As faces da verdade

Por Ana Clara de A. Montez

Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

A história de “As Faces da Verdade” é inspirada no caso da jornalista do New York Times, Judith Miller, que passou 85 dias na prisão, em 2005, por se recusar a informar, perante investigação federal, a fonte de sua matéria que revelava a identidade de um agente secreto da CIA.

No filme, a história é um pouco diferente, mas mesmo assim traz questionamento sobre o exercício da profissão. Rachel Armstrong (Kate Beckinsale) é uma ambiciosa repórter de um importante jornal de Washington D.C. e consegue descobrir uma informação muito valiosa: a identidade de uma agente secreta da CIA, Erica Van Doren (Vera Farmiga), que é mãe de uma colega de seu filho. Erica estava infiltrada na Venezuela investigando um atentado ao presidente dos Estados Unidos e os relatórios que ela mandou negavam as acusações. Mesmo assim o presidente invadiu a Venezuela. Rachel vai conversar com Erica para avisar sobre a publicação da matéria, mas a agente nega tudo. Como a jornalista tem certeza de suas fontes, com o apoio dos editores a história vira matéria de capa. O problema é que revelar a identidade de um agente secreto é crime de traição e o informante de Rachel é considerado uma ameaça à segurança nacional. Foi convocado um procurador especial federal, Patton Dubois (Matt Dillon), que reuniu um júri para descobrir quem é a fonte.

Todo o drama começa quando a repórter se recusa a dar esta informação, alegando o direito à confidencialidade das fontes. Mesmo com um importante advogado que o jornal contratou, Rachel foi presa por desacato ao tribunal.

Aqui começa o primeiro impasse de Rachel. Ela seria protegida pela lei, mas como é uma situação que diz respeito à segurança nacional, é obrigada a falar. Se contar, as pessoas começarão a perder a confiança nos jornalistas e não falarão mais em off. Por outro lado, mantendo esse segredo, ela abre mão da sua liberdade, já que foi presa, e da sua família, o que inclui não acompanhar o crescimento de seu filho.

Outra questão que podemos levantar é até onde o jornalista deve ir para publicar uma matéria. Até que ponto o dever de dar a informação é válido? Ela levou em consideração o interesse público e sua carreira, mas não a vida da agente Erica, que afastou-se da família, foi pressionada pela CIA e assassinada por um extremista que acusou-a de ser anti-patriota.  Era realmente necessário revelar todas as informações dela, sendo que o mais importante era o relatório negando o atentado? Em termos éticos, quando houver risco para a segurança pessoal do inocente, o jornal deve omitir informações para não aumentar os riscos. No entanto, Rachel ficou obstinada por dar um grande furo e não levou tanto em consideração a integridade física dos envolvidos.

Ainda podemos ressaltar a posição eticamente correta dos editores do jornal, que defenderam a repórter até o fim, já que eles tinham autorizado a publicação da matéria. Um deles chegou a pensar em desistir algumas vezes, pois o jornal também era penalizado com multas altas, além dos gastos com o advogado. Mas apoiaram-na e arcaram com as consequências da decisão em conjunto.

Além disso, um dos principais assuntos – o grande mistério do filme – é justamente a fonte que revelou tudo. Muitos criticam o fato de que ela tenha conseguido a informação em uma situação na qual estava “fora” do papel de jornalista. O problema é a dificuldade de ser um profissional dentro da redação e simplesmente esquecer-se disso na vida pessoal. O instinto jornalístico dura 24 horas. É preciso medir até que ponto pode utilizar-se deste tipo de informação, que não foi dada com o intuito de ser publicada.

Por fim, é um filme que, baseado em uma história real, levanta questões polêmicas sobre a profissão do jornalista, e também como a sociedade encara isso. No final, todos, mesmo quem não é envolvido com a atividade, são instigados a refletir a respeito e formar uma opinião.

FICHA TÉCNICA

Título original: Nothing but the truth
Produção: Estados Unidos, 2008
Duração: 108 min.
Diretor: Rod Lurie
Elenco: Vera Farmiga (Erica Van Doren), Matt Dillon (Patton Dubois), Kate Beckinsale (Rachel Armstrong), Alan Alda (Alan Burnside), David Schwimmer (Ray Armstrong)