Por Daniela Ferreira
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

É a partir de casos reais chocantes que se desenvolve a trama de Cidade do Silêncio. A fronteira entre Estados Unidos e México está repleta de indústrias americanas que se aproveitam do baixo custo da mão de obra local para aumentar seus lucros. Os governos dos dois países assinaram um acordo de livre comércio que traz vantagens econômicas para ambos. Quem sai perdendo são os trabalhadores mexicanos, muitos deles camponeses expulsos de suas antigas terras por não conseguir pagar seus impostos e oprimidos pela necessidade de sobrevivência.

Pior ainda é o caso das mulheres operárias, imensa maioria dos contratados por contarem com salários ainda menores. Na cidade de Juarez a situação das trabalhadoras beira a insanidade. Em turnos dentro das fábricas que nunca param, elas têm que conviver com a constante ameaça de serem violentadas e mortas ao ir ou voltar do trabalho. Suspeita-se de mais de um criminoso, e os números são apavorantes: as vítimas já chegam a milhares. A polícia não investiga e o governo fecha os olhos devido aos interesses econômicos. Tudo indica que há autoridades envolvidas na onda de assassinatos.

Jennifer Lopez faz o papel de uma jornalista americana (Lauren Adrian) enviada para escrever uma reportagem sobre os crimes em troca de uma vaga como correspondente internacional. Ao chegar a Juarez, entra em contato com um antigo companheiro de redação, Alfonso Diaz (Antonio Banderas), que agora dirige um pequeno jornal local constantemente ameaçado por tiros e tentativas de censura. Diaz insiste em denunciar o que realmente ocorre na cidade fronteiriça.

As investigações da repórter a levam até uma moça que foi atacada mas sobreviveu. É na relação entre as duas que surgirão detalhes da vida pregressa de Lauren, que se identifica cada vez mais com a jovem violentada, a ponto de envolver-se emocionalmente com a matéria. A personagem evolui de uma jornalista fria, para quem a carreira ocupa o topo das prioridades, a uma repórter heroína, engajada e idealista. Não deixam de ser dois estereótipos comuns em relação à profissão.

Importante ressaltar a questão do direito à expressão, à liberdade de imprensa e à informação. Fica claro em Cidade do Silêncio que a mídia é constantemente monitorada para não divulgar os fatos. A princípio, poderia-se pensar que isso ocorre porque Juarez é uma cidade fronteiriça de terceiro mundo, em que vale a força bruta para fazer valer os interesses de alguns. No entanto, o filme é amargo ao constatar que as regras são as mesmas em um regime mais democrático: a matéria não é publicada sequer pelo jornal que enviou Lauren ao México. A auto-censura imposta dentro do veículo ocorre por pressões de políticos que não querem manchar a boa fama do tratado de livre comércio. No entanto, eles não ocupam balas ou ameaças de morte para silenciar os jornalistas. Antes, valem-se de sorrisos, apertos de mão e subornos. De qualquer forma, a pergunta fica: até que ponto a completa liberdade de imprensa e o direito que o cidadão tem de ser informado são respeitados?

Os méritos de Cidade do Silêncio estão mais em expor a situação de Juarez do que em suas qualidades cinematográficas. O filme conta com uma edição muito interessante e uma fotografia que prima pelas cores saturadas, o que lembra um pouco a atmosfera de Traffic. As cenas gravadas externamente são carregadas de amarelo, enquanto as cenas dentro da fábrica são muito azuis, criando um contraste entre o ambiente externo, caloroso e úmido, e o interno, frio e asséptico. Contudo, a narrativa se perde ao não definir claramente a que gênero pertence. Algumas vezes possui tons de drama, mas insere cenas de filme de ação mescladas com reviravoltas típicas de histórias sobre psicopatas. Ao tentar misturar tantas influências diferentes, Cidade do Silêncio pode parecer uma colcha de retalhos. Os fatos verídicos aos quais se refere são realmente o ponto mais alto da obra.

FICHA TÉCNICA
Cidade do Silêncio
Título Original: Bordertown

Drama, 112 minutos , 2007

Direção e roteiro: Greogry Nava

Produção: Simon Fields e Gregory Nava

Música: Graeme Revell

Fotografia: Reynaldo Villalobos

Direção de Arte: Edward Vega, Marcia Calosio e Roberta Marquez

Figurino: Elisabetta Beraldo

Edição: Padraic McKinley

Elenco: Jennifer Lopez (Lauren Adrian); Antonio Banderas (Alfonso Diaz); Sônia Braga (Teresa Casillas); Martin Sheen (George Morgan); Maya Zapata (Eva Jimenez)

Advertisements