Reds, a revolução russa no jornalismo e no cinema

Clayton Haviaras Wosgrau
Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Dez Dias que Abalaram o Mundo, livro escrito pelo jorna­lista e escritor americano John Reed, é considerado o documento mais completo de que se tem conhecimento sobre a Revolução Russa de no­vembro de 1917 (outubro de 1917, se levarmos em conta os 13 dias de defasagem do calendário russo). Reed conta, no formato de uma grande reportagem, os aconte­cimentos que antecederam e sucederam os dez di­as da revolução bol­chevique, a única na história realizada pelo proletari­ado.

Em 1981, o produtor, diretor, roteirista e ator Warren Beatty filmou a biografia de John Reed, intitulada Reds. Longe de ser um documento sobre a revolução russa – o filme tem mais de três ho­ras, mas apenas dezessete minutos são dedicados às agitações que ocor­reram em Leningrado e Moscou -, Reds centra a narrativa no conturba­do relacionamento amoroso do jornalista com a escritora Louise Bryant e na incansável militância política de Reed, que sonhava em constituir um estado socialista nos Estados Unidos.

Reds pode não ser um documento sobre a revolução russa, mas, com certeza, não o deixa de ser sobre a vida de John Reed. Participam do filme, através de de­poimentos, 32 personalidades que conheceram o escritor, como o ro­mancista Henry Miller (Trópico de Câncer) e o filósofo Will Durant (História da Filosofia). A narrativa também é salpicada de romantismo, explorando ao máximo os conflitos do casal Reed/Bryant.

Ao contrário do filme, o livro é essencialmente documental. Reed relata e descreve, com todas as minúcias, os discursos mais importantes de Lênin, Trótski, os congressos dos soviets (assembléias de operários, soldados e camponeses), os manifestos que eram afixados nos muros das ruas de Pe­trogrado (que depois da revolução veio a se chamar Leningrado). Um trabalho bem diferente do que realizara alguns anos antes no México, em 1910, sobre a Revolução Mexicana, liderada por Pancho Villa. México Rebelde, livro onde Reed conta o que presenciara naquele país, é uma narrativa muito mais solta, alegre, desprendida da aridez e seriedade presente em Dez Dias….

Isso talvez se explique pelas próprias características dos dois movimentos. É fácil imaginar uma Rússia sombria, congelada por um in­verno rigoroso onde o frio ultrapassa os vinte graus negativos, assolada pela neve, onde há filas para tudo o que se possa imaginar, desde comprar pão até obter o cartão para entrar na fila para com­prar botas. Seria impossível pensar num tipo de texto que não o empre­gado por John Reed: cru, enxuto e documental, permitindo-se, muito ra­ramente, a se utilizar das técnicas estilísticas que saltam aos olhos em México Rebelde. Sem dúvida nenhuma, a Revolução Mexicana não po­deria receber o mesmo tratamento estético da Revolução Russa. O deser­to mexicano, o sol de quarenta graus, os cowboys montados em seus ca­valos, os saloons, enfim, a revolução de Pancho Villa representava todo um cenário de velho oeste americano, exigindo uma linguagem mais co­lorida, mais descritiva, mais literária do que a revolução de Lênin.

Louise e o filme – Louise Bryant é um capítulo singular na vida de Reed. Era, para a sua época, o que nos anos 60 costumou-se chamar de “artista alternativo”. Sustentada pelo marido, um dentista de Portland – cidade natal de Reed – Louise escrevia e pintava futilidades. Conhece Reed e parte junto com ele para Nova Iorque. Vive a sombra do amante, além de não conseguir estabelecer um relacionamento com ele, pois Reed viajava muito e quase não parava no apartamento em que residiam. Mu­dam-se para uma cidadezinha praieira, onde conhecem o poeta e drama­turgo Eugenne O’Neill. Louise, que permanecia a maior parte do tempo sozinha, acaba tendo um caso com O’Neill. Reed, voltando de uma de suas viagens, descobre o romance, mas nada revela a Louise. Os dois se casam e mudam para Croton-on-Hudson. Louise abandona O’Neill, mas sua vida com Reed pouco muda. Os dois brigam novamente e Louise vai para Paris, onde passa a escrever artigos sobre arte. Reed vai ao seu en­contro na França e a convence a seguir junto com ele para a Rússia, onde passam a cobrir a revolução.

Louise amadurece como escritora e os dois reatam o casamento. Voltam para Nova Iorque, com Reed envolvendo-se na fundação do Partido Socialista Americano. Novamente Louise sente-se abandonada pelo marido. Ele parte então para a Rússia pela segunda vez. Quando resolve voltar para os EUA, é capturado na fronteira com a Finlândia, onde o regime político era uma ditadura de di­reita. Fica preso alguns meses, sem conseguir se comunicar com a espo­sa. Louise embarca para a Rússia em sua procura e o encontra muito doente, sofrendo de tifo. O filme encerra com a morte de John Reed.

Por Reds, percebe-se a importância desempenhada por Louise na vida do jornalista. Só depois de assistir ao filme é que se fica sabendo quem realmente foi “minha parceira Louise Bryant”, citada dessa forma pelo autor numa das passagem do livro. Se por um lado o livro não se preocupa em descrever detalhes da vida de Reed, por outro revela sua contribuição na consolidação do regime socialista na Rússia, com o su­cesso da publicação de Dez Dias que Abalaram o Mundo.

Honra – De 1923 a 1930, o livro foi editado onze vezes na Rússia, quase todas com prefácios de Lênin e Trótski . Em 1919, ano da publicação da obra, três edições apareceram nos Estados Unidos. Em 1919, durante a segunda estada de Reed em território soviético, Lênin es­creveu um prefácio para uma nova edição americana, que acabou sendo publicado somente em 1926. Entre outras coisas, o líder bolchevique diz que “gostaria de ver a obra publicada aos milhões de exemplares e tradu­zida para todas as línguas, pois traça um quadro exato e extraordinaria­mente vivo dos acontecimentos…”. Lênin termina as poucas linhas do pre­fácio com a seguinte frase: “O livro de John Reed, indubitavelmente, aju­dará a esclarecer o problema do movimento operário internacional”.

Pouco depois da consolidação do regime socialista na União Soviética, John Reed morreu. Trótski escreveu o prefácio para a primeira edição em russo dos Dez Dias que Abalaram o Mundo, e a frase com que ele o encerra talvez seja a síntese do espírito de John Reed, o único americano enterrado no Kremlin: “John Reed está indissoluvel­mente ligado à revolução russa. A Rússia Soviética tornou-se-lhe cara e próxima. Foi contaminado pelo tifo e repousa na base do Muro Vermelho do Kremlin. Quem descreveu os funerais das vítimas da Revolução, como o fez John Reed, merece tal honra”.

FICHA TÉCNICA
REDS (Reds, 1981, EUA)
Direção: Warren Beatty.
Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Gene Hackman, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Jerry Kosinsky.
Duração: 188 minutos

Advertisements