Francisco José Castilhos Karam
Pesquisador do Observatório da Ética Jornalística

Os últimos rankings sobre liberdade de imprensa, expressos em levantamentos feitos por entidades da âmbito internacional, têm colocado, entre outros, países nórdicos, como Finlândia e Noruega, no topo da lista onde os profissionais exercem com maior liberdade e segurança suas tarefas. Já o Brasil tem aparecido em posições não muito favoráveis entre os que participam do levantamento.

Há várias interpretações. Uma delas, certamente, é a de que onde as sociedades são mais justas, equilibradas, honestas e onde as necessidades sociais são mais satisfeitas, há menor risco para a atividade jornalística. Com este cenário, os governos são mais honestos e o Estado é mais transparente; as empresas privadas menos corruptas e corruptoras e os cidadãos mais íntegros. Com isso, a atividade jornalística é mais segura e não necessita ir a fundo e substituir as tarefas delegadas ao Judiciário, à Política e à Polícia. E nem cobrar do Estado, por meio de estratégias investigativas que , para chegar à denúncia, envolvem o risco físico dos repórteres e jornalistas em geral. Assim, onde há mais corrupção em vários níveis do Estado e onde os negócios públicos são mais obscuros, envolvendo setores privados, todo bom jornalista corre mais risco, porque ele é o último recurso da voz pública, do cidadão, da esperança. A investigação jornalística é necessária e ainda mais profunda em zonas de risco, onde as esferas do segredo ampliam-se. E rompê-lo significa, literalmente, correr risco de ser demitido, preso, torturado ou mesmo assassinado. Este sinal é positivo para a profissão jornalística. Isto aponta que o jornalismo também cumpre suas finalidades contemporâneas e que acerta – e muito!

Mas isto não significa que toda denúncia tenha base verídica, fontes qualificadas, apuração, checagem e boa edição. A conhecida expressão “campanha suja” se insere num quadro que desmoraliza a profissão e faz os jornalistas ainda correrem mais riscos, não físicos propriamente, mas de ver sua profissão perder sua credibilidade; e de ver sua legitimidade social ir por água abaixo, levada pelo turbilhão da falta de representatividade e de legitimidade sociais. Os jornalistas erram – e não poucas vezes! E com conseqüências sociais para a cidadania e democracia por vezes irreversível.

É natural que, no jornalismo, as denúncias precisem ser investigadas; que as pautas tenham persistência; que as fontes sejam checadas; que o governo seja sempre cobrado, sobretudo quando se apresenta um quadro de reeleição. Mas quando alguns fatos não resistem ao mundo real e quando as fontes são meticulosamente escolhidas para coincidir com os pontos de vista do projeto editorial das diferentes mídias, a desconfiança cresce, sobretudo na população não escutada e que pode viver outras realidades sem correspondência no tratamento midiático. Talvez isto explique um pouco a enorme defasagem entre as denúncias contra o atual governo federal e a ampliação gradativa da aceitação deste nas pesquisas. A credibilidade fica sob julgamento quando não há correspondência entre declarações hegemônicas e fatos com o mundo vivido pelo cidadão comum.

A cobertura também pode ser mais a favor ou mais opositora , desde que ancorada em fatos e em fontes que possam dar uma interpretação mais controversa e complexa ao mundo real que todos enfrentamos e vivenciamos diariamente. No entanto, quando os fatos e declarações de fontes são angulados, majoritariamente, para beneficiar os projetos particularistas de empresas, incluindo as da mídia, sobra pouco para os valores do jornalismo os quais se afirmou e se quer continuar afirmando na história.

Qual o sinônimo de “campanha suja” ou “campanha de desprestígio”? Pode-se aproximá-lo de fatos não comprovados, de fontes não identificadas, de meias verdades, de insinuações, de presunção de culpabilidade, de misturar vida privada com pública, de interpretação e editorialização do noticiário sistematicamente contra (mesmo que haja fontes, dados e fatos a favor), de linguagem agressiva mais centrada em adjetivos que desmoralizam e desprestigiam do que em substantivos reveladores de fatos e de resultados de investigações sérias.

Quando as campanhas de desprestígio assumem protagonismo em relação a fatos e fontes confiáveis, é porque um pouco da própria democracia se perde. E, com ela, perde-se um pouco da própria legitimidade jornalística de a profissão se arvorar como uma mediação pela qual o cidadão tem possibilidades de escolhas lúcidas, coerentes… uma espécie de bússola para o cotidiano de sua vida.

Portanto, renova-se a pergunta: mantém-se o reconhecimento social da profissão jornalística nas eleições 2010 ou ele sai enfraquecido no pós-cobertura político-eleitoral? Parece, à primeira vista, haver um enorme divórcio entre a representação do mundo e das necessidades sociais com a cobertura ou campanha promovida por parte – apenas parte – da mídia. Se esta tem correspondência na vontade e ideologia de alguns setores sociais, certamente afastou-se de grandes contingentes populacionais em termos de satisfação de expectativas. E este talvez tenha sido, até o momento, o fator decisivo para a ineficácia de tais campanhas. O paradigma da eleição à Presidência talvez sirva para outras eleições, no Brasil e América Latina.

Empresas jornalísticas se estruturam, historicamente, também como negócios. Credibilidade informativa é um dos valores centrais e reafirmado em todos os cantos do planeta. A possível perda dela pode levar para um túnel sem saída uma atividade com fundamental papel na construção e manutenção da democracia: o Jornalismo.

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