Talk Radio – Verdades que matam

Por Raquel Sardinha

Jornalista formada pela Universidade Federal de Santa Catarina

“Um país onde cultura é pornografia e violência, onde ética é suborno e informação privilegiada, onde integridade é mentira, prostituição e bebida. Esse país corre sério perigo. Está podre até a medula”. Essa e outras opiniões do locutor Barry Champlain, da rádio KGAB de Dallas, Texas, demonstram o tom desse filme lançado no final dos anos 80 e dirigido por Oliver Stone (o mesmo de Assassinos por Natureza, Wall Street e JFK – a pergunta que não quer calar) e escrito por ele juntamente com Eric Bogosian.

Na trama, lançada no Brasil com o título de Verdades que Matam, Conversa da Noite é um dos programas de rádio mais populares da cidade. Assuntos polêmicos como legalização de drogas, racismo, homossexualidade e religião são trazidos à tona o tempo todo, seja por Champlain, seja pelo público que participa intensamente do programa através de ligações. E Champlain é mestre em discordar dos ouvintes, acendendo o ódio dentro deles contra ele próprio e contra todos os gays, negros e judeus.

Juntamente com a personalidade preconceituosa dos moradores de Dallas – fazendo uma crítica à própria personalidade dos americanos – o filme mostra os bastidores do programa e a relação do locutor com os colegas da emissora. Num certo dia, quando a Metrowave, uma cadeia que possui mais de 350 emissoras de rádio nos Estados Unidos, resolve comprar o programa e transmiti-lo em rede nacional, Champlain passa a sofrer uma pressão do chefe para que amenize um pouco os temas das conversas com os ouvintes e a forma que trata os mesmos. O que seria apenas mais um programa, se transforma numa “prova” para o apresentador. Champlain, por sua vez, afirma que não mudará seu jeito de ser. Durante os breaks para os comerciais, ele discute com o chefe, com o técnico e ainda liga para a ex-mulher num pedido de apoio para que ela esteja presente quando o programa for ao ar para todo o país.

Numa das poucas cenas que se passa fora do estúdio, pode-se ver o ódio da maioria das pessoas por Barry Champlain. Ele é convidado para fazer um breve discurso em uma partida de futebol e o público simplesmente vaia o locutor, de forma que ele acaba desistindo de falar. Muitos ouvintes ligam para o programa ameaçando de morte o apresentador. Uma cena mostra Champlain abrindo um pacote enviado por um ouvinte e que seria supostamente uma bomba. Dentro ele encontra uma carta, uma bandeira nazista e um rato morto.

A chegada de Ellen, ex-mulher de Champlain, parece acalmar um pouco os ânimos de todos no estúdio. Mas na hora de entrar no ar o responsável pela Metrowave diz que o programa não poderia ser transmitido para o país inteiro daquela forma. Champlain, decepcionado, passa sua raiva para os ouvintes da KGAB, discutindo ainda mais com eles e instigando a raiva e chocando o público como se fosse seu último programa.

A vontade de provocar não só o público mas também os chefes faz com que Champlain convide um dos ouvintes para participar do programa diretamente do estúdio. O apresentador começa a “jogar todas as cartas na mesa” como que estivesse demarcando território, afinal, o programa é dele. Entre uma ligação e outra, a presença de Ellen reacende sentimentos de mágoa nos personagens. O filme mostra ainda como Barry, um vendedor de ternos com uma ótima voz, foi parar numa emissora de rádio, e como o casamento dele com Ellen terminou. No estúdio os dois brigam e a paciência de todos começa a se esgotar com o decorrer do programa. A trama leva o telespectador para um final óbvio, porém não tanto esperado.

Verdades que Matam é um belo trabalho de Oliver Stone, principalmente quando se leva em consideração a crítica sobre os Estados Unidos, país do próprio diretor e que sempre aparece com uma imagem positiva nos filmes de Hollywood.

FICHA TÉCNICA

Título original: Talk Radio
Produção: Estados Unidos, 1988
Duração: 110 min.
Diretor: Oliver Stone
Elenco: Eric Bogosian, Ellen Greene, Leslie Hope, John C. McGinley

Advertisements