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Comentário da semana: O jornalismo nunca mais será o mesmo
Melissa Bergonsi
Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS
Ao debruçar atenta leitura sobre os dados da pesquisa “Perfil do Jornalista Brasileiro – Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico em 2012″, lançada no início deste mês, resultado de um trabalho de fôlego dos pesquisadores e jornalistas Jacques Mick e Samuel Lima, foi como se materializasse em mãos um grande álbum com fotografias inquisidoras e provocativas a respeito da profunda transformação que afeta a profissão e que, talvez, seja a maior já vista desde Gutenberg.
Os dados da minuciosa e maior pesquisa já realizada no Brasil reúne respostas de 2.731 profissionais que trabalham na mídia, fora dela – em atividades como assessoria de imprensa – e na docência, em todas as regiões do país e que embasarão, sem sombra de dúvidas, um sem número de outras pesquisas sobre a identidade profissional do jornalista brasileiro.
A fotografia que abre este álbum mostra que o jornalismo brasileiro é feito majoritariamente por mulheres, jovens, brancas, solteiras e que recebem salários mais baixos que os homens e também ocupam posições hierárquicas ainda no início da cadeia. Em suma, a invasão das mulheres na profissão aconteceu, mas elas ainda não galgaram os postos de comando, o que suscita um estudo de gênero e seu impacto no modo de se fazer jornalismo quando o fenômeno começar a se concretizar pelas próximas duas décadas, pelo menos
A discussão que se pode construir a partir deste prisma é palpitante. Entretanto, uma outra fotografia parece saltar à primeira página revelando numericamente a precarização e exploração do trabalho do jornalista brasileiro.
De acordo com os dados, quase metade dos profissionais que responderam a pesquisa trabalha mais de oito horas por dia e somente 11,6% possuem jornada de até 5 horas. Pouco mais de 60% dos profissionais no Brasil ganham até cinco salários mínimos e 56,9% tem um emprego ou fonte de renda, enquanto, 29,3% disseram ter mais de um emprego.
Dos profissionais respondentes que trabalham só em mídia, apenas 59% tem carteira assinada, o restante trabalha como freelancer e PJ. Aliás, na mídia, o número de freelancers é duas vezes maior que fora dela. Além disso, 76% dos profissionais afirmam que tem toda ou a maior parte de sua produção divulgada também pela internet e 8,4% disseram ter metade também publicada na web. Não só: quase 10% afirmaram acumular funções como as de captação de imagem – foto ou vídeo. O retrato ainda mostra que 12,4% dos profissionais trabalham em redações com apenas um contratado e 22,6% em locais com um a três colegas. Entre cinco a vinte jornalistas nas redações estão 28,5% dos respondentes. Não é difícil imaginar, então, o consequente acúmulo de funções.
Em uma leitura resumida, esses jovens profissionais trabalham mais de oito horas por dia, ganham até cinco salários mínimos, pouco mais da metade possui carteira assinada e ainda acumulam funções por conta das novas mídias e enxugamento das redações, além de “doarem” grande parte do seu trabalho para que seja publicado na internet.
Este é o retrato da precarização e exploração da profissão no Brasil. O tsunami “Internet” veio não apenas afetar o modelo de negócio dos veículos de mídia, mas também e por conta disso, provocar uma profunda transformação nas funções jornalísticas e na identidade dos seus profissionais deixando expostas feridas éticas e fazendo virar pó valores base como a boa apuração, a reportagem in loco, a pesquisa, variedade e confiabilidade de fontes e, portanto, a precisão.
A instantaneidade que hoje se vivencia, com deadlines contínuos – “dar primeiro, checar depois” -, com as multitarefas que chegam até ao monitoramento da interatividade dos seus leitores, faz com que esses profissionais não tenham mais tempo de sair da redação, de manter o rigor na apuração, de checar suas fontes. Se tornaram “empacotadores de notícia” (Bastos, 2012).
É de se entender com este cenário o que aconteceu nos bastidores do erro de grande parte da imprensa nacional e regionalizada que publicou e, portanto, legitimou uma nota veiculada em um falso perfil da Boate Kiss no Facebook, durante cobertura da tragédia de Santa Maria que vitimou centenas de jovens. A nota que alegava que “todos os funcionários eram devidamente treinados para situações de contingência” foi reproduzida pela grande imprensa sem checagem. Momentos depois, os advogados da casa noturna vieram a público desmentir a autoria do texto e retiraram do ar o perfil verdadeiro da boate. Da mesma tragédia, outro erro. Um falso perfil do ator Bruno Gissoni afirmava estar de luto por ter perdido um amigo na tragédia. O post também foi usado por veículos de imprensa sem a devida apuração. Bruno precisou desmentir a informação alegando que a notícia usada pela imprensa não era verdadeira e fora divulgada por um falso perfil.
O jornalismo e o jornalista estão com uma equação matemática complexa para resolver em busca de sua nova identidade. As empresas cada vez mais enxutas valorizam competências técnicas da operação multimídia em detrimento do conhecimento clássico da profissão (texto, apuração, feeling para notícia). Os salários achatados ainda cabem no bolso dos jovens recém-chegados ao mercado sem ainda formação sólida de uma consciência ética do jornalismo, o que expulsa boa parcela dos jornalistas experientes das redações e até mesmo da profissão. Somado a esse cenário, a internet, as novas mídias e suas especificidades de produção colocam em xeque os valores base citados acima e provocam uma queda generalizada de qualidade do produto jornalístico.
Já temos o retrato do profissional brasileiro com a pesquisa de Mick e Lima. Resta agora preencher a sua carteira de identidade profissional que está se formando em um cenário complexo e de profundas mutações. O jornalismo nunca mais será o mesmo.
Referências
BASTOS, Helder. A diluição do jornalismo no ciberjornalismo. Estudos em Jornalismo e Mídia. Florianópolis, vol. 9, n.1, 2012, p. 284-298
MICK, J.; LIMA, S. Perfil do Jornalista Brasileiro – Características demográficas, políticas e do trabalho jornalístico. Florianópolis: Insular, 2013
SODRÉ, M.; PAIVA, R. . Informação e Boato na rede. In Jornalismo Contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. Salvador, Brasília, 2011, p. 21-49
Simpósio de Pesquisa Avançada em Jornalismo pela web
O Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC vai transmitir, pela internet, os principais momentos do 3º Simpósio de Pesquisa Avançada em Jornalismo.
O evento reúne os representantes da Comunicação na Capes e CNPq, dirigentes da SBPJor, Compós e Intercom, e pesquisadores dos programas de pós-graduação em Comunicação da UFPR, UTP, UEL, UEPG, UFSC, Unisinos, UFRGS, PUC-RS e UFSM.
Gratuito, o Simpósio acontece nesta quinta e sexta-feira no Auditório Henrique da Silva Fontes, no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, em Florianópolis. Patrocínio: Fapesc. Apoio: Associação Catarinense de Imprensa e Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina.
Para acompanhar e enviar perguntas ou comentários, acesse aqui.
Para assistir ao vivo em vídeo, acesse: http://www.videoconferencia.cce.ufsc.br
Comentário objETHOS: Quando é preciso ser parcial
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
A semana que passou trouxe alarme social e uma coleção de manchetes inédita e inesquecível para os catarinenses. Por conta da sucessão de ataques de criminosos, a população de dezesseis cidades se sentiu como se vivesse em grandes centros metropolitanos, muitas vezes mergulhados na insegurança pública. Entre a segunda-feira, 12 de novembro, e o domingo, 18, bases policiais foram alvejadas, ônibus e veículos particulares foram queimados, totalizando 58 ações. A concentração dos atentados em poucos dias e sua visibilidade foram tantas que as ocorrências no interior de São Paulo e na própria capital paulista chegaram a ser ofuscadas no noticiário nacional. O episódio mostrou a fragilidade da população em ações coordenadas do crime, mas revelou também um lado do Estado que não se quer acreditar e outro da imprensa que os jornalistas teimam em esquecer.
Os dias dos atentados em Santa Catarina tornaram mais nítido para todos que governo, população e imprensa não estão exatamente do mesmo lado. Nos primeiros dois dias de ataques, o Estado insistiu em minimizar as ocorrências, um comportamento-padrão repetido em outras geografias. A estratégia está apoiada na ideia não totalmente comprovada de que não se deve dar créditos ao inimigo, sob pena de fortalecer seus atos. O chefe da polícia desdenha das ações, o governador não aparece para dar satisfações, e assim, o Estado espera mandar um recado para a população de que tudo está sob controle. Nos corredores palacianos, de forma subterrânea, o que se vê é a correria, a tomada de decisões intempestivas, a busca de compreensão do que está acontecendo e a tentativa de antecipação dos movimentos do oponente. Seja por questões estratégicas – para não revelar o que está fazendo -, seja por despreparo – para não revelar o que não fez -, o Estado deixa o cidadão comum sem a devida informação. A ironia é que o Estado existe para servir o cidadão, atendê-lo em suas necessidades, protegê-lo.
Tom conciliador
Entre o governo e a população, quem poderia construir pontes de compreensão é o jornalismo. Os meios de comunicação atuariam para desvelar o lado oculto dos ataques, para contrapor as diversas versões dos fatos e para, acima de tudo, tornar o cidadão mais bem informado sobre o que está ocorrendo. Enquanto o Estado se orienta pela busca da ordem – muitas vezes, revestindo seus atos com opacidade -, o jornalismo deveria se guiar pela clareza, pela nitidez dos acontecimentos.
Entretanto, parece vigorar nas redações um raciocínio de que, em tempos de crise, é preciso dar uma trégua ao Estado para que a ordem seja restabelecida. É assim em desastres naturais, em que a mídia tenta atuar como um braço da Defesa Civil, prestando serviços que seriam uma extensão do Estado. Pelo que se viu, isso também acontece diante de ataques coordenados do crime organizado, quando sobressaem os desserviços. Tão surpresas quanto o cidadão, as redações externam nas manchetes algum despreparo para cobrir o assunto e muito de senso comum. As primeiras páginas gritam com o público, chacoalhando o leitor. Histeria, alarme social e medo coletivo são os espíritos dessas páginas, enquanto a informação vital – aquela que ajuda o leitor a tomar decisão, aquela que o ajuda a compreender o cenário complexo, aquela que permite que ele se proteja -, essa informação vital fica subsumida. Os dilemas se instalam nas mesas de editores: Como dar a notícia na dimensão precisa sem apelar para o sensacionalismo? Se o conjunto de ações é inédito, se sua intensidade é única, como não ressaltar isso nas matérias? Como buscar equilíbrio na cobertura quando a ordem social e a segurança pública se traduzem apenas como expressões nas bocas dos políticos e não nas ruas ou bairros?
O noticiário dos jornais de Santa Catarina oscilou na semana em questão. O Diário Catarinense tentou se conter: Escolta e ataques (15/11); “Deixa eu sair” (16/11); Varredura nos presídios começa por Santa Catarina (17/11); Porque o terror atacou (18/11).
O Jornal de Santa Catarina, de Blumenau, mostrou-se distante: Facção criminosa recruta devedores (16/11); O pior presídio (17/11); Presos deram ordem para reduzir ataques (18/11).
Notícias do Dia, oscilou quase de de forma errante: Prisões, mortes e novos atentados (16/11, edição de Florianópolis); Atentados em SC – Mais ataques (16/11, edição de Joinville); “O pior já passou”, diz o governo (Joinville, 17 e 18/11); Segurança em alerta (Florianópolis, 19/11); Cai ritmo dos ataques no Estado (Joinville, 19/11).
A Notícia, o segundo maior jornal catarinense, só despertou quando a onda chegou perto da sede, em Joinville: Estado em alerta: Ataques chegam ao norte (18/11).
Deliberadamente mais impactante, a Hora de Santa Catarina intensificou a sensação geral de insegurança com seis manchetes: Noite de ataques (12/11); A que ponto chegamos (13/11); Isso, sim, é o fim do mundo (14/11); Quatro noites de terrorismo (16/11); Medo coletivo (17/11); Escoltas até quarta-feira (19/11).
Curiosamente, o diário que mais traduziu o sentimento geral da população é o que adota estética mais chamativa, linguagem direta e cobertura superficial. Mas também o que não assumiu o discurso tranquilizador insistido pelas autoridades, destoando dos demais, mesmo que cometendo alguns exageros.
Parcialidade sim!
A onda de ataques do crime organizado trouxe (mais uma vez) à tona que as redações podem padecer de uma certa miopia sobre o seu papel na sociedade. Embora o Estado tenha, constitucionalmente, o dever de proteger o cidadão, não são raras as vezes em que deixa o contribuinte sem informação ou sem serviços básicos. Nessas ocasiões, prevalecem as razões de Estado que podem colidir com o interesse público: para manter uma ordem aparente, as autoridades negam a realidade e ocultam informações importantes, alimentando a sensação de incerteza geral. De forma inaceitável, o Estado “protege” o cidadão da informação que não lhe poderia ser sonegada.
O jornalismo não tem que estar ao lado do Estado, mas sim da população. Nem sempre são coincidentes as posições do governo e do cidadão, pelo que se pode ver. Na guerra das versões, o sujeito das ruas fica sem amparo, sem saber, seja porque o Estado lhe nega, seja porque os jornalistas não lhe fornecem.
Num cenário de crise de confiança e de solvência, o jornalismo – cada vez mais! – precisa ficar ao lado da população, quando ela assiste bestializada à sucessão de ataques, da qual é a vítima mais evidente. Embora os ataques tenham sido contra algumas bases policiais, é o cidadão que mais sofre nessas ocasiões, pois é ele quem sai às pressas do ônibus prestes a ser incendiado; é ele quem se sente acuado pelo crime, pois não tem armas ou instrumentos de inteligência para reagir eventualmente. O Estado deve ser indagado pelos jornais; os repórteres não podem fazer as vezes de meros porta-vozes do governador para acalmar o cidadão; as redações devem buscar formas próprias de extrair as informações que o público espera e necessita; a polícia e os demais aparatos estatais não podem ser os únicos lados da história, e os detentores das versões mais privilegiadas. Isto é, o jornalismo precisa deixar de lado o pudor de ser parcial nessas ocasiões, e tomar o partido da população, mesmo que isso implique em contrariar os interesses de um governo ou de outro.
O descalabro dos presídios, as condições precárias em que vivem os policiais, a incapacidade do Estado de garantir a segurança de todos, o torpor e a própria desinformação governamental sobre os movimentos do crime organizado, tudo isso deve estar na pauta jornalística. Mas tão importante quanto ela é a clareza com que repórteres e editores devem ter sobre o papel a ser assumido nessa história toda: o jornalismo tem lado, e esse lado é o do público, não o das autoridades, dos conglomerados econômicos ou dos núcleos de poder. Fortalecer os laços da confiança que a população deposita sobre a mídia é essencial para um novo cenário comunicacional. Não só para “salvar” os veículos de informação, mas para fazer valer sua finalidade pública e sua justificativa social.
Comentário objETHOS: Sobre cracolândia, cidadania e notícia
Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
Da TV Globo ao portal Terra, a expressão “a paz volta a reinar” depois de ocupações institucionais nas favelas do Jacarezinho e Manguinhos, esta semana, foi uma constante. Menos de 24 horas depois, fatos mostravam o retorno das cracolândias, por exemplo, em lugares distintos. E que a paz naquelas regiões, ainda que alardeada, não era tão pacífica assim. Afinal, as pessoas precisam ir para algum lugar, nem todas cabem na proteção do Estado e ficar à própria sorte é praxe no Brasil. E hoje, com a crise do estado do bem estar, mesmo em países europeus, onde centenas de famílias são despejadas a cada dia de suas casas.
Menos que o fato da ocupação policial, interessa aqui a abordagem jornalística, que celebra um acontecimento como se dele não se desdobrassem outros, e que estes merecem uma cobertura mais intensa, mais longeva e mais contextualizada tanto pela complexidade do problema como pelas pessoas envolvidas.
A cidadania foi, em tese, restaurada no Jacarezinho e em Manguinhos, entre outros lugares. Mas o problema do crack não foi resolvido. Ou seja, a cidadania existe, mas não para habitantes da cracolândia, sejam ou não vítimas da exclusão social, do nascimento e da infância nas ruas, da educação por imitação junto ao narcotráfico, da falta de moradia, da falta de escola e da falta de sobrevivência constitucional. O direito à vida, constitucional, está atrelado diretamente ao direito de cidadania. O espaço público da corte imperial foi pulverizado, na Modernidade, pelo espaço público da cidadania, onde todos os indivíduos têm direitos e deveres. Mas … quem nasce sem direitos, poderá ser exigido em deveres em uma terra de todos contra todos, na qual a sobrevivência a qualquer custo passa a ser a única moeda reconhecida socialmente por parcela social em relação a qual paira apenas adjetivações como “bandidos”, “delinquentes”, “ vagabundos”, “preguiçosos”? E vale para quem?
O Estado não deve adjetivar, mas resolver…e com a preservação da cidadania e não pelo extermínio, proposta que parece crescer clara ou implicitamente. E o Estado não é refém da mídia, ainda que às portas da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Com tais perspectivas, o Estado deve proteger a cidadania de todos, do nascimento à morte. E se não o fizer, não há porque os “súditos” renderem homenagens permanentes, em termos de aceitação de deveres constitucionais, sem que os direitos pétreos existenciais sejam respeitados. Um cidadão sem cidadania garantida atua contra o Estado “protetor”. Um Estado que age em função de apenas parte da cidadania, não pode exigir que os excluídos respeitem a cidadania parcial… e contra si próprios.
Uma mídia que invoca permanentemente a liberdade de expressão e grita em defesa de correntes de opiniões deferentes na sociedade, não deveria se abster , em nome da audiência de parte da sociedade, de tratar, em complexidade e intensidade, problemas que afetam a toda a cidadania e a todos os indivíduos que constitucionalmente a integram, como a dos habitantes e freqüentadores das múltiplas cracolândias que se espalham país afora.
A parcialidade jornalística, que inclui a adjetivação, chamadas que não correspondem a fatos e a fontes comprometidas, contribui para o aumento do descrédito seja na representação política seja na crença de que um dia o jornalismo veio ao mundo para, na expressão clássica, “afligir os satisfeitos” e “satisfazer os aflitos”. O caso de relatos como os da ocupação de favelas, entre as quais a do Jacarezinho e de Manguinhos são úteis e importantes. Mas a forma como foram tratados os integrantes da cracolândia, no início da cobertura e diante dos primeiros fatos, pode ajudar a reproduzir preconceitos, a estimular o ódio, a justiça com as próprias mãos e a ocultar interesses escusos. “João da Silva”, cidadão brasileiro, que vive na cracolândia – em qualquer cracolândia – não é um cidadão para parte da mídia. Cidadão é o presidente da Fifa e o presidente do COI.
Ainda bem que as redes sociais – e o conjunto de críticas à cobertura inicial – têm também agendado o próprio jornalismo, cujos repórteres – alguns, ao menos -, em várias ocasiões, parecem ter certa vergonha de relatos que mais parecem peças de relações públicas encomendadas para salvar a imagem dos megaeventos que vêm pela frente.
Comentário objETHOS: tem guia de ética e continua “macriado”
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
Uma piada antiga conta que andavam por uma praia Jesus Cristo, seu apóstolo Pedro e um fiel aflito. De repente, o filho de Deus e o futuro porteiro do céu passaram a andar na direção do mar, caminhando sobre as águas. O fiel foi acompanhando os dois, mesmo se vendo afundar cada vez mais. Quando estava com água na altura do nariz, não se conteve: “Jesus, me ajuda aqui!”. Piedoso, Cristo sorriu e disse: “Ó, São Pedro, ensina o caminho das pedras aí pro rapaz!”, revelando que ambos não levitavam sobre o mar e sim tomavam um atalho.
De gosto duvidoso, a anedota ajuda a ilustrar a ideia de como é bom ter a informação precisa no momento necessário. É justamente apoiado na expressão “O Caminho das Pedras” que o Diário do Litoral batizou seu recém-lançado guia de ética e autorregulamentação jornalística, livro de bolso que objetiva ajudar os repórteres do jornal, evitando “enfiar o pé na lama e ficar preso no lodo”.
Para quem não conhece, o Diário do Litoral é o popular Diarinho, tabloide que circula no Vale do Itajaí (Santa Catarina) e é notório por manchetes impactantes, linguagem sem pudor e irreverência jornalística. Há 33 anos nas bancas, o jornal já acostumou seus leitores com suas capas de cores fortes, noticiário apoiado em crimes-política-esportes, e um jeito malcriado de ser, a ponto de largar na primeira página manchete como “Timinho de merda”, referindo-se a uma derrota acachapante do clube de futebol da cidade (10/02/2012). O estilo do “macriado” – como se auto-refere o jornal – se deve não só a uma linguagem que – como a piada acima – tem gosto duvidoso, mas a uma postura avessa à bajulação dos poderosos e de autoridades de plantão.
Popular, influente e polêmico, o Diarinho é um fenômeno de vendas na região, apesar de recorrer a fórmulas do clássico sensacionalismo. Volta e meia pode-se ver na primeira página manchetes ambíguas, como a de 7 de abril de 2009, que aludia ao tombamento de um caminhão na estrada com 23 toneladas de frango congelado: “Pinto na pista”. Ou ainda carimbar abaixo do logotipo uma foto sangrenta de um corpo, vítima de assassinato ou acidente de trânsito, acompanhada de “Porradaço”.
Assumidamente marginal, porque faz questão de não se filiar à media mainstream, o Diarinho surpreende em alguma medida com o seu “Caminho das Pedras”, pois há quem possa ver nisso uma maneira de domesticar o “macriado”, de justificar alguns exageros ou ainda sustentar as práticas que tornaram o jornal conhecido nacionalmente. Não acho que seja o caso, e talvez a motivação maior seja sinalizar para os leitores que existem critérios para oferecer o produto naquela embalagem…
Decodificando
Além de orientar seus jornalistas em situações delicadas, o que o guia do Diarinho faz é explicar para o leitor comum como o jornalismo que se pratica ali é feito. Códigos de ética também servem para isso, e existem centenas de casos semelhantes. Chama a atenção pelo fato de o Diarinho querer fazê-lo agora e não antes, mas a iniciativa pode ser entendida como resultado do lento processo de modernização do jornal após a morte de seu fundador em 2004. Desde então, o tabloide lançou sua versão online, fez ajustes na redação e se insinuou no mercado da capital, Florianópolis. O colunista César Valente e formulador do guia adiciona outra razão: o Diarinho é filiado à Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e a entidade vem incentivando seus membros a implementar iniciativas de transparência e respeito ao leitor, entre as quais a edição de documentos, guias e manuais, conforme conta Valente por email:
“A maioria das demais providências sugeridas pela ANJ (canais para manifestação do leitor, espaço para cartas, forma de publicar correções, etc) já eram usuais no Diarinho, praticamente desde a sua fundação. Mas faltava um guia. A necessidade de colocar no papel alguns princípios da política editorial já era sentida antes da recomendação da ANJ, sempre que se precisava ajudar jornalistas recém-contratados a entender mais rapidamente o que é e como “funciona” o Diarinho. A provocação da ANJ ajudou na tomada de decisão e na definição de prazos”.
De maneira geral, o guia trata de aspectos comuns e necessários da discussão ética no jornalismo: parcialidade, independência editorial, cuidados com as fontes, manipulação de imagens e dados, correção e precisão, distinção entre opinião e informação, e separação formal entre os departamentos comercial e editorial dentro da empresa jornalística. Em algumas situações, o Caminho das Pedras é bem sinalizado: o jornal “não vende pautas”, “sigilo de fontes é exceção”, “se o presente [oferecido pela fonte] for tão bom que dê pena devolver, deve ser devolvido”, “jornalista não é notícia”, entre outros. Em outras, nem tanto.
Na dúvida, fale com a chefe
O jornalismo é permeado de situações delicadas, de dilemas éticos. Um código de ética ou um guia precisam sinalizar condutas, e o que a bússola do Diarinho aponta, em vários momentos, é uma saída comum: a sala da diretora de redação. No item que trata de acordos ou acertos com as fontes, por exemplo, o guia não elimina tal possibilidade, apenas retirando da alçada do repórter a decisão final sobre aceitar ou não. Talvez o cuidado proteja o repórter de certas responsabilidades, mas não livra o leitor de receber informação eventualmente obtida em condições que sejam ilícitas ou antiéticas.
A mesma orientação é dada quando se trata de “gravações feitas em segredo (com ou sem autorização judicial), trechos de processos que correm em segredo de justiça, dados confidenciais obtidos por meios obscuros”. Tudo isso deve ser levado à direção para avaliação e tomada de decisão. É esperado mesmo que haja a preocupação de controlar esses passos tortuosos, mas a brecha deixada pode se transformar num fosso de permissividade para o jornal. O que impediria o Diarinho de agir como o The News of the World, que grampeou ilegalmente dezenas de pessoas no Reino Unido e precisou ser fechado?
O Diarinho “tá certo”
Um dos aspectos mais tratados pelo guia é a linguagem adotada pelo jornal: escrachada, bem-humorada, permeada de gírias e flexível a palavrões. O guia insiste: o Diarinho é “macriado” não porque use palavrões e a voz das ruas, mas porque não apela para o puxa-saquismo e à reverência. De forma fácil, o guia dá um recado importante e certeiro: ética não pode ser confundida com etiqueta, com bom-mocismo. Quem lê o Diarinho sabe que o jornal está longe de ser bonzinho ou educado, e que muitas vezes mais parece ranzinza e desafiador. Este jeito mal-criado de ser é uma maneira de sinalizar independência editorial, não comprometimento com os núcleos convencionais de poder. Esta é uma escolha editorial, um princípio de conduta e, por isso, um aspecto central da ética que o jornal se impõe. Neste sentido, o guia “tá certo”.
Mas o guia tropeça em algumas pedras e escorrega em outras.
Apesar de insistir que a irreverência está no DNA do jornal, o guia repete o que faz em suas edições diárias: recorre a um mito-fundador para justificar seu estilo, o fundador Dalmo Menezes. A tecla martelada é a que o jornal é uma extensão do temperamento do “veio Dalmo”, que criou o Diarinho à base da fala das ruas e que imprimiu nele o seu humor (bom ou mau). Porque o jornal tem genuínas origens populares estaria desculpado a se comportar de forma às vezes despudorada, apaixonada, indignada. O jornal seria um reflexo da comunidade, como querem fazer crer. Ora, isso é a construção de uma imagem de um produto editorial que pode se mostrar uma caixa de ressonância do leitor ou funcionar como uma máquina jornalística populista. Qual o limite entre uma coisa e outra? Difícil dizer. A grande contradição do guia é que, no afã de insistir na irreverência, o jornal é reverente ao seu criador, alimentando um imaginário conveniente: somos fieis ao espírito do “veio Dalmo”. Claro que a redação pode se esforçar a isso, o que ajuda a dar uma unidade editorial ao produto, mas um jornal é produzido a partir do trabalho de muita gente, e de pessoas diferentes, muitas das quais sequer conheceram ou conviveram com o fundador do “macriado”…
Pisando na bola
O Caminho das Pedras não fica tão evidente quando alguns aspectos mais agudos da ética jornalística são colocados em cena. O guia do Diarinho, por exemplo, afirma que o leitor deve ter acesso à autoria de fotos e informações apresentadas nos textos, mas é um expediente comum do jornal trazer matérias assinadas por nomes-fantasia, como o de Hyury Potter, por exemplo. Por que o anonimato? O que pode justificar essa opção?
Outros tropeços dizem respeito mais ao trabalho de editores – que respondem pelas decisões do que é publicado e com que destaque – do que aos repórteres. O guia de ética do Diarinho não diz nada sobre o uso de fotos sangrentas, chocantes ou apelativas em suas páginas, o que é bastante comum encontrar. Nesses casos, não estão em jogo apenas a morbidez, o mau gosto e o sensacionalismo. Estão em questão também apresentar pessoas mortas em situações degradantes ou vexatórias, sem qualquer possibilidade de defesa; intensificar o sofrimento de familiares; achincalhar com as pessoas, mesmo as mais criticáveis. Mas é o próprio guia de ética quem diz que “o Diarinho acredita que todos têm direito à sua boa imagem e à construção de uma boa fama na comunidade”. O que dizer quando se depara com capas que privilegiam o crime, a morte, a violência e a sensação de insegurança? Até que ponto um jornal deve se apoiar em estratégias que preferem alarmar a sociedade ao invés de informá-la e orientá-la a agir?
Os corpos sangrentos dividem espaço com as fotos de delegacia que tentam “fichar” os acusados de crimes. Assim, são carimbados os retratos de “traficas”, de “dimenores” (de costas), de “psicopatas”, de inimigos da sociedade. Entra em cena o jornalismo justiceiro que não se limita a registrar o fato, mas se apressa em escancarar o rosto dos acusados e suas identidades, de maneira a iniciar um pré-julgamento público de quem ainda não passou por um júri formal e institucional. A exemplo dos cartazes do Velho Oeste, com o título de “Procurado”, o Diarinho estampa as fotos daqueles que devem ser caçados e punidos, ignorando um princípio básico das democracias que é a presunção de inocência.
Polêmico e inquieto, o Diarinho resiste numa fórmula que desafia o tempo e a evolução dos valores nas sociedades mais complexas. Seu sucesso em bancas pode se dever ao formato diferenciado, ao estilo desbocado e até mesmo a bons serviços jornalísticos prestados à comunidade. Mas pode também ser fruto da necessidade de mais bom-humor na mídia, da irreverência editorial, de um contumaz desejo pelo mórbido e pelo cruel desejo de vingança popular. É difícil decifrar o segredo do sucesso do Diarinho.
O guia de ética e de autorregulamentação jornalística, recém-lançado, não explica esse segredo nem tenta fazê-lo. Mas pode ajudar o jornal a buscar caminhos mais transparentes na sua produção, dando a saber quais os critérios de escolha editorial. O próprio guia sabe de suas limitações, pois “não é definitivo nem esgota o assunto”. Avançar na direção do público não é apenas reproduzir a sua prosódia, mas também tornar claro como se chega ao resultado final do trabalho de apuração e edição jornalísticos. Não se trata de domesticar o “macriado”, mas de torná-lo mais claro, nítido e próximo de quem o consome. O guia é um passo, mas o caminho das pedras exige mais fôlego, persistência e senso de direção.
Bernardo Kucinski estará em ciclo de conferências do POSJOR e objETHOS
O Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC promove a partir deste mês o ciclo “Leituras Contemporâneas com Bernardo Kucinski”, um conjunto de conferências para discutir alguns dos principais temas da atualidade.
Nos mesmos moldes das lectures norte-americanas, as conferências do Leituras Contemporâneas são abertas ao grande público, gratuitas e voltadas à discussão e reflexão. A primeira delas aborda “A crise financeira mundial” e acontece no próximo dia 16 de outubro, terça-feira, às 10 horas no Auditório Henrique da Silva Fontes no CCE-UFSC. O evento é dirigido a professores, pesquisadores e estudantes de diversas áreas e a interessados em geral.
Em novembro, no dia 14, as Leituras Contemporâneas enfocam o “Oriente Médio e a Crise de Narrativas”, e em dezembro, no dia 5, a “Comunicação Pública Democrática”, ambos às 10 horas no Auditório Elke Hering, na Biblioteca Universitária da UFSC.
O ciclo é uma realização do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (POSJOR), com apoio do Departamento de Jornalismo da UFSC e Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).
Entrada gratuita, com direito a certificados. Inscrições no local.
Quem é Bernardo Kucinski: graduado em Física, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, livre-docente pela mesma universidade e pós-doutor pela University of London. Como jornalista, atuou no serviço brasileiro da BBC de Londres, e, ainda na capital inglesa, foi correspondente da Gazeta Mercantil e dos jornais Bondinho e OPINIÃO. De volta ao Brasil, foi correspondente do The Guardian, e editor dos cadernos especiais da revista Exame, além de trabalhar na Veja e outros veículos. Entre 2003 e 2006 foi assessor Especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Aposentou-se como titular da USP e é professor visitante junto ao POSJOR da UFSC. É autor de vários livros, entre eles “A ditadura da dívida: a crise do endividamento da América Latina”, “Jornalismo Econômico”, “Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética”. Em 2011, estreou na ficção com o romance “K”, finalista do Prêmio Jabuti.
Comentários objETHOS: A TV suporta toda a verdade?
Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
O cinema já voltou sua atenção para o jornalismo mais de uma centena de vezes, em produções de orçamentos variados, com elencos estelares (ou não) e uma quase obsessão pelos caminhos que percorre uma reportagem antes de chegar ao seu público. De “A montanha dos sete abutres” a “Todos os homens do presidente”, passando por “O Quarto Poder” e “Intrigas de Estado”, os filmes sempre trazem questionamentos de ordem ética a que são expostos seus personagens jornalistas. Os dilemas – mais do que as tecnicidades da profissão – atraem o espectador à posição do repórter e o convidam a refletir sobre a correção de sua conduta. No cinema, rende cerca de duas horas de diversão, mercado que a produção audiovisual para TV vinha ignorando até o surgimento de “The Newsroom”, série da HBO que estreou no final de junho nos Estados Unidos e que só desembarca no Brasil em agosto.
A audiência acostumada a ver em ação investigadores (na franquia “CSI”, “Law & Order”, “NCSI” e tantos mais) e médicos (“E.R.”, “House”, “Gray’s Anatomy”, “Scrubs”, etc.), agora tem a chance de ver o frenético e conturbado mundo do telejornalismo. Em “The Newsroom”, o gatilho é a explosão pública de um âncora num debate com universitários. Will McAvoy (vivido por Jeff Daniels) surta após ser indagado sobre “o que faz dos Estados Unidos o melhor país do mundo”. Comparado a um Jay Leno dos noticiários – o que significa dizer que não incomoda ninguém de verdade – , McAvoy vomita um glossário de razões que mostram justamente o contrário. Os Estados Unidos não são o melhor lugar para se viver. A surpresa gerada com a reação do antes cronicamente acomodado jornalista provoca suas férias forçadas. Quando McAvoy retorna, está com nova equipe e a possibilidade de voltar a fazer jornalismo de verdade. Mas isso se dá a despeito do que ele deseja.
Acontecimento jornalístico
A nova equipe de McAvoy tem à frente a produtora executiva Mackenzie MacHale (interpretada por Emily Mortimer), com quem o âncora parece ter um passado comum. Saber da chegada de Mackenzie na última hora é o gatilho para uma nova explosão de McAvoy, agora de mau humor e destempero. Enquanto ambos discutem na sua sala quem realmente manda no “show”, acontece um grande acidente ambiental em um poço de petróleo no Golfo do México. Como por mágica e sob a pressão do deadline, elementos da equipe antiga e da nova passam a trabalhar juntos, aos tropeços, para fazer um noticiário agressivo, disposto a trazer informação de qualidade e de interesse público. Os anteriormente acomodados são instados a reagir jornalisticamente, como se um instinto superior às suas vontades o tirassem na inércia.
A discussão entre McAvoy e Mackenzie merece atenção: em diálogos cortantes e rápidos, a produtora tenta convencer o âncora a oferecer um produto jornalístico com informações relevantes e úteis, de forma a fazer valer a função pública daquele telejornal. McAvoy resiste, menos por não acreditar naquilo, mas mais pelas mágoas que parece ainda acumular do passado com a jornalista. Os fatos – a crise na plataforma de petróleo – arrastam McAvoy para a necessidade de chacoalhar a poeira e assumir uma posição de maior risco.
Basta decidir fazer?
O primeiro episódio de “The Newsroom” traz ainda dois oportunos momentos para se pensar o jornalismo e sua ética. Quando a informação do acidente ambiental chega à redação, o antigo produtor de McAvoy hesita em acreditar nas dimensões da notícia. Acreditando num precário sistema de cores das pautas – a do vazamento era amarela -, Don não acha que aquilo seja o suficiente para um programa especial. Mas não é apenas a confiança no sistema de cores de pautas que o prende à quela certeza, e sim a insegurança de perder seu posto para Jim Harper, o jovem produtor trazido por Mackenzie. Mais uma vez, são as razões pessoais que guiam as escolhas dos jornalistas, cegando-os de forma egoísta dos fatos que se apresentam à sua frente e que exigem reações mais técnicas, impessoais, jornalísticas.
Um segundo momento para se pensar a partir do primeiro episódio de “The Newsroom” se dá ao final, quando já subiram os créditos do programa, a equipe já deixou a redação, e o diretor de jornalismo Charlie Skinner vai parabenizar McAvoy pelo sucesso da noite. O diálogo tem forte carga idealista da parte do executivo. Ele tenta convencer o âncora de que novamente estão no rumo certo, aquele que escolhe produzir um telejornal que incomode, que coloque fontes contra a parede e que seja agressivo na transmissão das notícias. Isto é, o caminho retomado é o do jornalismo e não mais do show, apesar de os norte-americanos chamarem de “show” tudo aquilo que exibem na TV. E a satisfação de Skinner tem um motivo: eles apenas decidiram fazer, apenas escolheram.
O idealismo repousa justamente na facilidade da explicação, como se não houvessem elementos que impedissem a escolha anteriormente ou que se contrapusessem a ela. Trocando em miúdos, será que apenas basta escolher para se fazer jornalismo na televisão atual? Será que os jornalistas estão dispostos a fazer isso? Será que os anunciantes e outros compromissos que atam as redes de TV poderiam permitir? Pode-se, afinal, dizer 100% da verdade na televisão? Suportaremos isso?
“The Newsroom” é só uma série televisiva e talvez não possa responder a esses questionamentos, mas a sua exibição já nos incita a fazer algumas das perguntas mais incômodas para o momento.
Comentário objETHOS: muda o jornalismo, mas e o repórter?
Rogério Christofoletti
Professor do Departamento de Jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS
Os principais analistas discutem as grandes transformações que o jornalismo vem passando nos últimos quinze anos, basicamente, sob três enfoques: sua função e presença na sociedade, sua sustentação financeira e sua relação com o público. Isto é, a cantilena sobre a crise dos jornais e o fim do jornalismo alimenta os debates acerca de uma reinvenção dos meios nos contextos democráticos e globalizantes, levando em consideração mudanças drásticas nos chamados modelos de negócios e nas próprias relações de consumo de informação. O escopo é abrangente, mas ignora – por exemplo – uma dimensão importantíssima, a do jornalista em geral e a do repórter em específico. Nestes novos tempos, o jornalismo se transforma, mas e os repórteres mudam também?
Três episódios recentes sinalizam a necessidade de refletir sobre essa necessidade e a direção que se quer tomar a partir dos câmbios.
O animador de torcida
Exemplo 1 ou quando se está a serviço do entretenimento paroquial: o repórter deixa de perguntar o que é relevante ou esperado e se limita a provocar declarações que alimentem uma brincadeira particular da emissora.
Neste caso, é importante notar que o jornalista deixa de lado o aspecto primordial de sua atividade – informar – e torna-se mais uma peça na engrenagem de algo maior e que simplesmente engole o jornalismo. Diferente do início do século XX, quando se articulavam cadeias de rádio e TV que disputavam espaço e tempo para informar o cidadão, agora, os grandes grupos são conglomerados de mídia; e jornalismo é mais um produto no cardápio oferecido, ao lado do entretenimento e do comércio derivado. O repórter abstrai-se da função de minerador de informações, de extrator de declarações relevantes que auxiliem o público a compreender melhor o que se passou; e com isso, o jornalista se esvazia de uma atuação de relevância, tornando-se irrelevante e descartável.
A justiceira
Exemplo 2 ou quando se está a serviço da justiça: a repórter transcende seu papel de obter a versão do acusado para se converter em sua principal algoz, fazendo as vezes de justiceira.
Aqui, a jornalista não apenas se aproveita da condição de seu entrevistado – algemado, acusado e enquadrado – para reforçar o esquema de opressão e humilhação. A insistência nas perguntas, a jocosidade das questões e a satisfação indisfarçada diante da ignorância do entrevistado são evidentes. Não importa mais extrair uma confissão, mas sim humilhar, rir e exibir a fragilidade a quem é dirigido o microfone. Falsamente corajosa, ela se impõe sobre o acusado como se nos mostrasse como se deve fazer com esse tipo de gente.
O urubu
Exemplo 3 ou quando se perde o limite do sensível: o repórter tenta extrair à força uma declaração emocionada de alguém em clara circunstância de fragilidade.
O entrevistado reage à insistência dos jornalistas que o cercam, como abutres. Ao fundo, socorristas atendem apressadamente uma vítima, mas os microfones disputam espaço e a atenção de quem tem preocupações muito maiores que simplesmente tranquilizar os repórteres. Neste caso, os jornalistas endurecidos em seu ofício ignoram a dor alheia e a real necessidade de inquirir parentes em situações extremas. Desprezam, portanto, a natureza humana de suas fontes e ainda demonstram uma contundente falta de senso de oportunidade.
Muda ou permanece?
Os três recentes episódios funcionam mais como contraexemplos e ilustram facetas infelizmente comuns entre os profissionais do jornalismo. Insensibilidade, ignorância, covardia, perversidade, morbidez, inoportunidade, falta de bom senso, incompreensão sobre o próprio papel são atributos que se mesclam às esperadas coragem e sensibilidade, aos desejados oportunismo e foco. Note-se que não estamos apenas tratando aqui de preparo técnico, mas acima de tudo de postura e ética profissional. Pois sem valores bem amadurecidos, sem princípios muito nítidos, não se faz jornalismo de qualidade ou com comprometimento social. Sem a reflexão sobre o lugar que se ocupa na sociedade, jornalista nenhum consegue preencher de sentidos uma atividade tão complexa e dinâmica, confusa e plural.
Se a indústria jornalística está se transformando, se as relações com as audiências são distintas de anos atrás, se a sociedade busca novas funções para o jornalismo, os jornalistas também precisam modificar seus modos de operar e ler a realidade. Principalmente os repórteres, aqueles que enfrentam as ruas, que encaram as fontes, que se dispõem a sujar as mãos no mar grosso das informações dispersas. Não é a tecnologia que vai ditar esse conjunto de mudanças, nem os tremores econômicos ou as tensões políticas. É a dimensão humana que atravessa os dias desses profissionais que vai sinalizar como mudar. Vamos adiante, então!











