Frost/Nixon

Por Pedro Santos
Acadêmico de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Quando o apresentador britânico de televisão David Frost planejou uma entrevista exclusiva com o ex-presidente Richard Nixon, pouco depois da renúncia em 1974, seus colegas não acreditaram. Como podia um jornalista britânico, apresentador de programas de entretenimento, realizar uma entrevista política de tamanha responsabilidade e repercussão?

De acordo com Frost/Nixon, baseado em uma peça teatral escrita pelo roteirista Peter Morgan (responsável pelo script de A Rainha), duas coisas movem David Frost: a audácia da empreitada (ele é desses jornalistas que não sabem desistir) e a audiência. Se durante a renúncia de Richard Nixon o número de espectadores em todo o mundo foi estimado em 400 milhões, imagine o que seria uma entrevista com o ex-presidente. O principal objetivo era mesmo a audiência que viria com a confissão dos crimes cometidos no governo Nixon. Como se sabe, o ex-presidente foi protagonista do maior escândalo de política interna dos Estados Unidos. Um aparentemente simples caso de roubo no Complexo Watergate, sede do Comitê Nacional Democrata, foi o estopim para o trabalho investigativo incansável de dois repórteres do jornal The Washington Post. Os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein – que depois lançaram o livro Todos os homens do presidente, que, por sua vez, foi levado às telas de cinema – descobriram a tentativa de espionagem do Partido Republicano, o mesmo do presidente Nixon, que tentou acobertar o crime. Antes de sofrer impeachment, o presidente pediu a renúncia do cargo.

Nixon vê na entrevista com David Frost a oportunidade de reverter a opinião pública a seu favor e resgatar a imagem do homem que eventualmente erra, mas que estima o povo e a história dos Estados Unidos. Ainda assim, exige o cachê de 600 mil dólares para falar com David Frost.

O filme se desenrola na preparação para a grande entrevista. Somos levados 35 dias antes do 23 de março de 1977, quando tem início a primeira parte do programa. Aqui, a técnica jornalística da entrevista é tratada como um jogo de xadrez, um embate com estratégias exaustivamente estudadas no jogo em que um quer tirar a informação do outro, que busca escondê-la para transmitir uma imagem condescendente.

Apesar do combinado de que apenas 25% do programa seria destinado ao caso Watergate, David Frost desrespeita o contrato. A pergunta inicial do jornalista é: “Por que o senhor não queimou as fitas?”. Segue-se uma resposta longa, cheia de detalhes. O ex-presidente alega que as fitas são documentos que devem ser mantidos. Segunda pergunta: “Quando o senhor decidiu exatamente que renunciaria?”. Nixon responde longamente, dominando o tempo para evitar cortes do entrevistador, bem como a formulação de outras perguntas.

No segundo dia, Frost recebe a sugestão de atacar mais, ser mais específico nas questões sem dar espaço para as respostas sem fim do político. A tentativa de não cair no jogo do ex-presidente é fracassada e, se vemos a entrevista como um embate psicológico, Nixon sai vencedor nas duas primeiras edições.

Até que vem a última parte, quando Frost se prepara incansavelmente, virando madrugadas em pesquisa rigorosa sobre o caso que abalou os Estados Unidos na década de 70. Sob o argumento de que ele é um mero apresentador de auditório, a própria equipe, composta por quatro integrantes, duvida da capacidade do entrevistador, que rebate: “Se tem alguém aqui que acha que nós vamos falhar, é melhor sair agora para não contaminar o resto de nós”.

No último dia, a presença de Frost como entrevistador, aliado a uma extensa documentação, fruto da apuração intensiva que desempenhou, levam Richard Nixon a confessar que agiu criminalmente sob a justificativa de que ao presidente da nação mais rica do mundo seria possível agir contra a lei para fazer cumpri-la.

Os dois pólos dramáticos do filme saltam aos olhos nesse último embate psicológico, eficientemente construído pelo diretor Ron Howard (Uma mente brilhante). Se Frost/Nixon não deixa claro certos dados, como o motivo real da confissão de Nixon, tem o mérito de resgatar historicamente um momento em que se valorizava o papel da mídia quando ligada a temas políticos e, especificamente, ao jornalismo.

O tema é extremamente atual, ainda mais no momento em que o novo presidente dos Estados Unidos cria uma conta no twitter ou que Sua Santidade, o Papa, abre um canal no youtube para postar vídeos religiosos. A mídia nunca esteve tão presente na política, entrelaçando o bem público com espetáculo, o governo com show business. Cabe, então, ao jornalismo manter a transparência e a alta qualidade da informação, como fez David Frost nos anos 70.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Frost/Nixon
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 122 minutos
Ano de Lançamento (EUA / Inglaterra / França): 2008
Direção: Ron Howard
Roteiro: Peter Morgan, baseado em peça teatral de Peter Morgan
Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer e Ron Howard
Música: Hans Zimmer
Fotografia: Salvatore Totino
Desenho de Produção: Michael Corenblith
Direção de Arte: Brian O’Hara e Gregory Van Horn
Figurino: Daniel Orlandi
Edição: Daniel P. Hanley e Mike Hill

Elenco:
Frank Langella (Richard Nixon)
Michael Sheen (David Frost)
Sam Rockwell (James Reston Jr.)
Kevin Bacon (Jack Brennan)

 

Advertisements