um lado do Estado que não se quer acreditar e outro da imprensa que os jornalistas teimam em esquecer.

Os dias dos atentados em Santa Catarina tornaram mais nítido para todos que governo, população e imprensa não estão exatamente do mesmo lado. Nos primeiros dois dias de ataques, o Estado insistiu em minimizar as ocorrências, um comportamento-padrão repetido em outras geografias. A estratégia está apoiada na ideia não totalmente comprovada de que não se deve dar créditos ao inimigo, sob pena de fortalecer seus atos. O chefe da polícia desdenha das ações, o governador não aparece para dar satisfações, e assim, o Estado espera mandar um recado para a população de que tudo está sob controle. Nos corredores palacianos, de forma subterrânea, o que se vê é a correria, a tomada de decisões intempestivas, a busca de compreensão do que está acontecendo e a tentativa de antecipação dos movimentos do oponente. Seja por questões estratégicas – para não revelar o que está fazendo -, seja por despreparo – para não revelar o que não fez -, o Estado deixa o cidadão comum sem a devida informação. A ironia é que o Estado existe para servir o cidadão, atendê-lo em suas necessidades, protegê-lo.

Tom conciliador

Edição de 17 e 18/11

Entre o governo e a população, quem poderia construir pontes de compreensão é o jornalismo. Os meios de comunicação atuariam para desvelar o lado oculto dos ataques, para contrapor as diversas versões dos fatos e para, acima de tudo, tornar o cidadão mais bem informado sobre o que está ocorrendo. Enquanto o Estado se orienta pela busca da ordem – muitas vezes, revestindo seus atos com opacidade -, o jornalismo deveria se guiar pela clareza, pela nitidez dos acontecimentos.

Entretanto, parece vigorar nas redações um raciocínio de que, em tempos de crise, é preciso dar uma trégua ao Estado para que a ordem seja restabelecida. É assim em desastres naturais, em que a mídia tenta atuar como um braço da Defesa Civil, prestando serviços que seriam uma extensão do Estado. Pelo que se viu, isso também acontece diante de ataques coordenados do crime organizado, quando sobressaem os desserviços. Tão surpresas quanto o cidadão, as redações externam nas manchetes algum despreparo para cobrir o assunto e muito de senso comum. As primeiras páginas gritam com o público, chacoalhando o leitor. Histeria, alarme social e medo coletivo são os espíritos dessas páginas, enquanto a informação vital – aquela que ajuda o leitor a tomar decisão, aquela que o ajuda a compreender o cenário complexo, aquela que permite que ele se proteja -, essa informação vital fica subsumida. Os dilemas se instalam nas mesas de editores: Como dar a notícia na dimensão precisa sem apelar para o sensacionalismo? Se o conjunto de ações é inédito, se sua intensidade é única, como não ressaltar isso nas matérias? Como buscar equilíbrio na cobertura quando a ordem social e a segurança pública se traduzem apenas como expressões nas bocas dos políticos e não nas ruas ou bairros?

O noticiário dos jornais de Santa Catarina oscilou na semana em questão. O Diário Catarinense tentou se conter: Escolta e ataques (15/11); “Deixa eu sair” (16/11); Varredura nos presídios começa por Santa Catarina (17/11); Porque o terror atacou (18/11).

O Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, mostrou-se distante: Facção criminosa recruta devedores (16/11); O pior presídio (17/11); Presos deram ordem para reduzir ataques (18/11).

Notícias do Dia, oscilou quase de de forma errante: Prisões, mortes e novos atentados (16/11, edição de Florianópolis); Atentados em SC – Mais ataques (16/11, edição de Joinville); “O pior já passou”, diz o governo (Joinville, 17 e 18/11); Segurança em alerta (Florianópolis, 19/11); Cai ritmo dos ataques no Estado (Joinville, 19/11).

A Notícia, o segundo maior jornal catarinense, só despertou quando a onda chegou perto da sede, em Joinville: Estado em alerta: Ataques chegam ao norte (18/11).

Edição de 16/11

Deliberadamente mais impactante, a Hora de Santa Catarina intensificou a sensação geral de insegurança com seis manchetes: Noite de ataques (12/11); A que ponto chegamos (13/11); Isso, sim, é o fim do mundo (14/11); Quatro noites de terrorismo (16/11); Medo coletivo (17/11); Escoltas até quarta-feira (19/11).

Curiosamente, o diário que mais traduziu o sentimento geral da população é o que adota estética mais chamativa, linguagem direta e cobertura superficial. Mas também o que não assumiu o discurso tranquilizador insistido pelas autoridades, destoando dos demais, mesmo que cometendo alguns exageros.

Parcialidade sim!

A onda de ataques do crime organizado trouxe (mais uma vez) à tona que as redações podem padecer de uma certa miopia sobre o seu papel na sociedade. Embora o Estado tenha, constitucionalmente, o dever de proteger o cidadão, não são raras as vezes em que deixa o contribuinte sem informação ou sem serviços básicos. Nessas ocasiões, prevalecem as razões de Estado que podem colidir com o interesse público: para manter uma ordem aparente, as autoridades negam a realidade e ocultam informações importantes, alimentando a sensação de incerteza geral. De forma inaceitável, o Estado “protege” o cidadão da informação que não lhe poderia ser sonegada.

O jornalismo não tem que estar ao lado do Estado, mas sim da população. Nem sempre são coincidentes as posições do governo e do cidadão, pelo que se pode ver. Na guerra das versões, o sujeito das ruas fica sem amparo, sem saber, seja porque o Estado lhe nega, seja porque os jornalistas não lhe fornecem.

Num cenário de crise de confiança e de solvência, o jornalismo – cada vez mais! – precisa ficar ao lado da população, quando ela assiste bestializada à sucessão de ataques, da qual é a vítima mais evidente. Embora os ataques tenham sido contra algumas bases policiais, é o cidadão que mais sofre nessas ocasiões, pois é ele quem sai às pressas do ônibus prestes a ser incendiado; é ele quem se sente acuado pelo crime, pois não tem armas ou instrumentos de inteligência para reagir eventualmente. O Estado deve ser indagado pelos jornais; os repórteres não podem fazer as vezes de meros porta-vozes do governador para acalmar o cidadão; as redações devem buscar formas próprias de extrair as informações que o público espera e necessita; a polícia e os demais aparatos estatais não podem ser os únicos lados da história, e os detentores das versões mais privilegiadas. Isto é, o jornalismo precisa deixar de lado o pudor de ser parcial nessas ocasiões, e tomar o partido da população, mesmo que isso implique em contrariar os interesses de um governo ou de outro.

O descalabro dos presídios, as condições precárias em que vivem os policiais, a incapacidade do Estado de garantir a segurança de todos, o torpor e a própria desinformação governamental sobre os movimentos do crime organizado, tudo isso deve estar na pauta jornalística. Mas tão importante quanto ela é a clareza com que repórteres e editores devem ter sobre o papel a ser assumido nessa história toda: o jornalismo tem lado, e esse lado é o do público, não o das autoridades, dos conglomerados econômicos ou dos núcleos de poder. Fortalecer os laços da confiança que a população deposita sobre a mídia é essencial para um novo cenário comunicacional. Não só para “salvar” os veículos de informação, mas para fazer valer sua finalidade pública e sua justificativa social.

Comentário objETHOS: o que esperar do jornalismo, após a Lei de Acesso

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Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

A lei de acesso a informações públicas entrou em vigor no último dia 16 de maio, coroando de êxito mais de uma década de luta e empenho de entidades civis nacionais. Sancionada em novembro de 2011, a Lei nº 12527/11 tinha bases constitucionais desde o final dos anos 1980 e sua elaboração teve ampla participação da sociedade civil por meio do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. A vigência da lei ganhou espaço no noticiário nacional, tomando contornos de vitória da sociedade, de amadurecimento do país. Nas redações, pode-se supor que houve uma certa contagem regressiva para que a lei finalmente passasse a valer, o que veio acontecer na mesma época em que o governo federal implantava uma Comissão da Verdade, dedicada a revisar um passado que a nem todos interessa reavaliar.

Do ponto de vista institucional, a Lei de Acesso fortalece a cidadania e ajuda a elevar os padrões da nossa cidadania. A partir de um novo marco jurídico, novas relações podem ser estabelecidas entre o Estado e os cidadãos. O “segredo”, as “razões de Estado” e a “segurança nacional” encolhem na extensão de suas semânticas, antes infinitas. Órgãos públicos e governos deslocam-se de posições antes inatingíveis para patamares em que podem ser inquiridos, questionados, cobrados de seus atos anteriores. Temos, então, a solução para todos os males do Brasil, certo?

Claro que não. A Lei de Acesso é apenas mais um instrumento que contribui para uma conciliação social, para uma reorganização dos atores no tecido conjuntivo que chamamos de país. A lei permite que o cidadão comum possa ter uma relação menos subalterna e precária com o Estado que sustenta. Possibilita que se atenuem algumas zonas cinzentas que separam as decisões governamentais do cotidiano rasteiro dos brasileiros. É pouco, mas tem o seu valor. Com uma lei como essa, pedir informações sobre atos que deveriam ser públicos escapa da esfera do favor e da concessão; passa a fazer parte de um processo, naturaliza-se. A lei não mata a fome de ninguém, mas permite saber porque recursos destinados à merenda escolar não foram usados para esse fim, por exemplo.

Mas e o jornalismo?

Se uma lei como essa pode ajudar a transformar as relações entre Estado e cidadãos, imagine suas implicações junto a uma instituição que se orienta pelo trabalho de tornar visível o que é insistentemente ocultado… É mais ou menos assim que tento dimensionar o impacto da Lei de Acesso para o jornalismo.

Um questionamento esperado em território brasileiro é “será que a lei vai pegar?” Difícil responder agora, mas acredito que as condições políticas urdidas nas últimas décadas podem compor uma força que impeça a lei de naufragar. Este empuxo – alimentado por uma vontade coletiva de saber, por um desejo de mudanças nas relações sociais – faz com que a Lei de Acesso se torne um instrumento de empoderamento que tonifica a presença no cenário do cidadão comum (do eleitor, se quiserem). Assim, jornalistas podem esfregar as mãos porque a história pode estar apenas começando…

O que se pode esperar a partir de então?

Primeiro, penso que assistiremos a um período de acomodação para órgãos públicos e governos. Eles não estão preparados para atender e satisfazer os pedidos de informação de milhões de pessoas, quem estaria? Eles precisam se acostumar a isso. Neste período, portanto, é muito possível que haja atritos entre jornalistas, servidores e políticos, entre cidadãos e órgãos, enfim, entre quem se atreve a perguntar e quem tinha prerrogativas infinitas de negar informações.

À medida que a transparência enquanto valor social ganha músculos, uma quantidade razoável de poder que antes estava centralizada e encerrada nas mãos de alguns atores se fragmenta, e como sempre acontece quando algo se espatifa, há cacos que se perdem para sempre.

Assim que o sistema conquistar alguma estabilidade, novas relações devem emergir, muito possivelmente com cidadãos mais fortalecidos no palco político. Jornalistas e veículos de informação também podem se sobressair, caso reforcem suas vocações de cobradores de respostas. Caso insistam na encarnação de delegados do público para buscar dados e explicações. Mas para isso, não poderão abandonar o compromisso ético de checar informações, de contrapor versões, de ouvir os lados envolvidos, de investigar e conferir. Solicitar números e declarações por meio de formulários e publicar na sequência o que se obtiver não será nada demais! Isso está longe de ser jornalismo, pois se aproximar mais dos serviços de um cartorário…

Será necessário investir na produção de informação qualificada, inédita, exclusiva e socialmente útil; será preciso oferecer relatos contextualizados, claros, bem explicados; será imprescindível que os jornalistas aprimorem técnicas de reportagem, que tornem mais sofisticados seus métodos de investigação e que não se contentem com os primeiros resultados de suas investidas às fontes.

O leitor mais atento poderá se contrapor: mas isso é básico do jornalismo! Sim, é. Mas diante de uma possível explosão de dados, selecionar e processar informações serão ações cada vez mais centrais no processo de comunicação e tradução do mundo. Os jornalistas não poderão prescindir desses cuidados. Em nome de uma relação ética com seu público e fontes, e em nome da sobrevivência disso que convencionamos chamar de jornalismo.

 

Comentário objETHOS: Limites difusos para o telejornalismo

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Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O jornalismo parece ser daquelas práticas humanas que necessitam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições, admitir seus contornos. Com outras profissões, isso não é necessário. Os médicos sabem exatamente quando estão e quando não estão fazendo medicina. Os engenheiros também não padecem das dúvidas sobre a matéria e a natureza de suas atuações. Jornalistas não têm a mesma sorte e, volta e meia, discutem o que é fazer jornalismo e até onde isso vai. Talvez porque essa prática atravesse diversos outros campos, se mescle tanto socialmente que fique difícil discernir seus limites. Buscar se reconhecer é, então, um gesto permanente no jornalismo, o que, por um lado, auxilia o fortalecimento de uma convicção e, por outro, desestabiliza continuamente as certezas.

Críticos de mídia se ocupam de fazer esse debate, bem como pesquisadores da academia e observadores diversos. Mas quando os questionamentos partem das próprias redações, a dúvida emerge preenchida da legitimidade do empirismo, lembrando-nos a todo o momento do exercício prático da função. Foi assim esta semana quando se noticiou que alguns jornalistas da Rede Record estariam insatisfeitos com suas atuações na emissora. A informação foi dada por Mauricio Stycer em seu blog, inclusive com o anúncio de que o repórter Carlos Dorneles teria pedido demissão da Record por discordar de novas orientações do jornalismo. Dorneles negou sua saída em e-mail a Stycer, mas o foco do problema estaria numa suposta “crise” do jornalismo na Record por conta de interferências editoriais da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da rede. Outro jornalista, não identificado por Stycer, teria dito “Não estou fazendo jornalismo, estou fazendo entretenimento”, e é esta fala em particular que me chama a atenção.

No âmago do jornalismo, esta distinção é histórica e tenta demarcar limites de atuação, bem como contornos do que significa reportar fatos. Uma tradição cultural se construiu ao longo das décadas de que jornalistas se ocupam da narração dos acontecimentos que interessem diretamente ao seu público, muitas vezes desagradando partes envolvidas e citadas, noutras contrariando até mesmo camadas da sua audiência. Quando opera dessa forma, o jornalismo se distancia do entretenimento na medida em que não conforma, não acomoda, não distrai. Corre o risco, portanto, de desagregar, de fomentar o dissenso, a crítica. Agindo assim, jornalistas – de forma incontornável – colecionam desafetos já que produzem dissabores. Parece simples e fácil, mas, na prática, manter essa direção requer pleno entendimento do exercício jornalístico, coragem, disciplina, atenção permanente e compromisso ético com um conjunto de valores que transcende a esfera do individual.

Sim, o jornalismo é dessas práticas que precisam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições. Isso é saudável e necessário pois sua imagem é fugidia. Ainda mais num meio como a televisão, onde as fronteiras entre jornalismo e diversão ficam perigosamente embaçadas. A preocupação do jornalista anônimo chama a atenção, mais uma vez, da urgência de discutir, estabelecer e frisar os limites entre uma coisa e outra.

Esses limites não apenas determinam orientações para a conduta de profissionais e veículos, mas também auxiliam a enaltecer o que é prioritário, importante, essencial para a relação do jornalismo com a sociedade. Estou me referindo claramente a interesse público, aos critérios e processos de tomada de decisão que vão eleger o que deve ser narrado primeiro e melhor e o que deve ser simplesmente mencionado ou descartado. O anúncio das manchetes do Jornal Hoje, no último sábado (19), na Rede Globo, ajudam a ilustrar como é fácil perder o foco. A notícia que abriu a edição foi a execução do filho do coreógrafo Carlinhos de Jesus, Dudu, no Rio de Janeiro. O crime é bárbaro – oito tiros em alguém desarmado no meio da madrugada -, a perda de um filho é sempre um enredo dramático, mas o que parece ter influenciado definitivamente na decisão de escolher este acontecimento como o primeiro do telejornal foi a celebridade do pai-vítima. Tanto é que o nome de Carlinhos de Jesus é o anunciado na chamada e não de seu filho, menos conhecido.

Uma matéria como esta tem interesse público? Pode ter na medida em que se relaciona a um cenário mais amplo, de denúncia da violência urbana que ainda assusta aos moradores do Rio de Janeiro. Mas no frigir dos ovos, o fato é uma tragédia familiar, particular e não coletiva. Diferente de uma matéria que teve muito menos destaque na mesma edição do Jornal Hoje, de sábado: o desaparecimento de um cacique no Mato Grosso do Sul, que teria sido executado por fazendeiros da região. O filho adolescente da vítima exibe no próprio corpo marcas de balas de borracha e denuncia que o pai levou tiros na cabeça e pescoço, tendo sido levado por um bando de quarenta pistoleiros. Também neste caso, a ação é violenta e desproporcional, e o enredo é dramático. Três elementos diferenciam esta notícia da primeira: a inversão dos papeis das vítimas – agora, é o filho que sente a perda do pai -, a falta de notoriedade dos índios em comparação com o artista e a extensão do drama: a execução de um cacique atinge toda a sua comunidade e não apenas o seu núcleo familiar. Resumo da ópera: há mais interesse público e relevância jornalística no desaparecimento de um cacique numa área de litígio de terras do que a execução de um músico, filho de um conhecido coreógrafo.

A televisão dilui sutilmente os limites entre jornalismo e diversão, mesmo em casos graves como os citados. Foi mais determinante o star system que o caráter político de matérias sobre disputas agrárias. O jornalismo é feito de escolhas. Estas sinalizam limites. Em algumas situações, no espelho, o jornalismo entrevê sua imagem embaçada, tremida, desconfigurada. Precisamos de mais nitidez.

Comentário objETHOS: Uma “incelença” para acalmar a imprensa

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Samuel Lima
Docente na UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

A cobertura dos desdobramentos da crise financeira de 2008, no decorrer da semana, pode ser traduzida num tipo de enunciado, que se reproduziu em veículos impressos e eletrônicos como se fora um mântra. Observe-se o lide do repórter José Roberto Burnier (Jornal Nacional, TV Globo, edição de 08/08/11), a respeito do movimento da Bolsa de Valores de S. Paulo:

Perto das 15h30, o índice chegou a cair 9,74%. Se alcançasse -10%, o mercado seria fechado por meia hora. Usado para esfriar a cabeça dos investidores e impedir uma queda ainda maior, o mecanismo de defesa não foi necessário, mas o mercado continuou em pânico (grifos nossos).

Não é exatamente novo esse esforço extra para mimetizar o deus Mercado, tratando-o como um ser provido de atributos humanos: medo, nervosismo, pânico, calma, preocupação, confiança ou desconfiança… Na escuridão de um jornalismo submisso, vassalo e absolutamente superficial, do ponto de vista informativo e analítico, todos os investidores são pardos. Inexiste especulação, jogatina, ambição desmedida que são a “alma dos negócios” nos mercados financeiros e bolsas de valores na Aldeia Global. No fim, perdem de fato os otários, investidores pessoas físicas que atuam com os nacos de informações captados aqui e acolá.

O fim está próximo

A baixa qualidade da cobertura, sobretudo nos telejornais das emissoras abertas, foi tão marcante que o economista Roberto Macedo (ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do IPEA), comentarista do Jornal da Record News (edição de 08/08/11) apontou: a imprensa não publicou, até aqui, informações substanciais sobre a oscilação dos preços das commodities, como soja, petróleo e café que impactam diretamente o resultado das exportações brasileiras.

Além desse viés ideológico, assumidamente a essência do jargão dos agentes de mercados financeiros, um leitor/telespectador/ouvinte interessado em obter algum tipo de interpretação e/ou análise crítica ficaria apenas no desejo. Na cobertura vassala e submissa, não cabem vozes discordantes, nenhuma dissonância é permitida. Senão vejamos no olhar sui generis de Míriam Leitão (Bom Dia Brasil, TV Globo, edição de 10/08/11), que vaticinava:

A comentarista Míriam Leitão falou sobre a decisão do Banco Central americano (FED), que, nesta terça (10), não fez exatamente o que o mercado queria, que era um relaxamento monetário, uma nova ingestão de moeda na economia. Segundo Míriam, o BC teve uma visão pessimista em relação à economia. Pessimismo que acalmou o mercado: o BC americano está sabendo que a situação é grave (grifos nossos).

Entre a perplexidade e o pânico, o apresentador Renato Machado conseguiu prever uma espécie de “armagedon” para o dia 9 de agosto, quando se esperava um mergulho mais radical nas supostas perdas dos valores das ações no mercado de capitais. Apregoava Machado (Bom Dia Brasil, TV Globo, edição de 09/08/11):

Está todo mundo preocupado. É crise nas maiores economias do mundo, nas bolsas de valores, nas empresas e na vida de muita gente. O que vai acontecer com o Brasil e o mundo?As bolsas de valores voltaram a derreter nesta terça-feira (9). O pânico tomou conta dos investidores na segunda-feira (8). Foi o pior dia para os mercados desde a crise de 2008 (grifos nossos).

A essa chamada cataclísmica, seguiu-se um diálogo entre a apresentadora Ana Luíza Guimarães e o repórter Marcos Uchôa (correspondente em Londres), que ilustra ainda mais a incorporação da linguagem dos financistas no texto jornalístico:

- Uchôa, como está o ânimo dos investidores? [Ana Luíza]
- Os mercados continuam mal na Europa. Abriram em forte queda, mas já deram uma melhorada. A Bolsa de Frankfurt estava em -5,7% e fechou em -3%. Paris opera com -1% e hoje pode ser o 12º dia de baixa. Itália fechou em -1,5%, também um recorde negativo se continuar assim (grifos nossos).

O mundo não acabou

Os indicadores das bolsas iriam desmentir, poucas horas depois, as previsões de Renato Machado. A Bolsa de Nova York fechou em 4% de alta e a Nasdaq (de tecnologia) com número positivo de 5%; a Bovespa BM&F 5,1% registrando a maior alta desde 2009, com um montante negociado na casa dos R$ 10,3 bilhões. Restou ao apresentador Guto Abranches (Conta Corrente, GloboNews, edição de 09/08/11, às 19h30) reconhecer: “Pois é, o mundo não acabou, que bom. Hoje as principais bolsas de valores do mundo fecharam em alta, algumas em alta bastante forte”. E um perplexo Abranches indagava: “O que é que mudou de ontem para hoje? Praticamente ou absolutamente nada”.

Outro exemplo desse mimetismo está no mesmo telejornal (Bom Dia Brasil, edição de 11/08/11), desta vez no texto do jornalista Jorge Pontual, cobrindo o movimento da Bolsa de Valores de Nova York, na véspera:

O que mais influiu para a queda de quarta-feira (10) na Bolsa de Nova York foi a situação da França. As ações do maior banco francês, Société Générale, chegaram a cair 20%, mas fecharam com perda de 15% depois que o banco desmentiu estar em dificuldades. Correram rumores na Europa e nos Estados Unidos de que a França estaria prestes a perder a nota máxima, AAA, para seus títulos. Mas as três agências de classificação de risco confirmaram a nota da França. Nem isso acalmou os investidores (grifos nossos).

Nem mesmo a decisão da Standard & Poor’s (S&P), agência de classificação de crédito, de rebaixar a nota dos títulos da dívida americana, foi capaz de trazer ao noticiário dos telejornais figuras como o economista Paul Krugman, prêmio Nobel e articulista entre outros dos jornais Folha de S. Paulo e Estadão. A respeito dessa decisão escreveu Krugman em sua coluna no portal de O Estado de S. Paulo:

A S&P, juntamente com as demais agências de classificação de crédito, desempenhou papel importantíssimo na precipitação dessa crise, concedendo notas AAA a ativos lastreados em hipotecas que desde então se transformaram em lixo tóxico. Mas as avaliações incompetentes não pararam por aí. Num episódio agora famoso, a S&P concedeu ao Lehman Brothers, cujo colapso deu início a um pânico global, uma nota A até o mês da sua quebra. E qual foi a reação da agência depois que esta empresa foi à falência? Ora, a S&P publicou um relatório negando ter feito qualquer coisa de errado. (…) Espere só, a coisa não para por aí. Antes de rebaixar a nota da dívida americana, a S&P enviou ao Tesouro dos EUA um rascunho do seu comunicado à imprensa. Os funcionários americanos logo repararam num erro de US$ 2 trilhões nos cálculos, algo que qualquer especialista em orçamento teria calculado corretamente. A S&P reconheceu o erro e rebaixou a nota mesmo assim.

É do jornalista Sidnei Basile, ex-Diretor de Redação da revista Exame, falecido recentemente, a indagação de fundo sobre a cobertura econômica: fazemos jornalismo para o mercado ou para a cidadania? E respondia: “Cidadãos não são clientes; são cidadãos. Notícias são notícias e não ‘serviços ao consumidor’” (in “Elementos de Jornalismo Econômico”, 2002: p. 36). O autor cita ainda os pesquisadores Downie e Kaiser (p. 41): “O mau jornalismo (e isto é radical na cobertura econômica – grifo meu) pode deixar as pessoas perigosamente mal informadas”.

Ao final de tanta predição em torno do juízo final, a partir do “tombo” ou “derretimento” das Bolsas, resta cantar uma novena acompanhando a voz grave de Dorival Caymmi em “Velório”: “Uma incelença entrou no paraíso/ A-deus, irmão, adeus/ Até o dia de juí-zo…”.

Faltam 10 dias para o Bapijor

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A contagem regressiva já começou! Restam dez dias para o 1º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), que acontece em 9 e 10 de junho nas dependências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis.

As atividades do Bapijor terão lugar no Auditório Henrique da Silva Fontes, no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC. A programação prevê mesas com renomados jornalistas e pesquisadores brasileiros e argentinos. Nomes como José Roberto de Toledo, Claudio Tognolli, Martín Becerra, Angelina Nunes e Adriana Amado já estão confirmados.

O anúncio da realização do evento provocou o esgotamento das inscrições em apenas 48 horas. As 150 vagas se somaram a uma lista de espera, também preenchida rapidamente. Para quem não conseguiu se inscrever, a saída agora é acompanhar as atividades pelo Twitter. Para isso, basta seguir a conta do Observatório da Ética Jornalística (@objETHOS) e a hashtag #bapijor.

O Seminário Brasil-Argentina é uma realização do objETHOS, promoção do Posjor/UFSC, com patrocínio da Fapesc e apoio da Abraji, PRAE/UFSC, Associação Catarinense de Imprensa (ACI) e Fapeu.

 

El País cria blog para discutir futuro do jornalismo

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O principal jornal espanhol, El País, lançou esta semana um blog para debater as transformações pelas quais o jornalismo vem passando. Trata-se de Periodismo con Futuro, cujos propósitos seus editores explicam:

Com todas as incógnitas do momento, o título deste blog é uma afirmação naquilo que acreditamos sem duvidar. O Como, Quem, Onde e Quando já não estão tão claros. Queremos abrir um debate sobre o presente e o futuro do jornalismo e sua indústria, sobre novas tendências, conteúdos, tecnologia, suportes e modelos de negócio, com informação e análise. E viver em primeira mão um novo ecossistema informativo tão apaixonante quanto incerto.

Entre os destaques do que já foi postado, há vídeos de entrevistas curtas com publishers do The Guardian, do New York Times, do Le Monde, de El País e da Der Spiegel. Conheça o blog!

 

 

 

 

 

 

Comentário da semana: Os segredos, a nova transparência e a informação

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Francisco José Castilhos Karam
Pesquisador do objETHOS

Neste início de ano, o advogado Joanisval Brito Gonçalves (consultor legislativo do Senado para a área de Relações Exteriores e Defesa Nacional e para a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, além de ex-analista de informações da Abin – Agência Brasileira de Inteligência), lançou, pela editora Impetus, o livro Políticos e espiões — o controle da atividade de inteligência. No livro, analisa os abusos de e possíveis controle sobre órgãos de inteligência. No caso, trata do serviço secreto brasileiro e dos governos em geral, ou melhor dizendo, dos Estados. Todo Estado democrático de Direito e todo Governo e Nação tem, em geral, suas formas de controle e fiscalização da vida pública e, em muitos casos, da vida particular. E mais: tem, institucionalmente, formas de espionagem consagradas. Isto é um atestado de que a transparência social, a liberdade individual e grande parte da vida pública vivem sob monitoramento das ações “em segredo”. Há até mesmo concurso para “espião”, que, claro, não leva oficialmente o nome.

Também neste início de ano, as revoltas populares na Tunísia e no Egito, por exemplo, foram intensificadas e estimuladas por novas mídias, por redes sociais que ultrapassaram o âmbito do segredo e deram dimensão pública planetária a fatos e versões que fugiram ao controle dos órgãos de inteligência e do “segredo” público a que muitas manifestações, inconformidades ou movimentos sociais rebeldes são submetidos.

Ainda neste início de 2011, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz o site WikiLeaks, de Julian Assange, que deixou muitos governos e órgãos de inteligência com a “alma” à mostra, desmentindo versões, revendo fatos e expondo, perante a vida pública, aspectos de “segredos” que gostariam de manter muitos Estados teocráticos, autoritários, ditatoriais ou democráticos de direito.  O autor da proposta aprovada, Snorre Valen, membro do parlamento norueguês, anunciou a indicação do WikiLeaks, considerando o site “um dos mais importantes colaboradores para a liberdade de expressão e transparência”.

Há pontos que unem os três contextos, o de um livro sobre órgãos de inteligência, o das revoltas populares e o do site WikiLeaks.

A tecnologia não é tudo mas é também uma forma de propor conteúdos, disseminá-los e integrá-los a um novo cenário público, que pode ser macro, médio ou micro. Reconhece-se, hoje, que estamos diante de um novo quadro que redefine os papeis sociais dos informantes, dos profissionais e da própria democracia, isto é, aquele que aponta para uma transparência sem “segredos”.

Há dois aspectos que mereceriam, ao menos, comentários.

O primeiro é sobre a separação entre vida pública e vida privada. Se um Estado, um governo e um órgão de inteligência investigam secretamente cidadãos e seus atos, a única justificativa seria o chamado “interesse público”. No entanto, se o interesse público serve apenas como camuflagem para o interesse privado, não há como defender a não transparência e a sonegação de informações sobre fatos, documentos e declarações. É aí que aparece uma das mais relevantes contribuições do Wikileaks. Neste caso, apenas a ética se sobrepõe ao direito, e sabemos que uma ética total e global só poderia existir se todos os interessados participassem e negociassem o presente e o futuro. E isto requer, por antecipação, transparência total, algo para o qual o site de Assange claramente contribui.

O segundo aspecto é quanto à possibilidade de controlar as novas mídias, as redes sociais e submetê-las à censura. Tecnologicamente, embora exista uma possibilidade cada vez mais remota, é também cada vez mais difícil fazer isso sem “engessar” o próprio sistema de governo, de empresas e da vida pública, com repercussões na vida particular, que é onde efetivamente aparecem os interesses. Seriam dois tiros no pé, um no próprio e outro no ideal democrático coletivo.

Neste novo cenário, que se redesenha e afirma a cada dia, “a democratização das comunicações”, a “transparência informativa”, a “liberdade de expressão”, a contragosto de muitos governos e de numerosas mídias hegemônicas, tem, na tecnologia, aliado irreversível no início de século 21.

Para o jornalismo, parece ser muito bom este cenário, porque os controles e constrangimentos operacionais, no dia-a-dia, terão de levar em conta tais aspectos e , se não for assim, podem levar à desmoralização a empresa, o veículo midiático e o profissional. Redobra-se a preocupação com a verificação, com as fontes, com a repercussão e com qualidade do texto e o acesso massivo a eles, como referência de credibilidade. Os poderes político e econômico (incluindo os relacionados à mídia) e militar , com “a alma à mostra”, estão gradativamente sendo também constrangidos por uma transparência em que a tecnologia tem ajudado significativamente.

O Jornalismo tem a ganhar muito com isso, mas não todo ele. Uma parte tenderá a ser pulverizada pelo “peso dos acontecimentos”, como se dizia em relação à queda do Muro de Berlim. Parece cair o muro que separa a informação exclusiva e seletiva daquela que permite uma maior visibilidade de todos os aspectos da vida pública e dos interesses que envolve.

E nenhuma empresa poderá argumentar que, em nome dos negócios, devem ser sacrificadas a liberdade de informação e a democracia. Afinal, como dizem os códigos de ética e os princípios empresariais, escritos e repetidos à exaustão país afora, “liberdade de expressão não é uma prerrogativa dos meios e dos profissionais de comunicação – é um direito sagrado e constitucional dos cidadãos”.

Portanto, transparência total aos temas, fatos, versões e decisões que, produzidos publica ou privadamente, repercutem na vida pública e privada dos cidadãos.

Comentário da semana: Wikileaks ensina

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Rogério Christofoletti
Professor do Departamento de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Um site que publica documentos mantidos em segredo parece ser uma ideia explosiva, e é. Ainda mais quando esses documentos são autênticos, guardados por setores governamentais, em grande quantidade e com variados interesses em jogo. Pois é esta a receita do Wikileaks, o endereço que mais vem chamando a atenção na internet. Milhares de memorandos, relatórios, correspondências sobre ofensivas militares norte-americanas, sobre ações diplomáticas e intervencionistas, entre outros, estão ali, livres para serem acessados por qualquer um. Como eu disse, é uma dessas ideias explosivas, revolucionárias para alguns, subversivas para outros.

Nos Estados Unidos e na Europa, a repercussão é grande, conforme se pode acompanhar pela mídia convencional e pela galáxia dos meios alternativos. Os impactos são variados tanto na política quanto nos meios de comunicação. Entre os políticos, há queixas sobre o vazamento de documentos nem sempre confiáveis, temendo alarme social e o descrédito de certos governantes. Entre os jornalistas, as reclamações se dão na esfera corporativa, receando ver esvaziar seu poder de denúncia, sua capacidade de fiscalização dos poderes. Quer dizer, nos gabinetes e nas redações, o Wikileaks atua como um fantasma, pesadelo sem fim.

Evidentemente, não se pode generalizar, mas o fato é que a novidade que o Wikileaks traz colide sim contra alguns pilares de sustentação de certas relações de poder. Relações constituídas na exclusividade, no controle da informação, na definição do que pode vir a público e o que não pode. Durante séculos, os poderes centralizados usaram e abusaram dessa estratégia: dominar, usando seu poder de veto. E, convenhamos, durante décadas, o jornalismo convencional se apoiou na primazia de informar, na delegação pública de atualizar o noticiário.

O surgimento de um site, mantido por uma organização sem fins lucrativos, transnacional, e meio que clandestina, coloca a nu – mais uma vez – essas relações de poder que hoje se revelam bastante arcaicas e fissuradas. É o fim da política? A ruína do jornalismo? Nem uma coisa nem outra, claro. O episódio pode ser muito mais interessante e positivo. Na minha opinião, o Wikileaks traz lições que podem ser bem usadas por políticos, jornalistas e cidadãos em geral. A coragem, a ousadia, a sagacidade e o senso (quase anárquico) de transparência ensinam e nos trazem ao menos quatro bons lembretes:

a) políticos devem orientar suas ações pelo interesse da coletividade, e tudo aquilo que contraria isso, deveria ser descartado de seu cardápio de serviços;

b) empresas e governos não podem enganar ou esconder algo por muito tempo, ainda mais numa sociedade cada vez mais observada e ansiosa por ver tudo;

c) cidadãos comuns podem se organizar muito rapidamente no meio virtual de maneira a buscar informações e direitos. A internet não reinventa a política, mas a atualiza;

d) o jornalismo, com Wikileaks ou sem ele, deve continuar a perseguir informações que sejam de interesse público e que estejam mantidas em sigilo. O desvelamento de segredos e a fiscalização dos poderes continuam a ser importantes funções públicas dessa atividade.

Como se pode ver, o Wikileaks pode ser visto com terror ou com uma ponta de esperança. O site não vai trazer à tona todos os segredos do mundo, não está reinventando as relações de poder entre pessoas e organizações, talvez nem dure tanto tempo. Boa parte do valor dessa iniciativa está no seu surgimento, no fato de ter se mostrado viável e audível por todos. É uma ponta do iceberg, uma parcela diminuta do que se pode fazer quando há organização, propósito e coragem.