O ano da fúria

Por Cândida de Oliveira
Mestranda em Jornalismo na UFSC

O que pode acontecer quando o jornalista se envolve com a pauta? Vale por a vida em risco por um furo de reportagem, uma foto na capa do jornal mais conceituado da época? Quando a pauta aborda violência, quando o poder político/ideológico está em jogo, que fontes são confiáveis? Como informações jornalísticas podem interferir nos fatos? O jornalista constrói a realidade? Essas são algumas provocações suscitadas quando nos deparamos com “O Ano da Fúria” (Year of the Gun), lançado nos cinemas em 1991 e dirigido por John Frankenheimer, mestre do thriller político, responsável também por “Ronin” e “Sob o Domínio do Mal”.

O contexto do filme remete a um momento real da história italiana, quando as Brigadas Vermelhas – um grupo terrorista infiltrado na universidade e que pretendia tomar o poder na Itália coordenando revoltas estudantis – seqüestraram e assassinaram o ex-primeiro ministro Aldo Moro. Ao melhor estilo americano, entretanto, sobram cenas de violência e sexo, banalizando a temática do filme. O grupo terrorista é retratado, ainda, de maneira superficial, carecendo o enredo de conteúdo político.

A história ocorre em janeiro de 1978. O jornalista americano David Raybourne (Andrew McCarthy) retorna à Roma para escrever um romance, trabalho este que lhe permitiria melhorar de vida e casar-se com Lia (Valeria Golino), sua namorada italiana. Para se manter, ele volta a atuar no jornal American News dirigido por Pierre Bernier (George Murcell), mesmo sem ter seu trabalho regulamentado. O enredo de seu livro envolve as Brigadas Vermelhas, assunto este que pesquisa em jornais e nas conversas com o amigo Italo Bianchi (John Pankow), professor universitário simpatizante da causa defendida pelas Brigadas. Raybourne, porém, não imagina que seu livro poderá interferir nos acontecimentos seguintes e no destino de várias pessoas. E também não sabe que ele mesmo já está envolvido com uma das células da facção terrorista.

O roteiro do longa-metragem ganha “corpo” e “velocidade”, além de uma enorme carga dramática, quando surge na trama Alison King (Sharon Stone), uma ousada fotojornalista americana, free lancer, que está na cidade para fazer uma cobertura da situação caótica instaurada em Roma pelas Brigadas Vermelhas. Após colocar sua vida em risco para cobrir um assalto a banco, suas fotos são publicadas pelo jornal Time. Seu trabalho ganha destaque e ela conhece David e Italo. Faz questão de se fazer presente nas cenas das manifestações para tirar fotos dos atos violentos e nisso acaba sendo ameaçada por facções locais. Em muitos momentos tensos David a ajuda, livrando-a dos riscos que ela enfrenta para registrar o caos. Os dois se envolvem e King acaba descobrindo o manuscrito do livro. Ávida por mais informações, no entanto, a fotojornalista acaba revelando o teor dos manuscritos do livro de Raybourne, sem saber, para o alto escalão da facção terrorista. Tragicamente, o manuscrito do livro para em mãos erradas e várias pessoas envolvidas na trama do livro acabam sendo mortas. Acusados de saber demais, David e Alisson passam a ser perseguidos pelas Brigadas Vermelhas. Os dois jornalistas americanos enfrentam situações de extremo perigo, em que suas próprias vidas estão em jogo.

Apesar de ser rodado no fim da década de 70 o enredo é bem atual, pois remete a situações de tensão e de difícil controle para muitos jornalistas que buscam, com o trabalho de investigação, esclarecer fatos cuja temática é a violência em suas diversas formas. Lembramos, por exemplo, o caso do jornalista Tim Lopes, morto em 2002 após trazer a tona, por meio de uma série de reportagens, esquemas do tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. Cabe, assim, uma reflexão cautelosa sobre os limites éticos e o distanciamento necessário que um profissional da informação deve manter dos fatos, sobretudo com pautas que envolvem a violência, sob pena de alimentar ainda mais atos violentos ou mesmo colocar vidas em risco.

FICHA TÉCNICA

Título original: Year of the Gun
Produção: Estados Unidos, 1991
Duração: 111 min.
Diretor: John Frankenheimer
Elenco: Andrew MacCarthy, Sharon Stone, Valeria Golino, John Pankow

John Frankenheimer

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