Uma onda no ar

Pedro Santos

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Um barraco simples, pobre, sem acústica adequada ou isolamento de som. No centro, fios se amontoam e transbordam pela pequena mesa de áudio. A locução, no entanto, não deixa nada a desejar quando se compara com as grandes emissoras. “Você está na favela. Rádio Favela, 104, 5 FM.”

O filme se baseia na história real da Rádio Favela, que se desenvolveu nos morros cariocas. Jorge, Brau, Roque e Zequiel são quatro amigos que vivem em uma favela localizada em uma comunidade carente de Belo Horizonte. Com o passar do tempo, cada um deles vai tomando um rumo: Brau é artista de rua, praticante do hip-hop, Roque se envolve com o tráfico de drogas enquanto Zequiel e Jorge levam adiante o sonho de montarem uma rádio que se comunique com a população do lugar onde mora, coisa que os veículos tradicionais não faziam.

O sucesso da rádio comunitária repercute fora do morro, trazendo com isso a repressão da elite e da polícia, que não medirá esforços para destruir a rádio que transmite ondas de frequencia maiores do que as permitidas por lei para uma emissora comunitária. Isso leva a Rádio Favela a ser considerada pirata e é curiosa a cena em que a polícia revista o local precário onde a rádio funciona, buscando os transmissores, enquanto um representante da Organização das Nações Unidas telefona comunicando que a rádio ganhara um prêmio.

O argumento que deu início à criação da rádio era o de se contrapor a qualquer outro tipo de mídia, que não representava os interesses dos moradores da favela. A nova rádio fala do povo na linguagem do povo e luta para resolver problemas aparentemente simples da população, como encontrar um dentista para seu Francisco, – que não sabe como tratar da dor que o aflige há três dias – e de dona Maria, que pede, pelas ondas sonoras, que o marido volte para casa.

O sucesso repentino – a ponto de a própria população da favela ajudar, com o pouco dinheiro de que dispunha, a comprar equipamentos destruídos pela polícia – gera insatisfação nas elites, sob a afirmação de “essa rádio aí só toca porcaria”. Até que Jorge é preso por operar uma rádio pirata. E vai ser na cadeia, em meio a outros tantos presidiários que ouvem e admiram a Rádio Favela, que o diretor Helvécio Ratton utilizará um artifício batido e precário: recontar a história do projeto como se fosse uma conversa para os presos.

Em que pese a estrutura narrativa clichê e as atuações sofríveis (com exceção dos quatro amigos protagonistas, os outros atores lêem seus textos de forma burocrática de modo que fica claro, ao espectador, a artificialidade das situações), Uma onda no ar atualiza a discussão sobre jornalismo popular. De acordo com Márcia Amaral, autora do livro Jornalismo popular (Ed. Contexto, 2006), o povo não quer só histórias incríveis e inverossímeis, mas também prestação de serviços e entretenimento. É o que faz a Rádio Favela, tratando de assuntos que mexem imediatamente com a vida da população em uma linguagem que gera empatia ao público-alvo.

A aproximação com as pessoas de baixa-renda é feita a partir do pensamento de Jorge, que faz um trabalho militante sem retorno financeiro em curto prazo: “Vou lançar uma onda no ar e fazer o mundo mudar”. Um exemplo – ainda que passível de ser considerado utópico – que destaca a função social precípua dos meios de comunicação: comunicar. E fazer isso com o compromisso de lutar para resolver os problemas do dia-a-dia.

FICHA TÉCNICA

Título original: Uma onda no ar
Produção: Brasil, 2002
Duração: 92 min.
Diretor: Helvécio Ratton
Elenco: Alexandre Moreno, Adolfo Moura, Babu Santana, Benjamin Abras, Edyr Duqui