Armação Perigosa

Por Felipe Machado de Souza
Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

O quê poderia ser mais um caso de material fictício publicado indevidamente em uma revista, graças a uma coincidência, faz com que um repórter quase pague com a sua própria vida o pecado que cometeu contra um dos pilares éticos do jornalismo, a verdade dos fatos.

Johnatan Fisher (Christopher Reeve) trabalha em uma revista e está com um problema típico de um repórter perto do deadline do fechamento da edição, já que precisa escrever uma matéria para ser publicada no próximo número e ainda não tem uma história. O que tem, no momento, são dicas de assuntos que poderiam lhe render o artigo, mas o editor-chefe não se interessa pelas suas sugestões. A única coisa a qual Ted (Andre Gregory) lhe permite escrever, por achar que seria interessante, é a entrevista com um cafetão de Nova Iorque. O personagem tem a mesma idade de Jon e está “nadando em dinheiro”. Mas a pauta só emplaca porque o repórter promete ao editor entrar na cabeça do cafetão e descobrir o quê ele pensa, ao invés de seguir um roteiro já abordado sobre prostituição, falando de roupas e das garotas que ele controla. Jon recebe então a permissão para escrever e um prazo: a matéria deveria estar na mesa do editor dentro de alguns dias. Isso não seria problema se Jon pudesse conversar com ele.

Após tentar contato com uma prostituta de rua e sua namorada ser tratada com violência por um cafetão – ao ir com ele para um bar do submundo na tentativa de ajudá-lo a conseguir contato com o seu possível entrevistado – Jon se encontra a um dia de entregar a matéria sem nenhuma informação relevante. Pela manhã, o repórter tem em mãos uma história que lhe trará fama e sucesso, escrita com um dos maiores pecados que um jornalista pode cometer. Jon inventou tudo.

O caso poderia passar despercebido não fosse o fato que Leo Smalls (Morgan Freeman), o “Fast Black”, um cafetão real que acaba por ter que depor na justiça por matar um homem acidentalmente ao proteger uma de suas prostitutas, acaba sendo associado ao cafetão fictício por Leonard, advogado do falecido. Ele vê a possibilidade de incriminar indiscutivelmente o assassino se Jon se dispuser a revelar a sua fonte. Não bastasse o fato do advogado ir intimidá-lo em casa, Ted também se interessa por Tyrone, o personagem da matéria, que acabou ganhando a capa da revista. O problema se torna maior quando o advogado de Leo também vê a possibilidade de usar a história de Tyrone a favor de seu cliente. Se a corte for levada a acreditar que Jon tem anotações sobre Leo, ele seria intimado judicialmente a entregá-las – o que não o faria, porque elas não existem. Isso mudaria o foco das atenções da corte do cafetão para o repórter. Por acaso, a prostituta que Jon havia entrevistado é controlada por Leo, que acaba conhecendo-o por intermédio dela.

Jon acaba sendo incluído no jogo do advogado de Leo e o juiz manda prendê-lo por se recusar a entregar as suas supostas anotações. Ao mesmo tempo em que ele se torna um repórter de TV graças à fama alcançada pela entrevista inventada, passa a ser ameaçado pelo cafetão, que se mostra violento e brutal. Nem mesmo sua confissão de ter criado toda a história convence o juiz. Jon, pressionado pelos dois lados, só consegue se ver livre da situação após um golpe de sorte. Ele arma uma cilada para Leo após sua namorada ser esfaqueada na barriga pelo motorista do criminoso. O repórter filma uma prostituta entregando dinheiro, a seu pedido, ao capanga e mostra-lhe as imagens dizendo que Leo iria pensar que ele estava tentando lucrar por conta própria.

Mas, por obra do destino, Leo vai procurar o motorista e esse acaba por matá-lo, achando que o cafetão queria lhe punir. É Jon quem faz a matéria para a TV, falando que se a corte não havia condenado Leo, julgamento das ruas o havia feito. No caso de Jon, porém, a justiça não veio. Inventar uma reportagem não trouxe nenhuma consequência à carreira do “Street Smart”.

FICHA TÉCNICA

Armação Perigosa (Street Smart / EUA, 1987 – 97 minutos)
Gênero:
Drama
Direção: Jerry Schatzberg
Roteiro: David Freeman
Elenco: Morgan Freeman, Cristopher Reeve, Kathy Baker e Mimi Rogers