Por Camila Augusto Alves
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Como em um típico film noir, em A Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success), do diretor Alexander Mackendrick, não existem heróis. Quase todos são sórdidos e cínicos. Na suja Nova York dos anos 50, o assessor de imprensa Sidney Falco é capaz de fazer de tudo para conseguir entrar na restrita classe dos poderosos da cidade. Para isso, vive fazendo favores e bajulando J.J. Hunsecker, o principal colunista de celebridades da época.

Ao tentar realizar o último pedido de Hunsecker, no entanto, Falco falha. Ele havia sido encarregado de dar um fim ao romance de Susan, irmã do colunista, com o músico de jazz Steve Dallas. Mas o jovem casal continua junto e, como preço disso, o assessor perde seu espaço habitual na coluna, o que deixa seus clientes em desespero e Falco sem dinheiro e reputação. Guiado apenas pela ambição, o assessor inicia uma série de estratagemas para conseguir terminar o namoro dos dois.

O jornalismo – assim como tudo e todos – é visto como corrupto e cruel. J.J. utiliza sua coluna mais como uma arma do que para informar. Não existe apuração. As notinhas vem diretamente dos assessores de imprensa e são publicadas com base em quantos favores foram feitos ao colunista. Como afirma Falco no filme: “um assessor de imprensa come a sujeira do colunista e ainda espera-se que ele a chame de maná [alimento fornecido por Deus ao povo hebreu]”.

Com seu olhar impassível e seus óculos estranhos, Burt Lancaster faz um ótimo trabalho como o amedrontador J.J. Hunsecker. O personagem foi baseado na figura do colunista Walter Winchell que criou na década de 20, no jornal The New York Evening Graphic, o estilo de coluna social moderno. E também, Toni Curtis, que até então havia sido mal-sucedido em diversos filmes, faz em A Embriaguez do Sucesso a melhor atuação de sua carreira, segundo os críticos.

Rodado em locações noturnas, bares e restaurantes obscuros de Nova York, a fotografia em preto e branco de James Wong Howe é impecável e mostra uma cidade cheia de luzes neon e sombras. Os diálogos são provocantes e irônicos, chegando até a ser cruéis. Ernest Lehman, roteirista e autor do livro Sweet Smell of Success, foi assessor de imprensa na Broadway e entendia bem o que se passava nos bastidores do show business de então. O socialista Clifford Odets também ajudou na criação do roteiro.

Na época, o filme não foi sucesso nem de crítica, nem de público. Lancaster e Curtis foram ignorados pelo Oscar. Mas A Embriaguez do Sucesso é um clássico tardio. Mesmo sem sangue ou armas, faz um retrato duro e cruel do show business e do próprio jornalismo.


FICHA TÉCNICA

Título original: Sweet Smell of Success
Diretor: Alexander Mackendrick
Elenco: Burt Lancaster, Tony Curtis, Susan Harrison, Marty Milner, Sam Levene, Barbara Nichols, Jeff Donnell, Emile Meyer
Gênero: Drama
Duração: 96 min
Ano: 1957
Cor: Preto e Branco
País: EUA

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