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Por Maria Luiza de Oliveira Gil
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Típica da comédia pastelão americana, a caricatura é usada com abundância em Troca de Maridos (Switching Channels), refilmagem do clássico A primeira página (EUA, direção de Billy Wilder, 1974). A começar pelo triângulo amoroso composto pela jornalista exemplar, âncora do jornal da noite, Christina. Ela é a caricatura da mulher incompreendida pelo ex-marido, que precisa de mais amor em sua vida. Por vezes intercalada com seu perfil desastrado. O outro vértice é o ex-marido, Sullivan, editor chefe da rede SNN, para a qual Christie trabalha. Ele é a alegoria do homem grosseirão: rude, mal educado, machista e autoritário. Pra fechar o triângulo, está o homem que Christina conhece em sua viagem de férias, o rico empresário, Blaine: o retrato do homem ‘para casar’. Não bastasse ser rico, ele ainda é gentil, heroico, bonito, romântico, e pra não perder a oportunidade de ser clichê por completo, loiro de olhos verdes. Até o enredo é clichê: a história da mulher que tem que escolher entre a profissão e o amor que sempre sonhou.

Visto com olhos jornalísticos, o filme tem conteúdo para gerar inúmeros debates sobre ética. Logo no início, em uma sequência de tomadas feitas por Christie, percebe-se o modo norte-americano de fazer jornalismo televisivo, constantemente ridicularizado em filmes de comédia. Situações excessivamente informais, em que o jornalismo não é tratado com profissionalismo, apontam a tendência que – pelo visto desde 1988 – marca o telejornalismo. A imagem e a estética prevalecem sobre o conteúdo e o filme satiriza, chegando por vezes a provocar uma confusão entre o que seria jornalismo e o que seria entretenimento.

O enredo do filme está ancorado em Christina, que antes de partir para outra cidade com seu homem perfeito, é levada a fazer a última – e maior – reportagem de sua carreira. Ela precisa entrevistar um homem inocente condenado à morte a fim de convencer a população e, consequentemente, os governantes, de que o homem não merece ser morto. Ao vivo, depois de conseguir a entrevista exclusiva com o condenado, Christie faz o apelo para que o homem seja solto. Na fala ela diz: “Espera-se do jornalista que ele seja objetivo, mas há coisas na vida mais importantes que o jornalismo.” E aí entra outro dilema ético. O do papel do jornalista como negociador. Mesmo entre os códigos de ética de grandes empresas brasileiras divergem neste assunto. O Manual de Ética, Redação e Estilo do jornal Zero Hora de Porto Alegre, por exemplo, recomenda que os jornalistas limitem-se à cobertura de casos policiais, mas julgam que “a independência e isenção, contudo, não eximem o jornalista da condição de cidadão. Mesmo no exercício de atividades profissionais, nada impede que um jornalista de Zero Hora evite, se possível, a consumação de acidentes ou crimes”, pensamento que corrobora o da personagem. Já o Manual de Redação e Estilo do jornal O Globo do Rio de Janeiro, adverte que “o jornalista não pode perder de vista o fato de que não é funcionário do Estado, por mais que seja gratificante participar de casos policiais. Não é atitude profissional recomendável oferecer-se como refém ou intermediário em casos policiais”. São dois exemplos pertinentes e paradigmáticas que servem a diferentes perfis editoriais e suportes tecnológicos no jornalismo contemporâneo.

Voltando ao filme, no desenrolar da história, os governantes resolvem promover a execução como um espetáculo. Eles usam o interesse da imprensa pelo inédito, para reverter a situação, remediando o estrago feito pela âncora sobre o pensamento da população. Toda a mídia acata o espetáculo e, com tapas e empurrões, cobre o evento com muito orgulho. Fica evidente a busca pelo sensacionalismo que atice o interesse mórbido do público.

Nas cenas finais, como uma mensagem subliminar, uma tomada feita em perspectiva mostra somente braços de jornalistas apontando microfones para o condenado e braços de policiais apontando as armas para ele. Fica explícita, então, a visão – um tanto verdadeira – de Ted Kotcheff sobre poder de fogo da imprensa.

FICHA TÉCNICA

Troca de Maridos (Switching Channels / EUA, 1988 – 105 minutos)
Gênero: comédia
Direção: Ted Kotcheff
Roteiro: Ben Hecht, Charles MacArthur, Jonathan Reynolds
Elenco: Kathleen Turner, Burt Reynolds, Christopher Reeve, Ned Beatty, Henry Gibson, George Newbern, Al Waxman e Ken James

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