Por Rogério Christofoletti
(publicado originalmente em Monitorando)

Parecia coisa de cinema: um homem marcado pelo tempo, caminhando por um cemitério, com as mãos metidas nos bolsos do sobretudo, os cabelos esvoaçando no vento. Suas palavras secas dando a gravidade devida ao que ele contava: um crime. Parecia um filme, mas não era. Era a vida real, era uma pessoa notória confessando um crime cometido há alguns anos. Era o apresentador Ray Goslin, da BBC, no alto dos seus 70 anos, contando como matara seu ex-amante para ter de lhe poupar sofrimentos indizíveis por causa da Aids.

A confissão feita pela TV deve estar provocando tremores de terra na Inglaterra, além da prisão de Goslin.

Para além do carnaval midiático que se possa fazer com o episódio, me assaltam muito mais as questões éticas ali envolvidas. Não posso deixar de lembrar do caso do filósofo Louis Althusser que asfixiou a própria esposa, Helene, no quarto que dividiam e que lhe causou a pior condenação a que os franceses conhecem: a impronúncia. Em ambos os casos, temos pessoas célebres e aparentemente acima de quaisquer suspeitas ligadas a homicídios de pessoas amadas e próximas. Nos dois casos, temos ações motivadas pela compaixão à dor alheia e o cumprimento de pactos de lealdade extrema. Temos crimes sim, é verdade. Temos a violação da lei, a transgressão de valores, mas a manutenção de outros. Extermina-se a vida para pôr fim à dor, ao sofrimento. Faz-se pelo amor ao outro, para satisfazer um pedido… é a compaixão, o dó, a lealdade, o compromisso, o atendimento a uma súplica de quem se ama. Mesmo que essa resposta se traduza na morte do outro amado…

Nos dois casos, Althusser e Goslin colocam seus nomes no rol dos homicidas, dos degredados, dos imperdoáveis. Do inapelável.

Difícil é defender seus atos, fácil condená-los. Difícil é aceitar o que fizeram, mesmo que os juristas atribuam um rótulo eufêmico: o suicídio assistido. Mas é preciso entender que seus atos não foram intempestivos, irracionais ou impensados. Suas decisões de cunho prático passaram inevitavelmente por seus escrutínios morais. Goslin e Althusser colocaram seus princípios e seus sentimentos na balança de maneira a ver o que mais pesava, o que mais fazia sentido, o que mais preenchia seus corações e mentes. O filósofo e o comunicador, ambos homens vividos e experientes, devem ter consumido noites pensando antes de sufocarem suas vítimas. E talvez essa palavra – “vítimas” – não seja a mais apropriada para as situações. Naturalmente, não devem ter visto seus objetos de amor como vítimas de suas ações, mas vítimas maiores de seus sofrimentos.

O que mais distingue o caso de outro é a confissão pública de Goslin. Segundo colegas de trabalho mais próximos, o apresentador decidiu contar o que havia feito num programa de TV por uma questão de coerência, de lealdade, de fidelidade ao público. Ele preparava um programa sobre a morte e vira tantas fontes abrindo seus corações e contando suas histórias que não achara justo guardar para si a sua própria. Goslin contou. Nunca saberemos o quanto há de interpretação e de espontaneidade no curto minuto de sua fala no vídeo de sua confissão. Como antes, Goslin deve ter pensado muito antes de agir. Meditou, pesou, tomou a decisão. Seu semblante está carregado, seus cabelos dançam ao sabor do vento. Ele nos oferece cada palavra como se oferecesse seu pescoço. Abre o segredo, olha diretamente a câmera e baixa o rosto, compungido. No segundo em que se detém olhando para a frente, confessa como se nos olhasse direto nos olhos. Depois, deixa cair a cabeça e se retira do enquadramento da câmera. São segundo apenas, mas o drama está lá. O drama da escolha ética, o drama de quem tem a coragem de tomar uma decisão, estando ela certa ou errada. Pouco importa ao leitor agora se concordo ou não com a ação de Goslin. Mais relevante é ver como é preciso ter coragem para decidir, para tomar caminhos, para aceitar o vento no rosto após dar o primeiro passo.

Escolher entre matar o amante ou deixá-lo sofrer até que seja naturalmente levado é uma decisão ética. Escolher entre manter o segredo ou confessar o crime diante das câmeras para todos é uma decisão de cunho ético. A vida exige coragem, pois as escolhas precisam ser tomadas a todo o momento. Alguém já falou que a vida não tem ensaio e que se aprende a viver, vivendo. O episódio de Goslin nos confirma tudo isso e nos mostra como hoje, mais do que nunca, os segredos adormecem mas não têm um sono pesado. As câmeras são nossos olhos, são confessionários. As comunidades imaginadas são coletivos de cumplicidade. Os crimes continuam a acontecer debaixo de nossos narizes e pouco ou nada sabemos deles.

É profundamente triste o que aconteceu com Goslin e seu parceiro. Seu drama me assaltou e me impeliu a escrever essas poucas linhas sobre um assunto tão complexo. Um tema que nunca poderia se esgotar num post: esta certeza de que estamos sós em nossos momentos mais verdadeiros, onde se deve refletir e tomar decisões. Incontornavelmente. Indefinidamente.

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