A mulher do dia

Por Camila Augusto Martins Alves
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Foi nos bastidores da filmagem de A mulher do dia: uma mulher muito importante (Woman of the year) que o casal mais famoso de Hollywood – Katherine Hepburn e Spencer Tracy – se conheceu. O filme, além de ter sido o marco do começo do romance entre os dois , foi o primeiro dos nove que viriam a ser estrelados pela dupla depois.

A história começa quando Tess Harding (Hepburn) – famosa colunista de política do jornal Crônica de Nova Iorque – afirma em um programa de rádio que o beisebol deveria ser abolido para que as pessoas prestassem mais atenção na Segunda Guerra Mundial, que estava ocorrendo na época. Sam Craig, colunista de esportes do mesmo jornal, se ofende ao escutar a entrevista de Tess e decide dar início a uma guerra contra a jornalista.

Começa então uma grande troca de insultos em suas colunas, até o ponto em que o dono do jornal se vê obrigado a chamá-los para uma reunião para por um fim na briga interna entre os dois. Tess e Sam, que até então não haviam se conhecido pessoalmente, concordam em fazer as pazes e o colunista esportivo convida Tess para ir assistir a um jogo de beisebol.

Poucos encontros depois, os dois se apaixonam e, rapidamente, se casam. O relacionamento, porém, não funciona. Tess está sempre ocupada com questões políticas e acaba deixando a família em segundo lugar na sua vida. Seu secretário pessoal, Gerald, vive seguindo-a. No próprio dia da noite de núpcias do casal, aparece um amigo refugiado político iuguslavo de Tess para atrapalhar. O desentendimento entre o casal atinge seu auge quando a colunista adota uma criança grega refugiada sem consultar o marido.

O roteiro – que hoje pode até parecer ingênuo – foi ousado na época em que foi feito, em 1942, tanto que ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Com o mundo passando pela Segunda Guerra Mundial, A mulher do dia foi um dos primeiros filmes a abordar a história de uma mulher independente e trabalhadora. Os toques de comédia aparecem no filme apenas para amenizar a tensão que permeia a história.

Uma informação curiosa para os jornalistas é a de que a personagem de Katherine Hepburn foi inspirada na jornalista americana Dorothy Thompson, que em 1939, foi eleita pela revista Time como uma das americanas mais influentes de sua época, atrás apenas de Eleanor Roosevelt.

Além disso, é interessante observar as reflexões sobre jornalismo presentes no filme, como na cena do jogo de beisebol. Quando Tess vê que a Crônica de Nova Iorque manda dois repórteres para cobrir o jogo, ela reclama: “E nós ainda temos só um jornalista em Vichy [cidade francesa invadida pela Alemanha durante a guerra]”.

Quanto aos aspectos técnicos, o filme apresenta problemas. Os diálogos parecem forçados e a sensação de tempo não flui bem no decorrer da história . Sam e Tess parecem se casar dois dias depois de se conhecerem, por exemplo.

Em diversas resenhas sobre o filme, aparecem, também, críticas ao ponto de vista masculino e machista que permeia história, mostrando que, no final das contas, as mulheres só conseguem ser completas quando estão ao lado de um homem. Porém, não se pode julgar o filme levando em conta os padrões políticos e sociais de hoje. A mulher do dia – levando em conta a época de sua produção – é um filme ousado e que apresenta boas reflexões até mesmo para a sociedade atual, além, é claro, da magia de Hepburn e Tracy.

FICHA TÉCNICA

A Mulher do Dia (Woman of the Year, EUA, 1942)

Gênero: Comédia
Tipo: Longa-metragem/ P&B
Diretor: George Stevens
Roteiristas: Ring Lardner Jr., Michael Kanin, John Lee Mahin
Elenco: Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Fay Bainter, Reginald Owen, Minor Watson, William Bendix, Gladys Blake, Dan Tobin, Roscoe Karns, William Tannen, Ludwig Stossel, Sara Haden, Edith Evanson, George Kezas, Herbert Ashley
Duração: 114 minutos