O Solista

Por Joana Neitsch
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Um jornalista ansioso por encontrar uma boa pauta depara-se com um mendigo que toca um violino de duas cordas. O Solista (The Soloist), dirigido por Joe Wright, narra a história do repórter Steve Lopez (Robert Downey Jr.) ao descobrir Nathaniel Anthony Jr. (Jamie Foxx), ex-aluno da Julliard, uma das mais conceituadas escolas de música dos Estados Unidos, vivendo nas ruas de Los Angeles.

Enquanto a redação do Los Angeles Times, onde Lopez trabalha, faz cortes de pessoal por causa da queda nas vendas de jornais, o repórter consegue emplacar uma matéria de grande repercussão. Leitores escrevem cartas comovidos com a história de Nathaniel e até o prefeito da cidade, influenciado pelos textos sobre o mendigo, anuncia medidas demagógicas para amenizar a situação dos mais 90 mil sem-teto da cidade.

Mas não é só o público que se comove com a história do talentoso aluno de Julliard que ficou esquizofrênico e foi morar nas ruas. Lopez não consegue se desligar da fonte e deixa de ser apenas o repórter em busca de uma boa história e torna-se amigo. Ele planeja tirar Nathaniel das ruas, fazê-lo voltar a estudar música. O apego é tanto que o mendigo chega a dizer que Lopez é seu deus, que vive nas alturas do Los Angeles Times.

O filme é denso por cruzar questões de grupos aparentemente tão distantes, por meio de dois indivíduos que não deveriam se envolver muito além das entrevistas: a crise nas alturas do grande jornal e o caos de quem vive o desamparo das ruas.

O sonho americano é interpretado de forma nada idealista. A bandeira dos EUA, que aparece em tantos filmes de Hollywood, também é vista diversas vezes em O Solista. O travesseiro que Nathaniel usa, para dormir abaixo de uma marquise, é no formato da bandeira do país; seu carrinho para carregar tralhas é decorado com a bandeira norte-americana e em uma das cenas ele aparece usando um chapéu igual ao do Tio Sam.

O mendigo-músico, sem dúvidas, rendeu boa pauta, mas uma história tão rara e uma pessoa tão encantadora movem o interesse de Lopez para além da profissão. Envolto na trágica ironia da vida de Nathaniel, Lopez parece esquecer que é o jornalista, em sua vida de solitário divorciado, viciado em trabalho. Encontra um novo sentido ao tentar entender o talento, a resistência e a ingenuidade que Nathaniel mantém vivendo em meio ao perigo e à miséria, receoso em sair das ruas, com pânico de ser internado. Entra também em questão a maneira como as doenças mentais são encaradas na sociedade e se misturam aos problemas sociais.

O envolvimento com a fonte não soa antiético e nem a motivação para Lopez querer tirar Nathaniel da rua se limita a um altruísmo simplista ou piegas. A densidade já citada amplia a questão para problemas não só do indivíduo, mas de grupos da sociedade. É o olhar que o jornalista deve ter para perceber a singularidade de uma história, mas também como um mundo todo pode se refletir ali.

A ética de Lopez é questionável quando planeja escrever um livro que pode lhe render ainda mais status (e dinheiro) que as matérias no Los Angeles Times. O lançamento do livro não aparece no filme, mas existiu. Foi a obra que o verdadeiro Lopez lançou que deu origem ao roteiro de O Solista, que é baseado em fatos reais. E fica a questão de se saber quando a história vale à pena a ponto de merecer o envolvimento com a fonte e quando o envolvimento vale à pena a ponto de poder ser levado ao público.

FICHA TÉCNICA

O Solista (The Soloist / EUA, 2009 – 117 minutos)
Gênero
: Drama
Direção
: Joe Wright
Roteiro
: Steve Lopez (livro) e Susannah Grant
Elenco
: Robert Downey Jr., Jamie Foxx, Catherine Keener, Tom Hollander