O mestrando Marcelo Barcelos retoma parte de sua investigação sobre jornalismo colaborativo, amadorismo e profissionalidade.

Qual será o papel do jornalista nas próximas décadas na sociedade da informação? Ele continuará a ocupar os mesmos cargos de repórter, editor, revisor, pauteiro nas mídias impressas? Manterá no seu código diário da redação a função de ser um gatekeeper, apto a decidir o que virará notícia e o que vai para a lixeira, com base em critérios exclusivos de seleção e noticiabilidade? Mais. Permanecerá a carregar o título de cão de guarda dos poderes e se imporá como um agente único que canaliza, processa e serve ao interesse público?

Ou vai ser apenas um gestor de conteúdo, dividindo computadores e a reunião de pauta com outros colegas não-jornalistas por formação, mas também formadores de opinião. E – se validados pelos leitores e empresas de comunicação – se tornarão pares em igualdade de tarefas, com as mesmas responsabilidades de apurar, editar, entrevistar, hierarquizar informações e publicar fatos jornalísticos na imprensa?

Estas são algumas das muitas questões que embalam o debate em torno do futuro da profissão – consolidada por práticas e competências exclusivas ao longo da história – como nos mostra Joaquim Fidalgo em “O Jornalista em Construção”, mas tão fragilizada e em busca de uma nova identidade, já que não cabe mais apenas a este ser profissional o domínio das notícias.

Pode parecer redundante dizer que a Internet e a evolução das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s) provocaram (e ainda vão causar) uma mudança profunda no estatuto, no ethos profissional do jornalista, colocando em xeque até mesmo legitimidade dele, a ponto de pesquisadores mais radicais profetizarem não só o fim dos jornais impressos, mas a dissolução de uma autonomia profissional.

Assim, é inegável que as mutações geradas pelo ciberespaço e o surgimento de novos personagens como produtores de conteúdo – a exemplo do jornalista cidadão – exijam compreensão sobre os limites dessa nova realidade jornalística, na qual o cidadão comum “invade” um território fechado, como descreveu Traquina, agora em busca de uma nova inserção social no mundo da informação.

É a partir deste contexto, em que papéis se confundem, que a dissertação que produzo – “O jornalismo cidadão nos jornais impressos do Grupo RBS” – mergulha agora. A tentativa é buscar uma identidade atual do jornalista e tentar localizá-lo de forma legítima no âmbito da produção da notícia compartilhada – e como esta notícia, em meios tradicionais, como os jornais impressos, se apresenta – ora feita pelos jornalistas, que recebem para isso, ora escrita pelo público, que colabora, digamos, quase que espontaneamente.

Para isso, o primeiro passo é resgatar os fundamentos da profissão, os seus valores e códigos éticos próprios, sua deontologia. Assim, arriscamos, vai ser possível confrontar competências e resenhar quem será e o que fará o jornalista do futuro, ou melhor, de hoje. Como nos ensina o professor Karam, o jornalista ainda tem seu traço estético bem definido que o difere dos demais e se mantém um articulador do presente pronto para agir e contar o que acontece à volta, dia após dia.

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