Um sonho sem limites

Por Bruno Volpato

Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Um sonho sem limites (1995), de Gus Van Sant, apresenta a história de Suzanne Stone-Moretto (Nicole Kidman), uma aspirante a jornalista focada em obter os holofotes da fama. Embora presa a uma estação de TV a cabo de uma cidade do interior dos Estados Unidos, ela sonha em ser o rosto de um grande canal, sem medir conseqüências para atingir seus objetivos. Quando seu marido, Larry (Matt Dillon), revela ter planos diferentes para sua carreira, ela passa a manipular seu jovem amante, o confuso Jimmy (Joaquin Phoenix), convencendo-o a matá-lo. Suzanne inclui na trama outros dois adolescentes, Russell (Casey Affleck) e Lydia (Alison Folland), imaginando o que deveria ser um plano perfeito.

Baseada num livro de Joyce Maynard, que, por sua vez, é uma romantização de um crime real, o roteiro de Buck Henry pretende apresentar uma comédia de humor negro, mas não consegue arrancar risadas. Os personagens pouco verossímeis poderiam contribuir para tal objetivo, mas estacionam no meio do caminho entre o real e o absurdo. Através de suas falas voltadas diretamente para as câmeras, recurso obtido por situações que vão sendo explicadas no decorrer de seus 106 minutos, a história vai se construindo a partir dos créditos de abertura, no qual já é possível saber o que aconteceu. Sabendo-se desde o começo que Suzanne deu fim a Larry, só resta aguardar como isso viria a ocorrer.

E o filme não faz questão de surpreender. Os adolescentes são retratados como idiotas completos, facilmente influenciados pelo jeito de diva de Suzanne. Gus Van Sant até arrisca um pouco com uma certa erotização, com cenas que sugerem sexo, mas que só confirmam o abobalhamento do personagem de Joaquin Phoenix. Os atores, porém, desempenham muito bem seus papéis, com atuações bastante convincentes. O problema é mesmo o roteiro, que faz com que se saiba, de antemão, que tudo vai dar errado.

A aspiração ao estrelato da personagem de Nicole Kidman é pobremente explicada, resumida apenas em um desejo muito forte de ser famosa – o que o tradutor do título (em inglês, To die for) deve ter levado em consideração. Seu casamento com Larry também não parece fazer sentido nenhum desde o princípio, bem como sua aparente convicção de que seu plano homicida dará certo.

No fim das contas, Um sonho sem limites fica no quase. A própria crítica à televisão e aos programas que exploram dramas pessoais é bem rasa, nada pungente. Resta apenas o julgamento moral em relação à Suzanne, bastante facilitado pela personagem detestável criada por Nicole Kidman, limitada em seu mundo em que tudo gira em torno da televisão. No fim, tudo acaba parecendo um exercício de estilo do diretor Gus Van Sant, uma comédia de erros, sem fazer rir ou impressionar.

FICHA TÉCNICA

Título original: To Die for You
Produção: Estados Unidos, 1995
Duração: 106 min.
Diretor: Gus Van Sant
Elenco: Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck


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