Por Carla Algeri
Jornalista e Mestranda em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Por que as notícias que lemos nos jornais são estas e não outras? Escolher, entre todos os acontecimentos, fatos e pessoas, quais merecem ser transformados em notícias, e fazer isso de modo ágil, levando em conta também as condições técnicas, a política editorial e a periodicidade e características do veículo onde se atua é o papel do jornalista. O profissional precisa ter “faro” para a notícia, sentidos aguçados para detectar aquilo que interessa e/ou é importante para o público.

Os mais românticos diriam que se nasce ou não com esse dom, que o “faro” para a notícia depende do talento, da perspicácia e do nível cultural do repórter. Esse argumento pode até mesmo ser utilizado pelos que defendem o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Porém, utilizar o talento nato como único critério para exercício de uma profissão parece que não cabe mais nos dias de hoje.

Assim, os estudos de newsmaking relativizam a crença de um dom especial de alguns profissionais. Conhecer os atributos dos fatos noticiáveis e a aplicação destes no jornal, na internet, na televisão ou no rádio é uma forma de treinar o “faro” para a notícia. O conhecimento acerca dos critérios de noticiabilidade fornece ao candidato a profissional da imprensa um conhecimento que pode dar-lhe as habilidades de que tanto necessita para o exercício da profissão. Da mesma forma, os critérios de noticiabilidade auxiliam o repórter a ter simplicidade de raciocínio e evitam incertezas excessivas quanto à escolha do que deve ou não ser publicado, o que deve ou não ser apurado.

São vários os estudos que pretendem sistematizar e explicitar o “faro” jornalístico. “Listas” produzidas por estudiosos de diversas correntes e épocas variam muito, mas alguns critérios mantêm-se constantes, como aqueles listados por Nilson Lage, que são o ineditismo, a proximidade, a atualidade, a identificação, a intensidade e a oportunidade. O que escapa muitas vezes a um jornalista iniciante é a notabilidade dos fatos, conceito explicitado por Nelson Traquina. De acordo com o autor português, só é transformado em notícia aquilo que é tangível, ou seja, uma greve é algo tangível, enquanto a insatisfação do trabalhador, seu relacionamento com a chefia, é algo intangível. Assim, a notícia foca-se no fato, e não em uma problemática. Também se pode entender a notabilidade pela quantidade de pessoas envolvidas, a falha, o excesso, a escassez e a inversão.

É preciso lembrar que os critérios de noticiabilidade mudam com o tempo, acompanhando as mudanças na sociedade. O que foi notícia no passado pode não o ser hoje, e vice-versa. Em 1690, naquela que seria a primeira tese de doutoramento em jornalismo, Tobias Peucer apresenta sua lista de fatos que devem e os que não devem ser noticiados. Muito próximo dos dias atuais, Peucer elenca critérios que vão desde as obras da natureza até notícias de guerra. Porém, aconselha não divulgar “aquelas coisas dos príncipes que não querem que sejam divulgadas”, pelo menos até a morte destes.

Podemos acreditar que o “talento” para a profissão não pode ser aprendido, e que, portanto, a formação torna-se dispensável. No ritmo cada vez mais alucinante das redações e da profissionalização crescente da atividade, não há tempo para os jovens aprenderem com os mais velhos e treinados jornalistas todos os macetes da profissão. Espera-se do “foca” um mínimo de conhecimento sobre “o que é notícia”.

O mesmo vale para as assessorias de imprensa. É comum observar assessores que acreditam que o produto, o serviço, a opinião ou a informação da sua empresa seja do mais alto interesse público, e desperdiçam tempo e esforços tentando “emplacar” na mídia informações irrelevantes para o público em geral, ou de interesse a um grupo restrito. Nesses casos, é preferível buscar a publicação em mídias especializadas no assunto ou tratar o tema, quando muito, nos veículos de comunicação internos da empresa. Outra tarefa (complicada) do assessor é convencer seu assessorado de que aquele fato relevante para a organização pode não ser tão importante para a imprensa, e mesmo ser recusado pela sua conotação comercial.

“Quando um cão morde um homem não é notícia, mas quando um homem morde um cão, aí é notícia”. O que dizer desse ditado quando vemos notícias sobre pitbulls mordendo seus donos? Brincadeiras à parte, os valores-notícia são mutáveis e interdependentes, mas seu conhecimento é essencial para a atividade diária do jornalismo.