Por Rogério Christofoletti
Pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS)

– Postado originalmente no blog do autor

Uma importante conferência reuniu acadêmicos e profissionais do jornalismo para discutir novos parâmetros e novas condutas para a profissão. O evento aconteceu na semana passada – 30 de abril – na Universidade de Wisconsin-Madison (Canadá), onde funciona o já renomado Center for Journalism Ethics. Na ocasião, a conferência perguntava se é necessária uma nova ética para este novo jornalismo com o qual nos confrontamos diariamente.

Oportuna, a questão trazia consigo uma série de outras indagações que certamente não foram respondidas pelos participantes, por mais experientes e capacitados. Isso porque alguns dilemas éticos estão acabando de aflorar nesse terreno ainda fértil das novas mídias, das tecnologias de informação e do cruzamento dos meios convencionais com as redes sociais.

(Bem) acostumados a debater tais questões, os canadenses não só convocaram grandes nomes do mercado, mas de organizações não governamentais ligadas à área e acadêmicos, mas também instituíram um prêmio para o que chamam de “jornalismo ético”. Como não poderia deixar de ser – já que o evento trata de novas tecnologias -, a conferência teve uma qualificada e generosa cobertura para os meios on line. Um live blogging permite que se tenha acesso a vídeos e textos dos debates; álbuns no Flickrpossibilitam captar um pouco do clima do evento; e até mesmo pelo Twitter se consegue recuperar comentários e opiniões de participantes presenciais ou não.

O material que se tem ali é particularmente instigante pra todos os que pensam o jornalismo nos dias atuais. É verdade, existem lá mais perguntas que respostas. Mas não é assim mesmo que funciona isso que chamamos de ética?

Por falar nisso, acabo de devorar “O pianista no bordel”, ótimo livro de Juan Luis Cebrián. Se não ligou o nome à pessoa, Cebrián é um dos principais homens por trás do surgimento de “El País”, na Espanha na metade da década de 1970 em meio à redemocratização do país. Por anos e ainda hoje, o jornal se tornou um símbolo da luta pela liberdade de expressão e trouxe consigo um punhado de preocupações essenciais para um jornalismo de qualidade.

O livro de Cebrián acaba de desembarcar nas livrarias brasileiras. Li uma entrevista dele para “O Estado de S.Paulo” e fiquei interessadíssimo no volume. Passando por Recife, escapei para uma livraria e vasculhei tudo atrás do livro. Quando estava para desistir, chega uma atendente com uma pilha de dez exemplares: Cebrián veio direto para a minha mão, e furou a fila na lista das leituras.

Para tratar de jornalismo, sociedade, democracia e novas tecnologias, “O Pianista no Bordel” parte de uma anedota espanhola, um ditado popular:

Não digam à minha mãe que sou jornalista. Prefiro que continue pensando que toco piano num bordel.

Com humor refinado e texto elegante – que muito me lembraram Mino Carta, outro importante publisher -, o autor se vale de dez ensaios para não apenas fazer reminiscências de sua carreira, mas também para dividir o que pensa sobre jornalismo e política. Neste sentido, Cebrián toca em aspectos delicados das coberturas – como no caso do terrorismo -, e reforça valores do jornalismo, como a credibilidade, o rigor, a independência e a liberdade de imprensa. Critica o avanço da justiça e dos governos sobre os jornalistas, e a tentativa de controle da informação; e ainda desmitifica o propalado fim dos jornais por conta da emergência de novas formas de difusão informativa. Para Cebrián, é necessário um resgate do jornalismo para algumas de suas funções. É preciso coragem para enfrentar tempos difíceis, ousadia para ir além do superficial.

Nas 166 páginas do livro, os pontos de vista do velho jornalista são sempre lúcidos e explícitos; as ideias defendidas com uma contumaz bravura espanhola, mas sem sombra de empáfia. Cebrián parece pensar alto, e quem pensa alto não mede o passo de outrem, mede apenas o próprio. As posições que adota podem não ser unânimes, mas possibilitam pensá-las como alternativas respeitáveis, de nada descartáveis. E o que vejo como muito importante: o autor enfrenta as questões do jornalismo não de uma torre de marfim, segura e cômoda. Cebrián pondera também valores que nós, jornalistas, às vezes, atiramos para baixo do tapete, como rentabilidade, solvência empresarial, a busca por lucros e o jornalismo como negócio. Logo, Cebrián não é um utópico, não se aliena das agruras de quem precisa produzir um bom jornal todos os dias para vê-lo desaparecer rapidamente das bancas.

Cebrián desenha um jornalista sobre o fio da navalha, se não veja-se o trecho a seguir:

O senso de responsabilidade dos jornalistas é continuamente solicitado pelos governantes, quando justificam suas exigências de silêncio, manipulação e censura apelando para o bem superior constituído pela segurança coletiva. (…) Seria lamentável que, de uma forma geral, os profissionais da informação dessem ouvidos a semelhantes pressões. A obrigação moral e profissional dos jornalistas é contar os fatos, não calá-los, e a única responsabilidade que se deve exigir deles é a que emana da exigência de veracidade (…) Isso não quer dizer que devam ser insensíveis ao bem geral e não devam avaliar os danos que podem se originar de suas publicações.

Complicado, não? Sim. Com Cebrián, a impressão dá lugar à certeza: o jornalismo é mesmo muito delicado, muito complexo. E o pianista do bordel só pode ser mesmo personagem de piada. O que vale mesmo aqui é o homem que martela outras teclas, as da notícia.

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