Z

Por Pedro Santos
Acadêmico de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

O filme começa com uma reunião de militares que comparam os opositores a fungos que precisam ser extirpados antes que contaminem o restante da população. Entre essa sequência, ainda nos créditos iniciais, surge o seguinte letreiro: “qualquer semelhança com os eventos reais ou pessoas vivas ou mortas não é casual, mas intencional”. Na Europa Ocidental, a Grécia integrava o trio de países, juntamente com Portugal e Espanha, que vivia sob a ditadura militar.

Z é o terceiro filme dirigido pelo cineasta grego e naturalizado francês Constantin Costa-Gavras, cuja carreira é notabilizada por filmes de denúncia política. O filme foi baseado em fatos verídicos que ocorreram na Grécia em 1963, quando o deputado esquerdista Grigoris Lambrakis foi assassinado graças a uma conspiração elaborada pelo alto escalão das Forças Armadas.

O deputado, um dos mais populares chefes da oposição grega da época, é atropelado depois de uma reunião. Ele morre três dias depois em decorrência de graves ferimentos. É então que entra em cena o magistrado (Jean-Louis Trintignant) que vai investigar todos os envolvidos no incidente. A seu lado está um jovem jornalista (Jacques Perrin) que, por meio da apuração incansável (inclusive usando câmera escondida), realiza a cobertura completa dos eventos.

O jovem jornalista é o único de sua categoria que acredita que o ocorrido não tenha sido mero incidente, como afirma a versão oficial. A propósito, o filme evidencia, nos diálogos, a presença do jornalismo que se limita a reproduzir o status quo, como na cena em que o jornal sai com a manchete dizendo que a polícia cumpriu sua função, ou na cena em que dois jornalistas conversam:

– Eles são indiferentes [referindo-se aos manifestantes]

– E nós também.

De qualquer forma, o repórter trabalha em conjunto com o magistrado, servindo até para legitimar o trabalho deste, que será questionado pelas autoridades militares. Se podemos discutir os métodos de apuração, principalmente nas fotografias sensacionalistas de agressões ou em fotografar sem as pessoas saberem, o filme nos lembra a todo instante o estado autoritário e ameaçador. Talvez por isso, o diretor utilize tantos travellings rápidos focando os rostos das pessoas: um recurso de linguagem documental que serve para evidenciar o instável estado de espírito das personagens, ameaçadas a todo instante por uma prisão arbitrária ou um desaparecimento compulsório.

O filme, uma produção franco-argelina, ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Por causa das denúncias que traz, Z foi censurado no Brasil na época da Ditadura Militar.

FICHA TÉCNICA

Z (Argélia/França, 1969)
Direção: Costa-Gavras
Elenco: Yves Montand, Irene Papas, Jean-Louis Trintignant, Jacques Perrin
Duração: 127 minutos
 
Roteiro: Jorge Semprún e Costa-Gavras, baseado no livro Z, de Vassilis Vassilikos
Edição: Françoise Bonnot
Eventos baseados em fatos reais que reconstituem o assassinato de um deputado de oposição nos anos 60 na Grécia.
Fonte: IMDB (The Internet Movie Database)
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