O ano em que vivemos em perigo

Por Roberto Saraiva
Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

As agruras vividas pelos correspondentes estrangeiros nos quatro cantos do globo são uma boa fonte de histórias com potencial cinematográfico. Se o “canto” em questão for altamente instável, conter complexas disputas étnicas e estar sujeito a golpes de Estado de todo tipo, melhor ainda. A Indonésia de 1965 apresentava todas essas características e teve esse seu conturbado momento histórico registrado, dezoito anos depois, de maneira competente pelo diretor Peter Weir, de “Truman – o Show da Vida” e “Mestre dos Mares”. Ele misturou personagens e um romance fictício em meio ao um contexto bastante real e dramático.

Um jovem Mel Gibson interpreta o ingênuo jornalista australiano Guy Hamilton, recém chegado a um país bastante fechado e hostil, governado pelo ditador Sukarno. O repórter parceiro que deveria recebê-lo sumiu misteriosamente e Hamilton se vê sozinho e sem fontes. Os outros correspondentes trabalhando no local se mostravam corruptos e pouco cooperativos, até que surge a ajuda providencial do anão fotógrafo Billy Kwan, místico sujeito, filho de chineses e australianos.

O filme é narrado por Kwan, vivido por Linda Hunt, atriz que recebeu um Oscar por interpretar magistralmente o fotógrafo. Sua personagem, apesar de um pouco grotesca, empresta uma visão humanista à trama, questionando a inércia e o descaso das pessoas frente à exploração e miséria. Enxergando no repórter uma espécie de “boa alma”, consegue contatos exclusivos com os altos escalões do poder, fazendo deslanchar a carreira de Hamilton.

A cobertura dos conflitos pelo poder, envolvendo forças comunistas e islâmicas, aproxima os dois e Kwan decide entregar ao jornalista seu mais valioso segredo: Jill Bryant, uma linda diplomata, interpretada por Sigourney Weaver. A moça foi uma espécie de amor platônico do anão e ele, tal qual um manipulador de sombras do teatro Wayang, decide juntar os amigos.

A tática dá certo e, em meio ao caos social vivido pelo país, Hamilton e Jill vivem um intenso romance, atormentados somente pela data de retorno dela para Londres. É aí que a trama sofre uma pequena reviravolta e a mulher revela para o jornalista que tropas comunistas se agrupam e pretendem realizar um golpe de Estado. A informação sigilosa, com o intuito de fazê-lo desistir da cobertura e também sair do país, acaba surtindo o efeito inverso.

O lado jornalístico fala mais alto e o repórter decide checar as informações, sem preocupar-se com os apelos da namorada, tentando convencê-lo a não utilizar o material. Ele promete estar no avião que a levará de volta à Europa. Sentindo que está na trilha correta, o agora ambicioso Hamilton decepciona seu amigo Kwan, que teve suas expectativas frustradas com relação ao caráter do companheiro. A relação dos dois chega ao ponto crítico ao mesmo tempo em que a situação no país e o pequeno fotógrafo, farto de tantas mentiras e exploração, resolve provocar o ainda operante regime ditatorial, pagando com a vida.

Dias depois o partido comunista de fato toma o poder, enquanto o jornalista fica refém em uma armadilha de seu assistente local e militante comunista Kumar, permanecendo isolado por um curto período. Tido como persona non grata pelo novo regime, é agredido em frente à sede do governo e tem a retina deslocada.

Em meio à situação desesperadora, com poucas horas até a decolagem do avião de Jill e sem poder sair da cama, o inesperado ocorre novamente. Os islâmicos tomam o poder, possibilitando uma possível, porém inverossímil fuga de Hamilton até o aeroporto, ajudado por Kumar, perseguido pelo novo governo. A despedida dos dois coloca sérias questões acerca de quem de fato merece viver num país politicamente estável, e o valor disso.

O cinema costumeiramente reflete determinados aspectos da nossa realidade. O retrato da Indonésia desgovernada dos anos 60 ganha Hollywood nos anos 80, mas só chega a tocar os próprios cidadãos do país em 2000, depois da queda do ditador Suharto, após 32 anos no poder. Ele considerava que a película manchava a maneira como chegou ao poder na época.

FICHA TÉCNICA

Título original: The Year of Living Dangerously
Produção: Austrália, 1982
Duração: 115 min.
Diretor: Peter Weir
Elenco: Mel Gibson, Sigourney Weaver, Linda Hunt, Michael Murphy.