Neve sobre os cedros

Por Júlia Antunes Lorenço
Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina

Mais que um mero suspense e um bonito romance. O filme “Neve sobre os cedros” (Snow falling on cedars) aborda uma questão racial. O foco é o preconceito norte-americano em relação à comunidade nipônica, que estourou no país na II Guerra Mundial e permaneceu durante muito tempo na sociedade norte-americana.

A história do jornalista Ishmael Chambers, interpretado pelo ator Ethan Hawke, parece não querer ser desvencilhar de sua antiga paixão, a descendente de japonês Hatsue. O romance escondido, que começou com os dois ainda crianças, teve que ser interrompido com a II Guerra Mundial quando Hatsue (Youki Kudoh) e sua família foram mandados para um campo de concentração para nipoamericanos. A japonesa volta à vida de Ishmael quando seu marido, nipo-americano, é acusado por um crime que diz não ter cometido. O ocorrido abala a pequena cidade de San Piedro, no estado de Washington.

A vítima foi o pescador Carl Henie, que teve seu corpo encontrado no mar enrolado na própria rede de pesca. O xerife da cidade dá início às investigações e os poucos indícios encontrados levam a acreditar que o assassino foi o marido de Hatsue, Kazuo Miyamoto (Rick Yune), levado então a julgamento.

O repórter Ishmael Chambers resolve investigar o que realmente aconteceu na noite do crime. Ele herdou de seu pai, também jornalista, não só o jornal Island Review como a apuração correta dos fatos, o senso de justiça e a imparcialidade. Mas não é apenas o aspecto profissional que interessa ao jornalista, já que a mulher do acusado é Hatsue.

A narrativa do filme se dá no julgamento. Durante o depoimento das testemunhas, cenas do passado são mostradas no vídeo. São nesses flashbacks que o romance entre Ishmael e Hatsue vai se desenvolvendo. O namoro dos dois chega ao fim, quando a japonesa é mandada junto com sua família e demais japoneses da cidade para o campo de concentração. A separação implica não só no fim da relação entre a jovem e o jornalista, como no casamento dela com Miyamoto e no alistamento de Chambers para lutar na Guerra, o que acaba gerando nele certa mágoa por Hatsue.

O preconceito racial em relação à comunidade japonesa é demonstrado de diversas formas no filme. O tratamento dado aos japoneses como “japas”, a população que não aceita a relação entre um japonês e um “homem branco” e que se volta contra o jornal que mantém uma posição imparcial em relação aos japoneses durante a guerra. Além disso, nos depoimentos o preconceito também transparece, já que não se trata de julgar um homem, mas sim um nipônico.

É o caso do depoimento do médico legista, responsável pela autópsia. Ele afirma com absoluta certeza que o ferimento encontrado na cabeça do pescador foi causado por um objeto longo, chato e estreito. “Só pode ter sido o Kundo” ele conclui, se referindo a uma luta japonesa, na qual são usadas espadas, que possuem as mesmas características citadas por ele.

Contudo, as investigações do jornalista dão uma reviravolta no caso. As provas que ele encontrou inocentam Miyamoto. A ética profissional falou mais alto que seu lado pessoal, como sempre deveria ser. Mas nem sempre é assim que a profissão de jornalista aparece nos filmes.

O filme “Neve sobre os cedros” (1999) foi baseado no romance homônimo de David Gutterson. O diretor é o australiano Scott Hicks, de “Shine – Brilhante”. A bela fotografia é de Robert Richardson, que recebeu indicação ao Oscar.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Snow Falling On Cedars
Gênero: Drama
Origem/Ano: EUA/1998
Direção: Scott Hicks

Elenco:
Ethan Hawke: Ishmael Chambers
James Cromwell: Judge Fielding
Richard Jenkins: Sheriff Art Moran

 

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