Por Carla Algeri
Mestranda em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Nesse clima da Copa do Mundo, achei oportuno comentar aqui no blog a pergunta de Juca Kfouri no artigo “O Brasil não vai à guerra”¹: “o jornalista torce?”. O professor e profissional propõe o seguinte problema:

É sexta-feira, véspera de decisão da Copa do Mundo. No domingo, o Brasil e a Alemanha estarão em campo e você descobre que o juiz apitará a grande final está comprado para ajudar a seleção brasileira. O que você faz?

a) Publica o furo no sábado, o que dará tempo para que se mude o juiz.
b) Espera o jogo para confirmar a má atuação do juiz, só aí publica.
c) Não publica nada, nem antes nem depois.

Pergunta instigante, segundo Kfouri, tendo a esmagadora maioria resposta “b” ou “c” em suas palestras para estudantes. Na opinião dele, porém, “é óbvio que a sua (do jornalista) obrigação é contar tudo, mesmo que não seja agradável e não ajude a Seleção Brasileira”. A justificativa é de que não se trata de um segredo de guerra, não revelados em nome da Pátria. Para Kfouri, o jornalista que optasse pela opção “a” poderia ser considerado um traidor da Pátria, assim como já acontece com aqueles que ousam criticar a Seleção com mais veemência. Aliás, isso só é permitido em programas e sites de humor, críticas fundamentadas e contundentes há poucas.

“Não cabe ao jornalista ser simpático, senão verdadeiro”, sentencia Kfouri, e emenda que “será importante, sempre, ressaltar que o pênalti não marcado para o Brasil deverá ter a mesma importância do que não é marcado contra o Brasil”. Difícil seguir à risca esses conselhos, quando se vê uma cobertura apaixonada da Copa do Mundo. Para Jean Chalaby², o bairrismo nada mais é que uma estratégia discursiva utilizada pelos jornalistas desde o início do século passado, além de uma forma de marcar a concorrência entre jornais. Porém, ele utiliza exemplos de guerra, com a associação, por jornais, a valores como coragem, honra e orgulho, palavras recorrentes na cobertura futebolística atual. O bairrismo é uma oportunidade, segundo o autor, de promover o consenso, sem incorrer no que ele chama de riscos comerciais, isto é, o bairrismo, o nacionalismo, resultam em lucratividade certa. Enfim, um jornalismo de consenso, uma “pseudo opinião”.

Mas, se o futebol é uma “paixão nacional”, como evitar uma cobertura apaixonada do Campeonato Mundial? Não estamos tratando de explicar uma decisão da equipe econômica, ou uma análise de conjuntura política. Na minha opinião, a cobertura apaixonada, colorida, vibrante, principalmente na televisão, é necessária, porém, concordo com Kfouri que “a emoção cabe sim, na justa medida em que aconteça, que reflita o clima de uma Copa”.

Aliás, ganhar ou perder uma Copa do Mundo é somente ganhar ou perder uma Copa do Mundo. O Brasil não vai ser melhor ou pior sendo penta ou hexa no futebol, e comparações esdrúxulas, como fez a revista Veja sobre as trajetórias de Pelé e Nelson Mandela (A matéria é “Vidas Paralelas”, edição de 2 de junho) soam como um serviço à desinformação. Interessantes, para os apaixonados por futebol ou não, são as muitas matérias sobre os arredores e bastidores da Copa, muitas vezes trabalho de jornalistas de outras editorias, que não a de esportes. Assim o mundo vai conhecendo um pouco mais sobre a África do Sul e o continente africano, pela primeira vez sede de uma Copa do Mundo, sobre suas alegrias e mazelas. E em 2014 será a nossa vez, como sede, de mostrar mais do que somente o futebol, para o bem e para o mal.

¹ “O Brasil não vai à guerra”, de Juca Kfouri, texto publicado originalmente no Jornal da ANJ, em abril de 1998, e republicado em: DOUBOR, L. et al. Desafios da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2000.

² CHALABY, J. K. The invention of journalism. New York: Palgrave, 1998.