Por Aldo Antonio Schmitz
Mestrando em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Normalmente, os jornalistas são assediados com brindes, almoços, viagens. Aqueles que atuam nas editorias, revistas, sites ou suplementos de automóveis são “brindados” com uma prática que já se institucionalizou. Eles recebem viagens, estadias e carros para testar por um longo período e, ao final das provas, podem adquirir o veículo por um preço bem abaixo da tabela.

Os jornalistas precisam conhecer sobre aquilo que informam. Sabendo disso, as montadoras aceleram e ultrapassam os limites da moralidade na apresentação de um novo carro à imprensa. Às vezes, as viagens não são para as fábricas, mas a destinos turísticos como Paris, Flórida, Nova Iorque, Barcelona, onde sabidamente não está a indústria que convida. Nessas viagens, as mordomias incluem passagens, estadias, almoços e jantares, passeios, brindes e mimos de todo tipo.

Obviamente que os veículos (de comunicação) não conseguiriam manter as revistas, programas, sites, cadernos sobre automóveis se fossem bancar todas essas viagens nababescas e comprar os novos carros para testes. Este é outro agrado. Os empréstimos das novidades para testes passam de dois, três, seis meses. Será que um jornalista especializado no assunto precisa de tanto tempo para saber se um carro é bom? Algumas voltas ou duas semanas não seriam suficientes?

Normalmente, esses carros são usados pelos jornalistas para passear, levar as crianças à escola, ir ao supermercado, além de dar inveja aos colegas e exibir o falso status aos vizinhos e familiares. Ao final desse período, os jornalistas podem adquirir os automóveis por um bom desconto. Uma pechincha. Mas a maioria devolve, pois já tem em vista outro carro, zerinho.

Teoricamente, nenhum jornalista precisa elogiar uma determinada marca ou modelo só porque recebe viagens e automóveis para testes. É claro que a mídia disputa as verbas publicitárias milionárias da indústria automobilística, cria produtos jornalísticos segmentados e alimenta esse interesse recíproco.

A Autoesporte, por exemplo, elege o carro do ano com votos de jornalistas, não só da própria revista. Isso acirra o assédio geral. O Carro do Ano 2010 e as variáveis de modelos, melhor propaganda, site e o executivo já foram eleitos em 2009 e serão conhecidos no próximo dia 9 de novembro. A pressa se justifica, afinal os vencedores podem usar a premiação em todo tipo de publicidade, publicações próprias e nos releases.

Embora esta relação seja vantajosa para os veículos (de comunicação) e montadoras, geralmente o público não fica sabendo dessas práticas. Mas deveria. Afinal, quem paga a conta é o consumidor. A maioria dos manuais condena isso. No entanto, as redações praticam à vontade, justificando com uma notinha de rodapé, em letras miudinhas: “o repórter viajou por conta da montadora”. Mas, raramente informam se o carro foi cedido para testes e por quanto tempo.

Esse jabaculê disfarçado, afago inconsequente, sedução das fontes, moral discutível, relação simbiótica, ou seja lá qual for o argumento, esbarra na ética profissional dos jornalistas e das fontes. Afinal, qual é o limite?

 

Nota: originalmente, jabá ou jabaculê refere-se ao pagamento “por fora” feito pelas gravadoras para executar as músicas de seus cantores no rádio ou na TV.

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