Samuel Lima
Docente da FAC/UnB, professor colaborador da UFSC e pesquisador do objETHOS.

Num raro momento da história política do Brasil, mais de 135 milhões de cidadãos e cidadãs estavam habilitados para eleger o/a sexto presidente da República, após o fim da ditadura imposta pelo golpe militar de 1964. As novas gerações de eleitores, que nasceram do final dos anos 1980 em diante, vivem essa exceção à regra que marcou os mais de 500 anos da “inauguração” do país: colônia, monarquia, regência, períodos republicanos (velha e nova) em que golpes, contragolpes e regimes de força foram características centrais.

Das muitas reflexões deixadas pela disputa eleitoral, há uma que nos toca diretamente: qual o papel da imprensa nesse contexto, do ponto de vista do nível da campanha? Afinal, é quase um consenso que durante todo o processo, em especial na disputa Serra x Dilma no 2º turno, questões fundamentais ao futuro da sociedade foram deixadas em plano muito secundário.

Em recente seminário realizado em parceria por este objETHOS, a Associação Nacional dos Jornais e o Diário Catarinense (DC), com apoio do Programa de Pós-Graduação e do curso de jornalismo da UFSC, o jornalista Nilson Vargas, editor-chefe do DC, o principal jornal impresso diário do estado, criticou o baixo nível do debate político da campanha, atribuindo responsabilidade aos candidatos, exclusivamente.

Na mesma direção, o jornalista Fernando Rodrigues, colunista da Folha de S. Paulo, avalia, em comentário à Rádio UOL (31/10/10, às 9h35), que houve “regressão para temas muito atrasados e de pouco interesse da população”. Mas isenta os jornalistas e veículos de comunicação de qualquer responsabilidade: “Os temas religiosos, a possível liberalização do aborto, dominaram o noticiário por força do desejo dos dois candidatos”. Rodrigues só esqueceu de olhar para a própria Folha, que estampou na capa de sua edição de 29/10/10: “Papa cobra ação de bispos do Brasil contra aborto”, colado à foto de José Serra, beijando uma imagem de N. S. da Abadia. O conjunto “manchete/foto” dispensa comentário… A questão é simples: quem faz as perguntas e trabalha na edição dos veículos de comunicação? São candidatos ou jornalistas?

Nesta perspectiva, quem fez as perguntas não foram os candidatos José Serra e Dilma Rousseff, tampouco seus assessores de imprensa. Na linha de frente, os/as jornalistas deram o tom, repercutiram pautas com clara intenção de protagonizar a cena política, mas parecem ter contribuído decisivamente para a desinformação sobre os candidatos e seus projetos de país. No caso mais caricato, transformando a narrativa factual da notícia, em seus fundamentos socialmente reconhecidos, como “narrativa de ficção”, o episódio da “bolinha de papel” atirada contra Serra (Jornal Nacional, edições de 20 e 21/10/10) ganhou repercussão na mídia mundial. A encenação do tucano, corroborada por perito de duvidosa reputação, teve duro combate nas redes sociais, especialmente no twitter.

Um exemplo mais contundente ainda, veio do telejornal de maior audiência pública no país, o Jornal Nacional (JN, da TV Globo). Nos dias 18 e 19/10/10, durante preciosos 20 minutos, para milhões de pessoas, os apresentadores William Bonner e Fátima Bernardes tiveram uma oportunidade que foi dada a poucos profissionais nesta campanha: entrevistar, ao vivo, os dois postulantes à presidência da República (Dilma e Serra, respectivamente).

No caso de Dilma, o tempo foi inteiramente dedicado a temas menores, irrelevantes: avaliação do 1º turno, pergunta inicial; seguindo de longas perguntas sobre o aborto, denúncias envolvendo a ex-ministra Erenice Guerra e repercussões de declarações de Ciro Gomes; Serra, não obstante o viés “diferente” na condução da entrevista, também foi perguntado sobre as eleições de 2006, política e religião, denúncias contra Paulo Preto (ex-diretor da Dersa/SP) e o espaço “amigo” para o candidato tucano reforçar suas principais “propostas” eleitorais: salário mínimo de R$ 600, 10% de reajuste aos aposentados e 13º ao Bolsa Família.

Temas fundamentais como as reformas tributária e política, geração de empregos, educação, crescimento econômico sustentável, guerra monetária mundial, reforma agrária, saúde e segurança pública – para citar apenas algumas questões de fundo – foram ignorados, tanto pelos candidatos quanto pelos jornalistas dos principais veículos, empenhados apenas em protagonizar, muitas vezes de forma antidemocrática, a cena política, mais que cumprir sua função essencial: informar à sociedade e questionar os candidatos.

Não é possível concluir que essa linha geral foi unânime, em todos os principais veículos da chamada “grande imprensa”. Há sutis e grandes diferenças entre as redes abertas de televisão (SBT, Bandeirantes e Record adotaram linhas editoriais distintas da Globo), as revistas semanais também seguiram distintos caminhos (IstoÉ e CartaCapital numa direção; Veja em seu voo solo parajornalístico e Época, sem se envolver mais a fundo). Mas, no conjunto, resta evidente um grau de responsabilidade inequívoco da imprensa, como instituição social, pela falta de profundidade do debate político destas eleições 2010.

Advertisements