Por Carla Algeri
Mestranda em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Nosso trabalho de pesquisa, junto ao Mestrado em Jornalismo, tem como objetivo analisar a imprensa local de Santa Catarina, a partir da definição dos critérios de noticiabilidade presentes em dois jornais do Oeste catarinense, o Diário do Iguaçu, de Chapecó, e o Diário do Oeste, de Concórdia, cidades da grande região Oeste catarinense, a mais distante geograficamente da capital, Florianópolis.

Em nossa investigação, deparamo-nos com estudos sobre a imprensa local e uma das questões levantadas é sobre qual seria o papel dessa imprensa – não a imprensa comunitária, mas a constituída de forma empresarial, por pequenas empresas locais, como os dois veículos objeto dessa pesquisa. Dornelles (2003), que pesquisou a imprensa do interior do Rio Grande do Sul, observa que seu papel, na opinião de empresários e jornalistas atuantes nela, é dar voz à comunidade, defender os interesses locais e ampliar a consciência cidadã das populações do lugar. Porém, serão esses profissionais capazes de cumprir tais preceitos?

Fernandes (2003) define o jornalista do interior de Santa Catarina como um profissional jovem, com pouca formação específica e reduzida experiência profissional. Observa ainda que pressões internas e externas, como estrutura da redação, perfil editorial e a proximidade com as fontes são alguns dos fatores que influenciam na atividade jornalística. Em pesquisa inicial dos valores-notícia presentes no Diário do Iguaçu, um dos veículos alvo desse trabalho, constatou-se, em relação à proeminência das fontes/personagens de chamada de capa, que referem-se a autoridades políticas e empresariais locais. Há, ainda, uma proeminência de matérias relativas ao governo, municipal ou estadual, incluindo-se decisões ou medidas, viagens, pronunciamentos, eleições, premiações e honrarias e notícias sobre diretórios de partidos políticos locais. Então, entre a intenção e a prática, predomina a “voz da comunidade”, ou a “voz dos poderes locais”?

Atualmente, observa-se a concentração da mídia na mão de poucos players mundiais e a consequente fusão de vários subsetores, como emissoras de televisão e de rádio, revistas, jornais… e destes com outros ramos da comunicação, como telefonia fixa ou celular, redes de computador, e até mesmo empresas de outros setores, como banqueiro, agropecuário ou armamentista. Os grandes conglomerados de mídia despertam para o que Toffler (1980) chama de hipersegmentação das mídias, incluindo aí veículos específicos dirigidos a regiões ou localidades. Dessa maneira, segundo Joaquín Stefania, citado por Karam (2004), estamos diante da prevalência de um pensamento único, a ilusão de uma única realidade, esvaziando o debate público e dificultando a liberdade de escolha.

Por outro lado, podemos questionar se veículos de comunicação dirigidos por empresários locais não seriam uma alternativa a esse pensamento único, no sentido de noticiar aquilo que não cabe como pauta em um veículo de maior porte, de trazer a opinião local ou por simplesmente abrir um canal de debate sobre os acontecimentos específicos de uma cidade ou região. Também poderiam dar um enfoque mais local aos acontecimentos e interpretações noticiados nacionalmente. Porém, o que seria o ideal? Quais questões locais são relevantes? Seria ou não apenas a defesa de interesses políticos e/ou econômicos? São essas questões que devemos perseguir em nossa pesquisa.

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