Comentário da Semana: Jornais estrangeiros vieram à Olimpíada para confirmar teses prontas

Evandro de Assis
Mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Encerrados os primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul, é tempo de avaliações. Nas próximas semanas, meses e anos descobriremos que legado deixou a Rio 2016 – para o esporte, para o Rio de Janeiro e para o Brasil. Do ponto de vista jornalístico também há enorme material a ser analisado e discutido, produção de milhares de repórteres e editores que vieram dos cinco continentes.

Num exercício proposto no primeiro semestre deste ano, estudantes da terceira fase do curso de Jornalismo da Universidade Regional de Blumenau (FURB) observaram a cobertura pré-jogos de cinco publicações digitais estrangeiras. Alguns dos dados colhidos dão ideia do humor da imprensa internacional e permitem comparações com as abordagens feitas durante e, a partir de hoje, depois das competições.

Para efeitos da análise a seguir consideraremos três das publicações acompanhadas pelos alunos – The New York Times (EUA), The Guardian (Reino Unido) e El País (Espanha) –, todas com pretensões de atingir e influenciar um público global.

De 1º de abril a 30 de maio, 230 reportagens sobre a Rio 2016 apareceram nos três veículos online – quase quatro por dia. Destas, 160 tratam exclusivamente da disputa esportiva em si (apresentam atletas, analisam as chances de medalhas ou recordam histórias do esporte) ou se referem a questões internas dos países em que estão sediados os jornais. Atenho-me às 70 produções editoriais que tratam dos jogos numa perspectiva que envolve diretamente o Brasil e a organização da Olimpíada.

  • 37 destas reportagens abordavam os jogos de maneira “negativa” ou “muito negativa”
  • 29 delas apresentavam equilíbrio entre fatores positivos e negativos relacionados à Olimpíada e ao Brasil
  • Quatro ofereciam uma visão majoritariamente positiva, enquanto nenhuma foi classificada pelos estudantes com tendo viés “muito positivo”

Predominam quatro razões para o pessimismo dos jornalistas espanhóis, britânicos e norte-americanos: a disseminação do zika vírus em cidades brasileiras, a violência urbana no Rio de Janeiro, a poluição das águas cariocas e a crise político-econômica nacional. Agora, ainda sob o calor dos acontecimentos, percebe-se na cobertura dos últimos 20 dias que os jornalistas internacionais procuraram comprovar teses pré-fabricadas sobre o Brasil. Quando isso não foi possível, as pautas foram esquecidas olimpicamente.

Zika vírus

Depois de “Olympics” (e suas variações) e “Rio”, a palavra mais repetida nos 70 títulos analisados entre abril e maio é “zika”, com 20 menções. “Zika vírus faz da Olimpíada do Rio uma ameaça ao Brasil e ao exterior, dizem especialistas em saúde”, sentenciou o Guardian em maio. “Especialistas sugerem adiar ou retirar do Rio a Olimpíada devido ao zika”, mancheteou o site do New York Times.

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Dias mais tarde o próprio jornal britânico publicou editorial que criticava o pessimismo generalizado sobre os jogos: “O maior problema associado ao zika é mais sobre ignorância e comunicação ruim do que com o vírus em si”. O jornal lembrava que, em agosto, durante o inverno brasileiro, delegações e turistas estariam livres do mosquito aedes aegypti. Mas ignorava que ele próprio contribuía para o clima tenso que afugentaria turistas.

Ao longo do último verão, em período anterior ao da pesquisa, veículos internacionais, especialmente norte-americanos, trataram o vírus como a mais grave ameaça à Rio 2016. Nada muito diferente da cobertura observada por veículos e agências internacionais sobre o ebola e a gripe H1N1: muito alarde e pouca informação.

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Durante os Jogos Olímpicos, a doença que poderia impedir a realização do evento voltou a ser notícia com frequência no New York Times, no Guardian e no El Pais. Nenhum dos textos encontrados no sistema de busca dos jornais, entretanto, diz respeito ao Brasil, mas a Porto Rico, Colômbia, Espanha e Flórida, territórios que, em pleno verão, vêm registrando casos. Quanto ao Rio, não houve repórter que encontrasse um pernilongo, nem texto que mencionasse o absurdo da cobertura feita meses antes – com exceção a ser mencionada adiante.

Poluição

O New York Times foi o mais enfático na abordagem dos parcos avanços demonstrados pelo Rio de Janeiro na despoluição das águas que banham a cidade. Na esteira de uma reportagem publicada em agosto de 2015 que mostrava uma mistura de lixo e esgoto em locais onde supostamente os velejadores disputariam provas, o jornal norte-americano resgata o tema seguidamente entre abril e maio. O El Pais apresentou perfil do brasileiro Mario Moscatelli, “O biólogo que destapa as latrinas do Rio” e denuncia “a morte das lagoas em torno do Parque Olímpico”.

Uma semana antes dos jogos o NYT aconselhava nadadores da maratona aquática a manterem a boca fechada para não engolirem esgoto. A publicação misturava índices de poluição e imagens da Baía de Guanabara, onde ocorreriam as disputas da vela, com a Praia de Copacabana, local em que os nadadores competiriam. Ao longo das disputas o jornal não retornou ao assunto, talvez porque não encontrasse relatos a corroborar com a terrível expectativa.

Violência

“Aos atletas espanhóis preocupa mais o zika e, sobretudo, as notícias de caos e violência que chegam do Brasil”, relatou o El Pais no fim de maio, repercutindo a possibilidade do astro do basquete Pau Gasol não vir ao Rio. Quando faltavam 100 dias para os jogos o jornal ironizava em título: “Tiro na favela: esporte olímpico na Rio 2016?”. Guardian e New York Times abordaram a questão com menor destaque, mencionando-a sempre entre séries de problemas que a Olimpíada enfrentaria.

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Durante os jogos, se poluição e zika vírus sumiram do noticiário, o mesmo não ocorreu com a violência. Assaltos a membros de delegações estrangeiras, o assassinato de um policial numa favela e a morte de um técnico alemão de canoagem num acidente de trânsito foram abordados como exemplos de uma cidade que maquiou seu cotidiano para receber os convidados. O New York Times titulou que “O Rio nunca se sentiu tão seguro. Mas o que acontecerá quando os jogos acabarem?”.

A insegurança ganhou destaque maior ainda com o falso assalto denunciado por nadadores americanos para encobrir uma confusão na madrugada carioca. El Pais, The Guardian e The New York Times reproduziram as alegações dos nadadores em títulos bombásticos, ainda que inicialmente tenham ouvido relatos de fontes secundárias. Não que a imprensa brasileira tenha se comportado de maneira diferente, aliás.

Até que o assunto fosse esclarecido pela polícia passaram-se quatro dias de manchetes dentro e fora do país transformando a violência no principal assunto da cobertura – depois do esporte em si.

Crise

À medida em que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff avançava, entre abril e maio, e as condições da economia se deterioravam os três jornais internacionais pesquisados elevavam as preocupações sobre impactos à Olimpíada. Em quase todos os textos de abordagem geral sobre os jogos há um parágrafo de contextualização que menciona a divisão política do país e a recessão. Em abril, o Guardian deixou no ar seis questões sobre a organização dos jogos, a primeira delas tem relação com o “tumulto político”. O El Pais, por sua vez, chamou 2016 de “annus horribilis” para os brasileiros: “A quatro meses dos jogos não se sabe quem será o presidente que fará o discurso inaugural.

A crise econômica do estado do Rio de Janeiro, que levou a protestos de estudantes, policiais e à ameaça de fechamento de hospitais, também foi mencionada como sinal de que os brasileiros escolheram o pior momento possível para serem anfitriões de um encontro planetário.

Apesar de soar o mais pessimista dos três jornais quanto às possibilidades de sucesso do Brasil, o NYT lembrou que não seria a primeira vez de um país em crise recebendo os Jogos Olímpicos, citando casos como o de Sochi 2014 (Rússia), Seul 1988 (Coréia do Sul) e Londres 1948 (Reino Unido), entre outros.

Diversos textos, antes e durante a realização da Rio 2016, também destacam os altíssimos custos envolvidos e o legado questionável que grandes eventos como a Olimpíada deixam ao país-sede. Não explicam, porém, por que Estados Unidos, França e Itália, países que já experimentaram tal desgosto, candidataram-se aos jogos de 2024.

Comprovação de teses

Numa primeira avaliação da cobertura desses três gigantes do jornalismo internacional sobre a Rio 2016 é visível a tentativa dos jornalistas de, uma vez no Brasil, comprovar expectativas negativas construídas anteriormente. O New York Times descreveu a cerimônia de abertura afirmando que “se havia um país precisando de um espetáculo edificante, ainda que restrito a um exercício de relações públicas, esse país era o Brasil”. O texto então discorre sobre crise política, recessão econômica, epidemia de zika e poluição para só depois descrever a festa no Maracanã. De autoria do correspondente no Brasil, Simon Romero, a reportagem ainda menciona cortes drásticos de orçamento nos jogos, que poderiam atingir até operações básicas da organização.

Ao longo das competições o jornal destacou problemas como a falta de veículos para transportar burocratas do Comitê Olímpico Internacional (que tinham de esperar, que absurdo!, 15 minutos pelo transporte), filas nas entradas das arenas, a explosão por engano de uma mala deixada pela proprietária no check-in de um cruzeiro e a cor esverdeada da água em piscinas do complexo aquático. Más condições das acomodações na chegada da delegação da Austrália à Vila Olímpica confirmavam preocupações anteriores: os brasileiros não conseguiriam executar os jogos direito.

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O humor dos três jornais sobre a Rio 2016 pode ser resumido pela reportagem do NYT “Folia olímpica distrai Brasil de seus problemas”, publicada após uma semana de disputas. Em síntese dizia o seguinte: além de criarem uma armadilha político-econômica que punha os jogos em risco e viverem uma epidemia de zika (no inverno?), os brasileiros viviam um faz-de-conta, escondendo seus problemas reais.

“Primeiro, o Brasil nunca conseguiria concluir o trabalho a tempo para a Olimpíada; agora que o país mostrou tanto sucesso e produziu uma magnífica cerimônia de abertura, é culpado por não ter resolvido cada um de seus problemas sociais antes dos jogos”, reclamou, também no Times, o ex-correspondente no Brasil Roger Cohen.

O artigo, uma exceção dentre o mau humor generalizado dos três grandes jornais estrangeiros, acusa dilemas que todos os brasileiros conhecem bem, mas critica a falta de curiosidade dos jornalistas estrangeiros em tentar compreender uma sociedade complexa e diferente daquelas que os Jogos Olímpicos historicamente encontraram. “Existe algo no mundo desenvolvido que não tolera um país em desenvolvimento organizando um grande evento esportivo”, disse Cohen.

Ao que tudo indica, os Jogos do Rio terminaram sem grandes máculas à cidade-sede e ao país, mas a narrativa que tende a se solidificar entre os jornais estrangeiros é de que o mundo do esporte conseguiu sobreviver ao turbulento e incivilizado Brasil – uma mensagem que deve manter o Comitê Olímpico Internacional e seu principal evento distante do Sul do mundo por muito tempo.

Radar objETHOS #112

Paradas obrigatórias para quem pensa e se interessa por jornalismo e ética:

  • Precisamos de um código de ética para a realidade aumentada? Katherine Cross argumenta que sim, e cita o fenômeno Pokémon GO como pontapé inicial de um futuro permeado por essa nova tecnologia. Segundo a socióloga, interações e mercadorias virtuais tendem a ser vistas como menos reais, embora impactem diretamente o mundo físico. A questão é: quem será responsável por possíveis danos que incidem em usuários? Para Cross, as grandes empresas que desenvolvem experiências em realidade aumentada – como a Niantic, de Pokémon GO – ainda carecem de padrões éticos mais transparentes: bit.ly/2bjqQ2G
  • Aproveite e confira um guia produzido pelo Instituto de Tecnologia do Rio de Janeiro (ITS Rio) sobre Pokémon GO e direitos digitais. O documento toca em questões como privacidade, neutralidade de rede e captura de dados: bit.ly/2bpWEFo
  • O iMedia Ethics compilou casos de falhas éticas na cobertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Um dos exemplos citados é o artigo do repórter Nico Hines, do Daily Beast, sobre atletas homossexuais que não assumem publicamente sua orientação sexual. Após uma série de críticas, o jornalista foi retirado da cobertura dos Jogos: bit.ly/2bFAHSg
  • Ainda sobre as Olimpíadas, a Columbia Journalism Review analisa o trabalho da imprensa internacional no megaevento. Com todos os olhares voltados para o Rio, a autora Sarah Robbins questiona como produzir narrativas jornalísticas globais de qualidade, sem estereotipar ou simplificar a complexidade do país que hospeda os Jogos: bit.ly/2bx5P34
  • A NPR, rede de rádio pública norte-americana, retirou a seção de comentários em seu site, restringindo interações com leitores às redes sociais. A decisão foi feita porque os comentários não representariam a audiência da NPR – 83% eram escritos por homens, com maioria enviada de computadores desktop; enquanto isso, boa parte dos ouvintes acessam a rádio por celular: bit.ly/2b2UsOA
  • “Algumas vitórias não merecem medalhas” é o nome da campanha liderada pela ONG Repórteres Sem Fronteiras para chamar atenção sobre o alto número de jornalistas assassinados no Brasil, o segundo maior caso na América Latina. Desde os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, pelo menos 22 jornalistas foram mortos por motivos associados à sua profissão. Os crimes, em geral, ocorrem em cidades de pequeno e médio porte, e envolvem corrupções locais: bit.ly/2azPsSk
  • Após perder a visão de um olho, Sérgio Silva teve seu pedido de indenização negado pela Justiça de São Paulo. O fotógrafo ficou conhecido em 2013, quando levou um tiro de borracha de um policial durante a cobertura de protestos de rua: bit.ly/2b4G9MQ

Pesquisador do objETHOS palestra sobre papel da mídia na crise política

O professor e pesquisador Samuel Lima

O professor e pesquisador Samuel Lima

O pesquisador do objETHOS Samuel Lima fará palestra aos estudantes e docentes do curso de Jornalismo do Instituto Fundação Esperança (IESPES), na próxima terça, 23, em Santarém, Oeste do Pará.

Lima debaterá um tema que tem sido objeto de reflexão e crítica coletiva aqui no Observatório da Ética Jornalística: o papel da mídia na crise política, cujo desenlace será no final deste mês, no Senado Federal. Haveria crise política sem o protagonismo dos grupos que monopolizam o cenário midiático brasileiro?

O evento faz parte das comemorações dos 10 anos de criação do curso de jornalismo naquela instituição. “Estive lá, quando da implantação do curso, fazendo palestra sobre o tema mais geral de mídia e política, e também dando uma pequena oficina de edição para jornalismo impresso. Será especial retornar e rever egressos, que prometem prestigiar, e colegas docentes que lutam para fazer um curso de qualidade no interior da Amazônia”, observa Lima.

Pesquisadora do objETHOS qualifica tese sobre métricas no jornalismo online

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A pesquisadora Lívia Vieira

Nesta sexta-feira, 19, a pesquisadora do objETHOS e doutoranda do POSJOR/UFSC Lívia de Souza Vieira passará pelo exame de qualificação de sua tese, que tem como título: “Métricas editoriais no jornalismo online: ética e cultura organizacional na relação com audiências ativas”. A atividade é restrita aos membros da banca e acontece a partir das 14 horas na sala 141 (CCE/UFSC). Serão avaliadoras as professoras Raquel Ritter Longhi e Maria José Baldessar, tendo na suplência a professora Rita Paulino. O orientador da tese é o professor Rogério Christofoletti.

Em novembro de 2015, Lívia venceu o Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo com a melhor dissertação de mestrado do país na área. O estudo discutia e apresentava parâmetros éticos para correções de notícias em portais da internet.

Comentário da Semana: O “espírito olímpico” e o jornalismo

Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador no objETHOS

O egípcio Islam El Shehaby negou-se a cumprimentar, após derrota no judô (peso pesado acima de 100 kg) nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 12 de agosto, o israelense Or Sasson. O gesto ofende a ética do judô e o “espírito olímpico”. Tal atitude repercutiu negativamente na imprensa nacional e estrangeira, sobretudo na ocidental.

Que bom seria se o “espírito olímpico” prevalecesse e até mesmo os dois atletas saíssem abraçados, como exemplo de confraternização entre os povos e acima das disputas políticas entre Israel e muçulmanos, entre Israel e palestinos, entre Israel e maioria do mundo árabe. Que bom se prevalecesse por sobre as disputas políticas que dizimam milhares ou milhões de crianças, homens e mulheres, velhos e moribundos, inocentes em todas as guerras… Muitas vezes bombardeados, unilateralmente, em hospitais, em suas casas, em asilos, ou seja, em zonas onde a “ética da guerra” deve preservar e respeitar.

Que bom se o “espírito olímpico” pudesse, acima das disputas, homenagear, na abertura das Olimpíadas, o verdadeiro articulador de sua vinda para o Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em evento antes criticado e agora elogiado por significativa parte da mídia hegemônica. Que bom se o “espírito olímpico”, por sobre as disputas políticas, pudesse homenagear quem muito se empenhou para que as Olimpíadas 2016 se realizassem, a presidente golpeada Dilma Rousseff.

Que bom se fosse assim, mas não é assim que funciona. A Política e a Ideologia estão por toda a parte e se sobrepõem, infelizmente – mas às vezes com razão – ao “espírito olímpico”, traindo os ideais das disputas gregas milenares, que diziam que, em tais disputas olímpicas, as diferenças e as guerras deveriam ser deixadas de lado para ali prevalecer, exatamente, o “espírito olímpico”.

Se o atleta egípcio errou ao não ceder ao “espírito olímpico” – e até mesmo talvez nem conhecesse as posições políticas de seu adversário –  não foi o primeiro. Em muitas solenidades olímpicas está presente, de forma aberta ou subliminar, o espírito não olímpico, ou seja, as intenções ideológicas e políticas privatizadas por grande parte de autoridades e do jornalismo majoritário, seja na minimização do papel do Estado – e do governo Lula e Dilma – na formação de atletas que ganharam o ouro como Rafaela Silva, seja na enorme quantidade de atletas brasileiros que compete e tem financiamento do Estado. A falta de “espírito olímpico” está até mesmo na ausência de referências ao momento em que as Olimpíadas foram conquistadas para o Brasil, quando Lula estava cercado de personalidades mundiais, e até mesmo pelo prefeito, Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, cidade-sede do evento.

Cristiano Ronaldo e a questão palestina

A criação de Israel em território palestino – tornando refugiados em seu próprio território centenas de milhares de palestinos; os constantes descumprimentos das resoluções da Organização das Nações Unidas desde a criação do Estado de Israel em 1948 em cima de territórios que não eram seus; a negativa em reconhecer um Estado palestino; o desvio das águas do Rio Jordão; a apropriação do golfo de Akaba e do Estreito de Tiran; a invasão da Cisjordânia; o expansionismo que tenta se apropriar de Jerusalém e de vários lugares no Oriente Médio; a discriminação aos próprios judeus orientais em Israel; o massacre de civis; a manutenção de campos de refugiados; o desdém da mídia hegemônica internacional – especialmente a ocidental… Tudo isso contribui para que a questão política – e político-ideológica – esteja presente e à “flor da pele”, inclusive de atletas em Olimpíadas. É claro que o tom de rivalidade deveria ser apenas esportivo, se esportiva apenas fosse a cobertura jornalística das Olimpíadas. Mas a cobertura tem sido também política e ideológica, bastante longe do estrito “espírito olímpico”, até mesmo na ausência de tratamento e de esclarecimentos ou na minimização de determinados fatos.

Manifestações como a do atleta egípcio não são novas. Ao final de um jogo entre Portugal e Israel, Cristiano Ronaldo já havia negado troca de camisa com um atleta israelense. O próprio “CR7” já havia doado uma de suas chuteiras de ouro para leilão/venda a favor dos palestinos. “Ao final da partida entre Portugal e Israel pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, em 25 de março — por quê será que a imprensa daqui não deu a devida importância ao fato? –, o jogador português Cristiano Ronaldo recusou-se a trocar sua camisa com a de um jogador de Israel.” E segue: “O jogo terminou empatado em três gols. Ronaldo poderia estar irritado com o empate em 3 x 3, mas há uma bela atitude pregressa do português: em novembro de 2012, entidades de educação palestinas e vítimas de bombardeios israelenses receberam os recursos da venda da Chuteira de Ouro do atleta português. A chuteira, prêmio recebido em 2011 ao ser eleito o melhor jogador da temporada, é estimada em 1,4 milhão de euros.”

Tais gestos, políticos como devem partir de um cidadão que não é pela metade – mas integralmente um cidadão – esportivo, político, cultural, ideológico – é abafado por grande parte da mídia ocidental, que prefere factoides a fatos e seus significados mais profundos. E os escamoteia. Prefere pobres narrativas a narrativas complexas e esclarecedoras.

O atleta egípcio pode ter errado em um momento em que poderia haver uma simbolização positiva do gesto de abraço. Mas talvez tenha evitado o cinismo, que não impediria a continuidade de guerras e massacres de israelenses contra palestinos, por exemplo, e, portanto, o símbolo talvez seja outro. Que não há espírito olímpico sem confraternização entre povos. E que não há confraternização entre os povos sem justiça social, sem respeito aos povos como o palestino. Não é uma questão menor e que não pode ser tratada em Olimpíada. Uma Olimpíada sem contexto histórico e político, tão comum na cobertura que exalta a superação mas não a história para chegar a ela, é apenas um hiato que em nada ajuda os povos na sua confraternização. Os comentários a que se seguiram em redes sociais dos próprios veículos majoritários de comunicação – como portal Globo, UOL ou Terra – atestam o grau de desinformação sobre a questão palestina e sobre o mínimo do que vem a ser democracia e o tão propalado “espírito olímpico”.

As Olimpíadas – e sua cobertura – poderiam ajudar a entender melhor as diferenças. As coberturas – com raríssimas exceções – excluem as questões políticas, ideológicas, culturais e sociais. E o “espírito olímpico”, como conceito, precisaria de uma contextualização maior e mais esclarecedora do profundo sentido.  Parece estarmos muito longe disso. E o gesto do egípcio, neste aspecto, contribuiu para certa reflexão. Não a das vaias ao egípcio por parte da torcida brasileira, a mesma que tem vaiado – às vezes grosseiramente – adversários de atletas brasileiros e sem nenhum “espírito olímpico”, sob o olhar apático e comentários mais apáticos ainda de jornalistas locais. Assim, o ufanismo, o “patriotismo”, a ideologia, a política, a religião e a cultura se sobrepõem, ainda que nas vaias, ao “espírito olímpico”.

Pobre do “espírito olímpico”… E pobre da mídia que não consegue esclarecer minimamente o que se passa…

Se a guerra é o caminho da paz por outros meios, a paz é o caminho da guerra por outros meios, conforme Alexis de Tocqueville em “A democracia na América”. A paz das Olimpíadas está cheia de mensagens políticas. Entender o que se passa é uma proposta do jornalismo para o presente imediato. Neste aspecto, as Olimpíadas não deixam legados de narrativas esclarecedoras, a não ser o discurso da “superação”, do “heroísmo individual”, das vitórias épicas, sem esclarecer o complexo percurso que levou um atleta à vitória individual e menos ainda para problematizar a trama de relações políticas, ideológicas e comerciais presentes nelas.

Às vezes, a não realização de um gesto protocolar revela muitos outros gestos ocultos. Às vezes, não estender a mão é mesmo sinal de falta de “espírito olímpico” ou descortesia. Outras vezes, porém, “a mão que afaga é a mesma que apedreja” (Augusto dos Anjos).

Algumas referências bibliográficas

CATTAN, Henry. El problema palestino en pocas palabras. Madrid: Fundamentos, 1978.

COLÓQUIO de juristas árabes sobre Palestina. Los palestinos y sus derechos. Madrid: Fundamentos, 1978.

KAPELIOUK, Amnon. O Massacre de Sabra e Chatila. Belo Horizonte: Vega, 1983.

LACAZE, Marie-Thérese. O amor mais forte que a morte: sionismo e resistência palestina. Belo Horizonte: Vega, 1983.

SALEM. Helena. O que é questão palestina. São Paulo: Brasiliense, 1982 (coleção Primeiros Passos).

Tocqueville, Alexis de. A democracia na América. Belo Horizonte: Itatiaia, 1977.

WOLFF, Fausto. Os palestinos: judeus da 3ª guerra mundial. São Paulo: Alfa-Omega, 1986.

Radar objETHOS #111

Paradas obrigatórias para quem pensa e se interessa por jornalismo e ética:

  • Nieman Lab está compilando os experimentos jornalísticos mais interessantes feitos durante a cobertura dos Jogos Olímpicos de 2016. A lista inclui o uso de bots no Washington Post e um “áudio tour” no Rio de Janeiro produzido pelo The Guardian: bit.ly/2b9KPU7.
  • Gênero e Número é uma web revista recém lançada com foco no jornalismo de dados. O tema da primeira edição é a desigualdade entre homens e mulheres no esporte: bit.ly/2aIJtKM.
  • Quais são as preocupações que jornalistas devem ter quando utilizam vídeos gravados por cidadãos? Paula Gonzalo alerta para os dilemas éticos que envolvem a proteção de testemunhas, especialmente em casos de violência: bit.ly/2aUPya1.
  • Uma matéria do Poynter analisa o cenário midiático brasileiro com o auxílio de Rosental Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas. Alguns dos pontos destacados são o controle que políticos exercem sobre mídias regionais, a ascensão de iniciativas fact-checking e o alto número de crimes cometidos contra jornalistas: bit.ly/2bj5iVm.
  • A UNESCO lançou um guia sobre segurança digital para jornalistas (em espanhol). Acesse e baixe gratuitamente: bit.ly/2aNBZvt.
  • Internet e capitalismo de vigilância é o tema de uma entrevista com o antropólogo Rafael Evangelista e o advogado Rafael Zanatta. Assista a conversa promovida pelo site Outras Palavras: bit.ly/2aOItrc.
  • O Observatório da Imprensa deu início a uma campanha de crowdfunding para manter seu site no ar. Você pode fazer doações aqui: bit.ly/2b9sKUC.
  • Na próxima quinta-feira (18) será lançado o portal do coletivo Maruim, de Florianópolis. O evento acontece no Palácio Cruz e Sousa e terá também uma roda de debate sobre jornalismo com cinco profissionais. Mais informações: bit.ly/2aPBRrp.
  • A crítica de mídia realizada pela página Caneta Desmanipuladora foi destaque no Suplemento Pernambucano. Confira uma entrevista com o jornalista e a atriz que estão por trás do projeto: bit.ly/2aLJYGA
  • Conheça a história da ONG AfricanCheck, dedicada a corrigir informações distorcidas sobre o continente africano: bit.ly/2aN8CDF.
  • O último relatório da ONG Repórteres Sem Fronteiras tem como tema o coronelismo eletrônico, destacando políticos que são donos de veículos de comunicação. Aécio Neves, senador do PSDB, é um dos personagens citados no dossiê: bit.ly/2agVuM3.
  • A relação entre jornalistas e fontes anônimas é destaque na reportagem de Sherry Ricchiardi, traduzida pela Rede de Jornalistas Internacionais: bit.ly/2aNSKFx.
  • Confira também um artigo no Columbia Journalism Review que discute o interesse de fontes que vazam dados para jornalistas. O texto questiona como cobrir esses casos evitando que o profissional seja manipulado pelas partes interessadas: bit.ly/2ayhWPo.

Comentário da Semana: Privacidade sob ataque: O álibi do terrorismo olímpico

Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

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A maior parte das medidas adotadas pelo governo interino de Michel Temer é assustadora. Dentre a sequência devastadora de ações atabalhoadas destacam-se as ameaças de “terrorismo” nas Olimpíadas. Os desdobramentos da Operação Hashtag, primeira ação da Polícia Federal após a sanção da Lei Antiterrorismo (Lei 13.260 sancionada por Dilma Rousseff em 16 de março de 2016), clarearam um cenário ameaçador onde integrantes do governo buscam protagonismo político no tratamento de questões políticas extremamente complexas e perigosas. Entretanto, os aspectos mais preocupantes dos fatos estão relacionados com o desrespeito aos direitos civis e à complacência da maior parte dos veículos de comunicação diante dos atos de Estado obscuros.

O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, e o da Defesa, Raul Jungmann, transformaram a operação “sigilosa” em um verdadeiro “palanque”. Os ministros denotaram uma intenção clara de autopromoção e oportunismo que foi disseminada pela maioria dos meios de comunicação de forma apática e acrítica. A partir de versões desencontradas, declarações desnecessárias e desequilíbrio evidente, Jungmann chegou a chamar os atos dos supostos terroristas de “porralouquice” e Moraes classificou o grupo como absolutamente amador e sem nenhum preparo. Para além da falta de mensuração das consequências danosas dessas informações pode estar a constituição de um álibi para instauração do vigilantismo no Brasil.

De acordo com Silveira (2016), a internet encontra-se sob ataque e os aparatos de segurança e de justiça agem cada vez mais de modo extremo e hiperdimensionado. “Seus expoentes clamam pelo fim das restrições ao acesso das autoridades aos dados armazenados pelos cidadãos e pela possibilidade de interceptação plena da comunicação em rede. Sem isso, dizem, não poderão enfrentar os quatro cavaleiros do infoapocalipse: o terrorismo, o tráfico de drogas, a pedofilia e a lavagem de dinheiro” (SILVEIRA, 2016, online). Para o autor, esse descabido grau de vigilância não reduzirá os crimes, apenas tornará a democracia mais frágil e os cidadãos mais cerceados.

Algumas informações que estão em torno da Operação Hashtag denunciam que ações de vigilância estão em curso no Brasil. Em entrevista ao portal G1, o procurador da República Rafael Brum Miron, responsável pela operação, afirmou que as investigações que prenderam os suspeitos de ligação com o Estado Islâmico começaram com um alerta do FBI. Para Assange (2013), a vigilância não constitui um problema apenas para a democracia e para a governança, mas também representa um problema geopolítico. “A vigilância de uma população inteira por uma potência estrangeira naturalmente ameaça a soberania. Intervenção após intervenção nas questões da democracia latino-americana nos ensinaram a ser realistas” (p. 18). As atividades “terroristas” foram monitoradas em aplicativos (Whatsapp e Telegram) que usam sistemas de criptografia. Evidentemente, não são apenas os “suspeitos” que estão sendo monitorados de forma permanente.

Artimanhas jurídicas e bloqueio do WhatsApp

Os fatos que envolvem o terrorismo olímpico estão alinhados a uma série de outros indicativos que apontam para a instauração de ações de vigilância orientadas por uma perspectiva conservadora do Estado. Esta perspectiva ataca na prática a democracia e liberdades essenciais como, por exemplo, a liberdade de expressão e comunicação.  No Brasil, o WhatsApp já sofreu punições e foi suspenso em três oportunidades por descumprir decisões judiciais de interceptação de mensagens trocadas pelo aplicativo. No último bloqueio, que ocorreu no dia 19/07/2016, a juíza Daniella Barbosa Assumpção de Souza, da 2ª Vara Criminal de Duque de Caxias, questionou o uso da criptografia afirmando que ela não pode ser um escudo protetivo para práticas criminosas que, com absurda frequência, desenvolvem-se através de conversas, trocas de imagens e vídeos compartilhados no aplicativo. Os argumentos da juíza indicam o consentimento de ataques ao direito dos cidadãos à privacidade e ao acesso irrestrito a vida e à comunicação dos indivíduos.

Fuchs (2011) descreve a vigilância como um tipo específico de recuperação de informação, armazenamento e processamento, avaliação e uso que envolve dano potencial ou real, coerção, violência, relações de poder assimétricas, controle, manipulação, dominação, poder disciplinar. Esses aspectos podem gerar benefícios para certos grupos de interesse à custas de outros grupos ou indivíduos. “A vigilância está baseada numa lógica de competição. Ela tenta fazer florescer ou evitar certos comportamentos de grupos ou indivíduos reunindo, armazenando, processando, difundindo, avaliando e usando informação sobre seres humanos de forma que a violência física, ideológica ou estrutural, potencial ou real, pode ser direcionada aos humanos de forma a influenciar seu comportamento” (p. 129).

No Brasil, a intimidade é um direito fundamental previsto na Constituição Federal e a privacidade está entre os direitos e garantias fundamentais de todos os cidadãos, lembra-nos Christofoletti (2015). O autor ainda enaltece que aspectos importantes desses elementos estão ligados à capacidade do indivíduo de se reservar, buscar proteção de ambientes e situações públicas. “Em meio ao cenário de convergência midiática e de intensificação das tecnologias de informação e comunicação, a privacidade ganha novos contornos porque se tornam mais complexas as formas de gerenciamento da vida íntima e da imagem pública. Isto é, existem hoje muitas maneiras de exibir o que antes circulava de forma restrita, aumentando a necessidade de mais cuidados para a preservação dos próprios dados” (p. 128).

Nesse sentido, Castells (2015) destaca que estamos vivenciando uma mudança profunda nas formas de comunicação e nesse cenário a vigilância digital parece ser totalizante. “As nossas vidas estão relacionadas a atividades em meios tecnológicos e nas redes de informação”. Um conjunto de empresas controla e armazena informações privadas que os usuários podem não querer que se tornem públicas. “Não há privacidade nesse macrotexto em que vivemos”. Castells (2015) afirma que a democracia está ameaçada pela vigilância, contudo, existem espaços para ações de contravigilância.

Essas ações estão envolvidas pelas possibilidades dos usuários vigiarem os abusos do Estado, do jornalismo e denunciarem medidas de violação à privacidade por meio de um tipo de vigilância espontânea. Esses atos são impulsionados pelas premissas e pelos espaços de liberdade da internet que devem ser preservados e complementados por ações de autodefesa. A liberdade do ambiente digital está relacionada à possibilidade das pessoas se manifestarem e defenderem a sua privacidade.

Proteção de dados pessoais

Em meio à turbulência política e econômica que o país atravessa, um debate importante está sendo travado no Congresso Nacional: trata-se do Projeto de Lei 5276/16 que regulamenta o acesso a dados pessoais no Brasil. A proposta busca proteger o titular dos dados e favorecer sua utilização dentro de um patamar ético e seguro evitando acessos não autorizados à informações pessoais, em situações acidentais e em casos de uso ilícito de dados particulares. A jornalista do Intervozes, Marina Pita, elencou oito pontos importantes que estão ligados ao debate sobre a privacidade no projeto de lei e enfatizou a importância da sua aprovação para garantir o direito de todo cidadão à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem.

Vivenciamos um momento extremamente importante para a garantia de direitos, para a proteção de nossos dados pessoais e para regulação efetiva de uma política pública que contempla garantias alinhadas com a privacidade dos cidadãos. Além das intenções veladas do poder público, que violam garantias individuais, atualmente convivemos com práticas de entidades privadas que buscam o lucro por meio da exploração do mercado de dados. Todas essas implicações e seus desdobramentos interferem de maneira significativa no ecossistema comunicacional, particularmente, nas atividades jornalísticas e nos parâmetros éticos empregados nesses ambientes comunicacionais.

Referências:

ASSANGE, Julian. Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. São Paulo: Boitempo, 2013.

CASTELLS, Manuel. “Vigilância, privacidade, poder e contra poder na era digital”. In: Palestra em comemoração ao cinquentenário da Universidade do Estado de Santa Catarina – Udesc. 14/05/2015.

CHRISTOFOLETTI, Rogério. Privacidade e Regulamentação do Marco Civil da internet: registros e preocupações. Revista ECO PÓS. v. 18, n. 3, Rio de Janeiro. p. 213-229. 2015. Disponível em: http://migre.me/tcFwN. Acesso em: 01 ago 2016.

FUCHS, Christian. Como podemos definir vigilância?. Matrizes. Ano 5, nº 1. São Paulo. p. 109-136. jul./dez, 2011. Disponível em: http://migre.me/tcDBn. Acesso em: 11 mar. 2016.

SILVEIRA, Sergio Amadeu da. Vigilância abusiva na web não reduz crimes, apenas restringe liberdade. 14/03/2016. Portal UOL. Disponível em: http://migre.me/uxC5e. Acesso em: 01 ago 2016.

Radar objETHOS #110

Paradas obrigatórias para quem pensa e se interessa por jornalismo e ética:

  • Mídias sociais são a primeira fonte de notícia para 50% dos jornalistas, embora apenas 6% confiem no conteúdo postado nelas. Revistas e jornais impressos ainda são os meios que detêm maior credibilidade entre os profissionais. Acesse a pesquisa conduzida pelo Ogilvy Media Influence com mais de 200 jornalistas de diversos países: bit.ly/2aXqNMp
  • A universidade da Pensilvânia oferece um curso de inglês, online e gratuito, voltado para jornalistas. As inscrições vão até 15 de agosto: bit.ly/2aBUrEO
  • Duas novas iniciativas em jornalismo deram as caras na última semana. No editorial que estreia a versão brasileira do The Intercept, o jornalista Glenn Greenwald traz um panorama sobre a concentração dos meios de comunicação no país e a oportunidade para que veículos alternativos tenham espaço: bit.ly/2afcIJq. Em Florianópolis, as jornalistas do Catarinas lançaram o primeiro portal voltado exclusivamente à cobertura sobre questões de gênero: bit.ly/2ayey56
  • Como minimizar o impacto de rumores propagados em redes sociais durante cenários de tensão? Criar mecanismos legais para punir usuários pode atentar contra a liberdade de expressão, segundo pesquisadores da Universidade de Oxford: bit.ly/2aXE9Zq
  • Red Ética Segura traz seis dicas para fugir de estereótipos que podem contaminar coberturas sobre imigrantes: bit.ly/2aSpEmg
  • No The Guardian, Harrison Jones infere que a falta de diversidade ameaça o futuro do jornalismo. Para mantê-lo relevante, é necessário que a profissão não seja dominada por homens brancos de classe média que escrevem somente para um público com este mesmo perfil” bit.ly/2akiLvW
  • Roy Greenslade escreve uma resposta à ação tomada por jornais franceses que decidiram não publicar mais fotos de terroristas (sobre esse caso, leia mais: bit.ly/2aZIecl). A autocensura dos veículos acabaria solapando dados factuais importantes, diz Greenslade, e iria na contramão de suas responsabilidades: bit.ly/2anlAJU O texto também foi traduzido no Observatório da Imprensa: bit.ly/2aSpih3
  • Jornalistas e pesquisadores que se interessam por cultural digital podem baixar gratuitamente dois novos livros sobre o tema: Digital Humanities and Digital Media (bit.ly/29RM3QR) e Ferramentas para Análise de Qualidade no Ciberjornalismo (bit.ly/2b7kSR8).

10 dicas para uma cobertura esportiva responsável

A dois dias da abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, publicamos em português artigo da Red Ética Segura com recomendações para repórteres e editores esportivos. Confira ainda Cobrir Eticamente os Jogos Olímpicos, e a entrevista com Xavier Ramon, especialista espanhol na área e que produziu o decálogo a seguir.

1. Seja preciso, rigoroso e evite especulações

Não dê espaço para rumores no jornalismo esportivo. Prenda-se aos fatos e dados verificados. Se os rumores são tantos que não se pode evitar, reflita criticamente sobre eles.

2. Use um amplo leque de fontes autorizadas na cobertura

Mostre os pontos de vista necessários para fundamentar e contextualizar suas matérias. Não entreviste apenas os atletas. Busque novas fontes (incluindo especialistas e organizações da sociedade civil) que ajudem seu público a compreender melhor o mundo do esporte.

3. Trabalhe duro para dar visibilidade aos esportes pouco representados

Espera-se que a mídia de qualidade não concentre sua atenção simplesmente nas modalidades mais populares e com maior audiência. Amplie a cobertura e alimente a cultura esportiva dos leitores. Diversificar é uma chave para garantir a qualidade informativa.

4. Vá além da competição para informar os contextos importantes do esporte

Atue de forma independente para ter uma cobertura imparcial e crítica dos contextos econômico, social, cultural e político do esporte. Nunca esqueça da sua responsabilidade ética.

5. Respeite a correta separação entre gêneros jornalísticos

Deixe seu público consciente de quando termina a informação e quando começa a opinião.

6. Não siga o caminho do sensacionalismo e da banalização

Antes de publicar matérias de teor sensacionalista, pergunte-se sobre a contribuição delas ao público. Não promova a corrosão da credibilidade e da reputação de sua organização jornalística.

7. Amplie os horizontes e tenha em mente a diversidade e a igualdade

Desafie a escassa representação das mulheres e dos esportistas estrangeiros, deficientes e não-brancos na cobertura esportiva. Dê espaço a esses grupos não apenas nos Jogos Olímpicos. Mostre suas qualidades e conquistas também na cobertura cotidiana do esporte.

8. Espalhe a mensagem da não discriminação

Explique as conquistas mas também ofereça uma análise crítica dos desafios para o fim da discriminação no esporte e na sociedade. Promova os valores da inclusão e do multiculturalismo.

9. Não seja complacente e evite a linguagem estereotipada

Fique longe dos comentários sexistas e outros clichês. Em termos de etnia, evite representações estereotipadas baseadas em diferenças biológicas e não se concentre na raça de um esportista a menos que seja um aspecto noticiável. Não associe esportistas deficientes com estigmas: busque defini-los por sua capacidade atlética e não seja impreciso. Esteja consciente do impacto do uso de estratégias patrióticas e nacionalistas na cobertura.

10. O esporte não é um substituto da guerra: evite a linguagem que alimenta o confronto

Não enfatize as narrativas de conflito e o imaginário belicista. Seja consciente dos efeitos de suas escolhas linguísticas. Promova os valores da não-violência, da paz e do entendimento internacional.

Comentário da Semana: Escola “sem partido”, corpo sem alma

Samuel Lima
Professor de Jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS

O fato ocorreu na cidade de Dayton, no Tennessee, em 1925. O professor de biologia John Thomas Scopes foi preso, julgado e condenado por ensinar a teoria da Evolução, de Charles Darwin, em uma escola pública. Uma lei municipal o impedia de trabalhar esse conteúdo em sala de aula, apesar de a Constituição do país contemplar o princípio da liberdade de cátedra. O caso teve repercussão nacional, nos Estados Unidos. Ficou conhecido como o “Processo do Macaco de Scopes” e foi retratado em filme com o título “O vento será tua herança”.

Quase 100 anos depois, na esteira dos acontecimentos que levaram o governo interino Michel Temer ao poder, num claro golpe político, é lançado o projeto “Escola sem partido”, que parte da mesma indagação dos criacionistas estadunidenses do começo do século 20: “Que fazer para coibir esse abuso intolerável da liberdade de ensinar, que se desenvolve no segredo das salas de aula, e tem como vítimas indivíduos vulneráveis em processo de formação?” (Fonte: http://migre.me/uwCJu – grifo nosso).

“O movimento Escola sem Partido nasceu em 2003, a partir de uma inciativa do procurador do Estado de São Paulo, Miguel Nagib”, que hoje atua como advogado. “Durante anos, suas propostas não encontraram eco até que, em 2014, um encontro com a família Bolsonaro mudou essa realidade. Nesse ano, o deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro (PSC), pediu para que Miguel escrevesse um anteprojeto de lei. O texto foi, então, apresentado pelo filho do deputado federal Jair Bolsonaro na Assembleia Estadual do Rio de Janeiro. O líder do movimento fez uma versão municipal que foi apresentada pelo outro irmão da família, Carlos Bolsonaro, na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro” (Fonte: http://migre.me/uwHcG). Observe, leitor/a, que o movimento que se propõe “sem partido” ganha corpo de uma iniciativa partidária…

Tal minuta, na realidade, está sendo discutida em pelo menos “nove estados e 13 cidades, segundo levantamento feito pelo professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, Fernando Penna”. No Estado de Alagoas, por exemplo, “a Assembleia Legislativa derrubou veto do governador Renan Calheiros Filho e aprovou um projeto de lei nesse sentido” (Fonte: http://migre.me/uwDet).

Mídia e debate nacional

A percepção que tenho, até este momento, é de que os veículos jornalísticos mais importantes do país deram pouca atenção à pauta. Apresentada, aqui e acolá, de forma caricata e folclórica, em função das figuras públicas que o defendem, o conteúdo do “Escola sem partido” é de um retrocesso gravíssimo e caso aprovado no Congresso Nacional, nos levaria de volta ao século 19. Mais que criminalizar a liberdade de cátedra, tal movimento se coloca numa cruzada contra a produção de conhecimento, e desconhece por completo a fecunda e intensa relação entre sujeitos (produtores do conhecimento, a partir da sala de aula, claro) e seus objetos de estudo – por isso defendem a tal “imparcialidade”.

No Senado, o projeto de Lei da lavra do senador evangélico Magno Malta (PR-ES), inclui entre as diretrizes e bases da educação nacional, de que trata a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, o “Programa Escola sem Partido”. No começo de junho de 2016, a proposta foi encaminhada ao relator, o senador Cristovam Buarque (PPS-DF).

A cobertura da mídia tradicional se limitou, por enquanto, na publicação de artigos assinados nos espaços de opinião, no impresso; na televisão aberta, o assunto foi tocado de maneira extremamente superficial; nas emissoras pagas, aqui e acolá, foi pauta de programas de debates e/ou entrevistas. Na Câmara dos Deputados, tramita outro projeto, de similar conteúdo, assinado pelo deputado Izalci Lucas (PSDB-DF), líder ativo da chamada “Bancada da Bala”.

No portal do movimento, na internet (Acesse aqui: http://migre.me/uwCJu) o visitante se depara com uma porta de entrada que diz: “Esta é a página do movimento Escola sem Partido. Para visitar a página do Anteprojeto de lei contra a doutrinação nas escolas, clique aqui”. Ao acessar a página, o/a leitor/a será apresentado a uma proposta de cartaz (mural) com seis “deveres do professor”, dentre os quais se destaca que o “professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções” (veja quadro). A proposta seria “colar” tal cartaz na porta de todas as salas de aula da educação básica do país, juntamente com um disque denúncia contra os professores que eventualmente “violassem seus deveres”. Tais denúncias anônimas seriam encaminhadas ao Ministério Público.

2016 07 31 Cartaz do Escola Sem Partido

Cartilha ideológica

Em artigo intitulado “Cartilha ideológica” (Folha de S. Paulo, Caderno Ilustríssima, ed. 31/07/2016, p. 3), Joel Pinheiro da Fonseca, economista e mestre em Filosofia, chama a atenção para o potencial desagregador de tal proposta: “Em outras palavras: dá-se a todos os estudantes (e a seus pais, cujas convicções também devem ser preservadas) uma arma a ser usada contra qualquer professor que lhes desagrade. Foi mal na prova de história? O professor não aceitou a resposta do aluno? Oportunidade perfeita para denunciar um ato terrível de doutrinação” (Fonte: http://migre.me/uwFar).

Ou seja, para Fonseca, em nome de combater a suposta doutrinação, os defensores do projeto “Escola sem partido” propõem, na prática, outro tipo de doutrinação: “Não há limite para o que a lei poderá ser usada para coibir: ensino da teoria da evolução, educação sexual, discussão de gênero, toda e qualquer interpretação histórica etc. Na prática, todo conteúdo curricular virará objeto de cabo de guerra entre diversas militâncias organizadas, com o professor no meio, sem nenhuma autonomia”. Transformado em epifenômeno da história, o educador transitará errático e inerte, corpo sem alma, sob intenso tiroteio ideológico paralisante, condenado a priori por “incapacidade para o diálogo” com seus alunos e alunas – e a comunidade escolar.

Por fim, o economista vai além e avalia que o projeto é totalmente irrelevante: “Há que se considerar, por fim, a relevância do projeto. Em primeiro lugar porque, hoje em dia, com internet e smartphones, o poder do professor em sala –que nunca foi tanto quanto pintam os defensores do Escola sem Partido– está menor do que nunca. Aulas são filmadas e divulgadas na rede, afirmações são imediatamente contestadas com uma breve consulta on-line. O Escola sem Partido nasce obsoleto. Questionar um professor e encontrar referências fora da sala de aula nunca foi tão fácil” (Fonte cit.; grifos nossos). Ou seja, além de tentar reduzir o professor a um penduricalho histórico, os mentores do projeto retiram dos estudantes seu papel ativo nos processos de ensino-aprendizagem, dentro e fora da sala de aula.

Uma escola sem conhecimento

A professora Angela Alonso, do departamento de sociologia da USP e presidente do Cebrap, também fez duras críticas ao projeto “Escola sem Partido” (Folha de S. Paulo, Ilustríssima, p. 3). Escreve ela: “Os sem-partido protegem a liberdade dos pais de transmitir suas crenças, mas a escola defende a dos filhos de produzir as próprias: proporciona estilos alternativos de pensar, crucial para constituição de pensamento autônomo. Provê uma liberdade que os sem-partido negam, a de dissentir dos consanguíneos. (…) Nenhum partido é a nação, esse ente abstrato. Os apoiadores do Escola sem Partido têm o seu, compõem partido de ideias. Trata-se de contradição, mas não a única: negam os partidos, mas agem por meio de um deles –o Partido da República, que de republicano não tem nada” (Fonte: http://migre.me/uwG9H).

Por sua vez, o educador Caio Zinet, do Centro de Referências em Educação Integral, destaca outro aspecto teórico bastante relevante da proposta: “O movimento liderado por Nagib parte do pressuposto de que os estudantes são “folhas em branco” e que professores se aproveitam da audiência cativa dos alunos para incentivar que eles sigam por um determinado caminho ideológico” (Fonte: http://migre.me/uwHcG). Tal concepção, remete às ideias do filósofo inglês John Locke que afirmava, em 1690: “é possível levar, facilmente, a alma das crianças numa ou noutra direção, como a água”. É a conhecida teoria da “Tábula Rasa”, uma tese cientificamente superada na área de conhecimento da educação, desde o século 19. Complementa Zinet: “Para especialistas, o primeiro erro é acreditar que o estudante é uma folha em branco incapaz de formar seu juízo sobre o mundo a partir de experiências, referências e saberes que traz consigo” (Fonte cit.).

No site do Senado Federal está online uma enquete sobre o projeto de Lei 193/2016 (Escola sem Partido), que tramita naquela Casa. A votação ainda está online e é este o resultado, em votos apurados, até 31/07/2016 (às 23:40:13): 188 mil pessoas se manifestaram contra o projeto; 179 mil, a favor.

O professor Fernando Penna, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da rede “Professores Contra o Escola Sem Partido”, observa que a concepção do projeto de lei sustenta “um ambiente propício para a perseguição política”. Penna questiona: “Como um professor faria para respeitar absolutamente todas as convicções de todas as famílias?”. E arremata: “Essa proibição é inconstitucional, basta ler o artigo 205 da nossa Constituição Federal: ‘A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho’” (Fonte: http://migre.me/uwHcG).

Na página do Facebook do movimento, o/a leitor/a encontrará um indicador preciso e claro do que seria a uma escola verdadeiramente “sem partido”, num quadro publicado há poucos dias está escrito: “Pelo bem dos seus filhos nunca votem em nenhum partido de esquerda, eles odeiam a família”. A pergunta final é uma só: caso o PL seja aprovado, seria possível denunciar os mentores do “Escola sem Partido” pela publicação do cartaz?

[Leia ainda o texto “Escola sem partido: o descolorir da aquarela“, publicado recentemente no objETHOS]

Radar objETHOS #109

Paradas obrigatórias para quem pensa e se interessa por jornalismo e ética:

  • Na próxima semana, Edward Snowden completa três anos asilado em território russo. Apesar disso, o ciberativista não para. Junto com o desenvolvedor Andrew Huang, está trabalhando num dispositivo para tornar smartphones mais confiáveis e menos vulneráveis à vigilância de governos e corporações: http://zip.net/brtp8G
  • Parte influente da mídia francesa decidiu contra-atacar o terrorismo. Como? Não dando cartaz para os extremistas, e evitando publicar seus nomes e imagens. Saiba mais no The Guardian: http://zip.net/bptqKY
  • A poucos dias do início dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, muitas informações que fazem corar os mais entusiasmados começam a surgir. João Paulo Vicente conta na Motherboard como o maior evento esportivo do mundo está “ajudando” o Brasil a aumentar seu aparato de vigilância social. É preocupante! http://zip.net/bltpyH
  • Com os olhos voltados para as Olimpíadas, um exército de jornalistas estrangeiros desembarca no Rio nesses dias. Abigail Edge aborda alguns dilemas desses correspondentes nas redes sociais. A versão em português pode ser conferida no Observatório da Imprensa: http://zip.net/bftp1c
  • A Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano divulgou a programação do Festival Gabriel García Márquez, que acontece em Medellín (Colômbia) em setembro e outubro: http://premioggm.org
  • Mais próximo no mapa e na agenda é o 1º Meetup de Direito Digital e Comunicação, que acontece em Florianópolis no próximo dia 4 de agosto. Mais informações em: http://zip.net/bftp1d

 

Ponto de Vista: A fraude da Folha, a ombudsman e a objetividade da crítica

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo da UFF e pesquisadora do objETHOS

É possível chamar de erro o que foi uma fraude?

Essa questão surgiu da discussão provocada pela coluna da ombudsman da Folha de S.Paulo publicada em 24/7 e diz respeito a um tema fundamental: o da objetividade na crítica do jornalismo.

Desde a descoberta do escândalo da manipulação da última pesquisa do Datafolha, detalhadamente relatado aqui, Paula Cesarino Costa recebeu uma enxurrada de mensagens condenando o jornal. Foi, como ela disse, o assunto que mais mobilizou os leitores, desde que assumiu o mandato, em 1º de maio deste ano: “do total de mensagens recebidas desde quarta-feira, 62% foram críticas e acusações ao jornal”.

Paula contestou os argumentos através dos quais o editor executivo, Sérgio Dávila, tentava justificar os motivos que o levaram a desconsiderar uma das respostas do questionário – aquela que anotava o percentual de 62% favoráveis a eleições antecipadas – e que, por óbvio, derrubaria a afirmação de apoio majoritário à permanência de Temer como presidente interino, destacada na edição do domingo anterior. Concluiu que “a Folha errou e persistiu no erro” – e puxou essa conclusão para o título de sua coluna.

Foi uma crítica frontal ao jornal, o que mereceu elogios de muitos nas redes sociais, inclusive pelo avanço em relação à ocupante anterior da função. O problema é que é preciso chamar as coisas pelo seu nome, e um erro é bem diferente de uma fraude.

Seria pedir demais que a ombudsman pusesse o dedo na ferida? Talvez. Com certeza o cargo é espinhoso e não oferece total autonomia, apesar da garantia de estabilidade por um ano além do exercício do mandato: basta pensar que essa estabilidade um dia acaba. Fora isso, há outros constrangimentos, de ordem pessoal e hierárquica. Paula talvez tenha ido até onde foi possível. Nesse caso, terá evidenciado os limites institucionais da coluna. Ainda assim, cometeu omissões, imprecisões e equívocos que exigem reparo. E não fez perguntas essenciais, que precisariam ser respondidas para esclarecer o que pode estar por trás de uma decisão editorial injustificável.

Entre opiniões e constatações

Comecemos pelo mais elementar: um erro é algo involuntário, decorrente de descuido, desatenção, acidente ou mesmo incompetência. Pode significar também má escolha, o que seria mais aplicável ao caso. Foi, aliás, como Paula se referiu à situação: “A meu ver, o jornal cometeu grave erro de avaliação. Não se preocupou em explorar os diversos pontos de vista que o material permitia, de modo a manter postura jornalística equidistante das paixões políticas”.

Não. Evidentemente, não se tratava de “explorar os diversos pontos de vista”: a Folha omitiu uma informação inconveniente e, além disso, distorceu, no infográfico da primeira página e no título da matéria na página interna, o sentido da pergunta que resultava na resposta favorável ao presidente interino.

A ombudsman não apenas ignorou este detalhe como escreveu: “Para alimentar teorias conspiratórias, revelou-se que o Datafolha colocou em seu site mais de uma versão do relatório da pesquisa polêmica, sendo que em só uma delas constavam as duas perguntas”.

Não, não foi para alimentar teorias conspiratórias. Foi para demonstrar a conspiração. Porque conspirações existem, sim.

Por isso é importante ressaltar a objetividade no julgamento do que ocorreu. Não se trata de uma opinião, mas de uma constatação: o jornal agiu deliberadamente para deturpar uma informação e esconder a que não interessava, porque publicá-la alteraria completamente o que se destacou na edição. Essa decisão atingiu o próprio Datafolha e, se não tivesse havido o descuido de se deixar um fiapo de frase sobre os 60% de apoiadores de novas eleições no subtítulo do relatório originalmente divulgado – e depois substituído por uma segunda versão –, a história dificilmente teria sido esclarecida.

Tampouco o relatório publicado após a polêmica é “completo”, como Paula afirmou: faltam ainda oito perguntas (as de número 4, 5, 15, 16, 17, 20, 29 e 34).

Os fatos, as provas

Em seu Tijolaço, o jornalista Fernando Brito, responsável pelo esclarecimento cabal da fraude, escreveu detalhadamente sobre a coluna da ombudsman no domingo. Relacionou essas críticas para reiterar que o que ocorreu não foi “questão de erro ou incompetência, mas de imposição da versão conveniente para o jornal em prejuízo da verdade dos fatos”.

Concluiu de forma contundente:

“Houve uma ação para eliminar informação que o próprio Datafolha considerou relevante, ao ponto da analisá-la e levá-la ao subtítulo de seu relatório.

E o nome disso é fraude, em bom português.

Fraudou, foi apanhada e, em lugar de assumir que alguém agiu errado e corrigir-se, saiu-se com explicações também fraudulentas”.

No dia seguinte (25/7), Brito voltaria ao tema para dar o passo a passo das alterações operadas no site do Datafolha: primeiro foi publicado um arquivo mais extenso, com 110 páginas, que incluía duas perguntas – sobre a legalidade do processo de impeachment e sobre o desejo majoritário por novas eleições – depois suprimidas na versão seguinte. “Os dois arquivos, por provirem do mesmo, acusam a mesma data de criação, o dia 18, às 9:46h, hora da conversão do Excel para PDF (9:46). O primeiro sofreu alteração às 10:15h, o segundo foi modificado após o meio-dia, para a retirada das duas perguntas e dos dois parágrafos que as comentavam”.

O jornalista indaga: “Foi a essa hora que, depois de ter publicado manchete de domingo sem os dados, a Folha avisou ao Datafolha que a pergunta sobre o desejo de nova eleição não era ‘jornalisticamente relevante’?”. E prossegue, insistindo no que deveria ser óbvio: “os fatos – e não as opiniões – é que devem ser explicados”.

Os fatos “mostram que a eliminação das perguntas foi feita depois de pronta e analisada a tabulação, por decisão que nada teve de jornalística, até porque o que a Folha considerava ‘jornalístico’ já tinha sido publicado”.

Isto é o que a ombudsman precisaria esclarecer, se tivesse a liberdade que o exercício de sua função exige.

Quem sabe foi para evitar as previsíveis polêmicas sobre a súbita alteração de ânimos em relação ao governo interino que os responsáveis por essa manipulação tentaram esconder os dados capazes de sustentar a crítica. Acabaram se enredando numa polêmica muito maior e mais grave.

“Bastaria dizer que as perguntas não tinham integrado a matéria por não terem relevância – e claro que têm! – e não mandar modificar o relatório do Datafolha”, diz Brito. Então, ficaríamos na discussão sobre critérios editoriais – isto é, no âmbito da opinião. “Simplesmente não publicar poderia ser um erro. Mandar suprimir o relatório completo e colocar no ar uma versão expurgada é uma fraude”.

Em suma, a única possibilidade de se falar em “erro” é em relação à conduta do jornal. Num sentido bem singelo: é errado fraudar. Isso é de uma banalidade evidente, mas só é óbvio para quem age ou pretende agir eticamente. Quem frauda tem plena consciência do que faz. Não comete um erro. Comete um crime.

[leia ainda Folha, Datafolha: a fraude monumental e a normalização do golpe]

Comentário da Semana: Escola sem partido: o descolorir da aquarela

Carlos Marciano
Mestre em Jornalismo e pesquisador do objETHOS

1)objethos 1

Fonte: imagem divulgada no Facebook (http://migre.me/ur1La)

Ok, a analogia da imagem acima pode ser forte, mas o relevante debate sobre o projeto Escola Sem Partido parece estar ofuscado, pelo menos na mídia televisiva. É claro que o noticiário das últimas semanas foi conturbado em meio aos atentados na Europa, a passagem da tocha olímpica pelo Brasil e a caça frenética pelos Pokemóns em várias partes do mundo. Porém, tirar o foco desse projeto controverso pode ser uma manobra política estratégica, diante do cenário governamental instável e apurações questionáveis, como a suposta fraude da Folha, sabiamente retratada aqui pela pesquisadora Sylvia Moretzsohn.

O Projeto de Lei (PLS) n. 193/2016, de autoria do senador Magno Malta (PR-ES) afirma que a educação nacional deve ter como princípio “a neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado”. Ou seja, em caso de aprovação, o professor sofrerá limitações para expressar suas ideologias em sala de aula, podendo, inclusive, sofrer punições em caso de denúncia.

Enquanto o projeto tramita no Congresso Nacional, uma consulta pública está disponível no site do Senado, a fim de verificar a opinião das pessoas sobre o tema. Até a noite de ontem (24) a maioria dos votos era contrária.

Os dois lados da moeda

É pela internet e redes sociais que as informações e debates sobre o assunto têm se disseminado com maior frequência. No Facebook, duas páginas situam-se como centralizadoras da discussão, apresentando links, vídeos, imagens e entrevistas para defenderem seus posicionamentos: Escola Sem Partido expõe opiniões favoráveis ao programa, enquanto Professores contra o Escola Sem Partido atua na linha oposta.

Percebe-se no argumento principal do lado favorável um posicionamento político claro: o Escola Sem Partido irá evitar que o esquerdismo, intensificado pelo governo petista, influencie as novas gerações. Para defender esse argumento circulam nos perfis de pessoas defensoras do programa uma pesquisa sugerindo que a doutrinação de esquerda prevalece nas escolas.

Tais dados são uma das bases do Escola Sem Partido, porém existem inconsistências como o fato da pesquisa ter sido encomendada ao Instituto CNT/Sensus pela revista Veja em 2008, sem detalhamento da metodologia ou margem de erro.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o número de estudantes nas escolas públicas do Brasil é de 45 milhões. Considerar como tendência essa pesquisa desatualizada e feita com apenas 3 mil estudantes, menos de 0,01% do total de alunos, não parece ser algo estatisticamente concreto e digno de credibilidade. Será que diante do quadro político atual, os resultados seriam os mesmos se a pesquisa fosse aferida agora?

Do lado contrário, o argumento predominante é de que o projeto fere os princípios educacionais previstos no Artigo 206 da Constituição Federal, mais especificamente o segundo e terceiro incisos: II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino.

Nesse sentido, educadores e entidades relacionadas tentam mobilizar debates para barrar o projeto, como a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal (MPF), que encaminhou ao Congresso uma nota técnica em que considera “inconstitucional” a proposta de incluir o programa Escola Sem Partido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Fonte: Página do Ministério Público Federal no Facebook (http://migre.me/ur1Hj)

Fonte: Página do Ministério Público Federal no Facebook (http://migre.me/ur1Hj)

Embora o programa Escola Sem Partido ainda esteja em tramitação no Senado, as ideias ali defendidas já serviram como base para a instauração de leis semelhantes, como aconteceu no estado de Alagoas, tendo a Advocacia Geral da União recomendado posteriormente que essa lei fosse suspensa.

O futuro (in)certo

Ainda não está aprovado, mas já seria possível prever o reflexo desse projeto na sociedade? Sim, um cenário onde o preconceito tende a prevalecer em várias instâncias. Aliás, é importante levantar esse debate justamente para apresentar o retrocesso educacional, social e democrático que tal medida poderá acarretar.

Em se tratando de relação interpessoal, a ideia de neutralidade é utópica. O contexto social e cultural em que estamos inseridos desde a infância tem grande influência na formação de nossos pensamentos, porém nossas reflexões de mundo não estão restritas a eles. Pelo contrário, para um crescimento moral e ético é necessário que sejamos apresentados a contrapontos, que nossas inquietações sejam debatidas e não oprimidas por um pensamento predominante ou a falta de diálogo.

O projeto de Lei proposto pelo senador Magno Malta tem resquício de uma ditadura hipócrita e velada, onde o princípio da neutralidade é disseminado como forma de impedir em sala de aula uma ideologia hipotética, mas por debaixo dos panos prioriza uma ideologia opressora, retrógrada e conservadora.

Não é só a formação política dos estudantes que estará em xeque, os pequenos avanços nas reflexões sobre ideologia de gêneros e laicismo, conseguidos a duras penas, também serão afetados.

O Parágrafo único do Artigo 2º diz que “O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero”.

Ou seja, o professor não poderá levantar debates sobre o casamento gay, igualdade de gênero, adoção de crianças por casais homoafetivos, entre outros. Alunos que se sentem oprimidos por sua opção sexual terão mais dificuldade em conhecer seus direitos; a sociedade do machismo sorrateiramente irá preponderar nas salas de aula.

Ainda no mesmo Artigo 2º, o parágrafo VII defende o “direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções. ”

Imagine uma sala de aula com muçulmanos, cristãos, budistas, indianos. Considerando que o ensino religioso deva ser disseminado nessa determinada escola, teria o professor condições de apresentar igualmente os ensinamentos do Alcorão, da Bíblia, de Buda ou das divindades hinduístas? Ele deverá segregar os estudantes para que só apareçam nas aulas em que suas respectivas religiões forem debatidas? O espiritismo, ateísmo, cultos africanos e tantas outras religiões seriam descartados?

Tecnicamente para cumprir esse requisito, ou se fala de tudo ou não se fala de nada; mas as chances dessa lei privilegiar o ensino da religião dominante (leia-se cristianismo) são bem maiores. O Estado Laico manda lembranças…

Por mais que os professores tenham suas opiniões formadas, não existe provas de que eles, isoladamente, influenciam os posicionamentos e ações dos seus alunos. Os jovens estão cada vez mais questionadores e muitas vezes seus posicionamentos fazem os docentes reverem os próprios conceitos. Cercear esse debate é estimular a manutenção de estigmas sociais.

“Não existe escola sem ideologia”, ressaltou em entrevista o professor de História Dr. Leandro Karnal, defensor de que o Escola Sem Partido é uma “asneira”, pois os fatos históricos sempre são embasados em opções políticas. Obrigar o professor a estimular reflexões sem posicionamentos é incoerente, um retrocesso, é enviesar a educação para um conservadorismo opressor. E para aqueles que acreditam tratar apenas de um ajuste pedagógico fica abaixo a reflexão de Maurício Ricardo: escola sem partido não vai ser tão fácil…

[Leia ainda o texto “Escola sem partido, corpo sem alma“, publicado recentemente no objETHOS]

Ponto de Vista: Folha, Datafolha: a fraude monumental e a normalização do golpe

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo da UFF e pesquisadora do objETHOS

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reprodução: Tijolaço

Quando a Folha de S.Paulo publicou, na manchete de sua edição de domingo (14/7), uma pesquisa que destacava o apoio de metade da população brasileira à permanência de Michel Temer na presidência, muita gente estranhou. Afinal, outras pesquisas – inclusive do próprio Datafolha – apontavam rejeição em torno de 60% ao personagem que conspirou para afastar do poder sua companheira de chapa. Essas pesquisas também indicavam mais ou menos o mesmo percentual de respostas favoráveis a novas eleições. Como seria possível que as expectativas tivessem mudado tão subitamente?

A resposta não demorou muito. No dia 20, reportagem de Glenn Greenwald e Erick Dau, do Intercept, e de Fernando Brito, do Tijolaço, esclareciam tudo.

Tratava-se de uma fraude. Uma fraude monumental, que coincide com um claro movimento da mídia hegemônica para a normalização do golpe.

Uma das perguntas da pesquisa era: “Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse à presidência ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018?”. Era óbvio que a pergunta propunha apenas duas possibilidades. Como Greenwald e Dau observaram, as pessoas “disseram apenas que essa seria a melhor opção se a única alternativa fosse o retorno de Dilma. Além disso, simplesmente não procede alegar que apenas 3% dos entrevistados querem novas eleições, já que essa pergunta não foi feita. O que aconteceu foi que 3% dos entrevistados fizeram um esforço extra para responder dessa forma frente à opção binária entre ‘Dilma retorna’ ou ‘Temer fica’”.

O jornal, entretanto, ignorou esse pequeno detalhe e distorceu completamente o sentido dessas respostas, apresentando-as como se os entrevistados tivessem respondido a uma pergunta bem diferente, estampada na primeira página – com o atrativo das figurinhas coloridas do infográfico – e reproduzida em página interna: “O que seria melhor para o país?”, com a fantástica dianteira de Temer (50%, contra 37% de Dilma), e apenas 3% dos que pediam novas eleições.

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reprodução: The Intercept

Os repórteres do Intercept então especulavam sobre o verdadeiro contingente dos que desejavam a antecipação das eleições, pois ainda não tinham as informações descobertas por Fernando Brito: esse percentual era de 62% e constava de uma tabela que o Datafolha simplesmente havia omitido em seu relatório inicial. A pergunta era: “Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a presidência da República ainda neste ano?”.

“Não foi a única pergunta ‘abduzida’ do relatório”, informou o jornalista. “Também foi tirada a questão sobre a legalidade/ilegalidade da condução do impeachment – que apontou 49% para a primeira opção e 37% para a segunda. Talvez alguém tenha achado ‘pouco’”.

A pista do escândalo

O Intercept informou que a matéria da Folha começou a desabar quando Brad Brooks, correspondente chefe da Reuters no Brasil, “observou uma enorme discrepância: enquanto a Folha anunciava em sua capa que apenas 3% dos brasileiros queriam novas eleições e que 50% queriam a permanência de Temer, o instituto de pesquisa do jornal, Datafolha, havia publicado um comunicado à imprensa com os dados da pesquisa anunciando que 60% dos brasileiros queriam novas eleições”.

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reprodução: The Intercept

Entretanto, no relatório do instituto, não havia nenhuma informação relativa a esse percentual.

Fernando Brito desvendaria o mistério. Ele observou que o endereço URL do documento do Datafolha terminava em “v2”. Era, portanto, uma segunda versão. Como não encontrou a versão original no site do instituto, começou a “tentar adivinhar” o endereço da primeira versão, até que achou. “Embora a versão original tivesse sido retirada do ar pelo Datafolha”, diz o Intercept, ela “ainda se encontrava nos servidores do instituto”. Quando encontrou o endereço URL correto, o Tijolaço obteve o documento.

Brito esclareceu em seu site: “Houve uma segunda versão do relatório – veja aqui – na qual a pessoa encarregada de eliminar as ‘inconveniências’ se distraiu e deixou a chamada para ‘nova eleição’ no subtítulo, o que me deu a dica para ir atrás do primeiro arquivo. Mas foi a única distração. O resto foi escondido de forma deliberada, em verdadeira fraude aos leitores”.

O jornalista mencionou ainda a supressão integral de dois parágrafos inteiros da análise dos resultados, que constava no documento. Reproduziu o texto:

“O Datafolha também consultou os brasileiros sobre a possibilidade de uma nova eleição presidencial neste ano, caso Dilma e Temer renunciassem a seus cargos, e a maioria (62%) declarou ser a favor de uma nova votação para o cargo de presidente. Uma parcela de 30% é contra a hipótese, e 8% são indiferentes ou não opinaram. A realização de uma nova eleição tem mais apelo entre os jovens de 16 a 24 anos (68% favoráveis) e na faixa de 25 a 34 anos (também 68%). Entre aqueles que consideram o governo Temer ótimo ou bom, 50% são a favor de nova eleição, e 44%, contra.

“Questionados se o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff está seguindo a regras democráticas e a Constituição ou está desrespeitando as regras democráticas e a Constituição, 49% disseram acreditar que as regras e a Constituição estão sendo seguidas. Uma parcela de 37% discorda e acredita que estão sendo desrespeitadas, e 14% não opinaram. Na parcela dos mais escolarizados, 58% avaliam que o processo de impeachment da petista segue as regras democráticas e a Constituição, índice que cai para 40% entre os menos escolarizados (neste segmento, 37% aderem à tese contrária e o índice dos sem opinião sobe para 23%)”.

Em outro texto, no mesmo dia 20, Brito reiterava: “É um enorme escândalo, comprovado com documentos, e joga um facho de luz sobre como se faz manipulação da opinião pública com pesquisas. Não são acusações:  é uma prova, concreta, material, indiscutível de que se sonegou informações ao público”.

Sobre manipulação da opinião pública, aliás, o Tijolaço já havia publicado longo artigo de Letícia Sallorenzo no dia 19, expondo as artimanhas de uma pesquisa que misturava a avaliação do governo Temer com o índice histórico de confiança – que supostamente mede “o sentimento dos brasileiros em relação ao país” –, a intenção de voto em 2018 e a opinião sobre a Previdência, e de quebra metia no meio uma avaliação do desempenho do juiz Sérgio Moro.

No dia 21, Fernando Brito detalharia melhor os passos da sua investigação e mostrava que, além da “sorte, um pouco de palpite” e da necessidade de “estar ligado” e “não aceitar o que não faz sentido”, importava ressaltar que todo trabalho é coletivo.

Uma “justificativa” cínica

O escândalo levou a Folha a se pronunciar – e a maneira como o fez evidenciou essa mistura de cinismo e canalhice que marca o jornalismo aliado ao golpe.

Num texto sobre o que chamou, candidamente, de “polêmica”, publicado on line na noite do dia 20 e na edição impressa do dia seguinte, o jornal trazia as “explicações” do editor executivo, Sérgio Dávila, e do diretor do Datafolha, Alessandro Janoni. “O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência de pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político, em que essa possibilidade não é mais levada em conta”, disse Dávila.

Se essa possibilidade não é mais levada em conta, por que incluí-la numa pesquisa?

Sobre a óbvia manipulação da pergunta original feita pelo Datafolha, que provocou o resultado falseador de apoio majoritário à permanência de Temer, nenhuma palavra. Já a exclusão de algumas questões do relatório da pesquisa obedeceriam, como é praxe, a critérios editoriais. Foi o que Dávila reiterou, afirmando que “é prerrogativa da Redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa”.

Curioso critério, entretanto. Pois é evidente que a publicação do percentual verdadeiro sobre os defensores de novas eleições simplesmente derrubava a tese que o jornal pretendeu impor: tratava-se da ligeira diferença entre 3% e 62%.

Já Alessandro Janoni conseguiu produzir uma afirmação espantosa: “Não há erro, e tanto a Folha quanto o Datafolha agiram com transparência”.

Notável “transparência”, que omite informações essenciais no próprio relatório de pesquisa. Quanto à ausência de erro, não há dúvida: o que houve foi mesmo uma fraude. Uma fraude escandalosa, indiscutível, indesculpável.

A falta de constrangimento diante das evidências, o despudor em mentir descaradamente, é algo assustador.

Finalmente, a matéria informava o link de acesso para a íntegra do levantamento, mas nessa “íntegra” ainda havia um buraco entre a pergunta 14 e a 21.

Em suma, uma mentira atrás da outra.

No mesmo dia, O Globo saía em defesa de seu concorrente-parceiro, com o mesmo eufemismo sobre a “polêmica” provocada pela pesquisa, tentando já no subtítulo desqualificar as críticas, atribuídas a “blogs pró-Dilma”. (Que o Intercept seja incluído nessa classificação talvez seja mais um dos surpreendentes critérios adotados por nossa imprensa, sempre tão criativa).

Já o El País, embora também falasse em “controvérsia” e em informações apresentadas “de maneira imprecisa” – e não na evidente fraude –, puxava para o título a informação correta: “62% apoiam novas eleições, diz dado que Datafolha publica agora”.

O efeito multiplicador e a normalização do golpe

A primeira reportagem do Intercept demonstrava bem a gravidade do que ocorreu. “Não se pode subestimar o impacto dessa pesquisa. É a única pesquisa de um instituto com credibilidade a ser publicada em meses. Sua publicação se deu exatamente antes da votação final do impeachment no Senado. E contém a extraordinária alegação de que metade do país deseja que o Michel Temer permaneça na presidência até 2018: uma manchete tão sensacionalista quanto falsa”. Os repórteres apontavam o efeito multiplicador daquela “notícia”, reproduzida, como seria esperado, em outros jornais e sites jornalísticos – sem contar os programas televisivos, como o Fantástico.

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Restaria assinalar que o que não pareceu “jornalisticamente relevante” aos olhos do editor executivo da Folha é nada menos do que decisivo na tentativa de reverter o impeachment: como lembrou o El País em reportagem anterior, a adesão popular à tese da convocação de novas eleições é uma das últimas possibilidades para a presidente afastada tentar obter os votos que lhe faltam no Senado.

A “normalização” do golpe

Não é difícil concluir que a fraude agora desmontada foi mais um passo – no caso, especialmente arriscado – na tentativa sistemática que a mídia comprometida com o golpe vem fazendo para dar o impeachment como fato consumado. Seja escondendo notícias favoráveis a Dilma – os “critérios jornalísticos” dos principais jornais do país não viram motivo para manchete, nem mesmo para chamada de primeira página, na decisão do MPF de arquivar o processo criminal sobre as “pedaladas fiscais”, que estão na base do pedido de impeachment –, seja promovendo a “agenda positiva” do governo interino. No dia 20 de julho, por exemplo, o colunista Elio Gaspari se derramava em elogios: “Com serenidade, Temer conseguiu estabilizar seu governo”. A própria manchete da Folha na reportagem fraudada, sublinhando o “otimismo” com a economia, é outro exemplo.

Nossa imprensa tem um longo histórico de deturpações escandalosas, no qual a famosa edição do debate entre Lula e Collor, pelo Jornal Nacional, no segundo turno das eleições de 1989, ocupa lugar de destaque. A Folha, que chegou a ser o “jornal das Diretas”, em 2009 virou o jornal da “ditabranda” e da ficha falsa da Dilma – o documento atribuído ao DOPS foi imediatamente contestado e se revelou uma montagem, mas o jornal insistiu numa esfarrapada justificativa para o suposto “erro”. Já então insinuava o discurso sinuoso incompatível com uma publicação que se preze: “a autenticidade [da ficha] não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada”. Nos últimos anos, a guinada à direita se radicalizou, culminando com a contratação de um adolescente político líder de um movimento golpista para escrever uma coluna semanal – ainda que “só no site”, como se isso fosse atenuante.

Se tivéssemos uma legislação que regulasse o exercício do jornalismo, provavelmente estaríamos em boas condições de contestar judicialmente essa monstruosa fraude cometida pela Folha. De qualquer forma, o desmascaramento dessa manipulação escandalosa abala diretamente tanto o jornal quanto seu instituto de pesquisa, naquilo que, para ambos, é um valor fundamental: a credibilidade.

É assim que uma publicação outrora referencial trilha o caminho de uma vergonhosa decadência.

[leia também: A fraude da Folha, a ombudsman e a objetividade da crítica]

Radar objETHOS #108

Paradas obrigatórias para quem pensa e se interessa por jornalismo e ética:
  • Às vésperas das Olimpíadas, a Agência Pública preparou um especial multimídia sobre famílias que tiveram suas casas removidas durante as obras do megaevento: bit.ly/2a4y8aL.
  • No Knight Center, uma reportagem mostra quais são as novas iniciativas de jornalismo em Cuba: bit.ly/2a0FPvQ.
  • O que acontece quando o jornalismo erra e não admite sua culpa? The Guardian analisa o descrédito do público com os fatos e reflete sobre a era em que todos acreditam somente na sua verdade: bit.ly/29AM0Ji. Acesse a versão traduzida do texto no Observatório da Imprensa: bit.ly/2azzFE3.
  • O professor Edward Wasserman reacende um debate clássico nos estudos de ética: o plágio. Leia mais: bit.ly/2acYoz2.
  • Poynter apresenta 55 questões para guiar o uso de métricas no jornalismo: bit.ly/2aba2u3.

Ponto de Vista: A ética jogada para o “outro lado”

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo da UFF, pesquisadora do objETHOS

O princípio ético de “ouvir o outro lado” é uma das obrigações elementares de todo jornalista. Mais grave que descumpri-lo, porém, é a tentativa de apagar o erro – talvez fosse mais correto dizer a má fé –, incluindo posteriormente esse “outro lado”, sem qualquer indicação de que o texto original foi alterado. E, ainda, dias depois, repetir a fórmula, na suíte da matéria.

Foi o que ocorreu recentemente em duas notícias publicadas no blog do colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo. Mas o caso permitiu ainda levantar uma questão ética sobre a atuação de assessorias de imprensa de instituições públicas.

(Antes de prosseguir, um esclarecimento: só soube da história porque fui alertada por um antigo ex-aluno, Jupy Jr., de quem me lembro como um dos mais brilhantes em todo o meu tempo de magistério na UFF. Retomamos contato há poucos anos – um desses milagres do Facebook – e recentemente ele passou a exercer o cargo de subsecretário de comunicação da prefeitura de Mangaratiba. A partir do seu relato, procurei apurar as informações).

No dia 7/7, o jornalista Daniel Brunet assinava a nota de título bombástico: “Com HIV, artista pede para trabalhar nas ruas e ouve de funcionária de prefeitura: ‘Você já está condenada à morte’”. A vinheta exclamava: “Que horror!”.

Tratava-se da denúncia de uma artista plástica moradora de Mangaratiba, município da Costa Verde do estado do Rio de Janeiro, que em dezembro do ano passado pediu autorização da prefeitura para expor e vender suas obras e, diante da demora, foi reclamar e disse ter sido ofendida dessa forma. A nota, em seguida, citava a defensora pública que havia entrado com uma ação em favor da reclamante.

A reação normal de qualquer jornalista que recebesse uma informação dessas seria tentar contato com a prefeitura para saber o que ela teria a dizer sobre isso ou que providências tomaria – supondo, evidentemente, que a denúncia fosse verdadeira.

Mas, não.

Procurado para explicar o motivo da ausência desse “outro lado”, o repórter não respondeu ao e-mail. Jupy Jr. relatou depois que lhe telefonou para saber por que não recebera nenhum pedido de esclarecimento e ele afirmou que, de fato, não os havia procurado – como se fosse a coisa mais normal do mundo – e sugeriu que a assessoria enviasse um e-mail para dar as informações que julgasse necessárias. Isso foi feito, mas a resposta não gerou uma nova nota, que pudesse chamar a atenção para o fato de que as coisas talvez não fossem bem assim: foi incluída na nota anterior. Pior: sem qualquer indicação de “atualização” – que, como se sabe, pode significar tanto um acréscimo decorrente do desdobramento de uma apuração quanto uma retificação ou correção.

mangaratiba nota original 7 jul

mangaratiba 7 jul nota acrescida

No dia 13, o blog publicou nova matéria, informando sobre uma liminar em favor da artista plástica. Mais uma vez citava a defensora, que comemorava a decisão. O texto tem um hiperlink que remete à nota “original” – entre aspas porque a nota original, mesmo, não trazia o “outro lado”, mas quem a lê agora supõe que desde o início as informações estavam todas lá.

Quanto ao “outro lado” dessa nova notícia, apenas a lacônica referência: “A assessoria de comunicação da prefeitura de Mangaratiba informou que o município ainda não foi notificado”. Enviada depois, a extensa explicação foi incluída na matéria inicial, seguindo a mesma norma de não informar sobre “atualizações”.

mangaratiba nota original 13 jul

mangaratiba 13 jul nota acrescida

Não é preciso argumentar muito para se entender o tamanho da fraude.

“O sentido de responsabilidade e de atendimento à sociedade não se coaduna com essas atitudes”, lamentou Jupy. “O que é mais preocupante é achar que o normal agora é isso, e que as pessoas aprendam que o normal é isso, ou que achem que sempre foi assim. Não há interesse pela história, há interesse pelos efeitos de uma história. Acho que isso resume bem”.

De fato, se o repórter tivesse apurado a história adequadamente, talvez a pauta caísse. Pois o fato mais chocante – não por acaso destacado no título da primeira nota – era a ofensa estapafúrdia, grosseira e discriminatória, da qual, entretanto, não há nenhuma prova nem, até o momento, elementos que permitam investigá-la. Porém, bastou que constasse no release divulgado pela Defensoria para ser tomada como verdade.

 A ética da assessoria

Daí a oportunidade de se discutir também o papel de uma assessoria de imprensa de um órgão público. Com certeza nenhuma assessoria é obrigada a ouvir todas as partes envolvidas. “Isto quem tem que fazer é o repórter”, argumentou a coordenadora de comunicação da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, Débora Diniz. Sem dúvida, mas, sabendo-se como nossa imprensa funciona, seria prudente evitar que denúncias não confirmadas – como a grave acusação de discriminação – fossem veiculadas.

Também é certo que toda divulgação de informações provoca consequências. No caso, uma nota publicada no principal jornal da capital, sem a devida contrapartida, repercutiu na imprensa regional, num momento particularmente delicado: os preparativos para a campanha eleitoral nos municípios.

Para Flávia Clemente, que trabalhou durante muitos anos em assessoria e hoje é professora dessa disciplina na UFF, a questão central é saber se um órgão da Justiça que defende ou acusa um dos lados tem direito a divulgar informações ainda em estágio preliminar. Porque os ritos do processo podem ser respeitados rigorosamente, mas faz toda a diferença quando algum caso ganha repercussão na mídia.

“Seria mais indicado que os promotores, defensores e partes do processo não fizessem divulgações para a imprensa antes de inquéritos, provas, processos estarem consolidados”, argumenta a professora. “Mas não é isso que acontece. O que acontece é que nessas instituições há muitas pessoas que querem visibilidade, querem aparecer a partir de um caso exemplar. Então, a cada vez que chega uma denúncia nesses órgãos que pode dar mídia, os assessores trabalham essas informações apenas com a versão dos denunciantes, sem ainda ter nenhuma prova, para conseguir espaços na imprensa para seus interlocutores”.

Isso para não falar nos favorecimentos a certos veículos, e a certos jornalistas desses veículos, como atestam profissionais que trabalharam em assessorias de órgãos públicos, o que contraria frontalmente o princípio de isonomia que o serviço público deveria cumprir.

Débora Diniz sustenta que agiu corretamente. “De fato, do ponto de vista da profissão de assessor, ela está certa”, diz Flávia, “mas, a meu ver, não do ponto de vista institucional. Eu acredito que não é função da assessoria dos tribunais divulgar casos na imprensa que chegam às suas mãos só para dar visibilidade às suas causas e, consequentemente, seus representantes (defensores ou promotores). As informações estão todas disponíveis nos processos, caso algum repórter queira apurar uma denúncia que receba. A função de uma assessoria institucional deveria ser fazer divulgações institucionais, tais como mudanças na composição do órgão, datas importantes para os cidadãos, direitos que os cidadãos têm, enfim, informações de interesse público”.

Mas, no país da Lava Jato, quem não é candidato a Sérgio Moro?

Comentário da Semana: De jornalistas-cidadãos a cidadãos críticos do jornalismo

Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

No final da década de 1970, a socióloga americana Gaye Tuchman escreveu a obra clássica “Making News: a study in the construction of reality”, com foco na produção de notícias dentro das redações jornalísticas. Para isso, Tuchman partiu de três premissas: 1) a notícia é um método institucional para fazer com que a informação esteja disponível aos consumidores; 2) a notícia é uma aliada das instituições legitimadas; 3) a notícia é localizada, recolhida e disseminada por profissionais que trabalham em organizações.

Embora ainda sejam importantes para os estudos de newsmaking, não é difícil constatar que vivemos um cenário em que essas premissas estão sendo constantemente questionadas. As instituições jornalísticas continuam sendo mediadores importantes dos acontecimentos, mas não são mais os únicos. Junto a elas está a crescente possibilidade da emissão de informação por parte da audiência. E isso muda muita coisa.

É certo que um grau de participação da audiência na produção de notícias sempre existiu. Cartas dos leitores, ligações telefônicas e mensagens por fax, por exemplo, não são meios novos de comunicação. Da mesma forma, não estamos dizendo que havia uma passividade dos leitores com relação à informação jornalística consumida. O simples ato de mudar de canal já representava autonomia e escolha crítica do cidadão.

No entanto, a partir da década de 1990, com a explosão dos blogs, o poder de participação dos cidadãos comuns foi bastante amplificado. Inicialmente utilizados como diários virtuais, os blogs passaram a noticiar acontecimentos vivenciados por pessoas que, até então, eram enxergadas somente como ‘leitores’. O ataque às Torres Gêmeas, em 2001, nos Estados Unidos, foi um marco dessa participação. Hoje, com as redes sociais digitais, fica muito mais fácil entender o empoderamento dessa audiência.

Nesse contexto, as redações jornalísticas passaram a acolher a participação individual de forma mais efetiva, chamando tais interagentes de ‘jornalistas-cidadãos’, dentro do que se convencionou como jornalismo colaborativo ou participativo. Essas nomenclaturas são frequentemente questionadas, pois ser fonte de informação ou enviar vídeos e fotos de flagrantes do cotidiano não fazem do cidadão, necessariamente, um jornalista.

Mesmo com essas ressalvas, há inúmeros exemplos que mostram que esse é um caminho sem volta: a emissão de informação jornalística, ou seja, de interesse público, não é mais exclusividade dos jornalistas.

A partir desse contexto, vamos acrescentar mais um ingrediente à reflexão: além de produtores de notícias, cidadãos comuns estão, cada vez mais, exercendo o papel de críticos do jornalismo feito pelas empresas tradicionais de mídia.

Tal fato igualmente não é algo novo, pois as críticas às práticas jornalísticas ocorreram quase que ao mesmo tempo do nascimento dos primeiros jornais. Nos dias atuais, sites de crítica de mídia como o Observatório da Imprensa, por exemplo, possuem artigos de profissionais de diversas áreas.

Embora não seja nova, a crítica ao jornalismo tem ganhado contornos interessantes nas redes sociais, com destaque para a utilização do humor através dos memes. Dessa forma, o empoderamento do cidadão comum se volta para a crítica à produção jornalística, seja questionando linhas editoriais ou enquadramento de determinados acontecimentos. Consideramos que tal fenômeno possui implicações éticas, pois, ao viralizarem nas redes, os memes depõem contra a credibilidade historicamente construída pelas instituições jornalísticas.

Com fundamento ou não, questionar as instituições é também questionar o próprio jornalismo, embora saibamos que os dois não são a mesma coisa. Após mais de 300 anos de jornalismo institucionalizado, não é fácil separar as empresas do que é o jornalismo, propriamente dito.

Quando a imprensa vira piada

Em janeiro deste ano, a Folha de S. Paulo deu, em manchete, o hoje já conhecido episódio do barco de Lula. De acordo com a reportagem, Marisa Letícia, mulher do ex-presidente, adquiriu um barco e mandou entregá-lo em um sítio na cidade de Atibaia (SP), o que comprovaria uma relação próxima de Lula com a propriedade.

O sítio está registrado em nome de Jonas Suassuna, sócio do filho de Lula, Fábio Luis. Também de acordo com a Folha, que ouviu uma fornecedora de material de construção e um marceneiro, a reforma do sítio teria sido paga pela empreiteira Odebrecht.

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No entanto, o que a reportagem não destacou em manchete é que o barco é, na verdade, uma pequena embarcação, quase uma canoa motorizada, que custa R$ 4.126. No mesmo dia, a fragilidade da ‘denúncia’ começou a ser questionada nas redes sociais.

Com a legenda ‘as canoa, os triplex, os foguete da nasa… E um dia será do filho do Lula’, o meme feito pela fanpage ‘Deboas na Revolução’ no Facebook faz alusão ao filme O Rei Leão, para criticar a relevância de tal “denúncia”.

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Também de forma bem humorada, a imagem abaixo chama atenção para o papel social do jornalismo de checagem e verificação dos fatos. Se levada à reflexão, podemos entendê-la como um alerta importante do público, já que, ao deixar de cumprir funções essenciais, o jornalismo deixa, em última instância, de ser reconhecido como tal. Diversas pessoas e páginas compartilharam a imagem, de modo que é difícil saber a fonte original.

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A imagem abaixo, compartilhada pelo escritor Fernando Morais, é uma espécie de análise semiótica de uma página do jornal O Estado de S. Paulo, em que o autor critica detalhadamente as escolhas editoriais do veículo. Desde a diferença nos semblantes de Lula e Fernando Henrique Cardoso até a estrutura verbal dos dois títulos. A intenção da crítica, que viralizou nas redes sociais, foi mostrar novamente as acusações a que Lula é submetido pela imprensa, das quais o também ex-presidente FHC é poupado.

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Questionando especialmente os títulos das notícias, a página ‘Caneta desmanipuladora’ no Facebook os reescreve de forma objetiva e, segundo o próprio nome, sem manipulação. A página recebe muitas colaborações, o que reforça nosso argumento de que os leitores não só percebem os enquadramentos enviesados da cobertura jornalística tradicional, como também a criticam. Veja alguns exemplos abaixo:

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Brincadeira séria

A relação dos jornalistas – e do jornalismo – com sua audiência foi marcada por tensões ao longo do tempo. A arrogância profissional e a primazia na emissão das informações fizeram com que os lados de quem emite e de quem recebe estivessem bem demarcados durante um longo período.

Atualmente, com o quase desaparecimento dessa demarcação, cabe às instituições ouvir de forma séria seus leitores. São eles que atestam a credibilidade de que tanto se vangloriam as empresas jornalísticas. Embora circulem pela internet de forma bem humorada, a crítica à imprensa precisa ser levada a sério.

Estamos falando, portanto, de um desafio ético, que diz respeito à credibilidade e à própria sobrevivência das empresas jornalísticas. Há que se tomar atitudes para além da retórica de que os leitores são o maior patrimônio de um jornal. Começar a ouvir as críticas que partem de cidadãos comuns é o primeiro passo para a reflexão sobre o futuro do jornalismo.

Um caminho interessante para a formação de cidadãos críticos e atentos é o contato com a leitura crítica da mídia desde a infância. Dessa forma, o cidadão aprenderia, ainda na escola, a desenvolver um senso crítico e a ler as notícias de maneira a questionar e interpretar os mais diversos enquadramentos. Seria uma excelente maneira de entender as relações entre a mídia e as audiências, o que certamente elevaria a qualidade do noticiário. Cidadãos que questionam contribuiriam, assim, para uma imprensa melhor, dentro e fora das redes sociais.

Radar objETHOS #107

Paradas obrigatórias para quem pensa e se interessa por jornalismo e ética:

  • O ex-bancário Chris Arnade é agora um fotógrafo que retrata situações de pobreza e miséria. Suas fotos, no entanto, estão sendo alvo de críticas por jornalistas profissionais devido à relação que Arnade mantém com os fotografados – por exemplo, dar dinheiro para que eles comprem drogas. Leia mais: bit.ly/29nmud0.
  • Jornalistas de mídia local e regional podem consultar o Manual para a Cobertura das Eleições Municipais, produzido pelo Projeto Grande Pequena Imprensa. O documento reúne sugestões de pautas, dicas de ferramentas e informações sobre leis e cargos políticos. Acesse: bit.ly/29C54DZ.
  • Na semana passada, Diamond Reynolds transmitiu ao vivo, no Facebook, seu noivo depois de ter sido baleado pela polícia em Minneapolis. Philando Castile acabou falecendo e o vídeo de Reynolds ultrapassou 5 milhões de visualizações. Para Marco Nurra, trata-se de um marco para o jornalismo cidadão: bit.ly/29LCMei.
  • Erros em reportagens e trabalhos acadêmicos são alguns dos impactos que os verbetes falsos da Wikipédia podem causar. Cláudio Rabin assina uma matéria sobre a descentralização das informações na era da internet: bit.ly/29HoAAG.
  • A Rede de Jornalistas Internacionais sugere dicas de segurança para a proteção de fontes em reportagens investigativas: bit.ly/29iq96d.
  • Dois professores da Universidade de Aberdeen lançaram um guia ético para pesquisadores que trabalham com redes sociais. O manual discute questões como anonimato e uso de dados públicos e privados: bit.ly/29HsCJh.
  • Red Ética Segura traz 7 argumentos para provar que assinaturas são o melhor modelo de negócio no jornalismo: bit.ly/29H4NRM.
  • Jornalistas afegãos aprovaram um novo código de ética centrado em seis valores: imparcialidade, accountability, equilíbrio, autenticidade, redução de risco e comportamento profissional no trabalho: bit.ly/29I1fji.

Comentário da Semana: Onde mora a reportagem?

Rogério Christofoletti
Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

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Gerações acreditaram que lugar de reportagem era nos jornais, revistas, telejornais e boletins de rádio. Era neles que desfilavam os fatos, que eram ouvidas as vozes mais esperadas e que o grande quebra-cabeças da realidade passava a fazer sentido. Foi assim por décadas e em quase todos os cantos do mundo. Mas as coisas mudaram! Há quem ainda alimente as velhas ideias, ignorando que “talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado”. Há quem ainda reserve um único espaço para o jornalismo, como se ele fosse produto exclusivo do meio de comunicação ou da empresa que o fornece. Os últimos anos têm mostrado que a realidade é mais complexa, o que não é necessariamente uma notícia ruim. Temos visto que o jornalismo pode viscejar em terrenos inóspitos, em condições precárias e a partir de motivações singulares. Como as ervas daninhas. Isso também não é necessariamente uma notícia ruim.

Ao mesmo tempo em que se martela na tecla de que o jornalismo está em crise, um conjunto expressivo de iniciativas do tipo se apresentam às sociedades. São sites de checagem de dados, pequenos veículos para coberturas especializadas e coletivos que se dedicam a reportagens investigativas. No Brasil, dezenas de projetos estão em atividade, já mostrou o mapa do jornalismo independente da Pública, esta também uma iniciativa para além da corrente principal dos meios. À medida que se tornavam realidade, uma primeira questão se impôs: o que esses projetos podem oferecer em termos de jornalismo? Ou ainda: fazem um jornalismo diferente do convencional? Não tardou para que viesse outra pergunta igualmente importante e incômoda: como esse jornalismo vai se sustentar financeiramente?

Ainda que as respostas não sejam definitivas, já é possível dizer que a sustentabilidade é um nó górdio, que não só antecipa a mortalidade dessas iniciativas como também reforça a ideia de que ainda estamos presos a alguns dogmas sobre modelos de negócios. Enquanto uns vaticinam o apocalipse e outros lamentam o leite derramado, outros empreendem, buscam soluções. No convés do Titanic, você pode escolher: desesperar-se, acompanhar o concerto final da orquestra ou ainda encontrar uma forma de não afundar.

Contra tudo

A história ajudou a calcificar a noção de que o bom jornalismo era feito nas empresas jornalísticas. Nelas estavam as condições ideais para se exercer a atividade: a redação como lugar privilegiado de produção das notícias, as rotinas e os rituais para moldar as práticas, o aparato tecnológico para a produção em série, um arcabouço ético para justificar todas as condutas… A história recente tem mostrado que muitas fronteiras que ajudavam a definir o jornalismo têm ruído diante de nossos olhos. Em 2013, Clay Shirky, Emily Bell e C.W. Anderson chamaram a atenção para que o batizaram de jornalismo pós-industrial. A premissa é simples: antes, o jornalismo era produzido por uma indústria e ela era restrita porque os meios e os modos de produção eram restritos a um clube limitadíssimo de atores. Mudanças na tecnologia e na cultura produziram terremotos na área e permitem hoje que se exerça o jornalismo para além das condições anteriormente impostas. A indústria perdeu a exclusividade, e há quem fale de “atos de jornalismo”, que podem ser “cometidos” não apenas por profissionais do ramo.

No Brasil, além das dificuldades de ter os meios de produção, havia uma barreira adicional: a jurídica. Até junho de 2009, só podia exercer jornalismo quem portasse registro profissional obtido a partir de um diploma de nível universitário. Quando o Supremo Tribunal Federal decidiu abolir a exigência, mais poroso ainda ficou o balcão que separava produtores de consumidores de informação.

Então, o que restou? A meu ver, a última linha de defesa do jornalismo é a que define uma ética própria. Cidadãos podem hoje ter seus veículos de informação de forma muito prática e barata; podem produzir narrativas e conteúdos, emulando as técnicas de confecção jornalística; podem alcançar grandes públicos e influenciar multidões, gozando de credibilidade e fidelidade de acesso, mas essas condições somadas fazem desses cidadãos jornalistas? Ora, é necessário algo mais: motivações internas para fazer jornalismo, incentivos externos para fazer isso de forma continuada e rotineira, valores e princípios que guiem suas condutas, preocupações e convicções legítimas.

Não é à toa então que alguns jornalistas busquem fazer jornalismo para além das empresas. Eles enfrentam condições precárias – não têm recursos ou grandes aparatos produtivos -, mas colocam na rede seus sites simples e baratos, como alternativas de informação. Seus projetos muitas vezes  abordam temáticas complexas e nem sempre populares, embora sejam relevantes para a vida social – como é o caso da cobertura sobre o meio jurídico do Jota ou de segurança pública da Ponte. Isto é, os terrenos palmilhados são inóspitos. E em diversos casos, são motivações singulares que movem as engrenagens: frustrações dos repórteres por não terem mais espaço para matérias que julgam importantes, falta de liberdade e independência editorial nos grandes meios, desejo por maior aprofundamento em certas temáticas, identificação de lacunas na cobertura de alguns assuntos…

Entre utópicas e mambembes, entre corajosas e suicidas, essas iniciativas jornalísticas surgem contrariando expectativas de longa duração, regras mercadológicas de sustentabilidade e dogmas profissionais. Elas se insinuam como alternativas ao modelo hegemônico de oferta dos serviços de informação; apresentam-se como independentes editorialmente, denunciando o cinturão de hipocrisia que abraça as cúpulas diretivas da mídia; insistem em novos pactos com suas audiências, num diálogo mais horizontalizado e cúmplice; discursam em torno de causas e interesse público, em detrimento de objetividade e imparcialidade.

Abrir mão dos dedos

Há uma outra razão que leva alguém a deixar seu emprego para empreender num projeto em que acredita, correndo todos os riscos: perceber que tudo o que está fazendo não é jornalismo. Alguém de fora do mercado pode se surpreender, mas é notório que algumas empresas da área têm abandonado o jornalismo por seus custos financeiros, desgastes políticos ou indisposições sociais. As empresas não tornam isso claro, mas deixam de fazer jornalismo com o ímpeto, a disposição e a coragem necessárias. De forma prática, priorizam temas fúteis em detrimento dos necessários, restringem verbas e tempo para a produção de conteúdos mais aprofundados, evitam zonas de atrito com outros núcleos de poder, e desencorajam seus profissionais de fiscalizar os poderosos.

Um exemplo recente ilustra esse cenário.

No final de junho, chegou à rede o Farol Reportagem, site catarinense que promete oferecer conteúdo jornalístico de qualidade com base em dados públicos, com foco na transparência e nos direitos humanos. Iniciativa de um único jornalista – mas que pretende atrair mais profissionais para a montagem de um núcleo de reportagem -, o site já começou a produzir efeitos: em três semanas, trouxe um punhado de investigações bem apuradas e com alta carga de interesse público; sozinho, pautou parte da mídia local e chamou a atenção das redes sociais; e vem paulatinamente obtendo doações e assinaturas que poderão garantir sua sobrevivência no restrito ecossistema midiático de Santa Catarina.

O Farol noticiou, por exemplo, documentos do Tribunal de Contas do Estado que demonstram crime de responsabilidade do governador Raimundo Colombo, e denunciou que o governo havia liberado recursos públicos para um evento privado da RBS, o principal grupo de mídia de Santa Catarina. Outra reportagem trazia à luz documento, antes restrito ao circuito judicial, e que revela uma realidade do sistema prisional muito diferente da alardeada pelas autoridades oficiais. Este exército de um homem só está ocupando espaços porque os meios convencionais têm aberto generosos flancos. Não tanto por escolha, mas por omissão.

Os veículos da RBS não fazem cobertura sistemática dos meios políticos locais. Há alguns anos, já não contam mais com setoristas na Assembleia Legislativa ou acompanham de perto os parlamentares que representam o estado em Brasília. Também não mordiscam os calcanhares do Poder Executivo, sabe-se lá porquê. Uma decisão de dois anos atrás reforça essa impressão: o principal jornal do conglomerado – o Diário Catarinense – modificou sua estrutura editorial, extinguindo as seções de Política e Economia, entre outras. Isso se deu em pleno ano eleitoral, quando a redação já tinha inclusive planejamento de cobertura para a campanha e o pleito! A justificativa era de que – com as editorias recém-criadas – os repórteres poderiam continuar cobrindo os assuntos convencionais, mas também transitariam entre as áreas…

A segunda força midiática no estado também deu sinais evidentes de qual jornalismo quer oferecer. Em abril passado, o Grupo RIC publicou um controverso editorial, afirmando que “no momento em que a crise toma conta do noticiário, faremos um contraponto à imprensa nacional, reforçando o lado bom de Santa Catarina. Neste momento difícil, estaremos sempre ao lado do cidadão, mostrando pautas positivas, mas também os problemas que exigem solução”. O editorial concluía a intenção de mostrar que “Santa Catarina não é o Brasil, mas um estado de excelência, capaz de encarar as adversidades com atitudes vencedoras”. Impossível não enxergar aí uma renúncia do papel que o jornalismo consolidou para si ao longo dos últimos dois séculos: colocar o dedo nas feridas e apontar o dedo para os responsáveis. Com tantos dedos, o que se conclui é que a mídia tradicional catarinense não abriu mão apenas dos aneis para conservar o que tem… Pode estar perdendo coisas mais preciosas…

Ao que interessa

As matérias que o ainda-nanico Farol fez são impossíveis para redações maiores? Não. O acesso às fontes e aos documentos são prerrogativa exclusiva do site? Não. As técnicas utilizadas são distintas das consagradas pelos grandes meios? Também não. Então, o que difere o Farol da mídia convencional de Santa Catarina?

Em menos de um mês, o quixotesco Farol Reportagem demonstrou que pode oferecer serviços de qualidade e com exclusividade, já que os grandes meios abriram mão do jornalismo-que-incomoda. A mídia consolidada prefere oferecer um jornalismo que acomoda interesses e que conforma, em vez de informar. Felizmente, o Farol não está sozinho e outras iniciativas minúsculas começam a se espalhar por todas as partes. Sobreviverão? Difícil prever. São relevantes? Em alguma medida sua existência mostra que sim, até para evidenciar por contraste o que os grandes meios não fazem. Vão substituir a estrutura hegemônica atual? Seria exagero admitir.

O exemplo do Farol me lembrou o episódio de estreia do seriado televisivo The Newsroom. Nele, uma meia dúzia de jornalistas convence Will McAvoy, um acomodado apresentador de TV, a criar um novo telejornal, orientado por nítidos critérios jornalísticos e dirigido ao interesse público. Depois de enfrentarem crises de ego e da própria empresa, e de insistirem em fazer as coisas da forma certa, todos percebem que são capazes de oferecer ao público um jornalismo de verdade. Numa das cenas finais, o diretor de jornalismo Charlie Skinner aborda Will e explica como conseguiram: “Nós apenas decidimos fazer”.

Onde mora, então, a reportagem?, pergunto no título deste artigo. Arrisco dizer que ela não reside nas redações nem nas grandes corporações jornalísticas. Não está nos livros ou manuais. Não se pode encontrá-la nos códigos de ética ou nas cartas de princípios dos veículos. A reportagem está com o repórter, e se ele decidir pelo jornalismo, é muitíssimo provável que irá encontrar maneiras de nos oferecer jornalismo.