Doces Poderes

Por Yasmine Holanda Fiorini
Acadêmica de Jornalismo na UFSC

O cartaz do filme – Doces Poderes: O que a TV pode fazer com sua opinião – já nos dá uma idéia do que se trata. Manipulação da informação, questões éticas, jornalismo em época de campanha eleitoral, poderes políticos. Esses temas são abordados com uma certa dose de humor no filme de Lúcia Murat, lançado em 1996.

A jornalista Bia, interpretada por Marisa Orth chega a Brasília para assumir a chefia da sucursal de uma grande rede de TV brasileira. É período eleitoral e a redação está vazia: muitos funcionários foram ganhar dinheiro fazendo campanhas pelo país afora. Durante o filme, há depoimentos desses jornalistas, que expressam suas opiniões e tentam justificar suas ações. Esses depoimentos se diferenciam do resto da trama, pois têm características de documentário, e os personagens olham para o expectador, como em uma conversa.

Bia critica os colegas que aceitam esse tipo de trabalho sem nenhum critério ético ou político, apenas financeiro. A diretora do filme, que já foi jornalista, fala – através de Bia – sobre a possibilidade dos jornalistas defenderem seu ponto de vista, mesmo diante de vantajosas propostas financeiras de políticos em campanha eleitoral. Além disso, a trama toca em uma importante questão: como estes políticos utilizam as novas tecnologias – especificamente a televisão – para manipular a opinião pública.

Nesse contexto, o filme vai mostrando como as campanhas vão se desenrolando, ao mesmo tempo em que mostra os conflitos éticos dos personagens, que se deparam, cada um, com situações eticamente discutíveis. A jornalista Bia, por exemplo, vê seu trabalho ser manipulado pela direção da emissora. Os profissionais da comunicação se perguntam se vale a pena lutar pelo que acreditam, ou se devem fazer o que for preciso para a ascensão profissional – mesmo que isso signifique contrariar seus ideais.

O filme pode ser visto como um resumo do que foi a campanha das eleições para presidente do Brasil de 1989: o candidato Fernando Collor, criado e apoiado pelos meios de comunicação, com uma poderosa campanha de marketing, acabou por vencer Lula, que vinha de uma classe operária e não possuía prestígio no meio das grandes redes. Realizado com modestos R$ 500 mil, entre 1995 e 1996, Doces Poderes só conseguiu reunir um elenco de “luxo” – Antônio Fagundes, Marisa Orth, Otávio Augusto – pela adesão dos artistas que aceitaram trabalhar por uma idéia e receber cachês pequenos.

Doces Poderes pretende, por meio de seus depoimentos quase documentais, estabelecer uma relação com o indivíduo que o assiste. Talvez o objetivo da diretora seja fazer com que nós refletíssemos sobre a situação, respeitando-nos como expectadores capazes de analisar e criticar a situação. Em tempos de campanha eleitoral para presidente e governador, nada mais adequado. O filme, sem dúvida, continua atual.

FICHA TÉCNICA

Doces Poderes (Brasil, 1996 – 97 minutos)
Gênero: Comédia
Direção e roteiro: Lúcia Murat
Elenco: Marisa Orth, Antônio Fagundes, Sérgio Mamberti, Otávio Augusto, Tuca Andrada, José de Abreu, Cláudia Lira

Advertisements