O Homem que Matou o Facínora

Por Roberto Saraiva
Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

“O homem que matou o Facínora” é um instigante western de 1962, estrelado pelos míticos John Wayne, falecido aos 72 anos em 1979, com 175 participações em filmes no currículo; e James Steward, que morreu com 89 anos em 1997 e estrelou grandes obras como “Janela Indiscreta” de Alfred Hitchcock. A direção ficou por conta de John Ford, lenda do estilo.

O filme traz uma pesada carga moral, como era comum na época, ainda mais em se tratando de um “bangue-bangue”, gênero que consagrou a visão maniqueísta de Hollywood acerca da realidade, sempre dividida entre os mocinhos e os bandidos. Desta vez a história não é diferente: uma luta por justiça calcada na não-violência e observância da lei, ao melhor estilo americano.

O recém graduado advogado Ransom Stoddard, Steward, está chegando de carruagem a uma pequena cidade do “Velho Oeste”, quando é assaltado e espancado. Stoddard jura então colocar seu algoz, o líder dos ladrões, Liberty Valance, vivido por Lee Marvin, atrás das grades, atitude impensável na “terra sem lei”. Sua cruzada pela justiça o leva até a pequena cidade de Shinbone, onde conhece o machão Tom Doniphon, Wayne, e a moçoila Hallie, Vera Miles. O óbvio triângulo amoroso se forma: o delicado e o bruto disputando o amor da donzela.

Stoddard começa a trabalhar com Hallie no restaurante local, até que Valance aparece e ameaça o indefeso advogado, sendo repelido por Doniphom. O mocinho, contrário ao uso da violência, monta então uma pequena escola, nos fundos do jornal da cidade, para educar e alfabetizar os moradores do lugarejo, acostumados à força das pistolas. Seus ensinamentos sobre a importância do voto parecem até uma mensagem aos americanos, que apesar de viverem na “maior democracia do mundo”, apresentam baixo índice de participação nas urnas.

No filme, a luta deflagrada pelo jornal Shimbone Star é contra os criadores de gado, que se opõem à transformação do território em estado com medo de perderem seus poderes sobre o povo. Eles criam uma milícia formada por Valance e sua gangue e Stoddard procura usar a educação para romper com o coronelismo da região. A estratégia dá certo e ele é eleito, juntamente com o jornalista e beberrão Dutton Peabody, Edmond O’Brien, como representante da localidade, decisão que enfurece o arruaceiro Valance.

O cenário está pronto para a marca registrada de todo western que se preze: o duelo final. Porém, desta vez, nosso herói não tem mira nem para acertar um celeiro, nas palavras de um dos personagens do filme. Mesmo assim resolve enfrentar o bandido, levando a melhor e a garota Hallie, para desgosto de seu amigo Doniphon. O que ele só saberia depois é que foi Tom, escondido atrás de uma casa, que matou Valance para protegê-lo. Seu tiro, como era de se esperar, errou o alvo.

A fama também fica com Stoddard, que se elege senador por ter desafiado e matado o grande encrenqueiro da área. A situação é bastante inusitada, ele acabou conseguindo o que queria, mas não da maneira como planejou. O filme faz sua crítica, contrapondo o reconhecimento que o advogado tinha por ser um homem da paz, e o que conseguiu com a imagem oposta, ainda que infundada.

A história é narrada pelo já senador e ex-governador Ransom Stoddard, que retorna à pequena cidade para o funeral de Tom Doniphon. Ao ser questionado por um jornalista sobre o motivo de sua ilustre visita, resolve contar a verdade sobre a sua fama de justiceiro. A clássica recusa do repórter em publicar a matéria traz em si um paradigma da imprensa marrom: “Se as lendas tornam-se verdade, publique-se as lendas”.

FICHA TÉCNICA

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance / EUA, 1962, 119 minutos)
Gênero: Faroeste
Direção: John Ford
Elenco: James Stewart, John Waine, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O’Brien, Andy Devie, John Carradine

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