Tinta Roja

Por Alessandra Lopes Flores
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Matérias de mortes nas páginas principais, fotos de sangue e violência explícita que despertam o escândalo e o mórbido. O sensacionalismo, muitas vezes, atrai o leitor em busca de saciar sua curiosidade. Opções de jornais nesta linha não faltam.

É isto que trata o filme “Tinta Roja” de Francisco Lombardi, o único diretor peruano a ser reconhecido internacionalmente. Lombardi e o chileno Alberto Fuget, autor da história, estudaram jornalismo; por isso, o filme consegue reproduzir o cotidiano de uma redação de jornal, abordando problemas, dificuldades e questões éticas a que estão submetidos os profissionais desta área.

A história começa com dois aprendizes de jornalista, à procura de emprego no jornal sensacionalista “El Clamor”. O protagonista Alfonso Fernández (Giovanni Ciccia) sonha em ser escritor e deseja ficar na sessão de cultura do jornal, mas quem vai para esta área é Nádia (Lucía Jimenez), uma linda jovem, por quem Alfonso se apaixona, e que acaba tendo um caso com seu chefe. Para Alfonso sobra a sessão de polícia, que nada tem a ver com seu perfil.

Alfonso começa a escrever suas matérias, mas seu chefe, Saúl Faundez (Gianfranco Brero), um homem experiente e autoritário, não gosta do trabalho. Esperava algo mais descritivo, contando detalhes do crime. O chefe ultrapassava os limites da ética para atrair leitores e estimulava até a invenção de fatos, além de destacar cenas violentas e de mortes. Esta era uma política aceita e incentivada pelo jornal. Até mesmo o fotógrafo utilizava técnicas questionáveis. Ele ia até a casa da pessoa próxima à vítima, já fragilizada, e ficava lhe lembrando de suas dores até que ela caia aos prantos. Para o fotógrafo, esta era a foto ideal.

Alfonso questionava tudo isso. Não acreditava naqueles valores. Pode-se dizer que ele representa a ética sendo corrompida, pois, aos poucos, vai aprendendo todos os vícios, atitudes e valores questionáveis do “El Clamor”.

Além destas questões, o filme mostra um pouco do quotidiano das redações de jornal, as dificuldades que o profissional pode encontrar, a competição pelo “furo” de reportagem e para publicar uma matéria na página principal. O problema maior é que nem sempre os critérios de escolha são justos e honestos, como se pode perceber no filme.

Para jornais como “El Clamor”, o mais importante é o entretenimento. Critérios básicos de verdade, relevância e ética são deixados para trás. O objetivo maior é aprofundar a matéria, priorizando o sexo, o sangue, o crime, e todos os segredos do fato. O próprio dono do jornal fala que o talento do jornalista está em não deixar as notícias chatas, mesmo que para isso se tenha que inventar situações.

Saúl Faundez sente na pele as conseqüências de seu sensacionalismo quando seu filho com síndrome de down morre, vítima de um crime. Alfonso faz uma matéria nos moldes de “El Clamor”, com fotos chocantes e detalhes do ocorrido. O chefe desaparece por vários dias.

Outros fatos delicados vão ocorrendo e Faundez, muitas vezes, prefere omiti-los. Mas um jornalismo sério pode simplesmente decidir não publicar certas notícias importantes do ponto de vista social? Nem questões pessoais, nem questões políticas justificam tal ato. O jornalismo de credibilidade deve se comprometer em ser verdadeiro, ético e divulgar todos os fatos de relevância pública. Isso, definitivamente, não acontecia no “El Clamor”.

Daí para frente, o filme trata deste dilema pelo qual passa Alfonso: estar empregado e, para isso, se adaptar a todos os parâmetros do jornal; ou seguir o sonho de ser escritor, baseando-se em seus próprios valores, e não mais compactuar com tudo aquilo que condenara durante toda a sua vida.

“Tinta Roja” é um filme crítico que, com toques de humor, consegue mostrar a importância de se priorizar valores éticos tanto na vida pessoal como na profissional. O jornalismo é repleto de “El Clamores”, que buscam o lucro como objetivo máximo, independente de qualquer moralidade. Entretanto, também existem jornalistas sérios, que negam o sensacionalismo. É este conflito que o filme busca relatar, mostrando o valor e a competência de profissionais que buscam a ética como princípio fundamental.

FICHA TÉCNICA

Tinta Roja (Peru, 2000 – 110 minutos)
Gênero:
Drama
Diretor:
Francisco J. Lombardi
Roteiro:
Giovanna Pollarolo
Elenco:
Gianfranco Brero (Saul Faundez), Giovanni Ciccia (Alfonso Fernández), Fele Martínez (Escalona), Lucía Jiménez (Nadia), Carlos Gassols (Van Gogh), Yvonne Frayssinet (Roxana), Gustavo Bueno (Pai de Alfonso), Tatiana Astengo (Valéria)

Roteirista: Giovanna Pollarolo