O Observatório da Ética Jornalística passa a publicar semanalmente resenhas de filmes sobre jornalismo e cujos enredos contribuam para discussões sobre a conduta ética na profissão. Começamos com “A honra perdida de Katharina Blum”, produção alemã de 1975, resenhada por Camila Augusto Alves, acadêmica de Jornalismo na UFSC.

Antes de ler, assista ao trailer do filme.

A honra perdida de Katharina Blum

Por Camila Augusto Alves

Katharina Blum e Ludwig Göette se apaixonam à primeira vista em uma festa de carnaval e passam a noite juntos. Na manhã seguinte, o apartamento da jovem é invadido pela polícia. Ludwig desapareceu, mas Katharina é levada presa. Ela não sabia que tinha acabado de se envolver com um dos criminosos mais procurados pela inteligência alemã, um assaltante de bancos.

Baseado na novela homônima do escritor alemão e vencedor do prêmio Nobel de literatura, Heinrich Böll, A Honra Perdida de Katharina Blum (Die verlorene Ehre der Katharina Blum), de 1975, é um retrato de como o abuso de poder político e da mídia são capazes de destruir e desonrar a vida de uma pessoa inocente.

Conhecida pelo apelido de “a freira” entre seus amigos, Katharina Blum é uma simples e bela diarista que vive em Munique, na República Federal da Alemanha, o lado ocidental e anti-comunista. A jovem até então levava uma vida normal. Divorciada, trabalhava, tinha um bom apartamento e um carro, mandava parte de sua renda para a mãe doente e para o irmão e às vezes saía para festas com suas amigas. O aspecto mais obscuro de sua vida era um romance que mantinha com um homem casado.

Sua vida vira o caos, no entanto, ao se envolver aquela noite com Göette. Em custódia da polícia, Katharina é alvo de interrogatórios e é humilhada constantemente por Kommissar Beizmenne, que questiona cada detalhe de sua vida, desde um bilhete com uma anotação de uma frase de Karl Marx até quanto a jovem gastava com roupas por mês.

De um simples caso de polícia, a história de Katharina vira um escândalo nacional quando o repórter Werner Töetges, do jornal sensacionalista Zeitung, passa a cobrir o caso. Sem escrúpulos e em busca apenas de fatos chocantes para publicar – sendo verdade ou não – o jornalista passa a perseguir todas as pessoas que faziam parte da vida pessoal da jovem: seu chefe, seu ex-marido, vizinhos, a mãe doente na Unidade de Tratamento Intensivo de um hospital.

Nas reportagens, as fontes, que falavam bem de Katharina e não acreditam que fosse culpada, dizem coisas terríveis sobre a jovem. As fotos que são publicadas são as que mostram a jovem com raiva, brigando com os jornalistas. Tudo invenção de Töetges. De “freira”, a alemã passa a ser vista pelo público como uma criminosa comunista que dá abrigo a assaltantes e mente para a polícia. Cartas de ameaça e com conteúdo pornográfico começam a chegar diariamente para Katharina. Ela é odiada por todo o país.

Algumas críticas e resenhas dizem que o jornal sensacionalista fictício do filme , o Zeitung, foi baseado no famoso periódico Bild-Zeitung, um dos jornais mais bem vendidos não só na Alemanha, mas em toda a Europa. Durante os anos 80, a publicação vendia mais de cinco milhões de cópias por dia. “Roubam a honra das pessoas e a própria vida, senão ninguém compraria seus jornais”, reclama furiosa Katharina.

É uma situação sem saída, kafkiana, e a adaptação do livro feita por Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta retrata bem isso. O final é trágico e instigante. Qualquer pessoa pode ser vítima da imprensa amarela e da polícia corrupta, mas quando for feita alguma tentativa para controlar isso, a medida será encarada como uma afronta à liberdade de imprensa.

FICHA TÉCNICA
A honra perdida de Katharina Blum (Die verlorene Ehre der Katharina Blum)

Gênero: Drama
Ano de produção: 1975
País: Alemanha ocidental (á época)
Língua: alemão
Cor: colorido
Diretores: Volker Schloendorff e Margarethe von Trotta
Roteiro: Volker Schloendorff e Margarethe von Trotta
Diretor de fotografia: Jost Vacano
Editor: Peter Przygodda
Música: Hans Werner Henze
Produtores: Willi Benninger, Eberhard Junkersdorf
Companhia de produção: Bioskop Film/Munich, em co-produção com Paramount-Orion Pictures/Munich, WDR/Cologne
Elenco principal: Mario Adorf, Heinz Bennent, Dieter Laser, Angela Winkler
Duração: 106min

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