Chicago

Por Daniela Ferreira

Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

A busca sem limites pelo sucesso e o culto às celebridades instantâneas; o retrato irônico de uma sociedade que é capaz de transformar tudo – inclusive o crime – em espetáculo: a trama de Chicago, originalmente dos anos 20, surpreende pela sua atualidade.

Duas assassinas reais da era do jazz, Beulhah Annan e Belva Gaertner, inspiraram uma série de excelentes produções artísticas realizadas nos palcos e na telona. A primeira delas foi a peça de teatro Chicago, de 1926, de Maurine Watkins. Em 1942 a obra ganha sua primeira versão para o cinema, no filme Roxie Hart, estrelado por Ginger Rogers. O tema renderia dois musicais para a Broadway, o primeiro em 1975, mal recebido pelo público devido ao tom cínico do enredo, e a segunda versão, realizada em 1996 e em formato minimalista, desta vez exitosa.

Mas foi ao ganhar uma adaptação para o cinema, em 2003, que o musical Chicago entrou para a história do gênero. As grandes qualidades da obra fizeram com que ela figurasse em 12º lugar na lista dos 25 maiores musicais do cinema americano, idealizada pelo American Film Institute (AFI). Outra distinção marcante foi o recebimento do Oscar de Melhor Filme, já que o gênero não era contemplado com o prêmio desde 1968, com Oliver!

Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones) é uma vedete famosa que estoura nos tablóides ao assassinar seu marido e sua irmã depois de descobrir que eles tinham um caso. Ela é o ideal de Roxie Hart (Renée Zellweger), uma dona de casa de classe média que sonha com o estrelato e com deixar para trás a vida que considera medíocre. Essa vida inclui um marido (John C. Reilly), apaixonado e ingênuo, que Roxie parece desprezar. Durante uma briga com o amante, Roxie é levada ao assassinato e à fama instantaneamente. É em uma prisão para mulheres que as duas ambiciosas personagens irão se encontrar e começar uma disputa pelo espaço na mídia e pelo sucesso.

Justamente na apresentação do jornalismo como contribuinte fundamental para a indústria do espetáculo que reside um dos aspectos mais irônicos do filme. O advogado de Roxie, Billy Flint (Richard Gere), maneja com maestria os desejos da mídia por manchetes e histórias de impacto. A fim de comover o público e levá-lo a simpatizar com a cliente, Flint recria a história de Roxie, inventando mentiras sobre sua origem e sobre seu envolvimento com o crime. Ávidos por notícias sensacionalistas, os repórteres repetem as frases exatas do advogado em suas reportagens, sem questioná-las ou verificá-las. Em uma das melhores cenas, os jornalistas são retratados como títeres instalados em um teatro gigante; suas cordas habilmente manipuladas por Flint.

Em meio dos quase ingênuos profissionais, uma repórter se destaca. Ela entende as intenções do advogado, repete-as com ironia, mas aceita reproduzi-las de forma conivente. Seu interesse é alimentar as vendas de seu jornal, cavar um espaço de destaque entre seus colegas por sua habilidade em produzir manchetes. Pouco importa a busca pela verdade, a imparcialidade e muito menos a objetividade. Os valores caros ao jornalismo terminam tripudiados pela necessidade do lucro e pela máquina do entretenimento.

No entanto, o filme é claro em mostrar que não é a mídia a única vilã da história. Durante o julgamento, o próprio tribunal é transformado em um circo, o que termina sendo um retrato mordaz da justiça e uma reflexão sobre inocentes castigados e culpados absolvidos. Flint repete que a fórmula para se ganhar uma causa é “maravilhá-los” (razzle dazzle them), enchê-los de ilusões. É isso que assegurará que sua cliente saia pela porta da frente livre, e não sua inocência.

Quanto aos eleitos para figurar no olimpo dos famosos, não é considerado algum mérito que possam ter. Antes, eles são vistos como objetos lançados a um público voraz de novidades e escândalos, em uma incessante criação e destruição de celebridades. Toda a sociedade está envolvida na grande farsa: as duas assassinas terminam onde desejavam, aplaudidas e celebradas pelo público em apresentações com bilheteria esgotada.

FICHA TÉCNICA

Título original: Chicago
Produção: Estados Unidos, 2002
Duração: 109 min.
Diretor: Rob Marshall
Elenco: Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere, John C. Reilly, Queen Latifah

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