O Dossiê de Odessa

Por Felipe Mendes
Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Ao ouvir a notícia da morte do presidente americano John Kennedy pelo rádio de seu carro, o repórter Peter Miller estaciona numa da esquinas de Hamburgo, na Alemanha. O espanto com o acontecimento só é quebrado pelas sirenes de uma viatura da polícia e de uma ambulância, que passam em alta velocidade pelo seu veículo. Curioso, o free-lancer segue seu faro, que o levará a desvendar uma conspiração internacional e descobrir O Dossiê de Odessa (The Odessa File, Inglaterra e Alemanha, 1974).

Baseado no romance do inglês Frederick Forsyth, este thriller se passa em 1963 numa Alemanha dividida, que ainda não superou as atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Representado por um inspirado Jon Voight, o protagonista Miller mergulha de cabeça numa investigação jornalística delicada e perigosa, na qual tenta se libertar das feridas abertas pelo nazismo, ao mesmo tempo em que se defende dos ataques dos últimos representantes do III Reich.

A missão do repórter começa após receber um diário de um velho judeu, que se suicidara na noite da morte de Kennedy. Em seus escritos, Solomon Tauber conta os horrores que viveu no campo de concentração de Riga. As imagens, em flash backs, são acompanhadas pela narração em off do judeu. Tauber apresenta o capitão Eduard Roschmann (Maximilian Schell), do exército nazista, que era conhecido como “o açougueiro”. Ele também relata o passatempo preferido do comandante de Riga: “destruir seres humanos”. Segundo o autor do diário, dos 200 mil judeus mandados para o campo, apenas 400 sobreviveram.

Com o material na mão, Miller vai até um editor que não aceita a história, porque “judeus mortos não vendem jornais”. Num dos melhores diálogos do filme, o free-lancer argumenta que as vítimas eram alemãs. E o editor retruca: “Eram alemães judeus”. A partir daí, o repórter investiga a história por conta própria, e descobre que o fato de Roschmann ainda estar vivo e impune foi a razão do suicídio de Tauber.

Em Viena, na Áustria, o jornalista entra em contato com Simon Wiesenthal, responsável pela prisão e pelo julgamento de 1100 assassinos do partido de Hitler. O “caçador de nazistas”, que morreu em setembro de 2005, participou do filme como consultor histórico. Foi por meio de Wiesenthal que Miller descobriu a Odessa (sigla em alemão para Organização de Formação de Membros da SS), que congrega os ex-membros da polícia secreta nazista. Esse grupo teria sido criado para ajudar seus integrantes a se esconder, através de novas identidades, novos empregos, novas vidas. Segundo o “caçador”, a organização se infiltrou nos diversos setores da sociedade, sendo sustentada com o dinheiro roubado dos judeus, durante a Guerra.

A confirmação do poder e da influência da Odessa aparece nas ameaças que o repórter recebe de desconhecidos, culminando num atentado no metrô. Com a proximidade do perigo, Miller aceita colaborar com o Mossad, o serviço secreto israelense, que investiga o mesmo assunto. Para se infiltrar na organização alemã, o jornalista se disfarça de soldado nazista, recebe treinamento e até ganha uma cicatriz de queimadura no braço direito para conseguir ludibriar os precavidos integrantes da Odessa. A determinação do repórter aumenta na mesma proporção dos obstáculos que são colocados em seu caminho. Como premiação, ele encontra um dossiê com os nomes antigos e atuais de vários integrantes da organização secreta.

Na ficção, a divulgação do dossiê levou alguns ex-membros da SS à justiça. Na realidade, os lançamentos do livro de Frederick Forsyth e do filme, baseado no seu romance, contribuíram para reforçar a procura de Roschmann que, de fato, foi um criminoso de guerra. No entanto, antes de ser preso, o capitão foi encontrado morto na América do Sul, onde viveu por muito tempo.

Essa mistura entre ficção e realidade não é incomum na obra de Frederick Forsyth. Assim como o protagonista de sua obra, o escritor inglês foi jornalista. Atuou como repórter de rádio e televisão da BBC, foi correspondente da Agência Reuters e cobriu a guerra entre Nigéria e Biafra, em 67, para a revista Time. Trabalhou em diversos países como, à época, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental, onde pôde coletar informações que permitiriam uma compreensão acurada dos sofrimentos e ansiedades de uma nação.

O diretor Ronald Neame segue o caminho de Forsyth e vislumbra nas últimas cenas de O Dossiê de Odessa os conflitos entre a velha e a nova geração da Alemanha pós-Segunda Guerra. No diálogo entre Miller e Roschmann, o jornalista expõe toda a vergonha que sua geração sente pelos horrores cometidos em nome das pretensões dos nazistas. Para esquecer o que passou, Miller lembra uma frase de Tauber: “o povo não é mau, só os indivíduos o são”, numa tentativa de expurgar da consciência alemã os erros do passado.

FICHA TÉCNICA
Título Original: The Odessa File
Gênero: Suspense
Tempo de Duração: 128 minutos
Ano de Lançamento (Inglaterra): 1974
Estúdio: Domino / Oceanic
Distribuição: Columbia Pictures
Direção: Ronald Neame
Roteiro: Kenneth Ross e George Markstein, baseado em livro de Frederic Forsyth
Produção: John Woolf
Música: Andrew Lloyd Webber
Fotografia: Oswald Morris
Desenho de Produção: Rolf Zehetbauer
Figurino: Monika Bauert
Edição: Ralph Kemplen