Cidadão Kane

Por Felipe Mendes, jornalista formado pela UFSC

Lançado em 1941, Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA), considerado o melhor filme de todos os tempos, é um dos filmes mais discutidos e analisados dos últimos 60 anos. Apresentando a vida do magnata da imprensa Charles Foster Kane sob diferentes pontos de vista, a obra critica a mídia e o capitalismo americano numa narrativa inovadora e consistente, e de reconhecida beleza visual.

Logo nas primeiras cenas, o diretor Orson Welles, que também protagoniza o filme, mostra sua habilidade ao adentrar o espectador sutilmente na mansão de Kane, e ao confundir uma casa na neve com o peso de papel que o protagonista deixará espatifar no chão, após pronunciar sua última palavra, Rosebud. A partir daí, a busca pelo significado dessa expressão leva um repórter a descobrir as diversas facetas do influente Kane. No auge de sua fortuna, antes da crise de 29, o barão da imprensa possuía 37 jornais espalhados pelo território americano, uma rede de rádio, fábricas de papel, prédios e a terceira maior mina de ouro do mundo.

Com o objetivo de destrinchar a vida de Kane e de descobrir sua verdadeira personalidade, o repórter entrevista as pessoas mais próximas do protagonista, como o secretário Bernstein (Everett Sloane), o melhor amigo Leland (Joseph Cotten), a segunda esposa, Susan Alexander (Dorothy Comingore), e o mordomo da mansão, além de consultar o diário pessoal de Thatcher (George Coulouris), o falecido tutor e administrador dos bens de Kane. A cada depoimento segue um flashback que resgata os mesmos episódios representativos da vida do voraz magnata da imprensa, do amigo soberbo, do chefe entusiasta e do marido prepotente. Porém, esses episódios são contados sob diferentes pontos de vista, de forma a complementar a história. Através dos flashbacks, o diretor constrói e sustenta a narrativa de forma inovadora.

A originalidade da obra de Welles vai além da narrativa não-linear e do uso do tempo não cronológico para encadear a história. Com o recurso conhecido por profundidade de campo, ou deep focus, através do qual todas os objetos em cena ficam em foco, o diretor destacou não só o primeiro plano, mas também o que acontecia no segundo plano, enriquecendo a história. Welles também usou de contra-plongées e do jogo de sombras para revelar a personalidade de Kane. A ambientação do protagonista é completada pelo trabalho do compositor Bernard Herrmann, que costumava fazer a trilha sonora dos filmes de Hitchcock, e pela bela fotografia de Gregg Toland, contribuindo para a eficiente abordagem de Kane sob diferentes óticas. Ao aspecto técnico somam-se as ótimas atuações dos atores vindos do grupo Mercury Theater, de Welles.

No entanto, apenas o roteiro de Welles e Herman J. Mankiewicz foi premiado com um Oscar, dentre nove indicações, desprezando o excelente desempenho de Welles como ator e diretor. O boicote de Hollywood e o fraco desempenho nas bilheterias podem ser creditados a campanha que William Randolph Hearst moveu contra o filme, através de seu império de comunicação. Hearst, que juntamente com Joseph Pulitzer criou o jornalismo sensacionalista americano, não gostou das coincidências entre sua biografia e a vida de Kane. Em sua batalha contra a história do magnata da imprensa, Hearst chegou a exigir que o estúdio R.K.O. destruísse os negativos do filme.

O contrato de Welles com o estúdio também merece destaque. Com apenas 25 anos de idade, o diretor obteve uma excepcional liberdade para filmar sua obra. A fama conquistada no rádio com a repercussão da representação da obra A Guerra dos Mundos, e no teatro, através de adaptações de Shakespeare, possibilitou esse contrato inédito com a R.K.O. O desprezo inicial dispensado ao filme foi compensado pelo reconhecimento internacional após o fim da guerra. Cidadão Kane foi considerado marco-zero do Modernismo e eleito o filme mais importante do cinema seguidas vezes pela British Film Institute. Em votação realizada em 1998, foi escolhido como o melhor filme de todos os tempos, pelo American Film Institute. Além disso, a obra influenciou e estimulou cineastas famosos. Certa vez, o diretor francês François Truffaut definiu Cidadão Kane como “um hino à juventude e uma meditação sobre a velhice, um ensaio sobre a vaidade e um poema sobre a decrepitude”.

FICHA TÉCNICA
Cidadão Kane (Citizen Kane)

Gênero: Drama
Tempo de Duração: 119 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1941
Estúdio: Mercury Productions / RKO Radio Pictures Inc.
Distribuição: RKO Radio Pictures Inc.
Direção: Orson Welles
Roteiro: Herman J. Mankiewicz e Orson Welles
Produção: Orson Welles
Música: Bernard Herrmann
Direção de Fotografia: Gregg Toland
Direção de Arte: Perry Ferguson e Van Nest Polglase
Figurino: Edward Stevenson
Edição: Robert Wise