“A imprensa são os olhos da sociedade”
Ruy Barbosa

Luiz Martins da Silva
Professor da Universidade de Brasília e pesquisador de ética da comunicação


Historicamente, políticos sem exceção mudam o juízo que fazem da imprensa quando assumem o poder. É uma questão elementar, de lugar de fala: ora na oposição, ora na situação.

Lula não contrariou a regra. Quando sindicalista oprimido, construiu a sua biografia de “filho do Brasil” graças ao amplo espaço e ao bom tratamento que recebeu da mídia. Fustigou governantes um a um, quando era oposição. As tribunas nas quais subiu não lhe dariam tanto eco, não fosse a presença de jornalistas para transportar a sua oratória para uma outra tribuna, esta que nas sociedades com algum vestígio de democracia constitui um dos espaços públicos. No caso da chamada esfera pública burguesa, a imprensa ocupa uma centralidade, pois nenhuma outra instituição é tão provedora da polêmica em torno do bem comum quanto a imprensa.

Numa República, a imprensa funciona como “um campo de campos”, expressão do professor Adriano Duarte Rodrigues, da Universidade Nova de Lisboa, já que ela proporciona o leva e traz, as intermediações entre os diversos subespaços que compõem o espaço social: o espaço comum (da rua, da praça, do mercado); o espaço público (composto pelos espaços discursivos); o espaço político (do poder estabelecido, governo e Estado); e por que não, o espaço privado, já que a mídia, como um todo, faz a todo momento a intermediação entre a casa, a rua e os demais espaços – ou seja, entre a privacidade e a publicidade e vice-versa.

Uma vez no poder, os homens públicos passam a merecer privilegiadamente a atenção da imprensa, mas de um outro ângulo, o ângulo da crítica, pois a imprensa também representa o papel de um poder fiscal, o quarto poder que fiscaliza todos os outros, uma fiscalização ad hoc. Sem fazer parte do Estado, a imprensa desempenha os papéis de: controladoria, inspetoria, auditoria e corregedoria. Daí a sua parcimônia para com os elogios. Fatos administrativos geram elogios quando representam uma exceção. Ou seja, a boa gestão não dá notícia, a não ser para contrastar com a má gestão generalizada.

Não raro, porém, mas quase sempre quando os governantes estão irritados, surge a máxima “a imprensa gosta de tragédias”. Embora lugar comum, clichê, trata-se de uma verdade. Mas há uma explicação lógica e funcional para isso. Uma das funções da imprensa é a de alerta. Este é um dos seus principais lugares de fala. Entre a anunciação e a denunciação, a imprensa fica preferencialmente com a última. Daí, a suspeição que sempre recai sobre jornalista dado a elogios. São, digamos, orientações enunciativas distintas: a de quem anuncia e a de quem denuncia.

Por vezes, a indignação para com a imprensa e os jornalistas gera avaliações do tipo: a imprensa gosta mesmo é de podres, de escândalos, de sensacionalismo, de tragédias. É verdade. Mas, mais uma vez, a razão lógica, por mais que se queira reduzi-la a uma razão meramente mercadológica, ou mesmo patológica. Nada demais se os jornalistas forem comparados aos urubus que pairam sobre o que se deteriora no mundo. É que o cogito jornalístico não é o do sujeito comum, na sua relação subjetiva – e cognitiva – do tipo sujeito-objeto, isto é, sujeito a mundo. O mundo não é notícia se o mundo estiver normal. O mundo valerá notícia se ele estiver imundo.

Ora, se uma das funções do jornalista é a de ser atalaia – aquele que fica no alto, olhando o horizonte para dar o alarma – não se espera que ele fique a toda hora gritando: “Tudo normal, tudo normal!”. O cogito do ser cognoscente comum diante do que lhe expõe o mundo (objeto) é: “penso, logo existo”. O cogito jornalístico por excelência é: o mundo está diferente, logo, penso e alardeio.

Uma boa comparação, no entanto, é com os gansos. Ao contrário dos urubus, os gansos não estão à procura de podridão, mas são alardeadores. Pois bem, na história de Roma há um episódio em que o alerta foi dado pelos gansos, os primeiros a notar que os bárbaros estavam chegando. E esta deveria ser a competência primaz dos jornalistas. Avisar que o perigo se aproxima. E não esperar que já esteja tudo destruído para fazer a denúncia.

Voltemos ao atalaia e seu lugar privilegiado, no alto da torre, perscrutando o horizonte, de onde possa ver tudo que é ameaça, inclusive, as tragédias. Meteorologistas e jornalistas têm algo em comum, ler o mundo e interpretá-lo: de preferência, antes que o terremoto aconteça e os tsunamis devastem tudo. Pois dizer para quem já está arrasado que houve uma tragédia é zombar da inteligência das vítimas.