Por Rogério Christofoletti

Jornalistas e analistas de mídia de Portugal têm gastado páginas e páginas de jornais, e muito espaço na internet, para debater um escândalo que acometeu a imprensa local. O chamado “caso das escutas” traz um enredo rocambolesco, mas que revela questões altamente relevantes para o jornalismo.

A delicada história começa quando o Diário de Notícias publica a identidade de uma fonte confidencial de uma informação do seu concorrente, o Público. A fonte teria apontado quem ordenou escutas telefônicas e espionagem política do tipo Watergate.

O professor Joaquim Fidalgo avalia que

podemos não estar apenas perante uma situação em que um jornal expõe publicamente uma fonte confidencial de um jornal seu concorrente, mas também perante uma situação em que um jornal expõe publicamente uma (ou uma tentativa de) manobra de manipulação de informação, de motivações claramente políticas, feita por Belém com a conivência de outro jornal. E se a primeira é grave, a segunda não o é menos. Ambas nos suscitam sérias reflexões sobre os modos como o jornalismo, sobretudo na sua relação com o mundo da política, pode perder a sua autonomia e a sua lógica específica, deixando-se (mais ou menos voluntariamente) capturar por interesses e agendas que não são as suas — e que ele, aliás, se devia preocupar em denunciar. Se denuncia episódios semelhantes quando envolvem apenas os políticos ou outros responsáveis de instituições públicas, não pode fechar os olhos ou desculpar quando alguns dos actores são jornalistas.

Para Fidalgo, deste episódio, não sai ninguém ileso: nem um jornal nem outro.

Para o professor Manuel Pinto, esses têm sido dias históricos para a imprensa lusitana. Ele ecoa o ombudsman do Diário de Notícias, para quem esses deslizes não traduzem mais um capítulo da novela do fim do jornalismo. Mas Manuel Pinto fica alerta, aguardando novos desdobramentos.

O diretor do Diário de Notícias, João Marcelino, defendeu os procedimentos do seu jornal: para ele, notícia é notícia, e deve ser dada, doa a quem doer.

A obrigação primeira de um jornal é cumprir o dever de divulgar todos os factos relevantes que cheguem ao seu conhecimento. Chama-se a isto o dever de informação. Não podia, pois, o DN deixar de divulgar um facto relevantíssimo: era Fernando Lima, o principal assessor de comunicação de Cavaco Silva, quem alegando agir em nome do PR, abordara o jornal Público para que este publicasse a história das alegadas escutas/espionagem sobre Belém que o PR estaria (ou ainda estará, não se sabe) convencido existirem por parte de alguém do gabinete do primeiro-ministro.

O DN publicou a história quando dela teve conhecimento e logo que conseguiu comprovar a autenticidade do e-mail. Não esperou um minuto.

Marcelino nega que este seja um caso de revelação de fonte anônima. Para o diretor do DN, a obrigação de guardar sigilo das fontes é do jornalista que as contatou, e isso não se estende a terceiros. Com isso, Marcelino argumenta que quem deveria manter o anonimato da fonte era o repórter do Público e não sua equipe do Diário de Notícias, a quem interessava descobrir a origem das informações. O diretor ainda defende a ação de seu jornal, lembrando que a informação sobre a fonte tem relevância política e social, e interesse público. O texto de Marcelino é uma reação a emails, insultos e ameaças sofridos nos últimos dias. O diretor promete, inclusive, ir ao ataque e processar alguns de seus algozes.

Em editorial, o Público deu as suas razões e reafirmou seus propósitos.

Palpitante, intrigante e jornalisticamente importante, o caso da imprensa portuguesa é uma trama que envolve questões éticas, procedimentos e orientações de conduta profissional, posicionamento político e as confusas, delicadas e tensas relações entre repórteres e suas fontes, jornalistas e políticos, empresas e seus concorrentes…

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