Aldo Antonio Schmitz
Mestrando em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

A série da Rede Globo, A vida alheia, escrita por Miguel Falabella, mostra os bastidores de uma revista semanal homônima, que se ocupa dos escândalos das celebridades, flagrados pelas câmeras de seus paparazzi.

Abstraindo-se o bom ou mau gosto, o que nos interessa são as questões éticas jornalísticas tratadas nos episódios, protagonizados pela editora Alberta Peçanha (Claudia Jimenez) e a dona de revista, Catarina Paissol (Marília Pera).

Max Weber disse em uma palestra em 1919, que “o jornalista pertence a uma espécie de párias que a sociedade julga a partir de seus representantes mais indecorosos” (1) e a série da Globo evidencia exatamente eles, os párias indecorosos.

Invariavelmente, as discussões sobre a imprensa marrom levam por conseguinte ao tema da invasão de privacidade, de onde se nutre A vida alheia.

O respeito à dignidade humana e a proteção à honra estão igualmente contemplados no direito civil e nos princípios e deveres dos jornalistas (deontologia), prevalecendo as obrigações legais.

Já o direito ou a invasão de privacidade está na essência dos códigos de ética dos jornalistas e trata da vida íntima, privada e pública, conforme explica Daniel Cornu (2).

Na intimidade, o que acontece é velado e incomunicável.

Na esfera privada compartilha-se os fatos e eventos com um número restrito de pessoas, logo, não são secretos, embora não se tenha a intenção de tornar público.

Ao contrário da esfera pública, que além de ser do conhecimento de todos, pode-se divulgar sem autorização.

Mesmo que esses três círculos sejam claros na teoria, torna-se complexo a sua delimitação na prática, variando conforme as pessoas e as circunstâncias.

Em geral, os entendimentos de vida íntima e pública são consensuais. Mas quanto à privacidade, há opiniões, não consenso.

Para alguns, quem tem uma vida pública perde a privacidade, principalmente ao se expor em lugar público.

Para outros, mesmo as aparições públicas são privadas, quando não ficar caracterizado um fato notório de interesse ou interferência pública.

Por exemplo, um artista passeando no shopping, denota privacidade, mas se ele agredir alguém, torna-se público.

Para certas fontes “a imprensa é feroz. Não perdoa nada e apenas dá destaque aos erros. Todo fato é distorcido, cada gesto é criticado”, como disse a princesa Diana Spencer (3).

O jornalismo é um espaço de contradições e controvérsias, polifônico e não unilateral, como a publicidade.

A vida alheia pode não ser de interesse público, mas interessa ao público de determinada mídia, por exemplo, uma revista, onde a vida alheia é “mais interessante que a sua”.

  • · (1) WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2004, p.47. Weber, embora não concordasse, fez a observação baseado no senso comum sobre a imagem do jornalista à época, mas na palestra ele ressalta a importância da nova atividade profissional que vinha se inserindo socialmente.
  • · (2) CORNU, Daniel. Journalisme et vérité: l’éthique de l’information au défi du changement médiatique. Paris: Labor et Fides, 2009.
  • · (3) Declaração da princesa Diana ao jornalista francês Marc Roche (1997), do jornal Le Monde, publicada em 17 de agosto de 1979, quatorze dias antes de sua morte, ao ser perseguida pelos papparazzi em Paris.