A Síndrome da China

Por Mariana Porto
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

O filme “A Síndrome da China” aborda o delicado tema da produção de energia nuclear e os interesses relacionados à atividade, dentre os quais figuram o empresariado, a população, e também, claro, os jornalistas. Durante uma reportagem em uma usina nuclear na Califórnia, a repórter Kimberly Wells (Jane Fonda), presencia um acontecimento incomum e aparentemente irregular. Richard Adams (Michael Douglas), seu cinegrafista, filma sem autorização o “incidente”, que estivera perto de resultar em uma tragédia. A partir daí, fica claro um esquema, tanto por parte do governo como por parte da emissora, para tentar encobrir o acontecido pois, se o caso viesse à tona, a usina seria fechada, o que significaria um prejuízo de vários milhões de dólares. Kimberly e Richard iniciam, então, uma investigação e recebem uma grande ajuda de Jack Godell (Jack Lemmon), um engenheiro da usina.

Do ponto de vista ético, o roteiro é repleto de dilemas tanto do lado dos empresários como dos jornalistas. Aqueles pecam ao colocar em risco a vida de milhares de pessoas quando insistem em não reconhecer erros operacionais graves – cujos reparos custariam milhões aos cofres da companhia. Estes, que são nosso foco, não chegam a cometer propriamente um deslize, mas, certamente, nos oferecem um bom tema para discussão e reflexão: imagens não autorizadas podem ser capturadas? Essas imagens proibidas podem ser divulgadas?

A princípio, a postura adotada pela personagem Kimberly e seu colega Richard parece condenável. A captura de imagens no ambiente em questão não só é proibida como constitui crime. No entanto, o dilema, neste caso, é muito simples de ser solucionado.

Adaptando para o cenário do Brasil, conforme consta no Artigo 2º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse.” Tal perspectiva moral aparece reiteradamente em vários códigos da categoria profissional em diversos países, confirmando o jornalismo como portador de valores compartilháveis em todo o planeta. Neste caso, o deslize ético foi cometido por parte do veículo que se recusou a divulgar a informação. Kimberly – inicialmente com certa cautela – e Richard, ao contrário, agiram eticamente amparados pelo Artigo 11, que diz que “O jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração.”

Um acidente nuclear, como o que quase se concretizou durante a visita dos jornalistas à usina, traz consequências sérias à população contaminada – como câncer, queimaduras e solos contaminados –, e a dimensão dos danos é quase impossível de ser calculada. Não é necessário defender, portanto, a relevância social do assunto. O cuidado, neste caso, é com a confirmação dos fatos. Justamente por ser tão polêmica, a acusação deveria ser feita com base em provas irrefutáveis, que justificariam não só o modus operandi da dupla de jornalistas, como calariam quaisquer tentativas por parte dos empresários e do governo de maquiar os fatos. No filme, as evidências foram excluídas da denúncia através de um atentado. E então, numa estratégia final, não exatamente planejada, Jack Godell, o engenheiro da usina, toma a sala de controle armado e denuncia, com a ajuda de Kimberly, o escândalo em um boletim ao vivo para a televisão.

Os jornalistas, em parceria com Jack Godell – posteriormente alvejado a tiros e tido como louco –, enfim, conseguem provar que por mais proibido que o assunto seja, se tiver relevância, pode e deve ser tratado publicamente. Isso é compromisso social. É jornalismo.

Curiosidade: Em 1979, “A Síndrome da China” foi o filme mais comentado do ano, graças à enorme publicidade gerada na vida real pelo acidente da usina nuclear de Three Mile Island, que foi não apenas um espelho dos eventos retratados no longa, mas também por ter ocorrido justamente doze dias após a estréia do filme.

FICHA TÉCNICA

A síndrome da China (The China Syndrome / EUA, 1979 – 117 minutos)
Gênero
: Drama
Direção
: James Bridges
Roteiro
: Mike Gray, T.S. Cook e James Bridges
Elenco
: Jane Fonda , Jack Lemmon , Michael Douglas , Scott Brady , James Hampton

A Síndrome da China

Por Mariana Porto

Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

O filme “A Síndrome da China” aborda o delicado tema da produção de energia nuclear e os interesses relacionados à atividade, dentre os quais figuram o empresariado, a população, e também, claro, os jornalistas. Durante uma reportagem em uma usina nuclear na Califórnia, a repórter Kimberly Wells (Jane Fonda), presencia um acontecimento incomum e aparentemente irregular. Richard Adams (Michael Douglas), seu cinegrafista, filma sem autorização o “incidente”, que estivera perto de resultar em uma tragédia. A partir daí, fica claro um esquema, tanto por parte do governo como por parte da emissora, para tentar encobrir o acontecido pois, se o caso viesse à tona, a usina seria fechada, o que significaria um prejuízo de vários milhões de dólares. Kimberly e Richard iniciam, então, uma investigação e recebem uma grande ajuda de Jack Godell (Jack Lemmon), um engenheiro da usina.

Do ponto de vista ético, o roteiro é repleto de dilemas tanto do lado dos empresários como dos jornalistas. Aqueles pecam ao colocar em risco a vida de milhares de pessoas quando insistem em não reconhecer erros operacionais graves – cujos reparos custariam milhões aos cofres da companhia. Estes, que são nosso foco, não chegam a cometer propriamente um deslize, mas, certamente, nos oferecem um bom tema para discussão e reflexão: imagens não autorizadas podem ser capturadas? Essas imagens proibidas podem ser divulgadas?

A princípio, a postura adotada pela personagem Kimberly e seu colega Richard parece condenável. A captura de imagens no ambiente em questão não só é proibida como constitui crime. No entanto, o dilema, neste caso, é muito simples de ser solucionado.

Adaptando para o cenário do Brasil, conforme consta no Artigo 2º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, “Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse.” Tal perspectiva moral aparece reiteradamente em vários códigos da categoria profissional em diversos países, confirmando o jornalismo como portador de valores compartilháveis em todo o planeta. Neste caso, o deslize ético foi cometido por parte do veículo que se recusou a divulgar a informação. Kimberly – inicialmente com certa cautela – e Richard, ao contrário, agiram eticamente amparados pelo Artigo 11, que diz que “O jornalista não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração.”

Um acidente nuclear, como o que quase se concretizou durante a visita dos jornalistas à usina, traz consequências sérias à população contaminada – como câncer, queimaduras e solos contaminados –, e a dimensão dos danos é quase impossível de ser calculada. Não é necessário defender, portanto, a relevância social do assunto. O cuidado, neste caso, é com a confirmação dos fatos. Justamente por ser tão polêmica, a acusação deveria ser feita com base em provas irrefutáveis, que justificariam não só o modus operandi da dupla de jornalistas, como calariam quaisquer tentativas por parte dos empresários e do governo de maquiar os fatos. No filme, as evidências foram excluídas da denúncia através de um atentado. E então, numa estratégia final, não exatamente planejada, Jack Godell, o engenheiro da usina, toma a sala de controle armado e denuncia, com a ajuda de Kimberly, o escândalo em um boletim ao vivo para a televisão.

Os jornalistas, em parceria com Jack Godell – posteriormente alvejado a tiros e tido como louco –, enfim, conseguem provar que por mais proibido que o assunto seja, se tiver relevância, pode e deve ser tratado publicamente. Isso é compromisso social. É jornalismo.

Curiosidade: Em 1979, “A Síndrome da China” foi o filme mais comentado do ano, graças à enorme publicidade gerada na vida real pelo acidente da usina nuclear de Three Mile Island, que foi não apenas um espelho dos eventos retratados no longa, mas também por ter ocorrido justamente doze dias após a estréia do filme.

Referências:

– Os acidentes nucleares e suas consequências biológicas (www.medio.com.br)

– Código de Ética dos Jornalistas. Fenaj, 2007.

Ficha Técnica

Título original: The China Syndrome

Direção: James Bridges

Atores: Jane Fonda , Jack Lemmon , Michael Douglas , Scott Brady , James Hampton Gênero: Drama

Duração: 117 min

Ano de lançamento: 1979

Estúdio: IPC Films

Distribuidora: Columbia Pictures

Roteiro: Mike Gray, T.S. Cook e James Bridges

Produção: Michael Douglas

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