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Resenha: O âncora: a lenda de Ron Burgundy (2004)
O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy
Por Murilo Souza
Jornalista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina
Ele é o retrato perfeito de um egocêntrico sem conteúdo. Da obsessão pelo próprio visual aos comentários jocosos que faz no ar enquanto apresenta o telejornal mais importante do canal 4 de San Diego, Ron Burgundy (Will Ferrell) é excesso e entretenimento o tempo todo. Popular e presunçoso, o célebre âncora da década de 70 cativa a audiência com um apanhado de histórias quase sempre interessantes, mas raramente essenciais a quem quer que seja. Diariamente equilibrando-se à beira do ridículo, o telejornal de Ron tem ainda na equipe três excêntricos repórteres: o homem do tempo, Brick Tamland; o comentarista esportivo, Champ Kind; e o repórter de campo, Brian Fantana.
De carona nos traços exagerados da personalidade de Ron e achincalhando o pedantismo e o status de celebridade de alguns apresentadores, O Ancora – a Lenda de Ron Burgundy é uma sátira do estilo machista e arcaico de ancoragem. Ao contrário de vários outros títulos que abordam os bastidores da rotina jornalística, o filme não tem a pretensão de polemizar questões éticas e muito menos teorizar a informação. Na verdade, a única crítica que permeia todos acontecimentos ao longo dos 91 minutos de tela está concentrada nas dificuldades enfrentadas pela competente jornalista Verônica Comingstone (Christina Applegate) de realizar o sonho de ser âncora – principalmente pelo fato de ela ser mulher.
A idéia para o roteiro surgiu a partir de um programa de TV visto por Will Ferrell, onde a jornalista Jessica Savitch falava sobre os hábitos machistas de um de seus companheiros de bancada. A primeira imagem do filme, uma frase, brinca justamente com isso: “Baseado em fatos reais. Apenas personagens, lugares e situações foram alterados.”A partir daí, o diretor estreante Adam McKay – que escreveu o roteiro junto com Ferrell – começa a juntar os fotogramas para parodiar o excesso de empostação, as risadas forçadas e inflexões pouco naturais usadas por alguns âncoras do passado. A trama de Mckay se vale basicamente do humor nonsense, muitas vezes previsível e quase nunca o preferido do público adulto.
Vivendo em um universo onde a gravidez de uma ursa panda torna-se a grande história da temporada, Ron Burgundy é uma espécie de Austin Powers do jornalismo. Mulherengo e cabotino, o âncora é idolatrado tanto pelos telespectadores que o reverenciam quanto por si mesmo. Por isso se questiona se seria possível algum dia uma mulher rejeitá-lo. Para sua surpresa, a resposta vem logo depois que ele encontra Verônica. Desdenhado por ela, se indigna ao descobrir que, além de ter sido contratada para trabalhar em seu noticiário, a moça ainda tem pretensões de ocupar o lugar dele atrás da bancada.
Entre o desejo de conquistar Verônica e a possibilidade de ver sua reputação ameaçada, o âncora vive uma série de situações cômicas que vão desde uma conversa terapêutica com Baxter, seu cachorro, até a seqüência que mostra uma briga entre as equipes de vários telejornais, incluindo participações especiais de Ben Stiller, Jack Black e Tim Robbins. E, claro, quando o diretor do telejornal diz casualmente que Ron lê qualquer coisa que aparece no teleprompter, o espectador imediatamente já imagina que um incidente constrangedor está por vir. Mas, mesmo assim, a descoberta não compromete a piada.
FICHA TÉCNICA
Título Original: Anchorman: The Legend of Ron Burgundy
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 91 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2004
Resenha: Bom dia, Vietnã (1987)
Bom dia, Vietnã
Por Marco Aurélio Silva
Jornalista Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina
A comédia Bom dia, Vietnã , (EUA, 1987) conta a história de um radialista enviado ao Vietnã, no ano de 1965, para trabalhar na rádio do Exército norte-americano, em Saigon. Adrian Cronauer se depara com forte censura, empenhada em mascarar uma guerra absurda que começaria a qualquer momento. O personagem vivido por Robin Williams inova toda a programação da rádio que, até então, era péssima e só veiculava músicas que não faziam parte do momento.
Um tenente trabalhava na rádio, o escolhedor das músicas. Ele desaprova o estilo de Adrian. Porém, os ouvintes da rádio passam a tê-lo como o melhor locutor. É a irreverência de Adrian que distrai os soldados que preparavam-se para a guerra. Sem falar dos grandes hits dos anos 60 que faziam todos dançarem.
O grande talento de Williams tem enorme peso nas locuções feitas por Cronauer. Com a imitação de várias vozes, ele transmitia as notícias que eram permitidas. Eram notícias que falavam de assuntos supérfluos e, na voz de Cronauer, tornavam-se ridículas. As informações que dessem a entender que uma guerra estava prestes a começar eram censuradas por uma “simpática” dupla de gêmeos.
Com o que ele podia veicular, fazia terríveis críticas ao governo norte-americano, sempre com bom-humor, é claro. Era uma denúncia aos absurdos da guerra. O major responsável pela rádio não desaprova o trabalho de Cronauer, apenas os subalternos deste. Mesmo quando, na edição de uma entrevista, ele ridiculariza o então vice-presidente Nixon.
Aos poucos, Adrian sente a situação apertar. Numa tarde, quase é vítima da explosão de uma bomba no bar Jimmy Wah. Havia sido retirado de lá 30 segundos antes do atentado por seu amigo vietnamita, Tuam. Na rádio, essa notícia é censurada, pois os russos (na época ainda vigorava o “socialismo real” e existia a União Soviética) mandariam tropas ao Vietnã do Norte e a população ficaria apavorada com a perspectiva da guerra. Mesmo assim, ele começa a noticiar o atentado, no qual dois soldados morreram. Nesse momento, a rádio é tirada do ar. Adrian é suspenso e quem o substitui é o tenente que não aprovava o seu estilo. Este, que se achava o novo rei do humor, é considerado ridículo por todos os soldados.
Dias depois, frente a impopularidade do novo programa, o major da rádio resolve chamar Cronauer de volta. No início, ele se recusa a compartilhar “daquelas mentiras”. Mas, ao perceber a receptividade que tem entre as tropas, retorna.
Um dos momentos mais altos do filme é uma irônica crítica disfarçada de vídeo-clipe. Ao som de What a wonderful world , de Louis Armstrong, seguem-se imagens do dia-a-dia do povo vietnamita, a chegada dos soldados norte-americanos, as atrocidades de uma guerra que estava começando. Um mundo nada maravilhoso, mostrado em câmera lenta.
No geral, o filme não mostra o trabalho de um ou mais jornalistas em meio a uma guerra. Mostra sim a importância de um meio de comunicação de grande difusão, como o rádio, numa situação desta. Mostra também o peso da informação no rádio. Como é um veículo que, uma vez transmitido o sinal, é impossível haver censura, os russos, neste caso, poderiam obter informações confidenciais. Todo cuidado era pouco.
Com o bom humor do gênero comédia e outras características hollywoodianas, o filme fica mesmo pelo talento de Williams e pela crítica que faz a uma guerra infundada.
FICHA TÉCNICA
Diretor: Barry Levinson
Roteiro: Mitch Markowitz
Elenco: Robin Williams, Forest Whitaker and Tung Thanh Tran
Duração: 121 min
País: Estados Unidos
Resenha: O Jornal
O Jornal
Por Greyci Girardi
Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina
Para estudantes de jornalismo que desejam conhecer o funcionamento de uma redação e como se dá a produção de um diário impresso, o filme O Jornal (1994), dirigido por Ron Howard, cai como uma luva. Toda a história gira em torno da edição de um diário nova iorquino e das conseqüências da profissão na vida de seus funcionários. Os primeiros minutos já trazem uma discussão do editor regional Henry Hackett, interpretado por Michael Keaton, com sua esposa que está grávida. O motivo: Henry trabalhou durante toda a madrugada e chegou em casa às 4 horas da madrugada. Esta não é a única passagem do filme em que os personagens representam o estereótipo do jornalista.
Em uma conversa com o chefe, Henry pergunta como ele conseguiu ter filhos e família. O chefe ironiza dizendo que, na verdade, tem duas ex-mulheres e uma filha que não fala com ele. Ou seja, jornalistas não são seres humanos capazes de constituir e manter família. Trata-se da velha idéia de que a vida é dedicada, 24h por dia, ao exercício da profissão.
Apesar da imagem um pouco ultrapassada desse profissional, mesmo para a época em que o filme foi feito, “O Jornal” é válido pelo caso que centraliza a história: os corpos de dois empresários encontrados dentro de um carro com insultos raciais pichados na lataria. Quem os encontra são dois jovens negros que passavam pelo local e acabariam sendo presos como suspeitos. Os jornais, com exceção do de Henry, o New York Sun, trazem o crime na capa. A equipe dele precisa correr para compensar o furo na edição do dia seguinte.
A partir daí, o filme mostra a batalha por este furo, como é uma reunião de pauta, os critérios que fazem um assunto virar notícia, a pressão do deadline e a briga para decidir o que será capa. Um dos candidatos à primeira página é um acidente de metrô. Não houve nenhuma morte, mas rendeu foto de um braço solto de um dos feridos. Henry discute com sua diretora, Alicia Clark, interpretada por Glenn Close, que propôs o tema. Acusa a chefe de só se preocupar com o dinheiro das vendas, de ser sensacionalista. Ele não quer o acidente na capa, quer trazer algo novo sobre o crime contra os empresários. Ainda mais depois de saber que os dois jovens negros foram presos e um dos seus repórteres escutou os policiais comentarem que a prisão foi fachada.
O filme também coloca em questão a responsabilidade das informações divulgadas. Alicia aceita dar a prisão na capa do dia seguinte com a manchete “Agarrados!”. A palavra apresentaria os dois jovens como culpados. Henry discorda, diz que é preciso checar a história antes. Acredita que os dois sejam inocentes e é isso que quer dar como manchete. Alicia diz que, sem fato concreto, sairá a “Agarrados!”. E ao ser questionada sobre a possível inocência dos rapazes, responde: “Hoje os acusamos, amanhã os elogiamos”. Ela não considera que no dia seguinte os leitores já vão ver os dois jovens como assassinos, e que mesmo que a acusação seja retirada serão sempre suspeitos. Afirma ainda que não se importa com isso porque precisa vender e furar a concorrência.
A busca pelo furo é entrecortada pelas dúvidas de Henry quanto a profissão. Ele tem uma oferta de emprego como secretário editorial em um jornal que cobre o mundo. Trabalharia menos tempo, ganharia mais, não precisaria de horas extras e teria mais estabilidade. A esposa o pressiona para que aceite e reclama de sua ausência. Ao mesmo tempo, sua secretária pergunta se ele quer morrer de tédio, sem o corre-corre da redação. Fica balançado, mas perde a oferta em seguida. É que rouba uma pista sobre o caso dos empresários. A pista estava na mesa do editor que fez a entrevista para o emprego.
A partir dela, com a ajuda de seus repórteres e de sua mulher, que também é jornalista, descobre que os empresários foram assassinados por um dono de frota de caminhões de contrabando, por causa de uma grande soma de dinheiro. Precisava ainda da declaração de um policial confirmando que os dois rapazes eram inocentes, para poder dar a manchete que sonhou: “Não foram eles!”. Para convencer um agente da polícia a dar a tal declaração, conta que a capa com a manchete “Agarrados!” já está pronta pra rodar e que o jornal vai destruir a vida desses dois garotos estudiosos. O policial confirma que eles só passavam pelo local, que nem as armas tinham suas impressões, mas diz que não quer seu nome citado como fonte.
Ao chegar na redação, planeja o espaço que tem e as páginas que vão sofrer modificação. Mas a capa “Agarrados!” já está sendo impressa. O filme parte pra comédia com uma cena exagerada de briga física entre Henry e Alicia. Os dois lutam pela chave que para a impressão. Apesar de saber o que foi descoberto, Alicia quer continuar com a mesma capa. Diz que um quarto do jornal já tinha sido rodado, o prejuízo seria grande. A verdade poderia ser dada no dia seguinte.
O restante do filme não retoma a seriedade. Um empresário alvo de ataques do jornal encontra o repórter responsável em um bar. Discute com ele, saca um revólver e atira. A bala pega na perna de Alicia, que estava em uma mesa próxima. Antes disso, esse mesmo repórter a tinha criticado por impedir a publicação da história verdadeira. Diz que seria o primeiro erro publicado conscientemente. Ela se arrepende e liga para a imprensa. Estava ao telefone no momento em que foi baleada. Vai parar no mesmo hospital em que a esposa de Henry está em trabalho de parto. E pelo telefone do hospital, manda trocar a capa. Os jornais são distribuídos e o filho de Henry nasce. Na maternidade, ele vê o jornal com a sua manchete.
Até metade da trama, a encenação é baseada na realidade da rotina jornalística. Mas o restante foge disso para dar uma hilaridade de mau gosto à história.
FICHA TÉCNICA
Diretor: Ron Howard
Roteiristas: David Koepp, Stephen Koepp
Elenco: Michael Keaton, Glenn Close and Robert Duvall
País: Estados Unidos
Ano: 1994
Duração: 112 min
Resenha: A testemunha ocular
A testemunha ocular
Por Cinthia Raasch
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina
Bernzy, um fotógrafo free-lancer que trabalha para os tablóides da Nova Iorque dos anos 1940, é o protagonista deste filme neo noir de Howard Franklin. Sua rotina era vagar pela cidade à noite em busca de crimes e tragédias até que é chamado pela sensual viúva Kay Levitz para investigar Emilio Portofino, um empresário que aparecera após a morte de seu marido contestando sociedade no clube que coubera a Kay no testamento. A viúva acredita que os contatos de Bernzy o auxiliariam a levantar informações.
O fotógrafo vai ao encontro do tal homem, mas acha-o assassinado. Ele avisa a polícia e passa a ser visto como suspeito. No interrogatório descobre que o FBI já investigava Portofino, um gangster que participava de um esquema de venda de cupons de gasolina.
A máfia dos Farinelli é o próximo grupo a chamar Bernzy para uma conversa. O fotógrafo não revela como foi envolvido no caso, afinal já estava apaixonado pela bela mulher que pedira sua ajuda e também imaginava as fotos que faria. Descobre-se que o ex-marido de Kay também se envolvera no caso.
Bernzy descobre ainda que há mais um grupo envolvido no esquema, comandado por Spolleto, além de membros do próprio governo. O fotógrafo percebe um traidor entre os Farinelli e por meio dele é informado que Spolleto fará um ataque surpresa à máfia rival para matar todos os seus integrantes.
Esta fonte, que o informa quando será o ataque, é assassinada por um integrante da quadrilha de Spolleto, o qual tenta assassinar Bernzy também. Isso porque Kay havia sido pressionada pela máfia a contar o que o fotógrafo sabia, a fim de não perder seu clube.
No dia do ataque o fotógrafo se infiltra no restaurante e registra a chacina que extermina todos os membros da máfia de Farinelli. Quando um mafioso aponta uma arma para Bernzy, este enfrenta a morte para tirar uma boa fot: posiciona sua câmera para fotografar seu último instante, mas é salvo quando aquele gangster é morto por outro que não vira o fotógrafo.
Graças a este trabalho, Bernzy torna-se uma celebridade e finalmente tem a oportunidade de publicar seu livro de fotografias e também começar um relacionamento com Kay.
O apelido de “O excelente Berzyni” (The great Berzyni) é devido à obtenção de furos e a rapidez com que chega aos locais, antes de seus colegas e até mesmo da polícia. Porém esconde os métodos ilícitos utilizados para ter acesso às cenas, seja no suborno de porteiros e delegados, seja na mentira contada ao guarda para entrar em prédios públicos. Seu trabalho é sensacionalista e é obtido muitas vezes por meio de propinas. Fica o questionamento: até que ponto o fim justifica os meios?
Embora faça uso de métodos antiéticos, o fotógrafo tenta manter-se íntegro ao não tomar partido, nunca, de lado algum – assim como deve fazer todo jornalista: ser imparcial. Outras características de destaque são sua coragem e obstinação, ele persiste e arrisca sua vida para obter furos.
O filme mostra o lado investigativo da profissão, que tanto apaixona alguns jornalistas. Porém deve-se deixar bem claro que jornalista não é policial, sua função é trazer a informação ao público, e não desvendar crimes e, por consequência, por sua vida em risco.
Bernzy é um personagem inspirado no fotógrafo Arthur Weegee Felig e algumas imagens do filme pertencem a Weegee.
FICHA TÉCNICA
A testemunha ocular (The public eye, 1992, EUA)
Gênero: Suspense/Policial
Diretor: Howard Franklin
Produtores: Robert Zemeckis e Sue Baden-Powell
Elenco: Joe Pesci, Barbara Hershey, Dominic Chianese, Stanley Tucci,Richard Schiff, Jerry AdlerDuração: 99 minutos
Resenha: O Informante (1999)
O Informante
Por Juliana Geller
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina
O produtor de televisão Lowell Bergman, representado por Al Pacino, recebe na porta de sua casa uma caixa, de remetente anônimo, com relatórios de pesquisas feitas sobre manipulação de componentes para aumentar o grau de dependência do cigarro. Ele não compreende todos os documentos e busca ajuda para decifrá-los quando lhe indicam que procure Jeffrey Wigand.
Wigand (Russel Crowe) é um biologista da Brown & Williamson – uma grande indústria de tabaco americana – que acaba de ser demitido, mas para garantir benefícios como o convênio médico, assinou um termo de confidencialidade. A princípio ele se recusa a conversar com Bergmann, que insiste em ter um encontro com o cientista.
Após algumas conversas com o jornalista sem nada revelar, Wigand passa a sofrer ameaças e a ser pressionado a assinar um adendo que estenderia o termo de confidencialidade. Começa a pesar as consequências de revelar a verdade e a responsabilidade que tinha sobre aquele segredo e finalmente é convencido a dar seu depoimento à rede de televisão, que encontra meios de driblar o termo.
Para atacar a credibilidade da fonte, a Brown & Williamson começa a investigar minuciosamente seu passado e a divulgar fatos como multas, um divórcio mal resolvido e outros, além de ameaçar juridicamente a CBS, que estava prestes a ser vendida e perderia os compradores caso sofresse um processo movido pela poderosa indústria do tabaco.
Com as ameaças, executivos e advogados da CBS decidem que o programa irá ao ar sem o depoimento de Wigand. Lowell Bergmann passa então a lutar para mudar esta decisão, batendo de frente com o apresentador do programa e defendendo sua fonte, que se arriscou ao contar o que sabia sobre as companhias de cigarros. As revelações de Wigand acabaram indo ao ar, editadas com cenas de executivos destas companhias negando ter conhecimento de que o cigarro poderia causar algum mal.
O filme é baseado em uma história real. Em 1994 um ex-executivo das indústrias de tabaco falou ao 60 minutos, da rede CBS, e graças à esta entrevista, os fabricantes de cigarros tiveram que pagar cerca de U$246 trilhões em indenizações nos EUA.
Vários assuntos relacionados ao jornalismo são tratados no filme. É possível questionar, por exemplo, até que ponto o compromisso com a verdade valida a atitude do produtor, que pressiona a fonte a revelar o que sabe mesmo que isso acarrete sérios riscos.
Outro tema abordado é o controle comercial da mídia. O filme nos permite refletir sobre quem, de fato, define o que é notícia. No caso mostrado em “O Informante” a indústria do tabaco esteve perto de fazer com que informações importantes não fossem divulgadas. Os interesses comerciais de redes de TV e rádio, jornais, revistas e outros, são legítimos; mas até que ponto isso deve interferir na informação que é levada a público?
FICHA TÉCNICA
O Informante (Insider, The, 1999)
Elenco: Al Pacino, Russel Crowe, Cristopher Plummer
Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann e Erik Roth
Gênero: Drama
Ano: 1999, EUA
Duração: 157 minutos
Resenha: Quiz Show – A verdade sobre os bastidores (1994)
Quiz Show – A verdade sobre os bastidores
Por Camila Garcia
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina
O filme Quiz Show – A Verdade dos Bastidores conta como o programa de televisão Vinte e Um foi cuidadosamente planejado para ter um formato de perguntas e respostas de alta complexidade e forjado repetidamente para manter a alta audiência. Baseado na história real descrita no livro Remembering America, de Richard Goodwin, o longa-metragem mostra a dura verdade da programação televisiva, o trabalho intenso em busca da popularidade e a falta de limites éticos para transmitir exatamente aquilo que o público quer ver.
O jovem advogado Dick Goodwin trabalha para o comitê do Congresso dos Estados Unidos e desconfia que o concurso é uma fraude. Para descobrir a verdade, contará com a ajuda de um dos últimos concorrentes forçados a desistir dos seus momentos de fama, Herbie Stempel. É nessa busca pela realidade dos bastidores que o filme se desenrola e que grande parte do debate ético é feito.
Aos poucos, Goodwin percebe que há mais por trás das câmeras do que aquilo que o público acha ou espera. Em tese, apenas três pessoas sabiam do esquema que mantinha o vencedor no auge – o próprio competidor e dois produtores. Contudo, a investigação de Goodwin ganha uma amplitude ainda maior, com a denúncia de uma das maiores redes de televisão dos Estados Unidos, a NBC. O contraste é visível – ética e verdade versus audiência e dinheiro.
Mesmo inspirado por sua investigação e por seus ideais, Goodwin se identifica com um outro personagem, Charles Van Doren, o atual competidor e vencedor do jogo. O roteiro deixa claro a tênue linha que separa o que é ético e o que é considerado humano. Além da luta contra a fraude da televisão, o jovem advogado luta também com a vontade de deixar alguém se livrar pelos crimes que cometeu.
Do ponto de vista ético, o roteiro debate também o poder da influência. Enquanto Herbert Stemple, o personagem suburbano, judeu, desajeitado e nerd, é facilmente descartado pelo programa, Charles Van Doren, personagem cujo sobrenome faz parte da tradição literária norte-americana, PhD em literatura, charmoso e bonito, é adorado pela audiência e, por consequência, por toda a sua produção.
Já no julgamento, com todas as provas expostas, a dura realidade é jogada de maneira brusca para o telespectador. Uma das últimas frases ditas no filme por Goodwin resume os fatos melhor do que eu poderia: “Eu pensei que pegaríamos a televisão. Mas ao final das contas, foi a televisão que nos pegou”.
O final, contudo, é relativo. Para mim, a frase que citei poderia ser a última cena do longa, mas os produtores optaram por um fim mais clássico: Após o julgamento, cada um dos personagens tem seu destino descrito na tela. Uma maneira de mostrar que as decisões – éticas ou não – influenciam no rumo da vida de cada um? Talvez. Mas foi um final óbvio para um filme que, até então, foi surpreendente.
FICHA TÉCNICA
Título original: Quiz Show
Ano: 1994 (EUA)
Direção: Robert Redford
Elenco: John Turturro, Rob Morrow, Ralph Fiennes, Paul Scofield
Duração: 134 min
Gênero: Drama
Resenha: Domador de Motins (1951)
Domador de motins
Por Alécio Clemente
Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina
Saber escrever bem é uma arte. Saber atirar também. Ned Britt (Randolph Scott) domina as duas de maneira magistral. Britt é um ex-pistoleiro e agora edita seu pequeno jornal em Fort Worth, no Texas. Ele está disposto a não resolver mais os problemas à bala, mas uma turma da pesada chefiada por Gabe Clevenger (Ray Teal) tenta dominar a região.
Além da pequena prensa tipográfica de Britt, também veio para a cidade a atraente Flora Talbot (Phyllis Thaxter), a quem Britt encontrou no caminho vindo para Forth Worth. Foi quando ficou sabendo que ela iria casar-se com Blair Lunsford (David Brian), um velho amigo seu.Talvez alguma questão entre Clevenger e Britt não tenha ficado bem resolvida nos velhos tempos de pistoleiro e Clevenger vai incomodar Britt na tentativa de impedir a circulação do jornal no qual ele aparece como fora da lei.
Fort Worth tem tudo para prosperar, ainda mais agora que a estrada de ferro vai chegar. As terras deverão valorizar muito mas, com Clevenger espalhando o terror e tentando impedir a construção da estrada, os moradores acabam por vender muito barato suas propriedades. Quem estaria interessado em comprar o terreno de fazendeiros que querem fugir para outras bandas? O assistente de Britt tem a sua teoria e se prepara para relatá-la no editorial.
Flora parece estar apaixonada por Lunsford e, a princípio, não confia nas acusações que o amigo Britt faz ao seu noivo. Pode ser simplesmente um jogo porque ele também estaria interessado pela linda Flora, mas também pode ser verdade que o homem com quem ela vai se casar não está falando a verdade. O noivo, poderoso homem de negócios na cidade, tem planos e pretende ser governador. Na busca para realizar seus objetivos, Lunsford não se prende muito a conceitos éticos ou morais. Sem poder confiar nem no amigo ou, tampouco, no noivo, Flora Talbot terá que conferir pessoalmente.
Na cidade cuidada por um xerife molenga, Britt ainda precisa usar suas habilidades com o revólver apesar de querer se afastar dele. O duelo se passa entre Clevenger e Britt. De um lado alguém armado e inescrupuloso, de outro um jornalista cuja arma é a palavra escrita. Sozinho, Britt parece não ter chances contra Clevenger e seu bando, mas ele vai ter um forte aliado na sua luta para trazer a paz de volta para a cidade.
FICHA TÉCNICA
Título original: Fort Worth
Produção: Estados Unidos, 1951
Roteiro: John Twist
Direção: Edwin L. Marin
Duração: 80 min
Gênero: Faroeste
Elenco: Randolph Scott, David Brian, Phyllis Thaxter, Helena Carter, Dickie Jones, Ray Teal.
Resenha: A dama de preto (1952)
A dama de preto
Por Bianca Enomura
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina
“Estes são os nomes de 1772 jornais diários nos Estados Unidos. Um deles é o jornal que você lê. Todos eles são as estrelas desta história”. Esta é a primeira frase vista no filme A dama de preto. Em seguida, Johannes Gutenberg e Benjamin Franklin são lembrados pelas suas contribuições significativas à imprensa. Essa pequena introdução, elucida um pouco sobre a temática que fundamenta o roteiro.
Roteirista, produtor, diretor e financiador da produção, Samuel Fuller atuou como repórter nas décadas de 20 e 30, o que lhe serviu de inspiração e base. O título faz referência à famosa rua onde localizavam-se a maioria dos jornais de Nova York, pela proximidade do New York City Hall (sede do conselho municipal da cidade), da central da polícia da Nova York e do distrito financeiro.
Ambientada nos últimos anos da década de 1880, o início da história têm como cenário um bar onde funcionários da imprensa da região se reúnem. Phineas Mitchell, frequentador do lugar, é um jornalista empregado pelo periódico The Star, mas logo fica evidente a divergência entre seus princípios e a linha editorial assumida pelo veículo. Mitchell acusa Charity Hackett, herdeira do jornal, de explorar os casos de forma sensacionalista. E após uma ação ofensiva contra sua ex-empregadora, é demitido.
Num discurso apaixonado, Mitchell confessa o desejo de fundar seu próprio jornal, que sustentasse suas convicções acima dos interesses políticos e defendesse a ética e a liberdade de imprensa. Rapidamente, um patrocinador apóia a ideia e oferece a estrutura necessária para rodar as edições do então batizado The Globe. A pressa do roteiro é notada neste momento, quando no mesmo dia a equipe é formada e a primeira notícia é, de certa forma, provocada para a primeira edição da publicação.
A primeira matéria de capa do The Globe exibia a caricatura de um homem que havia saltado propositalmente da ponte do Brooklin, sobrevivido, e depois preso pelas autoridades. O texto defendia a libertação do homem e através da promoção de um protesto em prol da causa, ganhou a simpatia dos leitores.
O sucesso imediato do jornal provocou a reação do rival The Star, que iniciou uma campanha para tentar fechar o concorrente. A tensão entre os dois veículos também aumentava a atração entre seus representantes, Mitchell e Charity.
Uma ação da publicação mostra carisma e se vale do patriotismo da população para conquistar o público: arrecadação de doações para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade, na época, recém-doada pela França. Os nomes das pessoas que contribuíssem, apareceriam na edição do dia.
Um momento importante do filme é a possibilidade de ver antigos processos de impressão em uso. Desde a preparação e montagem dos tipos móveis nas prensas mecânicas e, posteriormente, a invenção da linotipia por Otto Mergenthaler, em 1884. Esse personagem foi emprestado da história real, e realmente criou a máquina que em vez de formar uma única letra, continha todas as letras de uma linha.
Na reta final, fica mais evidente a competitividade entre os rivais The Globe e The Star, culminando em boicotes no fornecimento de materiais, ataques diretos a funcionários e, por fim, na explosão da sede do jornal de Mitchell. Nenhuma dessas tentativas, no entanto, tiraram o The Globe de circulação e provocaram a elevação de sua popularidade.
Ainda que não tenha alcançado grandes bilheterias e do prejuízo decorrente para Fuller, A dama de preto foi uma impressão dos dias de repórter do diretor, uma homenagem aos pioneiros do jornalismo nos EUA e um declaração em apoio à liberdade de imprensa.
FICHA TÉCNICA
Título original: Park Row
Duração: 83 min
Gênero: Drama
Produção: Estados Unidos, 1952
Direção: Samuel Fuller
Roteiro: Samuel Fuller
Elenco: Gene Evans, Mary Welch e Bela Kovacs
Resenha: Em noite de lua cheia (1989)
Por Ágatha Morigi
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina
A trama da história, tão antiquada para os dias modernos, é compreendida com um susto logo na cena de abertura. O jovem casal que decide acabar com as suas vidas por acharem possuir o vírus da AIDS é triste e comovente, mas destaca também a ignorância em torno da doença, há 22 anos.
Rutger Hauer é o jornalista John Knot, ex-correspondente da Guerra do Líbano que está construindo uma grande reportagem sobre a AIDS, e para isso finge possuir o vírus e registrar a péssima resposta da sociedade a ele. Em paralelo, ele reencontra em Paris a jovem Joelle, sua antiga paixão. Rapidamente acontece a reconciliação e a descoberta que do relacionamento nasceu uma menina. Determinado a se casar com Joelle, o jornalista tem outra surpresa: na véspera da cerimônia, um exame revela que é HIV positivo.
Aterrorizado, John esconde a verdade e foge para os Estados Unidos, não dando qualquer explicação para Joelle e abandonando o trabalho e os amigos. É nesse momento que o jornalista muda de lado e passa a aceitar a mesma atitude que antes abominava, não deixa que ninguém se aproxime dele. Em Nova York conhece uma rica viúva, também portadora do vírus, e juntos conseguem mover grande quantia de dinheiro para financiar pesquisas sobre a doença. Quando Joelle, ainda apaixonada, descobre a verdade sobre John, decide viajar a Nova York disposta a aceitá-lo de volta. John já sabia, graças à análise de sangue da mulher e da filha, que as duas não estavam infectadas. Feitas as pazes, ambos decidem ficar juntos na esperança de uma vida normal. Tedioso? Clichê?
Com momentos requintados e desagradáveis, o filme passa longe do dramalhão comum ao abordar fortemente a mentalidade a respeito da doença na época. Quando se pensa que mesmo hoje a verdade sobre a AIDS ainda não é de conhecimento geral, Em noite de lua cheia faz um excelente trabalho. Em uma das cenas, quando ainda não sabia ser portador, o jornalista vai a um restaurante e mente ao garçom, dizendo ter AIDS. Imediatamente é convidado a se retirar do estabelecimento, e fingindo indignação, corta a mão com os cacos de um copo. O medo do contágio e a falta de informação estão presentes em todas as cenas como essa. Na mais melancólica, John, já sabendo ser HIV positivo, desta vez sem querer se corta com um copo de vidro. É lamentável acompanhar enquanto ele se faz vítima de seu próprio medo e esconde os estilhaços dentro de um caixote no lixo, cheio de vergonha, mesmo sentimento que transmite para quem o está assistindo.
As belas imagens e a fotografia impecável tentam, mas não conseguem fazer o filme menos perturbador. Talvez seja essa a intenção, e a trilha sonora, com forte orquestração, colabora, assim como as cenas envolvendo o sangue do jornalista, que não são poucas. Como casal, as performances de Hutger Hauer e Nastassja Kinski são convincentes e a química entre os dois é natural. Entretanto, por mais que o romance se esforce, não há como deixar de reparar a diferença de opinião do próprio jornalista sobre o vírus HIV, antes e depois de descobrir que estava infectado.
FICHA TÉCNICA
Direção: Lina Wertmüller
Roteiro: Rutger Hauer, Lina Wertmüller
Atores: Rutger Hauer, Nastassja Kinski, Peter O’Toole
Gênero: Drama
País: Itália, França
Ano: 1989
Duração: 109 min.
Resenha: Tropa de Elite 2 (2010)
Tropa de Elite 2
Por Carolina Dantas
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina
A segunda parte da história do Capitão Nascimento é a maior bilheteria do cinema brasileiro, com 1,25 milhão de espectadores em seu primeiro fim de semana em cartaz. Tropa de Elite 2 desenvolve o enredo da corrupção política em momento de eleição, joga na cara do povo o jogo de poder entre o tráfico e os candidatos.
O início do enredo é um flashback ao estilo Cidadão Kane. O personagem de Wagner Moura, Capitão Nascimento, lembra uma ação do BOPE, comandada por ele e André Matias, interpretado pelo ator André Ramiro, num presídio do Rio de Janeiro. Neste ponto já começam as negociações com outro setor não abordado no primeiro filme: os Direitos Humanos do Cidadão. Capitão Nascimento quer ser radical com a revolta na penitenciária e os intelectuais defendem o direito à vida do criminoso. O começo é forte, mas Tropa de Elite 2 mostra com precisão o que está abaixo da questão.
Mais de 120 mil pessoas vivem na favela da Rocinha, mais de 60 mil no Morro do Alemão. Conseguir eleitorado por lá é essencial. O diretor e roteirista José Padilha aborda a negociação feita para a busca de votos na comunidade. O jornalismo, neste filme, cumpre o seu papel: fiscaliza o poder a favor do interesse público. Dois jornalistas, por conta própria – o editor não havia apoiado a pauta – desconfiam de suborno por parte dos candidatos dentro de uma favela do Rio de Janeiro.
Os jornalistas encontram material de propaganda política abrigado no morro. São assassinados e impedidos de divulgar a informação. A ideia do diretor mostra a importância da reportagem investigativa para a questão, mas também a fragilidade da apuração que envolve o crime. Capitão Nascimento aparece na cena anterior e fala, inclusive, da personalidade da imprensa que muitas vezes se vê imortal quando busca uma matéria.
Em Tropa de Elite 1, Wagner Moura deu vida ao forte personagem que critica o esquema do tráfico, desde o policial corrupto, até o próprio consumidor da droga. Para Nascimento, quem compra também financia o tráfico. Para muitos críticos, tal visão da primeira parte do filme é superficial, sem abranger o que seria o impulso do conflito: a interferência incorreta do governo na dita “economia do tráfico”.
A resposta à crítica é a sequência do primeiro filme, que estreou em 2010. Tropa de Elite 2 retrata tudo. E, para muitos, é chocante ver o que todos sabiam, mas ninguém vê. Na metade do enredo, o próprio personagem de Wagner Moura se diz preso pela máquina corrupta criada dentro das Secretarias de Segurança Pública, pelos políticos em eleição e pelo povo que é viciado na droga. José Padilha encerra seu filme com imagens do Planalto Central, em Brasília, e frases de efeito que criticam a política do País.
FICHA TÉCNICA
Diretor: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Maria Ribeiro, Irandhir Santos, André Ramiro, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Sandro Rocha, Emilio Orciollo Netto.
Produção: Marcos Prado, Malu Miranda
Roteiro: José Padilha, Bráulio Mantovani
Fotografia: Lula Carvalho
Trilha Sonora: Pedro Bromfman
Duração: 118 min.
Ano: 2010
País: Brasil
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Zazen Produções Audiovisuais
Estúdio: Zazen Produções
Classificação: 16 anos





